Crônicas Vampíricas - Lâmina De Prata

7 Capítulo 7 - Horizonte Noturno


Notas iniciais
Deixem reviews e boa leitura!

Bianca abriu os olhos lentamente e os fixou em mim, fazendo uma careta.

–Ver sua cara logo pela manhã? – ela fala, com desprezo – Prefiro confiar em um lobisomem do que em você.

Desconfiança se tornando raiva, puro repudio. É bom ela sossegar, estou a fim de tomar café da manha bem gostoso...

–Tanta desconfiança, tanta raiva, por quê? Que motivos têm pra duvidar de mim? – perguntei.

–Tenho muitos... e não gastar saliva falando agora, vou tomar banho. – ela sai da cama, usava um pijama bem curto e sensual num tom claro de azul, e foi para o banheiro.

Eu estava de braços cruzados na frente das portas de vidro que davam acesso a varanda. Meus olhos estavam tão vermelhos que o reflexo iria quebrar o vidro, minha cabeça começava a se esquentar.

Esse jogo mental entre nós dois iria nos matar alguma hora, ninguém confia em ninguém, onde foi parar aquela fraternidade do inicio de nossa aventura? Onde está essa emoção para salvar uma vida? Tudo sumiu, esvaiu-se.

Chega disso, de agora em diante, voltarei a ser como era. Vou até a mochila negra ao pé cama, abro-a, roupas extras. Minha camiseta negra atual está cheia de sangue, jogo-a a fora e pego uma nova. Minha calça está toda rasgada, está perfeita para um visual mais rebelde.

Jogo a mochila nas costas, pego o Molde com o novo pedaço de prata e guardo no bolso.

–Tchau... tchau – murmurei em direção a porta.

Disparo em direção à varanda e em segundos, estou no telhado novamente. Era o sol das oito da manhã, espero que meu poder ainda esteja em bom nível.

Em um salto de fé, aterrisso na calçada em frente ao motel. Hóspedes que tomavam café nas mesas da calçada, alguns se assustaram, outras caíram para trás.

Começo a caminhar até o estacionamento, usando toda a força que tenho, consigo tirar o portão de ferro do estacionamento. Entro sem cerimônia, e vou até guarita.

Mais força, quebro o vidro e pego a chave do meu carro.

Vou até o veículo, abro e jogo a mochila no bando do carona, fecho a porta e dou a partida.

O carro demora a ligar, mas dou o fora do estacionamento na velocidade máxima. Em minutos estou na rua, em meia hora estou na estrada, seguindo a nova direção que o mapa da bruxa me indicava. Precisava ir para o norte agora.


* * *

O sol já começava a desaparecer no horizonte, tingindo o céu de vermelho e laranja. As nuvens davam um belo contraste as cores, criando um belo céu.

Eu estava parado no acostamento, o carro estava sem gasolina e um posto devia ficar a quilômetros. Ao redor da pista uma mata de pinheiros era longa para os dois lados.

Em breve eu teria meus poderes novamente, peguei a mala. Fui para frente do carro e o chutei com toda força, ele parou no meio da pista, trancando o tráfego das duas faixas. Mais poder e uma explosão, pedaços de metal voam para todos os lados, abandonei o metal fumegante e fui em direção a floresta com o mapa em mãos.


* * *

–Eu devia ter usado a razão para ter entrado nesse inferno... – murmurei sozinho, estava recostado em um pinheiro, para todos os lados que eu olhasse, parecia interminável.

Céu carregado de estrelas e a luz da lua encoberta por nuvens solitárias. Não muito diferente de mim, sozinho e com pensamentos encobrindo a mente.

Respiro fundo e lentamente, preciso recuperar meus rumos. Pego o mapa e o examino, ele apenas mostra o lugar onde está o pedaço de prata e uma seta, a seta girava freneticamente, não dando uma direção exata.

Sento-me, passo a mão no cabelo, encaro o vazio, nenhuma idéia a mente. Sinto que preciso de sangue, esse é um problema, quanto mais se bebe desse liquido, mais se quer, uma droga, um vício sem cura.

Mais uma longa inspirada... dessa vez sem nenhum cheiro. ‘’Slender Man’’ foi a primeira coisa que me veio a mente. Fico em estado de alerta, criaturas que mascaram seu cheiro apenas para não entrar em confronto com nós, os caçadores noturnos.

Inesperadamente, uma fera cai do pinheiro bem onde eu estou encostado. Um bote certeiro, pegaria um transeunte e seria morte na certa, mas me antecipei e travei a bocarra lupina bem perto do meu rosto. Usando todo força, abro mais a mandíbula da fera (o suficiente para sentir o bafo, cheiro de digestão de humano) e o jogo uns 3 metros a frente, apenas para me afastar.

Um rugido alto e voraz ecoou pela floresta, mais um ataque. A fera tomava impulso para investir contra mim, ele sai da inércia e bate com toda força na árvore. Usei a velocidade vampírica para escapar no último momento.

O lobisomem de pelagem marrom tenta se levantar, mas não consegue, estava tonto pela pancada. E logo em seguida, tomba no chão, respirando devagar e aos poucos, a pelagem da lugar a um rapaz na faixa dos 20 anos, todo pálido e nu, inerte ali.

–Um lobisomem solitário? Sem uma matilha? – falo sozinho – Isso não significa coisa boa.

Escuto um uivo a distancia, se ele foi a isca, significa que vem mais lobos, lobos dos grandes.

Não dera 1 minuto do meu pensamento, estou cercado por 5 lobisomens. De diversas cores de pelagens e tamanhos. Não haveria como escapar, apenas se eu conseguisse saltar a uma altura muito alta, sem mais sangue seria impossível. O bafo quente dos monstros ressonava nas minhas roupas, o cheiro era canibal.

