Crônicas Solares [hiatus]
7 Capítulo 7 - Cabelos: Brancos e Ruivos.
Notas iniciais
Como aquele chalé poderia acomodar mais um? Havia alguns beliches e vários sacos de dormir espalhados por lá. Adamastor explicou que, além dos filhos de Hermes, o chalé abrigava também os campistas que ainda não sabiam quem era seu pai/mãe divino.
O conselheiro do chalé era Carlos, o menino que me resgatou das harpias, ele me deu as boas vindas e uma das irmãs dele me mostrou onde eu poderia dormir. Um entre tantos sacos de dormir ao lado da parede. Ela também me mostrou onde eu poderia guardar minhas coisas, mas eu não tinha nada para guardar (o que era bom, pois me lembrei que Hermes também é o deus dos ladrões, então...) exceto o meu colar, e prefiro ficar com ele.
Tomei banho e me encontrei de novo com Adamastor.
— Você não vai nem trocar de roupa? — ele perguntou.
— Tá brincando, né? Não costumo levar roupa extra pra escola em caso de uma fuga repentina de professores de Biologia.
— É só saber com quem falar. — ele entrou no chalé e saiu com uma camisa, uma calça jeans, um par de tênis, meias e...
— De onde veio isso? — peguei a cueca com um dedo.
— Não se preocupe. Saiu direto da loja do acampamento.
Voltei para o banheiro e me troquei. A camisa laranja do acampamento caiu bem, mas faltava alguma coisa.
— Carlos, teria como você me arranjar um moletom?
— Tá na mão! — antes de pegar o moletom da mão dele, ele disse: — Mas vai ficar me devendo uma, ok?
— Ok! — levantei o zíper quase todo e estava montado o look (nossa, isso não pegou bem).
Fiquei com duas dúvidas: Como ele encontrou um moletom tão rápido e o que ele queria para quitar a dívida, sendo que eu não tenho nada. Depois penso nisso.
— Vamos Adamastor! — falei sorridente. — Não quero a deixar esperando mais um minuto sequer.
Corri tentando encontrar o chalé 31, não devia ser tão difícil. Passava o 30 e se chegasse ao 32 andou demais.
— Hélio, os chalés ficam pra lá. — Adamastor apontava na direção contrária à que eu estava indo. — Aí é o estábulo.
— Bem, isso explica por que tem tantos pégasos aqui. — pensei.
Durou quase uma eternidade, mas finalmente chegamos. Seria uma construção linda de se admirar (Toda feita de gelo, como aquilo suportava o verão eu não sabia, coberta por trepadeiras da base ao telhado. Duas estátuas de urso ladeavam a porta e sobre ela tinha o desenho de uma árvore seca) se eu não tivesse algo mais interessante a fazer.
Bati na porta e um garoto, um pouco mais novo que eu, de olhos negros e cabelos totalmente brancos a abriu.
— Oi, poderia chamar a Dany?
— Ela não está. — respondeu secamente.
— E sabe pra onde ela foi?
— Sei.
— E... Poderia me dizer?
— Não. — ele fechou a porta bruscamente.
Não tenho uma lista negra, mas esse cara acaba de me fazer criar uma.
— Vamos ao lago de canoagem. Se ela não estiver lá, com certeza vai estar nos campos de morango. — falou Adamastor.
Quando nos aproximamos notei alguém quase deitado perto da margem do lago.
— Hã, Você se incomoda em...
— De forma alguma, eu sei que é o momento de vocês. — Adamastor saiu trotando.
Me sinto mau por isso, principalmente depois de tudo que ele fez, mas que ainda me sinto estranho com a companhia dele. Uma parte de mim não tinha perdoado ele totalmente.
A cada passo uma reflexão. Será que estou certo em ir atrás dela? Depois de tudo o que eu disse ela ia me perdoar? O que eu diria?
— Quem está ai? — ela se virou repentinamente e me viu perto dela. — Hélio?
Ela se levantou e veio em minha direção.
— Oi, Dany! Bem, eu... Quer dizer... Eu fui um idiota por não ter confiado em você...
— shhh! — ela me calou colocando um dedo em meus lábios. — Eu sei.
Ela tinha todos os motivos para nem querer mais olhar na minha cara. Não sabia muito sobre relacionamentos, mas sei que eles são baseados na confiança.
— Adoro a cara de bobo que você sempre faz.
Essas foram as últimas palavras pronunciadas em muito tempo. Quando a boca dela encontrou a minha, o passado não tinha mais importância. Muita coisa mudou em minha vida, mas acabo de encontrar novamente algo que estabilizava meu ser, algo que pensei ter perdido para sempre. Ela era outra, eu era outro, no entanto nossos corações ainda eram os mesmos.
