Crônicas Vampíricas - Lâmina De Prata
2 Capítulo 2 - A Memória... Confusa
Notas iniciais
Toda vez que olho pra ela, vejo toda aquela noite em questão de segundos na minha mente. Os olhos azuis me lembram a lua, os cabelos negros, o céu crepuscular e limpo.
Estava um vento de tempestade muito forte, eu tinha cerca de 5 anos de idade e estava abrigado em um posto de gasolina abandonado, não era um grande conforto, mas desde cedo aprendi a viver bem com pouca coisa, apenas o necessário para sobreviver.
Nessa noite, decidi sair para caçar, fazia noites que eu não bebia sangue e não me alimentava nem mesmo de refeições dos mortais. Eu estava definhando aos poucos, as algemas ainda estavam presas em minhas mãos e pés, minha roupa era um trapo negro, e meus cabelos, sujos e compridos até minha cintura.
Saí do posto e comecei a correr pelo pátio vazio, farejei um carro a alguns quilômetros de distância na rodovia, esperar mais um pouco não faria diferença.
–Aonde pensa que vai, monstrinho da noite? – falou uma voz atrás de mim nada convidativa.
Me virei, já sentindo os olhos vermelhos em brasa.
–Bruxa... caça... nossa raça... bicho malvado! – balbuciei devagar.
–E ainda por cima sabe falar, a maioria dos vampiros que caçamos apenas emite resmungos ou cortamos a língua fora. E você? Sozinho e provavelmente com fome, porque não vem provar desse sangue? – disse a mulher, alisando maliciosamente o pescoço.
Minha mentalidade na época era: procurar e me alimentar, sem pensar nas conseqüências. Corri em direção à bruxa, pulei sobre ela, mas bati em uma barreira mágica e fui arremessado dentro do estabelecimento.
–Não se preocupe – disse ela – Logo essa dor vai acabar, você um ótimo escravo. Será difícil eu pensar eu dividir você com as outras.
–Escravo... ruim – balbuciei.
Usei minha força e saltei dos destroços, agora eu investia contra ela em uma velocidade muito superior, porque eu aprendera que correr como um lobo era muito mais útil e eficaz do que correr com apenas as 2 pernas. Saltei, ela ativou a barreira, desviei, indo novamente ao chão depois uma nova investida, tudo isso em questão de segundos. Arranhei sua bochecha com minhas presas, voando por cima de seu ombro e caindo com brutalidade no chão.
–Cão dos infernos! – berrou ela, passando a mão no profundo ferimento – Agora vai sentir o pior da minha ira! – um chicote de luz roxa surge na mão dela e vai diretamente ao meu pescoço, enrolando-se e me sufocando – E agora? Vai desviar, diabinho? O que vai fazer, hein?
Segurei a corda com toda minha força, mas arrebentá-la estava fora de questão. De repente, a corda se solta e a bruxa cai no chão. Eu caio de joelhos, respirando rápido e com dificuldade.
–Não se preocupe, ela não lhe fará mais mal – disse uma nova voz feminina.
–Bruxa... bruxa... malvada! – constatei após farejar o ar.
–Não, eu vou lhe salvar pequeno anjo caído... – então ela segura na minha cintura e me levanta.
Olhos azuis de brilho lunar e cabelos negros como o céu noturno, são essas as únicas palavras para descrevê-la.
–Como você chama? – continua ela.
–Rafael...
–Rafael, um nome de anjo, um anjo poderoso. Mas agora não se preocupe criança, vou levá-lo comigo e você estará a salvo destas bruxas caçadoras, tudo bem?
Acenei positivamente a cabeça.
Então, entramos em um carro, e viajamos até o sol raiar. Chegamos em um construção ampla, como uma espécie de orfanato.
A garota me levava pela mão até um balcão, todas as crianças que estavam sentadas no saguão me olharam, com um olhar de medo e desconfiança. Logo em seguida sou guiado até um quarto com uma cama de solteiro, uma janela grande com cortinas de pano, um armário e um banheiro com chuveiro.
–Esse será seu novo quarto, o 666. Agora você está a salvo, há algumas roupas no armário e pode tomar um banho, eu já volto, vou fazer seus documentos. – ela passa a mão no meu rosto e vai embora.
–Você gostou de tudo isso? – pergunta alguém de algum lugar do quarto.
