Crônicas Saxônicas Três

3 896 DC - INVERNO DO ANO SETE


Parte dessa história fala sobre Ragnar, quando veio a Sninngthwait para juntar forças e atacar Dunholm, a fortaleza inexpugnável de Kjartan. Mas para que ele chegasse a Kjartan, precisávamos do auxílio de um homem poderoso. Então, pousamos em Synningthwait, perto de onde cresci, onde fui amado e educado por um dinamarquês que me raptou de Bebbanburg, mas a quem amei como pai verdadeiro: Ragnar, o velho. Foi ali que também vi o castelo dele queimar com toda sua família dentro.

A neve cobria todo o vale de Synningthwait e as casas até as bordas dos telhados. Era a pior nevasca de todos os tempos, pelo que ouvi dizerem, e as lareiras e fogões a lenha não paravam um segundo sequer, podia-se ver suas indicações partindo das inúmeras chaminés ao longo do povoado dinamarquês.

Quando chegamos era tarde da noite, mas fomos recebidos pelo próprio ­Earl ­Dagfinn, senhor daquelas terras agora, que nos deu abrigo, comida e bebida. Eu tinha levado comigo Gisela e nossos filhos, porque, assim como outros homens, temia uma vingança a Wessex por parte dos dinamarqueses, e não quis arriscar a vida de minha família pela honra de Alfredo. Ficamos hospedados ao lado da casa de Dagfinn, seus servos a prepararam com rapidez, e não demorou muito para estarmos arranjados e debaixo de grossos cobertores felpudos. Na manhã seguinte veio nossa verdadeira recepção: um grande banquete, porque Dagfinn estava do nosso lado, apesar de não ter rixa alguma com Kjartan, não gostava da crueldade que ele usava contra o povo dali, fosse pagão ou cristão — e Kjartan odiava clérigos, punindo-os da pior forma que se pode imaginar.

Já à mesa, fui surpreendido não pela comida e muito menos pelos fortes guerreiros que faziam parte da guarda de Dagfinn, mas, sim, pela mulher alta de corpo com curvas sinuosas, de longos cabelos marrons presos apenas na frente, que caiam lisos e brilhosos como água calma sobre os ombros, ao lado dele. Era Grisilla, a mulher de Aeldred de Eoferwic. Bem, agora era Grisilla Gunnarsen, mas continuava tão linda quanto antes, embora já devesse ter mais de 25 anos. Fiquei embasbacado com a forma com que ela tratava Dagfinn porque era só gentileza com ele. E a ela Dagfinn sorria e elogiava. Então senti uma cotovelada e olhei para o lado, era Gisela chamando minha atenção, pedindo que eu fosse um pouco mais discreto ao invés de inconveniente. Sorri para ela, envergonhado, e voltei a falar com Ragnar, que estava ao meu lado, tão interessado na esposa de Dagfinn quanto qualquer um de nós.

Grisilla não me reconheceu, também nem poderia, mal falei com ela quando ainda morava em Eoferwic, nem havia porque falar. No entanto, ela e Gisela se tornaram grandes amigas. Tinham muito em comum, eram inteligentes, espirituosas e adoravam longas caminhadas pela beira gramada do rio que ficava nos fundos de nossas casas. Também tinham filhos da mesma idade, que brincavam juntos durante todo o dia. Grisilla não trabalhava, vivia apenas para o marido e filhos, por isso tinha tempo de sobra para visitar as outras mulheres e ajudá-las. Para mim, era estranho que uma mulher não fiasse, mas levando em conta o quão rico era Dagfinn, não importava.

Fiquei interessado na história dos dois, de Dagfinn e Grisilla, porque, em geral, as mulheres raptadas ou passavam de mãos em mãos ou eram rapidamente substituídas quando com 20 anos, porque eram consideradas velhas demais. No entanto, Grisilla continuava viva, cheia de graça e com quatro belos filhos: Gunnar, Jerrik, Einar e Peder, e um quinto em seu ventre, que já aparecia sob as vestes.

Nós, homens, saíamos todas as manhãs antes da alvorada para estudar a inexpugnável Dunholm. Quando retornávamos, a mulher de Dagfinn nos recebia em sua casa com honrarias: muita comida e bebida. Eu não fazia idéia do porque, mas foi Gisela quem me contou: a mulher de Dagfinn exultava quando voltávamos com a cara amarrada porque tinha a certeza de que não seria naquele dia que perderia o marido para a batalha.