Nem vimos o resto da tarde passar. Logo já era pôr-do-sol. O mais lindo que já tinha visto. Dany disse que deveríamos voltar. Quando ela se levantou notei algo diferente no cabelo dela.
— Dany, seu cabelo está... Branco?
— Oh, isso? É a benção da minha mãe.
Vocês podem dizer que eu deveria ter notado isso na hora que a vi, mas, sinceramente, déficit de atenção não me ajuda a reparar nos detalhes.
— Você já sabe que é sua mãe?
— Sim. Despina.
— Mas, isso não é um meme da internet? — ela riu.
— Não é Derpina, é Despina. Se eu fosse você não repetia isso. Deuses podem estar em qualquer lugar.
— Quem é Despina? — o nome não me era estranho. Já devo ter ouvido sobre ela em algum lugar.
— Deusa do inverno. Ela é filha de Deméter e Poseidon, irmã de Perséfone. Tem um irmão gêmeo chamado Arion.
— O cavalo? Ela é irmã gêmea de um cavalo?
— Ciclopes são filhos de Poseidon, Pégaso nasceu do sangue da medusa, Atena brotou da cabeça de Zeus. O mundo grego é estranho, Hélio.
Enquanto Dany me falava um pouco mais sobre alguns mitos gregos estranhos duas meninas passaram por nós cochichando e olhando com desprezo para nós.
— O que há com elas? — notei que Dany retribuía o olhar.
— São só recalcadas do chalé de Deméter. Sabe, minha mãe nunca se deu bem com os pais. Acho que essa rivalidade passou para os filhos também. Meus irmãos não se dão bem com os filhos de Deméter, nem com um tal de Perceu, filho de Poseidon.
— Entendo. Então é briga de família.
Fui rápido o suficiente para segurar ela antes de cair. O pé dela estava preso em uma planta.
— Odeio quando elas fazem isso.
— Isso foi culpa daquelas meninas?
— Sim. Não gosto de revidar, mas elas pediram. — Dany passou a mão na planta que amarrava seu pé e ela secou imediatamente. Depois ela olhou para as filhas de Deméter.
O chão onde elas estavam congelou e uma caiu sobre a outra como dois sacos de batata.
— Uau! — não sei se ria com o tombo das meninas ou me impressionava com os poderes de Dany. — Eu já disse que você é demais?
— Já! Agora vamos. Não quero perder as apresentações da fogueira.
Acompanhei-a até o anfiteatro. Parece que tínhamos chegado cedo, pois só tinha uma menina no lugar. Ela parecia ter uns dezessete anos. Estava em frente à uma pequena chama, talvez o início do que seria a fogueira. As chamas destacavam o rosto sardento e o cabelo ondulado ruivo da escuridão da noite. Sua boca mexia lentamente como se estivesse murmurando algo.
— Droga. Nada ainda? Apolo, porque eu não consigo ver nada? — ela chutou as cinzas e apagou a fogueira.
— Olá Rachel! — saudou Dany. — O que houve?
— As visões estão ficando cada vez mais difíceis desde que os deuses se retiraram. Parece que o futuro está se obscurecendo cada vez mais com a falta de Apolo.
— Como assim os deuses se retiraram. Acabei de saber que eles existem e você me diz que eles sumiram de novo? — perguntei.
— Com a ameaça de Gaia eles simplesmente... Puf! Nada de deuses. Parece que nem mesmo a conexão de Apolo com seu oráculo foi poupada. — explicou Dany.
— Vo-cê é...
— O oráculo de Delfos, prazer. — ela estendeu a mão pra me cumprimentar.
— Hélio Santos. — quando eu agarrei a mão dela senti um mal estar.
Minha percepção das coisas ao redor foi se esvaindo e uma fumaça esmeralda começou a girar em torno de mim e Rachel. Os olhos dela começaram a brilhar e ela falou com uma voz metálica e antiga:
“Inverno e natureza o arqueiro acompanha, em busca da terra onde brilha a chama. Quatro seguem o caminho indicado pelo jovem peregrino que se mostra aliado. Traição e vingança a quem fizer sua parte e da lama e do lodo o anti-gêmeos renasce.”
Caí de joelhos atordoado quando soltei a mão de Rachel. Ele olhava pra mim surpresa, seus olhos não brilhavam mais. A fumaça esmeralda se dissipava lentamente.
— O que aconteceu, Rachel? — Dany sacudia Rachel assustada.
Rachel deu uma última encarada em mim.
— Avise a Quíron que temos uma profecia.
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