Crônicas da Morte
6 Um Natal Especial
As luzes da cidade brilhavam e refletiam numa névoa profunda que soprava sobre a região. Me sentava aos degraus da calçada e olhava para o céu nublado. Meu rosto tinha felicidade ao ver as belas árvores de natal. Em todos os anos, o natal era o meu dia tão esperado. Gostava de receber presentes, mas também gostava de reunir a família em mais uma ceia. Me sentia confortavel ao olhar para os enfeites. Achava que aquilo era tudo para mim. Costumava pouco sonhar para não esperar muito, pois costumava ser muito ansioso.
Meu avó prometera me dar um bom presente de natal, mas ele disse que seria uma surpresa. Surpresas mexiam comigo, pois me faziam imaginar o que não conseguia as vezes. Sentei-me no sofá, esperando a família se reunir novamente. Minha mãe não me aconselhava a comer os bombons de chocolate antes da celebração, mas eu não conseguia resistir. Pegava vários e escondia-me no quarto de meu avô. Escondia-me atrás de um cômodo antigo que meu avô tinha e esperava minha mãe vir me procurar. Eu a assustava por brincadeira e após, nos abraçávamos.
Eu e meu avô éramos inseparáveis, sempre conversávamos e brincávamos, Éramos como irmãos. Esperava dele um grande e fantástico presente de natal. Talvez ele me desse uma bicicleta ou um video-game. Ele sabia o que eu queira, afinal conversávamos sobre isso. Meus natais eram sempre tão esperados, pois eu queria receber os presentes de meu avô.
Minha mãe já havia chamado-me para a ceia, mas faltava meu avô chegar. Não queria começar a festa sem ele, pois ele nos animava e fazia tudo muito melhor. Estar com meu avô era pra mim melhor do que estar com meus amigos. Todos eles eram muito legais, divertidos, mas não tanto quanto meu avô. Ele era um homem sábio, me ajudava quando tinha dúvidas nos deveres de casa. Era muito inteligente e me ensinava várias lições de valor que, realmente eram muito importantes para mim.
Finalmente meu avô havia chegado, mas não o vira com algum presente. Mas como ele era tão misteriosos, apostava que ele tinha escondido-o em algum lugar. Não questionei nada. Sentamo-nos em volta da mesa de jantar. Oramos e agradecemos por mais uma noite de natal tão especial. Cantamos várias musicas natalinas e nos alegramos com as piadas de meu tio. Ele realmente era muito engraçado. Engraçado como meu avô, afinal ele era filho dele.
Naquela noite, olhei para o céu e vi que havia uma estrela que brilhava intensamente. Acreditava ser uma esperança de que meu presente estava por vir. Ao olhar para aquela estrela, me atingiu também um sentimento de tristeza, pois me lembrara de meu pai. Ele havia me abandonado, pois não esperava ter um filho. Ao invés de ele assumir sua paternidade, ele ofereceu dinheiro à minha mãe para que ela me tirasse. Minha mãe não aceitou o dinheiro, então ele a espancou e a deixou caída no chão de meu futuro quarto. Ela já havia preparado tudo antes de meu nascer. Ele então, partiu de nossas vidas e nunca mais voltou para dar notícia.
Eu não esperava mais vê-lo e mesmo que o encontrasse, nunca saberia quem ele seria, pois nunca vi seu rosto. Nem por fotos. Para mim, meu pai era meu avô e ele era a unica pessoa que realmente me entendia, era ele que eu queria em meu natal.Ainda não era meia noite, então, para esperar, fui para o quarto do meu avô e pus-me a ler um livro que, há tanto tempo tinha deixado de ler. Ao ler-lo, lembrava de tudo que eu, minha mãe e meu avô passamos juntos, todas as desventuras, tristezas, alegrias.
Deixei o livro de lado e senti um clima agradável se aproximar. Havia neve caindo do céu. Era incrível, pois nunca havia presenciado neve antes. Então pus-me a brincar com a neve. Fazia bonecos, anjos, bolas de neve. Era tudo tão divertido, tudo tão novo que não percebi que já estavam chamando para abrir os presentes. Nossa, aquela era a hora que eu mais esperava. Estava louco para ver qual era o presente de meu avô então corri para dentro de casa, sentei-me novamente ao sofá e aguardei.
