Brasil, 2015, Jaboatão dos Guararapes
A partir de agora eu lhes apresento Amanda.
Amanda é uma garota de dezoito anos que vive num bairro chamado Colônia do Padres. De agora em diante iremos acompanhar os seus dias e ela será uma das principais envolvidas em nossa história.
Tudo começou um mês após as aulas dela acabarem. A escola dela havia passado por problemas ao final do ano que se passou e por isso suas aulas foram encerradas em Janeiro. Em fevereiro ela soube que Rebeca sua melhor amiga havia passado em Gastronomia e agora iria estudar em uma faculdade federal e isso foi uma coisa que a deixou um pouco pra baixo, Amanda não conseguiu passar em nenhuma faculdade e todos ao seu redor conseguiram. Até mesmo o Gustavo seu segundo melhor amigo havia conseguido passar e ela não, mas ele abriu mão de sua vaga para ir trabalhar.
Isso me lembra de falar sobre uma coisa importante, o bairro onde Amanda mora. Colônia é um bairro um pouco afastado do centro e conhecido por suas grandes produções de cana semestrais. Muitos não sabem, mas o bairro que oficialmente é chamado de Loteamento 92 pelo governo, antigamente era realmente uma colônia de padres e a igreja que até hoje serve de refúgio e local de sabedoria para vários padres e freiras do estado. E é para lá que Amanda está indo hoje. Graças à sua avó, Iracema, que carinhosamente (ameaçou) insistiu para que Amanda fosse com ela hoje para conhecer as freiras que viviam por lá. Iracema é uma senhora fortemente católica de 76 anos de idade e que assim como Amanda ela também será de extrema importância nessa história.
— Amanda menina, tu vai se atrasar! — gritou Iracema enquanto batia na porta do quarto de Amanda. Ela já havia acordado e estava trocando de roupa ao olhar no relógio viu que ainda eram 7:00. E aquilo era muito cedo para ela. Na cama ao lado, Beatriz que até então estava dormindo levanta preguiçosamente. Os olhos semicerrados graças ao sono e os cabelos negros esvoaçando em todas as direções, ela ainda estava meio zonza de sono, o rosto com marcas de lençóis e um pouco de baba. Ela olha para Amanda que vendo aquela aparência da irmã ri, Beatriz sorri de volta e cai na cama novamente, com certeza acordar cedo não era o seu forte.
Amanda após estar arrumada pega os seus óculos e vai em direção a porta — Bom dia mana e tchau — disse ela para a irmã mais velha que respondeu apenas com um grunhido e um aceno de mão. Descendo as escadas ela chega bem no meio da cozinha. A casa da família Alcântara é uma casa relativamente grande se comparada com as da vizinhança. Uma casa de dois andares com quatro quartos e dos quais dois são suítes. Sendo um desses dois quartos com suíte o de Amanda e Beatriz. Quando pensamos em suíte lembramos logo de casarões com vários quartos e closets e coisas do tipo. Isso não se aplica à casa dela. No quarto pequeno cabe apenas as duas camas das meninas um pequeno guarda-roupas e uma TV. A outra suíte da casa que pertencia aos seus pais é um pouco maior e quem vive lá agora é a sua tia, Vânia, e o marido dela. O bairro em si é um bairro pobre e os moradores do número 302 da casa com quatro quartos e duas suítes não fogem à regra.
Sua tia estava tomando um café enquanto via o noticiário da manhã que falava sobre explosões que tinham acontecido numa fábrica abandonada no centro da cidade. Sua avó estava no fogão preparando ovos mexidos enquanto suco era batido no liquidificador. Amanda adora a comida de sua avó, na opinião dela aquela era a melhor de todas. Ela lembra que sua mãe ficava irritada sempre que ela falava que a comida da avó era mil vezes melhor que a dela. Eram lembranças engraçadas.
— Coma logo que a gente tem de ir minha filha — disse sua avó servindo a comida num prato de plástico verde — eu já tô pronta e só te esperando.
Amanda sorrindo começou a devorar a comida, estava realmente uma delícia, sua tia que até agora estava ignorando-a disse sutilmente:
— Algum amigo teu já foi nessa fábrica que eles tão falando?
— Não né. Porquê? — disse Amanda já imaginando o tipo de resposta.
