Notas iniciais
Boa leitura!

Alguns dias se passaram. Isabela estava quase totalmente vampira, seus olhos fumegavam vermelhos e suas presas se salientavam. Ela ainda possuía resistência ao sol, mas em breve, apenas a noite seria seu domínio.

João era o garoto, parceiro e pupilo de Bianca. Perdera seus pais em um ataque de lobisomens há alguns anos, agora tinha uma raiva voraz de qualquer criatura noturna.

Os caçadores estavam sentados à mesa, comendo macarrão instantâneo. Eu e Isabela conversávamos em um canto.

–Como você se sente? – perguntei.

–Difícil dizer... – ela fala, olhando em algum ponto distante.

–Alguma dor?

–Poucas...

–Fome?

–Meu estômago está queimando. No meu pensamento, apenas as veias pulsantes dos humanos...

Ela parece aceitar a vida noturna. Já pensava em vitimas, isso era algo notável. Muitos humanos quando transformados, resistem ao máximo em beber sangue humano. Sempre por moralismo e preservação da vida alheia. Alguma hora você é vencido pela fome, seja a necessidade ou o instinto de caça.

–Em alguns dias, sairemos para caçar. Assim eu lhe ensino alguns truques.

–Tudo bem – ela responde, emendando uma risada curta no final.

Olhar Bianca ali, da mesma forma que eu me lembro de tê-la deixado me intrigava. Nenhum fato fazia sentido, a carta de suicídio, nosso reencontro 10 anos depois. Sua aparência não mudara em nada em 10 anos. O corpo continuava bonito, misturando o corpo de uma modelo ao de atleta. Os olhos sempre brilhantes em azul estelar, os cabelos eram lisos e ao mesmo tempo rebeldes. A pele tinha um tom moreno, dando um belo contraste em seu rosto.

–Sabe, não da pra entender esse seu olhar... – Isabela fala, quebrando meus pensamentos – ela pode ser bem bonita, mas não precisa ficar encarando dessa forma.

–Estou bastante confuso com os fatos. Nada se encaixa nada faz sentido.

–O amor é algo que não faz sentido...

Viro meu olhar para a vampira.

–O que você quer dizer com isso? – pergunto, desconfiado.

–Bom... você a olha diferente sabe? Um olhar de interesse e paixão. Eu queria que algum garoto lá no colégio me olhasse assim.

Não estou gostando dos rumos dessa conversa.

–Mas não se preocupe mano, seu segredo está seguro comigo.

–Segredo? Que segredo? Eu não estou apaixonado por ela... é só confuso. Passou-se 10 anos e nada mudou. Meus olhares são perguntas, não declarações de amor.

–Hum... sei.

–Chega desse papo. Vou subir no terraço, depois que eles terminarem de comer, diga que quero falar com Bianca a sós.

–Ui, a noite no terraço... que romântico.

–Isabela... – falo, já irritado com as brincadeiras.

–Tudo bem, eu aviso. – ela levanta as mãos em trégua, mas não tira o sorriso malicioso do rosto. – Estou de olho em você...

Deixo-a falando sozinha. Subo ao terraço.

A noite estava fria, o vento soprava lentamente como uma mera brisa. Poucas estrelas e nuvens, aumentando o resplendor da lua cheia. Ethel estava lá, parado em frente a mureta de proteção. Usava seu impecável terno negro e o ar aristocrático. Olhava para ao longe, contemplando o horizonte noturno.

–Você demorou... – comenta Ethel de forma simples.

–É, as coisas andam bem tumultuadas em minha vida.

Vou até seu lado e coloco meu pé na mureta, olho lá para baixo, não é uma queda muito grande.

–Porque apareceu?

–Sou seu guia, não sou?

–Pode se dizer que sim.

–Então, de agora em diante, as coisas irão piorar.

–Mais do que já estão?... Não duvido.

Meus pensamentos vão se clareando e vou formando algumas hipóteses.

–Quando você me pediu para recuperar a Lâmina, era para salvar Bianca?

–Não. Esse foi apenas um dos motivos para fazer você tomar esse fardo. Há muito mais do que você pode imaginar.

–O que está havendo? E dessa vez me conte tudo.

–Se quer tanto descobrir, é bom se sentar, a história é longa.

–Temos a noite toda.

–Tudo se inicia no século 15. Montanhas da Europa Oriental. Lá se ergui o belo castelo do famoso Conde Drácula. Ele foi o primeiro de nossa raça e...

–Como que ele virou vampiro? – pergunto, interrompendo.

