A mesma luz diurna persistia coruscante enquanto as horas passavam.

– Sendo assim, existe uma vastidão incontável de características que podemos atribuir a um homicídio. O que leva uma pessoa a matar outra? Estamos quebrando alguma lei da natureza quando nos impomos perante outro indivíduo ou seria esse apenas nosso estado mais bruto? Por favor, alguém sabe me dizer um teórico que fale sobre essa possibilidade da índole humana?

Uma mão se levantou ao lado de Ava, esta absorta em anotações desconexas no caderno, distribuídas por um raciocínio que só ela era capaz de entender.

– Thomas Hobbes discorre sobre a natureza do mal em sua obra O Leviatã, apresentando razões que legitimam a existência do Estado e das leis, sendo tais corporações as responsáveis por frear nossos instintos e inclinações para a violência.

– Muito bem, senhorita Dorothy Morgan! Sempre bom ouvi-la falar – Alegrou-se o professor, em seu êxtase ao confirmar que havia um prodígio na sua sala. Dorothy tinha um olhar de simplicidade rústica característico das meninas ingênuas do interior, mas ao mesmo tempo também tinha no estreito dos lábios e na ponta das orelhas uns fragmentos perceptíveis de malícia velada – Mas agora eu atinei para uma palavra específica que você utilizou. Acredita que Estados, constituições, nosso parlamento, todos esses conglomerados sejam corporações.

Dorothy riu para dentro, alto o bastante para Ava ouvir e acompanhar a graça daquela situação.

– Não consigo enxergar como, no mundo em que vivemos, poderia haver um grupo de pessoas que não seja guiado por idealismo, intenções subjetivas, ambições financeiras e sociais ou simplesmente o próprio poder pelo poder. Não tomamos as decisões por nós, tampouco pelo coletivo. São os resultados que decidem quem vai e quem fica – Começou a morder a ponta da caneta.

Croydon apresentava algumas particulares em sua distribuição, mudando repentinamente de um cenário moderno e tecnológico para algo mais bucólico. Embora não fosse muita caminhada, a universidade na qual ambas garotas estudavam era isolada do centro urbano, sendo sempre o meio mais viável para locomoção uma fileira de micro-ônibus de uma empresa terceirizada que leva os estudantes para a rodoviária. Ava morava em um dos pontos mais distantes daquele destino, portanto era sempre mais conveniente sair cedo para que não escurecesse enquanto caminhava pela trilha do bosque de forma a chegar num ponto de ônibus que a levaria para sua rua.

– Tem certeza? – Dorothy insistiu, preocupada.

– Sim – Ava não precisava fazer muito esforço para transparecer uma serenidade plena que elidia até os mais temerosos receios – Pode ir com os meninos do departamento de comunicação no ônibus. É melhor para você, que mora perto da rodoviária mesmo. Não precisa ficar sempre fazendo o caminho inverso só para me acompanhar.

– Se você não gosta, também não ofereço mais – Fez bico por gozação e logo se aglutinou a multidão que se organizava para entrar nos transportes.

Ava contemplou a algazarra com uma melancólica satisfação. Os gestos bruscos, as risadas descontroladas, as expressões honestas, o mundo em um eixo exato. Havia outras pessoas como Ava, consumidas por uma percepção de deslocamento com relação ao mundo externo, levando-as a um estado de prostração passiva e abdicada. O problema era que mesmo essas pessoas tão destacadas do plano real, entre si eram ainda mais distantes. Se já não conseguiam compartilhar com os outros o ardor da vida, tarefa ainda mais árdua seria tentar compartilhar com outros moribundos sua solidão. Mas talvez fosse a única forma de alcançar algum fulcro para o ato de ser, alguma justificativa.

– Quer que eu leve seus cadernos? – Chegou um rapaz de gorro e cabelo loiro com uma barba por fazer e olhos vermelhos, além dos meneios ondulosos e frouxos que denunciavam seu estado de consciência alterada, o que jamais fora surpresa por aquelas imediações.

– Oi? De que curso você é? – Ava indagou dissimulando sua desconfiança – Não lembro de ter te visto antes.