— Sei lá né...do jeito que tu é teus amigos devem bem ter explodido essa fábrica só pra aparecer.
Amanda bateu com a mão na mesa e olhou de cara fechada para a tia, ela podia aceitar todo tipo de gracinha que sua tia gostava de fazer, mas com seus amigos? Isso era inaceitável!
— Escuta aqui--
— Come menina! — interrompeu Iracema acalmando a neta e lembrando a ela que estavam atrasadas; Amanda nunca gostou da tia e só aceitava ela na casa por que foi um pedido dos seus pais e também por que ela vivia com a mãe, Iracema, e não tinha para onde ir. Ela era o tipo de pessoa que Amanda mais odiava, que gosta de julgar a todos e que se acha a dona da razão, que se sente superior.
Após a refeição ela e sua avó foram para a igreja de colônia. O percurso era curto e elas iam a pé mesmo, era preciso andar menos de um km até a igreja e o caminho era lindo aos olhos de Amanda. Era uma estrada de cascalho cercada por mata dos dois lados, o cheiro de terra molhada era presente naquele lugar o ano inteiro. E a igreja era um local mais belo ainda, com boa parte dela feita em rocha pura, era um lugar que fazia ela se lembrar de antigos templos. Era um local bem silencioso e flores de cores variadas coloriam todo o terreno. A igreja era cercada por uma cerca de ferro pois a entrada era proibida em horários que não eram de missas ou visitas pois ali também era a morada dos padres e freiras.
Amanda não é uma garota religiosa, mas sua avó é, isso é o suficiente para fazê-la ir em lugares como aquele. Mas ela também gostava muito dali pois desde pequena sempre que tinham festas e coisas do tipo ela ia e apareciam gente da cidade inteira. Foi numa dessas festas anos atrás que ela conheceu Rebeca e Gustavo. Ela não lembrava ao certo o que eles tinham feito naquele dia, mas lembra que desde então eles sempre se falaram e brincaram juntos. De uns tempos pra cá Amanda vem sentindo sentimentos que são um pouco... mais fortes do que “só” amizade por Gustavo, porém tudo mudou na semana passada na festa de despedida do colégio.
Uma semana atrás.
Beatriz e sua irmã estavam no ônibus voltando do shopping. Na noite anterior Amanda havia confessado para a irmã mais velha que talvez, apenas talvez, estava começando as sentir algum sentimento um pouco...mais forte...pelo amigo Gustavo. Beatriz assim como Amanda conhece Gustavo e Rebeca desde que eles tornaram-se amigos anos atrás. Quando soube dos sentimentos da irmãzinha pelo amigo ela ficou muito feliz e quis saber de todos os detalhes. —Quando isso começou? — perguntou Beatriz abraçando a irmã animadamente — Isso é sério? Ai meu deus que fofos!
—Para Bia! — as bochechas de amanda corando um pouco, um sorriso torto escapava de seus lábios, apenas com esses sinais ela confirmava para a irmã, que a conhecia como ninguém ,que aquilo era realmente sério.
—Vamo no shopping amanhã! — exclamou Beatriz como se tivesse visto uma grande revelação divina — Amanhã à noite vocês vão pra uma festa né? Despedida da escola ou algo do gênero?
—É e não é despedida da escola, se chama Aula da Saudade — corrigiu Amanda — e Rebeca vai estar lá de qualquer maneira e não tenho certeza, mas acho que ela suspeita de algo.
De fato eles iriam para uma festa, apesar de que não era bem uma festa, estava mais para uma confraternização. Era chamada Aula da Saudade. Que não passava de um pequeno encontro realizado pelos alunos que haviam acabado os estudos na escola naquele ano dentro da própria escola. E assim como todos os seus antigos colegas de classe, Gustavo estaria lá. Rebeca inicialmente não participaria pois ela fazia parte de outra sala., porém segundo Gustavo ele ia levar ela como a acompanhante dele e então os três iriam poder comemorar juntos o fim do ensino médio.
— Que seja — continuou Beatriz cada vez mais agitada enquanto fazia tranças no cabelo da irmã — vai ser a sua chance. Você vai confessar seus sentimentos pra ele nessa Aula da serenidade.