–Eu já disse que odeio interrupção? – ele retruca – Mas essa é uma curiosidade válida. Foi por acidente que o primeiro noturno nasceu. Drácula e uma bruxa estavam fazendo experiências, tentando combinar magia com ciência. A bruxa desenhou um pentagrama em seu peito e começou uma magia. Nada ocorreu. Então, ele mandou matar a bruxa e como era sangue virgem resolveu guardar para novas funcionalidades. Chamou outra bruxa e dessa vez funcionou. Um pentagrama no chão, um já desenhado no peito do Conde e agora o sangue virgem encharcando o chão. Eu não vi a cena, apenas vi o mestre deixando o recinto com a pele pálida e marcada. Sangue escorria de sua boca e seus olhos eram vermelhos. Assim nasceu o primeiro.

–Mas, você o chamou de mestre? Como assim?

–Eu era seu mordomo e criado. Fui o segundo a ser transformado e assim foram, várias pessoas e em pouco tempo, os vampiros nasceram. Uma nova raça.

–Interessante... tudo bem agora continue sua incrível narrativa.

Ethel me olha cínico e continua.

–No século 15 depois da epidemia do vampirismo, os humanos declaram guerra a nós. Essas foram as Guerras Mortais. Humanos versus Vampiros. Prata contra dentes. Em uma noite chuvosa os humanos iam fazer sua ultima investida, eram poucos os noturnos que restavam. Conde Drácula não aceitaria perder. A bruxa que o transformou lhe fez uma nova proposta: uma arma feita do sangue do primeiro para dar fim aos tormentos. Ele tinha uma esposa e dois filhos bebê gêmeos. Ele beijou sua mulher e as crianças. Então fez o sacrifício. Seu sangue pela arma. A lendária, imortal e poderosa Lâmina de Prata foi criada. Nessa hora, humanos entram na sala do trono e matam a mulher. Eu pego as crianças e fujo, enquanto o Conde mata todos com a arma. Naquela noite todos os humanos padeceram junto com o assassino que como último desejo quebrou a espada em cinco pedaços e foram todos espalhados. O molde ficou com a bruxa. Lembro-me de ter fugido com os gêmeos noite adentro até o sol raiar, consegui proteger apenas um, enquanto o outro... o outro...

–O que houve?

Ethel baixa a cabeça e responde dolorosamente:

–Morreu no primeiro raio de sol.

Então essa era a história da Lâmina, falta algo.

–No que isso implica a mim? – perguntei, arrogantemente.

–Você foi quem sobreviveu.

A informação não me atingiu com uma grande surpresa. Já eram as minhas suspeitas. O lendário Conde Drácula é meu pai. Morreu para salvar duas vidas. Sendo que apenas uma agora caminha no mundo. Eu.

–Falta algum pedaço nisso, conte.

–Á respeito do seu passado, sim, há mais um pedaço. Seu nascimento.

Olhei para ele, ansioso pela nova história.

–Meu mestre estava feliz pela paternidade. Mas nasceu você. Enquanto um era bonito e saudável o outro parecia um demônio. Orelhas pontudas, presas longas, parecia um morcego-humano. A bruxa dissera que esse era um dos preços pelo poder, seria a dualidade entre o belo e o feio, o forte e o fraco. Drácula não aceitou e fez o inimaginável, foi até uma igreja, trajando um disfarce de camponês. Pediu ao padre rezas e bênçãos. Foram noites vendo meu mestre se rebaixar aquele estado por um ato de amor. No fim, o garoto estava tão saudável quanto o irmão. Sua aparência era normal para um vampiro. Seu nome foi dado por isso. Um nome celestial. ‘’Rafael’’: ‘’curado por Deus’’.

–Então essa é a verdade... – falei.

Era, sem dúvida, surpreendente.

–Acho que você precisa de um tempo para refletir, sua amiga já está chegando. Cuide-se.

A porta do terraço se abre e Bianca surge, no meu momento de distração, Ethel some.

–Então, o que quer?

Olho para ela com a mente um pouco perdida.

–Me diga, o que houve nesses 10 anos?

–Primeiro me responda porque foi embora.

–Você estava desconfiando de mim, imaginei que isso alguma hora ia nos matar. Sua hostilidade não era legal. Apenas tomei a decisão e fui embora.

–Foi por isso então? – ela me olha, surpresa – Eu estava de TPM, ok? Perdi meu controle e acabei quase me matando.

–Poderia ter avisado, eu seria mais compreensivo.

–Deixe pra lá. Tudo já se resolveu – ela puxa a manga do sobretudo e mostra seu braço – A marca sumiu. Fui curada de alguma forma.

–Nossa, isso é bom, realmente bom. Mas, como manteve a aparência durante os 10 anos?

–Boas poções e boas magias. – ela sorri satisfeita consigo mesmo.

–E a carta de suicídio?