– Bem, eu sou de administração – A resposta na mente de Ava foi imediata. Alerta vermelho. Voltar para a universidade já não era mais uma opção, só lhe restava apertar o paço vagarosamente para chegar o mais rápido possível no ponto – Hoje está fazendo um dia quente, não? – Se aproximou sem preâmbulo.

– Não gosta de calor? – Sem ter opções mais práticas, prosseguiu com a interpretação – Eu me sinto um pouco bem com ele. Por aqui é sempre tão frio. Esse calor meio que propõe mudanças, novas chances, esse tipo de coisa.

– Você curte coisas novas? – Seu pescoço se dobrou em convulsão para poder olhar a jovem mais incisivamente.

– Contanto que eu mantenha outras coisas, sim. Por exemplo, adoraria viajar para lugares novos conquanto pudesse ter sempre a mesma casa para a qual retornar.

– Eu estou encantado pelas suas palavras! Qual o seu curso?

Ava começava a suar. Cogitou afirmar sobre administração também, ponderando se isso poderia intimidá-lo, mas concluiu que não surtiria efeito. Afinal de contas, aquele rapaz não era mesmo de administração. O prédio de administração não ficava nem perto dali. Amaldiçoou suavemente a recusa pelos transportes universitários, sempre assumindo que nada poderia acontecer com ela, que suas contas com o carma já estavam equilibradas.

De fato estavam, mas a vida não se faz de equilíbrio perpétuo. Uma hora o peso cede para um lado. Agora, furtivamente cedia para o lado do crédito oposto.

– Adorei seu cabelo. É tão gostoso... – Foi pegando nos fios loiros com uma tentativa fracassada de sedução. Foi se aproximando na mesma medida em que Ava retorcia o rosto para o lado.

– Sabe o que eu tenho no meu bolso? – O menino fez que ia tirar algo das calças, mas antes que pudesse mostras os resíduos naturais fechados num plástico hermético, à situação a impulsionou para fora da trilha, correndo e apertando o caderno contra o peito.

Foi deslizando pelo aclive com movimentos muito bem orquestrados, botando a adrenalina a seu serviço operando o cérebro com mais eficiência e trazendo respostas mais rápidas.

– Que droga, que droga – Praguejou sozinha enquanto subia por uma elevação se agarrando a um ou outro cipó, o caderno já na bolsa.

Logo que sua respiração se permitiu alcançar um ritmo estável, uma mão chegou até sua nádega e jogou-a como uma onda de choque para a frente, tropeçando num galho.

– Nossa, veio direto para mim? – Riu o novo personagem, um garoto graúdo de pele morena e piercing no lábio inferior – Que prazer, princesa.

– Não, por favor – Ava estava prestes a chorar, retendo as lágrimas apenas pela força maior da incredulidade.

– Porra, não acredito que ela veio parar logo aqui. Que merda – O falso estudante loiro alcançou o lugar – Ai, eu e ela estávamos super batendo um papo. Não estraga, vai.

– Foi mal cara, estou na seca já tem quatro dias. Não vou poder ficar segurando, não concorda? – Evidentemente não concordava, mas com a mesma obviedade se percebia que não gozava de artifícios ou músculos para discordar. O jovem do piercing então foi se aproximando, quase se agachando, agora já engatinhando enquanto Ava não conseguia se por de pé.

– Só me deixa ir para casa – Ava não resistiu à torrente que se seguiu.

– Relaxa, vai ser rápido. Não precisa se preocupar – Foi passeando com a ponta dos dedos pela coxa exposta de Ava – Te juro, você nunca experimentou nada como...

Ava nunca teria descoberto o fim da propaganda. A oferta fora cancelada por um rápido movimento, tão fugaz que deixou um rastro momentâneo na atmosfera. Atrás do rapaz, um indivíduo absolutamente encapuzado por um tecido inconsútil e grosso simplesmente fora invocado no contexto. Carregava um grande cabo de madeira disforme e não lapidada, como se fosse apenas um grande galho arrancado recentemente de uma árvore outonal. A singularidade era apresentada na extremidade, porém. Uma lâmina do mais imaculado e absoluto ébano, com uma curva que transladava quase a órbita do planeta. De repente surgira uma cruz negra no pomo de adão do menino graúdo que foi se espreguiçando por aquele corpo, se estirando como um corpo exausto em seu leito. O rosto do rapaz era da mais irreconhecível lividez. Praticamente tinha sido expulso da própria consciência.