Num dia, porém, demoramos a retornar, e quando finalmente chegamos, não houve recepção. Possivelmente, Dagfinn já sabia que não seria recebido com pompa. Passei pelo ferreiro, tinha deixado minha espada para que ele colocasse uma nova empunhadura, e me dirigi para casa. Estava exausto, molhado e fedendo, e o que mais queria era um banho e um abraço de Gisela. Em casa era só silêncio, os criados deveriam estar nos estábulos ou no rancho de grãos, moendo. Entrei pela frente, deitei as espadas e o escudo num canto e retirei a armadura e a conta de malha. Massageei o pescoço e chamei por Gisela, mas ninguém respondeu. Então ouvi vozes vindas da cozinha, logo em seguida, gargalhadas ecoaram. Achei-as divertidas e espiei pela fresta do cortinado para ver quem estava com Gisela.

Mais gargalhadas.

— Então ele me trouxe por mar. Eu juro que queria me afogar de desespero. Não parei de chorar desde que partimos de Eoferwic. Alguns homens se irritavam fácil com o choro das mulheres e batiam nelas, deixando-as feridas, mas caladas no convés.

— Ele nunca bateu em você? — Gisela perguntou arrumando o fio na nova roca.

— Dagfinn? Nunca. Ele é um homem muito paciente. Durante toda viagem foi sempre ele quem me trouxe de comer e beber. Eu sentia muito medo dele e o odiava por ter me raptado. Mas jamais dei motivos para que ele me batesse, apesar de chorar como uma tola.

— E quando foi que você percebeu que gostava dele? — Gisela pediu, fazendo a outra parar de enrolar os fios de lã pronta e virar os olhos para a janela.

— Foi aos poucos, com as gentilezas deles para comigo — ela voltou a olhar para Gisela, mas não via nada a sua frente senão lembranças. — Ele soube me conquistar como sabe conquistar seus homens, como sabe conquistar vitórias — e sorriu. — Mas tive certeza de que o amava na primeira vez em que ficamos sozinhos em nossa casa.

“Ele a construiu para mim e para minhas duas aias. Foi nela que me prepararam para o casamento com ele e foi nela também que tive minhas núpcias. Eu ainda me sentia uma prisioneira e estava desesperada, porque ele jurara no dia em que me conheceu que nos casaríamos. É claro que eu preferi a morte naquele dia, mas Dagfinn jamais soube. E foi bom que não soubesse, porque o que sinto por ele hoje vai além do que jamais senti na vida. E na madrugada de núpcias, ele me carregou para casa, porque chovia e ele não quis que eu sujasse meu vestido. Levou-me ao quarto, colocou-me de pé diante dele e, por fim, sorriu. Foi nesse momento que o amei. Um sorriso como aquele não pode ser falso. Não pode ser em vão. Sorri em resposta e ele tocou meus cabelos soltos dizendo que jamais teria de prendê-los, mesmo agora que estava casada, porque ele queria me ver sempre bela. Ele adora meus cabelos. Então ele me beijou e eu me esqueci do mundo. Meu coração acelerou e desejei não ter conhecido outro homem antes dele, embora Dagfinn jamais tenha me perguntado sobre o tempo que passei em Eoferwic. E fomos felizes. Somos felizes. Ele é um homem excepcional e rezo todas as noites por Deus tê-lo enviado a mim. Porque ele o enviou a mim, com absoluta certeza, senão eu jamais teria tido filhos. E não são belos os meus filhos?”

As duas gargalharam e Gisela concluiu:

— É um bom homem.

— É — Grisilla arrastou a palavra e as duas gargalharam novamente.

Derrubei sem querer o grande vaso ao meu lado e ainda vislumbrei as duas voltando os rostos para a cortina antes de praguejar alto para que soubessem que era eu e não desconfiassem que eu estivesse ouvindo-as. Entrei na cozinha, as duas me olhavam como se estivessem aprontando alguma travessura.

— Senhor Uhtred — Grisilla exclamou de repente, como que acordando de um sonho. — Todos estão de volta?

— Sim, senhora — respondi. Ela mal se despediu e correu, pela porta dos fundos mesmo, para sua casa.