Observava a árvore que minha mãe e meu avô decoraram e vi que tudo estava muito lindo. Estava tão feliz que chorei. Agradecia a Deus por mais um natal em família, por todos os presentes, pela neve, pelo aconchego e conforto de casa. Já não vendo mais a hora, perguntei ansioso para meu avô onde estaria meu presente. Ele abaixou a cabeça e disse que não pode comprar, pois não tinha dinheiro. Então ele me ofereceu um abraço, mas eu me afastei, agora minhas lágrimas eram de tristeza.
Meu avô me pediu outra vez um abraço, mas eu neguei e, de tanta raiva, derrubei a árvore de natal sobre a mesa central. Aqueles belos enfeites destruídos por mim. Sem perceber o que estava fazendo, gritei com meu avô e disse que ele não era meu avô de verdade, pois com toda aquela fidelidade, fraternidade que tínhamos e ele não pode comprar um presente para mim. Pedi pra ele sair da minha casa e não voltar nunca mais. Minha mãe tentava me acalmar e meu tio tentava consolar meu avô que se acabava aos prantos.
Naquele momento, não tive pena dele, mas sim ódio, e o expulsei de casa. Então ele falou-me que eu não precisava me preocupar que ele não iria mais voltar. Eu, muito triste por não ter recebido o presente que tanto esperava, me tranquei em meu quarto e fiquei vendo a neve cair mais forte e mais fria na rua. Meu avô devia estar muito triste e eu o magoei, mas eu tinha me decepcionado por ele não ter dado o presente que eu tanto queria.
Minha mãe e meu tio tentaram fazer ele voltar, mas ele se negava a entrar em casa novamente. Seus olhos estavam molhados, seu coração estava partido e ele devia estar morrendo de frio. Eu havia pensado melhor e pretendia perdoá-lo, mas esperava-o e ele não vinha. O relógio passava lentamente e eu, nervoso, não sabia mais o que fazer. Passaram-se horas e nada, até que ouvimos uma batida na campainha e logo pensamos ser ele. Nos apressamos para abrir a porta, mas ao abrir-mos, havia uma bicicleta e um video-game encostados no chão. Havia uma carta, uma carta que meu avô escrevera para mim, então a abri e li.
"Meu querido netinho, desculpe-me por te-lo decepcionado, prometo nunca mais deixá-lo triste por presentes. Nunca imaginei que o que você esperava de mim eram os presentes e não a presença. Agora que sei, tomei a decisão certa. Irei para um lugar que você também irá um dia, mas só daqui a muitos e muitos anos. Eu só espero nunca mais te ver chorar. Com amor, seu avô."
Minha mãe sabia o que significava aquela carta, mas eu não. Perguntei então a ela para onde o vovô foi e ela respondeu-me que ele foi conhecer um lugar melhor, um lugar onde não tenha pessoas para gritar com ele por não ter dinheiro o suficiente para comprar um presente. Então perguntei se ele iria voltar e ela, chorando, respondeu que não. Ele iria passar a morar nesse lugar. Então perguntei para onde ele foi, e ela respondeu-me que ele morreu.
Não havia acreditado, pois meu avô, a pessoa mais especial do mundo para mim, morrer, e tudo por minha causa. Ajoelhei-me ao ver aqueles presentes e disse, chorando, mamãe, eu não quero esses presentes. Eles fizeram o vovô ir embora. Minha mãe disse para me acalmar, então corri para o quarto de meu avô e vi uma foto que estava sobre sua cama. Eu e ele brincando enquanto minha mãe tirava a foto. Meu coração doía demais, só de pensar que não teria mais meu avô por perto. Agarrei-me ao travesseiro e passei o resto do natal a chorar e a pensar o quanto fui idiota em substituir meu amor por presentes.
No dia 25, não comia nada, não falava com ninguém. Apenas fiquei em meu quarto, trancado, pensando na maior burrada que eu fiz. Estava completamente arrependido, mas já era tarde. Então ajoelhei-me ao pé da cama e orei à Deus para que ele guardasse meu avô junto à ele no paraíso. Peguei a bicicleta e o video-game que meu avô havia deixado e pedi para minha mãe que doasse para alguém que realmente precisasse. Sabia que estava fazendo a coisa certa. Então aprendi a lição que o melhor presente que alguém poderia nos dar seria sua presença e um forte abraço.
"Obrigado vovô, por todas as alegrias e por todos os momentos bons vividos por nós até o natal, o nosso ultimo momento de reencontro aqui na terra. Espero te ver em brevemente. Adeus."
FIM!!!
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