Notas iniciais
Deixem reviews e boa leitura!

Em duas horas iria amanhecer. Sem sangue humano, meu corpo definitivamente não agüentaria ao sol.

Caminhando entre a densa mata de pinheiros, sinto cheiro de fumaça. Onde há fumaça, há fogo, onde há fogo, há pessoas, e onde há pessoas... o cheiro de sangue já me embriagava, os gritos de dor fantasiados em minha mente, as veias pulsantes, sangue vertendo como uma cascata límpida.

Segui em direção aos cheiros, desviando um pouco de minha rota para as colinas. Em alguns minutos, estou em um pequeno acampamento. Cinco grandes barracas dispostas em torno de uma fogueira quase extinta. Cerca de 2 casais de jovens em cada barraca. Meu sorriso combinado com as presas brotam em meu rosto, junto com uma sensação de poder.

Escuto barulhos de dentro da barraca mais da esquerda, pulo para o topo de uma arvore para me esconder, um garoto alto, cerca de 17 ou 18 anos de idade, sai e vai até uma árvore para urinar.

Salto do topo e caio com todo meu peso em cima dele, socando-o na cara e tapando sua boca. Apenas o som do vento e dos insetos cortava a floresta. Uma vítima a menos.

Vou até a barraca de onde ele saiu, duas garotas dormiam (meu cálculo de dois casais em cada barraca perdeu seu fundamento). Elas respiravam devagar, ainda em sono profundo. Chego atrás de uma e acaricio seu pescoço.

–Meu amor... que mãos frias... – ela fala, ainda dormindo.

–Logo seu corpo também estará... – sussurrei em seu ouvido.

–Mas o que... – sua fala é cortada pelo meu veneno, seu sangue vertia na minha boca, em decorrência da sonolência, ela não gritou. Seus músculos foram enrijecendo e sua posição se torna fetal. Duas vitimas a menos.

Não reparei, a segunda garota olhava de olhos arregalados para mim, estava em choque. Termino minha refeição e agarro o pescoço da viva. Ela tenta lutar, em vão.

–Você está lutando... que heróico. Prefiro gritos ou gemidos, sabia que já matei garotas que se gozaram antes de morrer? Será que sou capaz de te dar tal prazer? – falei, passando minha língua em seus lábios e mordendo seu pescoço com voracidade. Terceira vítima.

Nesse ritmo, eu demoraria a me alimentar de todos, então vamos tornar o jogo mais interessante! Vou até a fogueira e invoco meus poderes, criando uma coluna de chamas. O fogo voa em todas as barracas, em segundos, os humanos estão correndo para todos os lados tentando escapar, alguns em combustão. Um caos total. E assim foi nos próximos 30 minutos, um vampiro caçando um por um, sorvendo todo o sangue sem piedade.

Todos os jovens haviam passado para a outra vida, nunca bebi tanto sangue de uma vez só. Apenas um corpo ainda sofria de espasmos e se contorcia, em breve ele seria vencido pela agonia e pereceria.

Retomei meu rumo para as colinas, com tanto poder, eu estaria ao máximo durante boa parte do dia e poderia enfrentar o Leão de igual para igual.


* * *

Mais uma investida daquela magnitude eu com certeza iria ser dilacerado em duas partes. Eu jazia em uma pedra, com extensos cortes em todo corpo. No meu rosto, dois longos cortes abaixo dos olhos, era o que mais ardia. Meu sangue negro empapava toda minha roupa negra.

O Leão era um demônio de couraça de prata. Tinha cerca de 5 metros de altura e tinha o corpo do tamanho de um ônibus. No lugar onde seria sua juba, havia três fileiras de pás como o de uma serra, eram igualmente afiadas e triangulares. Se isso não bastasse, as lâminas giravam criando um aspirador de tudo que estivesse ao seu alcance. Os olhos vermelhos e o rubi na sua testa ainda lançavam um raio direto em meus olhos, cegando-me por alguns segundos, segundos que bastavam para um belo estrago.

Olhei para o pentagrama em minha mão, não consegui usar os poderes. Concentrei-me ao máximo, mas nada aconteceu. Se esse era o segundo guardião, como seriam os outros? Perder tão rápido? Se for o fim, que seja rápido mesmo.

–Francamente você não sabe lutar... observe um vampiro de verdade – a voz de Ethel sacudiu minha mente, ele estava empoleirado em cima da pedra. Sempre em seu belo terno negro, cabelos brancos e olhos vermelhos, hoje, com um sorriso presunçoso no rosto.

–Apenas observe...

Com sua velocidade sobrenatural, socos e chutes faziam o guardião se perder e não ver o que atacar. Ethel era um relâmpago negro, tão veloz e mortal quando uma chuva de espadas.

Aos poucos o Leão foi caindo, com vários cortes espalhados na prata reluzente. Os olhos vermelhos se apagaram e o rubi foi expelido de sua testa, caindo na minha frente.

–Rafael, você me decepciona. Era um vampiro perfeito, um assassino sem piedade de suas vítimas. – sua voz era de um pai decepcionado com o filho, um desprezo destrutivo – Vou procurar alguém mais digno dessa busca. Minha fantasia me cegou, você não é como seu pai. Nunca será.

Ele pega o Molde que estava preso em minha calça e engata o rubi. Fazendo o cabo de uma bela espada.

–Cansei de você, tanta confiança que o mundo gira em volta de suas presas. Lamento em informar, o mundo não gira em torno de você. Aprenda: precisa se concentrar em tudo e todos, preparar-se para o inesperado, calcular o impossível. Voltarei a você e sua jornada recomeçará. Por hora, você é só mais um nesse mundo.