–Carta? Que carta?

Isso já muda os rumos das coisas. Ela não mentia em desconhecer a carta, ela falava a verdade. Ethel pode ter feito isso para eu buscá-la, essa é a única lógica. Mas o efeito não surtiu como ele imaginava, fiquei perplexo e não me mexi para fazer algo.

–Deixe, isso é assunto para outra hora.

–È só isso? – ela se aproxima de mim, suas mãos macias estão no meu rosto, nossas testas se colam e eu coloco minha mão em sua cintura. Nossos lábios estão à centímetros um do outro. – É só isso?

Demorei a entender o significado desse ato. Minha noite foi bem reveladora.

–Lamento interromper... – Ethel ressurge – Agora que fizeram as pazes. Vamos nos mexer. Recomeçaremos. Vocês dois irão em busca dos outros dois pedaços enquanto eu treino os dois novatos de vocês. Em breve, nossa equipe estará pronta.

–Pronta? Para quê? – pergunto.

–Para seu irmão. Ele irá voltar do Mundo dos Mortos. Não sei o que quer. Esse é o propósito de juntar os pedaços da Lâmina. – ele estala os dedos e uma espécie de porta luminosa, um portal surge – Isso vai levá-los aos dois últimos pedaços. Vão... agora!


* * *

Saímos em uma nova floresta. Era densa e cheia possuía uma grande variedade de plantas. Já caminhávamos por horas e não tínhamos achado nada ainda. Recosto-me em uma árvore e deslizo até sentar.

–O que foi? – ela pergunta.

–Estou cansado, a falta de sangue está me esgotando.

Bianca abre seu sobretudo e puxa uma adaga e desliza na palma de sua mão, fazendo sangue escorrer.

–Venha, beba – ela vem ao meu lado e apóia minha cabeça em suas pernas, depois aperta a mão e despeja o liquido em minha boca.

Logo, a ferida cicatriza e a fonte cessa. Eu não estava saciado. Ela já ia abrir um novo corte para me alimentar, mas eu a paro.

–Não, não se corte. Apenas confie em mim. – pego seu pulso e mordo, ela resiste por algum tempo.

Eu bebia com mais força, saboreando minhas presas na carne e minha energia voltando aos poucos. Tentei ao máximo me controlar para não despejar meu veneno e não transformá-la.

Por alguns minutos, eu apenas me recuperava e escutava os sons da noite. Animais andando, pássaros emitindo ruídos, dando paz à minha natureza. Eu a solto.

–Isso machucou um pouco... – ela faz curativos com faixas que estavam nos bolsos do sobretudo. Depois, sacode a cabeça – Estou um pouco tonta... mas o que é tontura para salvar uma vida? – recebo um sorriso.

Sinto uma forte dor de cabeça e escuto a voz de Ethel ‘’ Ela tem sangue virgem, é poderoso. Seu irmão irá querer uma donzela para desperta-lo, andar com esse tipo de gente é perigoso. Há uma solução, você bem entende’’ e a dor para.

Levanto-me com as forças já em um nível normal. Olhei para baixo, pensativo.

–Sabe – começo a falar – Não sei como lhe dizer... não é algo fácil.

Um olhar compreensivo e derramado sobre mim. Inocência e inteligência estampada em sua face. Ela suspira.

–Talvez eu saiba do que esteja falando... É sobre a pureza do sangue?

Ela leu minha mente, essa é a única hipótese.

–Sim, escutei Ethel em minha cabeça, foi isso que ele disse.

–Bruxas virgens são mais poderosas. Sangue puro como eu disse. Sei da solução. Realmente é perigoso impedir um demônio que com esse sangue, ressurgirá mais forte.

–Por que tanta naturalidade com isso? – pergunto, confuso.

–É um problema desde os Tempos Imemoriais. Torna-se natural depois tanto tempo.

–Jeito simples de resolver as coisas.

Bianca me estende a mão e eu levanto. Novamente me sinto fraco e me recosto na árvore. Ela se aproxima e ficamos do jeito em que estávamos no terraço.

–Sabe, se tiver de usar a solução, quero que seja com você...

Inspiro longamente.

–Sabe, aqui não é um lugar muito romântico. Além do mais, meu estado não está nada bom.

–Eu compreendo, mas quero terminar a noite pelo menos com seus lábios nos meus...

Bianca se aproxima lentamente. Toca meu rosto suavemente e me beija de uma forma quente, delicada e gostosa de sentir.

Ela pareceu não se importar com seu sangue em minha boca. Sua língua deslizava por minhas presas. Apertei-a contra meu corpo com mais força e suas mãos deslizaram para meu peito.

A dualidade entre os lábios frios e quentes sob a bela luz do luar.