–Ele está intimidado... trabalho feito meus pupilos – falou uma voz feminina nas árvores.

Os lobisomens deixam a posição de combate e relaxam, abrindo o cerco.

–Não se preocupe vampiro...

–Fácil falar... – rebato, ironicamente – Com 5 lobos desses em volta de mim e total desvantagem, seja numérica ou em força bruta, estou muito calmo para um presa solitária...

Uma figura pálida aparece e pega o corpo caído e põe em cima do ombro, lentamente, indo em minha direção. Era um mulher jovem, longos cabelos brancos, feições lupinas, trajava pele de algum animal, montando um figura tão bela quanto grotesca.

–É estranho ver alguém vivo e perdido nessas matas. Chamo-me Nívea. Como te chamas, vampiro?

–Me chamo Rafael.

–Prazer, sabe, lhe ofereço um convite. Não é de nosso feitio aceitar qualquer um, mas você venceu um dos nossos, está ao nosso nível, merece desfrutar de nossa simples hospitalidade.

–O prazer é meu, e... aceito seu convite.

Nívea sorri, mostrando dentes brancos e radiantes. Os caninos eram pontiagudos e perigosamente afiados.

Os lobisomens começam a se dirigir à sua toca, sigo a matilha até uma gruta. Alta e feita toda de pedra, longas rochas pontiagudas desciam do teto e se juntavam no chão. Formando uma boca serrilhada de dentes.

A líder do bando joga o corpo morto em um canto e depois se afasta, logo em seguida, uma briga violenta entre as feras começa pela comida. Nívea senta-se na entrada da caverna, dando a bela vista de um bosque sob a luz do luar.

–Tempos complicados... – ela fala, melancolicamente.

–Concordo. – digo.

–São vampiros despertando por todo canto e devastando cidades inteiras, são lobisomens nascendo e provocando carnificinas... o equilíbrio que antes existia, está se desfazendo.

–Estranho como as coisas mudam e o tempo que todos levam para se acostumar com o novo. – Cruzo os braços e encaro o bosque, o vento noturno me traz certa nostalgia.

–É vampiro de sangue ou transformado?

–Não faço a mínima ideia, tenho poucas lembranças. E você?

–Sou pura, minha família é de linhagem milenar. Apenas estamos muito distantes. Não sabemos o que acontecem com os outros, quando fazemos certa idade, saímos sozinhos e montamos nossa matilha.

–Jeito interessante de construir uma vida.

–É, realmente é...

A briga pelos restos humanos ainda continuava dentro da gruta, sangue e carne voavam para todos os lados. Urros, rugidos e uivos eram lançados a todo o momento. O som era abafado pelas pedras, fazendo que não seja tão irritante.

Um momento de silêncio. Pausa dramática.

–Sabe, ouvi dizer que tem um vampiro tentando juntar a Lâmina de Prata... hunf, essa garotada idiota, odeio esse tipo de gente. – Nívea fala, com desprezo.

–É mesmo? – falo, tentando demonstrar inocência – Acha possível alguém juntar os pedaços?

–Possível até é. Sozinho, provável que não. Depois de eu ver com meus olhos o que um Guardião de Prata pode fazer, é complicado ver um ser matando aquela besta.

–Uma besta? Como ela é?

–Mais adiante nas colinas, um Leão gigante com uma couraça de prata anda. Ele é um Guardião, o rubi na sua testa é uma parte que forma a cruz. Era um lugar ótimo para caçar, agora é um recanto de terror. Nossa matilha chegava a cem lobos, já começaríamos a cavar outra caverna, mas em um dia, em uma caçada, fomos surpreendidos. Foi um massacre, restando apenas eu e mais os cinco ali. A comida já está se tornando escassa e em breve, morreremos.

–Mas se o rubi for retirado, o Guardião morre?

–É, é o que achamos que acontece.

–Mas se o tal vampiro matá-lo, não seria algo bom?

–Algo bom? Um cara pálida acha que é capaz de destruir um bicho daqueles? E como nossa reputação vai ficar? Perderei toda honra e dignidade. Além do mais, não gosto desse tipo que se faz de herói e no fundo tem apenas uma sede por sangue, morte e auto-poder. São cegos, hipócritas e acham que se fizerem tudo sozinhos, serão idolatrados e amados. Idiotas, apenas isso que acho, idiotas.

As palavras me atingiram e aos poucos, fui refletindo. Minha sede por sangue e poder me cegou, mas não vou parar agora. O que comecei, vou terminar. Quando eu tiver toda a Lâmina, não ouvirei mais insolências dessas criaturas. Além disso, quero recuperar meu passado, se Ethel me escolheu para fazer isso, algum motivo há de haver e esse motivo está no passado.

–Em algumas horas irá amanhecer, eu lhe convidaria para uma caçada, mas não encontraria nada a essa hora da madrugada. Pode passar a noite em nossa gruta se quiser, vampiro.

–Agradeço a oferta, Nívea. Mas seguirei viajem...

–E as horas de sol? Não lhe fazem mal?

–Não, por mais incrível que pareça, não. O sol se tornou um pequeno obstáculo que irei superar... em breve.

–Então vá e tome cuidado com o Leão. – após a despedida, ela entra para a caverna, sumindo nas sombras.

Examino o mapa e a direção é exatamente para as colinas. A lupina estava certa sobre o Guardião. Começo a correr, indo o mais rápido que posso para chegar ao lugar antes do amanhecer.

Minha bela cruz de madeira e prata ganhará uma jóia vermelha como sangue. O rubi.