– O que é isso? Meu deus, quem é você?! – O personagem do gorro não soube lidar com a situação de outra forma se não estagnado e completamente passivo ao desdobramento da cena.

Ava não respirava. Nem suava mais de pavor. Os resquícios de árvore espalhados pelo solo já não produziam nenhum farfalhar. O silêncio aprisionou a todos dentro de suas próprias mentes, onde viveriam os mais aflitos segundos de suas vidas, tentando lidar com a consternação da racionalidade em suas cabeças, a mesma que não admitia nada do que estava se dando naquele instante, não aceitando aqueles eventos como factuais. Foi o mecanismo de defesa encontrado pela humanidade de ambos. Tal estratagema estava surtindo efeito até o indivíduo encapuzado finalizar sua cerimônia estendendo a mão que agora revelada se mostrava ossuda e cinzenta como o adeus das chamas da lógica ou da paixão.

O personagem do piercing foi atraído por tal convite por um magnetismo irremediável e implacável, uma sedução irrevogável que lhe tirou todo o livre arbítrio, toda a sanidade, toda a capacidade de questionar. Era agora um servo do acaso de forças naturais muito maiores do que era capaz de ser entendido por qualquer coisa mortal. Ao invés de segurar a mão do encapuzado, o segundo rapaz pegou seu isqueiro no bolso e encarou-o, como se pedisse aprovação para o artefato.

Não mais esperando, ele levou o isqueiro até os olhos e acendeu o fogo consecutivamente em ambos. Os cílios não apresentaram protesto com piscadelas. A retina do homem simplesmente foi sendo derretida com um cheiro forte de borracha queimada pairando no ar, logo substituído por um aroma de ovo podre. Após se desfazer de ambas esferas visuais, ele pegou no bolso uma série de pacotes fechados e foi abrindo-os, digerindo com uma voracidade de faminto todo o conteúdo dali.

Dados alguns minutos, o organismo da pessoa simplesmente renegou o que acontecia em seu interior, tentando despejar para fora através da garganta, mas a resposta consciente dele também foi negar o refluxo até que um embate mortífero se proliferou em toda a sua digestão. Quando o confronto teve fim, ele, os olhos apenas uma mancha esfarelada que caia pelo rosto ainda, teve convulsões e parou subitamente de sugerir qualquer possibilidade de movimento.

Quando o encapuzado parou de admirar o êxito de sua obra, se virando para seu segundo modelo natural, este já tinha usado de reservas inimagináveis de força de vontade para correr disparado para longe dali. Ao invés de ir persegui-lo, o indivíduo se conteve no lugar para encarar Ava.

O cheiro de queimado se misturava levemente com o ácido úrico que ela acabara de ejetar sem controle algum do próprio corpo. Projetando um som que poderia ser entendido como um riso, aquela coisa ininteligível perguntou-a, a voz retumbando, evocando os murmúrios de sarcófagos milenares em sua voz:

– Que estar viva? Neste exato momento, quer viver, ainda que mergulhada no próprio terror e urina? – Seu tom de voz era apesar de tudo, confortante, como se o locutor fosse uma grandiosa e sábia estátua, retendo mais conhecimento do que era permitido aos vivos.

Ava só soube balançar exasperadamente a cabeça, depois se pondo de joelhos e suplicando como se o ser a sua frente fosse agora seu deus.

Aquela coisa encapuzada apertou o cabo de sua foice com certeza da decisão que tomava, uma decisão que redesenharia o próprio significado da morte e da vida no mundo inteiro. Ninguém nunca saberia se a escolha que tivera naquela hora fora fruto de um mirabolante planejamento ou obra do mais debochado e irônico acaso.

– Você terá muito tempo para se arrepender do caminho que optou por seguir – Ele disse e se virou para ir embora. Ava desmaiou automaticamente.

Aquela figura executou um convite para duas pessoas naquele fim de tarde. Uma delas sucumbiu ao pedido e decidiu acompanhar o espectro em sua jornada para outras localidades. À outra fora feito um convite muito menos usual, e esta da mesma forma aceitou. A sua maneira, ela estava tão morta quanto o garoto cuja vida se desmontou em espasmos na sua frente.