***

Foi no final do inverno que marchamos a Dunholm. Bem, marchamos é modo de dizer porque, na verdade, vadeamos sorrateiros pela umidade que o clima ameno trazia. Escondemo-nos na pequena floresta no lado leste da fortificação. Todos estavam terminantemente proibidos de irem à orla, Dagfinn, e muito menos Ragnar, não queria que fôssemos vistos.

Tudo não demorou um dia. Entramos num pequeno grupo, assaltando soldados inadvertidos, enquanto o grande contingente marchava contra o portão principal. Fomos descobertos, depois de algum tempo. Houve gritaria, sangue e morte. Também houve reencontros, ira e vingança. A irmã de Ragnar, Tyra, que tinha sido feita prisioneira por Kjartan há muito tempo atrás, foi quem surpreendentemente nos ajudou, apesar de quase ter dado fim no irmão tamanho era seu desgosto por ter sido deixada ali.

A notícia da captura de Dunholm correu rápida e Alfredo chegou uma semana depois, envolto por pompas e seus clérigos. O genro de Alfredo, Aethelred quis a cidade fortaleza para si, mas Alfredo acreditou ser certo dá-la Ragnar. Os motivos poderiam ter sido muitos, mas acredito que Alfredo tenha simpatizado com o dinamarquês quando o havia feito prisioneiro anos atrás. Com o rei vieram outros senhores saxões, na intenção de reaver cidades dominadas pelos pagãos, como Eoferwic, mas Alfredo garantiu ao Earl Dagfinn que, por ele ter prestado ajuda a seus homens, Synninghtwait não lhe seria tomada. E Dagdinn agradeceu, mesmo que não lhe aprouvesse fazê-lo, porque tinha homens suficientes para derrotar os cristãos em suas terras, se assim quisesse.

Alfredo não deixou que uma revolta se iniciasse, passou grande parte de seu tempo com Dagfinn, caçando e passeando pelos arredores, para que o dinamarquês não se sentisse ofendido com a intromissão em suas terras. Afirmou a ele que seus homens precisavam apenas de descanso e comida por alguns dias, até organizarem um plano para reaver Eoferwic. No entanto, entre os homens de Alfredo estava o próprio senhor usurpado de Eoferwic, o ealdorman Aeldred Hodenc, e ele não demorou a descobrir quem era a esposa de Dagfinn.

Jantávamos, naquela noite, em Synnightwait. Os mais abastados na presença de Alfredo e Dagfinn, os outros, diante da grande fogueira no centro do povoado. Poucas mulheres foram vistas desde a chegada dos cristãos; não que elas temessem suas espadas, mas os dinamarqueses estavam receosos por um ataque surpresa, mesmo que seu senhor afirmasse que tudo estivesse bem. A algazarra começou na casa principal, a qual os dinamarqueses usavam como salão de festa. Algumas mulheres correram para fora gritando, outras barravam um grupo de saxões que tentava adentrá-lo. Uma das servas de Dagfinn passou por nós e, logo no mesmo instante, Gisela apareceu descabelada.

— É Grisilla — ela ajoelhou por conta de seu cansaço, tinha corrido o mais rápido que pôde para me avisar.

Levantei rapidamente e segui até o salão. Fitei a casa de Dagfinn, onde ele jantava com Alfredo, o silêncio a atingira. Gisela me empurrou para junto dos saxões e eu me espremi entre eles, urrando que era o comandante e queria passagem. Lá dentro, de joelhos, estava Grisilla e, diante dela, Aeldred, com a espada em punho.

— É assim que me agradece por tudo que lhe concedi? Você se deita com o pagão e lhe dá filhos? Sua porca!

— Senhor — gritei para que ele me visse e parasse de agredi-la, mas Aeldred não me deu ouvidos, pegou Grisilla pelos cabelos e a fez ficar de pé.

— Vagabunda — urrou e a esbofeteou. Ela cambaleou, mas não caiu. Atrás dela estavam as aias chorando. — Vou levá-la a Eoferwic e então a castigarei, e você irá rezar para jamais ter nascido.

Então chegou Dagfinn.

Ele abriu caminho com os braços, empurrando com força os que estavam diante dele — a maioria lhe dava espaço porque era um gigante -, e se postou entre Aeldred e Grisilla.