—É da saudade — Amanda suspirou e se olhou com o espelho de mão, tranças realmente lhe caiam bem. Combinavam com seu visual simplista. — e quem disse que eu vou me confessar? Eu nem sei se sinto alguma coisa por ele pra início de conversa.
— Mandinha, cá entre nós, ambas sabemos a verdade. — ela terminou de trançar o cabelo da irmã — quem resistiria aos encantos de uma garota como você? Vai dar tudo certo!
E assim no outro dia elas foram até o shopping, o pai de Amanda tinha depositado naquela semana sua mesada e com o dinheiro ela que deveria ir poupando para o mês inteiro, resolveu comprar roupas. Claro, ela não usou todo o dinheiro, porém boa parte dele se foi no vestido amarelo (era a cor favorita dele segundo Amanda) e no kit de perfume e maquiagem que ela comprou. O resto do dia elas passaram no cinema vendo um filme de comédia romântica que contava a história de um rapaz que se apaixonava por seu computador. Seria trágica a história se não fosse engraçada em certos momentos. Amanda estava realmente ansiosa para a Aula da Saudade graças à sua irmã que inflara sua autoconfiança coisa que é rara de acontecer.
Durante a noite Amanda foi até a casa de Gustavo para de lá eles irem juntos. Ela planejava aproveitar o pequeno percurso entre a casa dele e a casa de Rebeca (que ficava no caminho até a escola) para contar o que (talvez) ela estava sentindo. Mas ao chegar na casa dele ela foi informada de que ele já tinha saído um pouco mais cedo. O que era estranho pois eles tinham combinado de ir juntos, triste porém não desanimada, nossa pobre garota seguiu para a escola que ficava alguns quarteirões adiante. No meio do caminho ela passou na casa de Rebeca que também já tinha ido. O que estava acontecendo? Todos resolveram ir mais cedo para a confraternização? Ou será que era ela quem estava atrasada? Por questões financeiras e de escolha própria Amanda era a única na casa que não tinha um celular e portanto não poderia ter sido avisada caso houvesse alguma mudança.
Ao chegar na escola suas suspeitas foram confirmadas. Todos já estavam lá e a confraternização já tinha começado à algum tempo. Mais tarde ela descobriu que não era de 19:45 que tinha começado e sim de 5:45 ou seja ela tinha perdido coisa pra burro! Outro detalhe importante a ser citado é o de que Amanda era a mais, digamos assim...arrumada...no local. As outras meninas que Amanda já conhecia faz tanto tempo (três anos em sua maioria) estavam de saias ou calças jeans comuns. Nada muito, festivo, como o seu vestido. E isso é claro chamou atenção de muitos por ali. Amanda boa parte do tempo é uma pessoa tímida e controlada e normalmente ela teria ficado paralisada de vergonha ali sendo o centro das atenções por uns quinze segundos, mas eram todos seus colegas de classe pessoas que ela já era bem acostumada a ver todos os dias. E com isso pôde relaxar um pouco e pensar.
— Belas tranças em Manda! — disse Augusto um colega de classe dela que vivia faltando aula — Se a madame me permite dizer, você está sendo um colírio nos meus olhos e nos de outros rapazes.
Olhando ao redor ela percebeu alguns olhares disfarçados, ela corou, agora sim estava começando a ficar sem jeito. Ela tinha de encontrar Gustavo logo.
— Haha obrigada Augusto — disse ela timidamente — você viu o Gustavo por aí?
— Gustavo? — ele coçou o queixo como se estivesse tentando buscar a memória do fundo da mente — da última vez que eu vi ele eu acho que ele tava indo pra quadra...
— Valeu! — e como se quisesse sair dali o quanto antes ela seguiu rapidamente em direção à quadra.
Ela pensou ter ouvido Augusto falar mais alguma coisa quando ela saiu, mas não prestou muita atenção. Agora o seu foco total era entregar a carta que tinha escrito para ele. E isso não tinha sido ideia de sua irmã, ela obviamente não ia ter coragem de falar cara a cara com ele sobre os sentimentos que cresciam dentro dela. Afinal Amanda só achava que podia estar crescendo algo ali dentro dela. E por isso ela não queria ir se declarando loucamente ou algo do tipo como sua irmã queria. E com certeza se enrolaria toda para falar com ele quando/caso ficasse nervosa, portanto uma carta seria bem melhor para explicar a situação para ele. Tinha escrito a carta na noite anterior logo após a irmã ter pego no sono.