Um momento de silêncio e vejo que um jovem de cabelos brancos luminosos, olhos vermelhos fulgurantes e trajando um belo terno estava sentado na cama.
–Não se assuste e seria interessante você responder minha pergunta – ele continua.
–Você... vampiro... amigo? – perguntei.
–Sim. Está certo. Vejo que não sabe falar muito bem ainda, mas agora você está encontrando seu destino. Mas seu depender de você ir crescendo aos poucos, nada vai sair como deve. – ele pega nas costas da minha mão direita, imediatamente sinto uma dor cortante, como se estivessem aquecido uma navalha e agora estavam desenhando em mim, mas eu não gritei e tentei não mostrar reação – Essa marca será tudo. Será o poder, os olhos, a chave, o mapa e o futuro. O que irá acontecer agora, só valerá pra agora, aproveite. E boa sorte porque você vai precisar.
Ele então passa a mão nos meus olhos, fechando-os. Quando os abro ele, havia sumido, olhei para minha mão direita e tinha uma marca, um Pentagrama, traçado como uma tatuagem misturada com cicatriz. Senti minha cabeça latejar e depois uma dor lancinante, como se meu cérebro fosse explodir, meus membros começaram a se esticar, meus ossos emitiam ruídos de fraturas, eu estava ganhando altura... então a dor parou.
Cambaleei até o banheiro e vi meu reflexo no espelho... reflexo no espelho?! Vampiros não têm reflexo! Isso deve ser o ‘’momento de agora’’ que o jovem havia falado. Eu devia estar com uns 13 anos de idade, olhos vermelhos como brasa que se ‘’apagaram’’ virando um vermelho-rubro, meus cabelos estavam negros e rebeldes, minhas roupas, pretas de uma forma gótica com detalhes em aros de metal e um coturno. A camiseta não tinha mangas, o que mostrava bem como eram meus braços, até que um pouco atléticos para essa idade. Meus dentes estavam brancos, e minhas presas eram curtas, mas pareciam bem afiadas.
Escutei a porta do quarto se abrir e como que eu explicaria o crescimento de 8 anos em alguns minutos?
–Aqui estão seus documentos – disse a garota dos olhos azuis me entregando um envelope e logo em seguida, um olhar de dúvida, dor e tristeza caiu sobre mim – Sim, então as profecias antigas são reais.
–Você não está surpresa? E que papo é esse de profecia? – perguntei.
–Pra ser sincera, não estou surpresa. Isso já era previsto e profecias, não vale a pena você saber, são apenas uns versos de uma poesia escrita por um poeta louco há muito tempo atrás.
–Se você sabe mais dessas coisas do que eu, o que eu preciso fazer agora?
–Nesse lugar, por muito tempo você não pode ficar, sua sede por sangue logo vai começar, vamos até a floresta, lá seria um bom lugar pra você sumir.
–Como assim? Eu acabei de chegar e já tenho que ir embora?!
–É algo sensato a se fazer, apenas me siga e tudo ficará bem – ela abre a porta do quarto e começa a caminhar. Não vejo outra opção a não ser segui-la.
Andamos por vários corredores, o lugar parecia uma mistura de orfanato, manicômio pelas pessoas berrando e com camisas de força, e um hospital, pelo jeito que algumas salas estavam arrumadas.
Saímos em um pátio bem grande como um campo, havia um parquinho com crianças brincando e uma floresta bem no fim. Fomos direto pra lá.
–Esse é o fim do meu caminho e o inicio do seu. Até, talvez um dia a gente se encontre novamente... – ela disse.
–Estou muito confuso! Por que isso está acontecendo?! Não entendo nada! – falei um pouco alto.
–Não há nada pra você aqui, seja livre. Aprenda a usar a marca que lhe foi dada, aprenda a ser um caçador, aprenda a ser um vampiro poderoso.
As palavras não foram grosseiras, mas tiveram um impacto poderoso em mim e parecia o mais sensato a se fazer. Mesmo confuso, e um pouco em pânico, sei que esse rosto, o rosto de quem em salvou, eu não vou esquecer, nunca.
Acenei com a cabeça, mostrando minha escolha. Aceitar.
–Tchau... – ela disse e se virou, indo embora, mas segurei seu pulso.
–Antes de ir, quero saber seu nome. – ela me olha com um pesar, e sorri.
–Bianca. Meu nome é Bianca.
Fale com o autor