A última coisa que vejo é Ethel me dando as costas.


* * *

–Será que ele está morto? – pergunta uma voz feminina

–Não, não, está só desacordado. Essa pele pálida e fria serve muito bem para dar essa impressão. – fala outra voz, dessa vez masculina.

–O que ele é?

–Um vampiro, mais que foi dilacerado pelo destino...

–Não é hora para frases poéticas, o que ele é?

–Um vampiro, um vampiro que não resistiu ao Leão. Burro por ir sozinho.

–Esse papo não me convence, já vi bastante coisa. Mas vampiros? Isso é muita viajem para eu acreditar.

–Acredite no que quiser, essa criatura deve estar em uma espécie de sono para regenerar-se. Olhe os cortes, longos e profundos. Deve ter doído um monte e deve ter sido feito por prata.

–Seriam aqueles caçadores novamente?

–Caçadores?! Eu tinha dito Leão antes. Esse bicho é osso duro de roer.

–Chega de tanta loucura, vou fazer algo mais útil. Divirta-se com seu corpo aí.

Uma porta ao fundo da sala range e bate logo em seguida. Uma luz forte e de caráter cirúrgico é lançada sobre mim.

–Corpo encontrado às 11H 15min AM próximo a um acampamento. Diversos cortes pelo corpo, pedaços do metal prata nos ferimentos. Dentes caninos superiores e inferiores pontiagudos e afiados. Anormal para um rapaz de 16 anos. – falava a voz masculina, como se gravasse em um microfone – Preparando para a primeira incisão à altura do coração.

Uma lâmina fina começa a ser deslizada pelo meu tórax, misturando-se com a dor dos ferimentos já provocados.

–Por favor... chega de dor... – falei com dificuldade, e levantando a mão em trégua.

O homem cai para trás com o susto, derrubando equipamentos.

–Traga-me sangue, humano... por favor...

Ele se levanta e corre para um lugar que está escuro a minha visão e volta com duas bolsas de sangue.

–Beba tudo, o quanto quiser, tenho muitas ainda. – ele fala confiante.


* * *

Já tinha perdido as contas de quantas bolsas de sangue que eu tinha bebido. Sentei-me na maca de ferro onde eu repousava. Eu não estava em uma sala de hospital e sim, em uma espécie de porão. Equipamentos cirúrgicos dispostas por toda a sala, duas geladeiras de corpos e uma parede com mais geladeiras. Afastei a luz ofuscante e me foquei na escuridão. Aos poucos meus cortes iam cicatrizando, juntando-se e sumindo. Apenas as marcas abaixo do meu olho pareciam não se fechar, sendo que toda vez que eu tocava, sangrava.

–Não faça esforço, descanse. – falou o homem.

–Que horas são? – perguntei.

–Cerca de 6h da tarde. Bebeu 5 geladeiras cheias de bolsas. Incrível... sempre quis ver uma criatura como você de perto, todos me chamavam de louco, mas agora eu tenho você, um espécime vivo. Fascinante. – ele tinha olhos grandes e curiosos. Eram castanhos e bem avermelhados, parecia a noites sem dormir. Tinha poucos cabelos e a pele enrugada. Estava nos seus 60 e poucos anos.

–Onde eu estou?

–Em minha residência, no porão mais necessariamente. Sou médico legista aposentado e encontrei um corpo nas pedras, pelas características, nada humano. Usei meu carro especial para trazê-lo aqui.

Um longo silêncio se estendeu. Eu sabia o que perguntar e não sabia do que esperar de um velho que estava tão curioso em minha espécie. Fazer experiências? Sintetizar o vírus que usamos para transformar humanos? Não sabia o que fazer. Com Ethel me abandonando daquela forma, eu estava mais sozinho do que nunca.

–Eu me chamo Leonardo – ele quebra o silêncio, apresentando-se e estendendo a mão – E você?

–Rafael – faço um reverencia comum aos vampiros que é um aceno com a cabeça e depois estendo a mão.

–Uma mão tão fria e tão viva. Incrível. Medi sua temperatura corporal, chega a ser menos que 0°C! Como sobrevive? Apenas com sangue?

–Sim, apenas sangue. Comida normal é apenas sabor para nós.

–Fascinante, fascinante! – Leonardo exclama.

–Sabe, eu estou perdido, sem caminho a seguir. Provavelmente o senhor é um pai, poderia me dar um conselho ou até mesmo um rumo? – pergunto.

–Sabe, meu jovem, em toda minha vida nunca vi um ser tão fantástico como você. Na verdade, achei que quando era criança eu tinha imaginado tudo, mas é real. Eu gostaria muito de estudá-lo, sejam as capacidades físicas e mentais, os comportamentos, tudo. Vou lhe fazer uma proposta de perigo tanto pra mim quanto pra você.

–Estou ouvindo... – falei, esperançoso.

–Permaneça certo tempo entre mim e minha família. Quero entender você. Em troca de sua ajuda, posso lhe fornecer algo simbólico, você pode até escolher.

–É uma proposta perigosa, minha sede voraz por sangue, é impossível reprimi-la...

–Não se preocupe, tenho meus contados em uma cidade próxima, terá a quantidade de bolsas de sangue que quiser.

Paro para refletir, é uma proposta para recomeçar minha vida maldita. Aprender a viver com humanos, reprimir sentimentos negativos. Ethel me disse para me concentrar em tudo e todos, aprender tudo novamente.

–Senhor Leonardo, aceito sua proposta.

O velho sorri e me abraça, rindo.

–Seja bem vinda a minha família, meu mais novo filho, Rafael.

Diante de tal expressão, não contive o meu famoso sorriso com as presas.