A quadra da escola como na maioria das escolas ficava na parte de trás da mesma. Geralmente com um acesso pela lateral do prédio e outro por dentro através dos corredores. Como era uma festa à noite as portas que davam acesso para a quadra estavam barradas. E na teoria as da parte exterior também deviam estar, porém por algum motivo não estavam. O caminho pelo lado exterior era um pouco escuro pois todos os refletores estavam desligados. Amanda mal conseguia ver onde pisava. Ela segurava a carta junto ao peito com as duas mãos, estava tremendo um pouco. Não sabia se era frio ou ansiedade e provavelmente eram ambos. Um pouco mais a frente ela viu o que pareciam ser pessoas. Ao entender o que eram e o que estavam fazendo Amanda corou e baixou o olhar.
Ali era o “point” dos casais digamos assim, por ser um lugar escuro e quieto, era a escolha perfeita para um casal dar uns amassos ali. O coração de Amanda acelerou quando ela se tocou de que se ele tinha estado ali ou ainda estava, estaria acompanhado. Ela tinha de ver com os próprios olhos quem era pessoa. Ao ir passando por entre os casais que se beijavam sem se importar com sua presença ela lembrou que devia ter chamado Rebeca para ter ido com ela ali. Mas ela não queria que a amiga soubesse desses possíveis sentimentos que sentia por Gustavo por mais que ela suspeitasse de que Rebeca já sabia de algo. Amanda olhava discretamente nos rostos dos rapazes e a cada um que passava o seu coração se aliviava um pouco. Após andar um pouco por ali ela já estava se sentindo extremamente desconfortável e se preparava para voltar e procurar por ele em outro lugar.
Mas é claro que sempre tem de ter um porém. Quando ela estava se preparando para ir embora ela deu uma ultima olhada no casal que estava mais a sua esquerda. Ao perceber quem eram as pessoas que estavam ali Amanada soltou a carta no chão e com algumas lágrimas traiçoeiras já nos olhos ela apenas fungou enquanto tentava segurar o choro. Colados um no outro estavam Rebeca e Gustavo, ao perceberem que era ela que estava atrás deles, Gustavo largou Rebeca num piscar de olhos e ficou encarando Amanda aparentemente espantado e sem jeito.
— Er, Mandinha, o que... — gaguejou Gustavo muito sem jeito — eu pensei...eu tinha pensado que você não viria hoje.
As lágrimas começavam a escorrer, e com elas a confirmação de seus sentimentos, seguidas da dor e a frustração. Ela não queria ver mais aquilo. Rebeca estava apenas calda encarando-a com olhos ameaçadores.
Ela sabia. Rebeca sabia dos sentimentos de Amanda. De algum jeito...ela sabia... E mesmo assim.
— Por que? — disse Amanda soluçando, a pergunta era para Rebeca — Por que? Você sabia não era? Mas por que? Nós não somos amigas?!
Gustavo sem entender nada apenas tentou colocar as mãos no ombro de Amanda para consolá-la que agora estava com as mão tampando o rosto enquanto chorava. Assim que ele tocou no seu ombro ela o afastou bruscamente e correu. As lágrimas deslizando por seu rosto junto com toda a maquiagem. Lágrimas negras de tristeza.
No resto da semana seguinte ela não teve contato com nenhum dos dois. Nos primeiros dias sua irmã tinha lhe consolado. Era a primeira vez que ela chorava por ter sido rejeitada. Ou melhor nem isso se quer ela teve a chance de ter sido. Com o passar dos dias ela foi se animando um pouco, ela ainda andava muito triste, mas aos poucos estava voltando. E foi ai que nós conhecemos ela. Pois Iracema vendo a tristeza da neta e pensando que seria bom para ela respirar novos ares. A convidou para ir na igreja. Foi ai onde nossa história começou. Pois chegando na igreja acontecimentos que marcariam para sempre o destino de Amanda seriam iniciados. Coisas que ninguém podia esperar. Exceto por uma pessoa...que já sabia de tudo aquilo antes de acontecer.
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