— Se a tocar novamente eu o mato — rosnou por entre os dentes. Mas ele não tinha espadas ou qualquer outra arma, enquanto Aeldred tinha duas.

— Afaste-se, seu bosta. Esta que está aí atrás é a minha mulher. Foi tirada de mim em Eoferwic por um de seus homens, e eu irei levá-la de volta para casa, custe o que custar.

— Não — ele disse com os braços na cintura. — Essa que está atrás de mim é a mãe de meus filhos, logo, é minha mulher!

Aeldred pareceu não compreender de imediato, mas de repente se deu conta das palavras de Dagfinn e atiçou sua espada contra o dinamarquês. Grisilla gritou. Dagfinn ergueu o braço e desviou a estocada com o protetor de metal do antebraço, e voltou a encarar Aeldred.

— Por que não me enfrenta como homem? — pediu Dagfinn. Mas Aeldred não respondeu. — Se quiser sua mulher, se acredita que ela seja sua, então vamos lutar de igual para igual.

Grisilla o segurou pelas costas, mas Dagfinn a empurrou para perto das aias e demarcou o chão do salão com várias lanças. Agora seria a prova. Somente um bom guerreiro sabia lutar na pequena arena e somente o melhor sairia vivo.

Não havia porque temer, Dagfinn era imenso, forte e poderoso, já era certa sua vitória. No entanto, Grisilla chorava com o rosto escondido nas saias de suas aias, que tentavam a todo custo animá-la, porque bem conheciam seu senhor.

Alfredo apareceu no salão e foi inteirado do ocorrido. Ele fez o que acreditou ser o correto, e muitos de seus homens também acreditaram, disse a Dagfinn que a mulher pertencia a Aeldred e que este deveria tê-la de volta, mas vendo que Dagfinn era irredutível de sua decisão, Alfredo chamou Grisilla até o centro da arena. Ela se aproximou secando as lágrimas e parou diante do rei inglês. Alfredo sorriu ao vê-la, bem se lembrava da beldade e inteligência da jovem que conhecera em Eoferwic, depois colocou sua mão sobre o ombro dela e a chamou:

— Senhora Grisilla, queria me dizer, por favor, de onde a senhora vem? — perguntou Alfredo com paciência.

— Eu... eu...

— Não é verdade que é inglesa?

— Sou — respondeu em tom baixo.

— E não é verdade que é cristã devota?

— Sim, alteza — e baixou a cabeça então.

— Logo, o que fazem estes pagãos não é de seu agrado — continuo Alfredo fitando Aeldred, e vendo que Grisilla não tinha resposta, continuou: — Deve se sentiu horrível em companhia deles, não é?

Nesse ponto ouvi chiados e berros do fundo do salão, além de advertências por parte dos dinamarqueses. Eu fitava Dagfinn, mas ele tinha ar despreocupado, como se soubesse que aquilo tudo não passasse de uma grande brincadeira.

— Então, senhora, se é inglesa, cristão e se sente em outro mundo junto dos pagãos, é certo que voltará para casa com seus filhos — foi uma forte afirmação por parte de Alfredo, que fez Grisilla levantar os olhos para Dagfinn.

— Por que, meu bem, não diz a esse rei o que você é? — Dagfinn falou em voz tênue e sincera.

Grisilla sorriu para o encorajamento de Dagfinn e voltou-se para Alfredo.

— Eu sou inglesa, com coração nórdico, sou cristã que ama pagãos e tenta guiá-los, mas dentre os ingleses jamais me senti tão bem quanto me sinto aqui.

Alfredo arregalou os olhos com as palavras francas e viu-se diante de um impasse quando ela continuou a falar.

— Dagfinn Gunnarsen é o pai de meus filhos e o homem que Deus destinou a mim.

O destino é inexorável. As fiandeira que tecem nossas vidas são assim: gorjeiam , gracejam e por um tempo nos fazem felizes, então, retiram nosso chão e nos arrastam na lama.

Aeldred brandiu a espada, urrou e foi para cima de Dagfinn. Alfredo cambaleou para trás, enquanto Grisilla correu para o lado oposto da arena improvisada, onde se enfiar atrás dos amigos de Dagfinn. Aledren teve seu golpe desviado pela espada do dinamarquês e sentiu um baque tão forte na Mao e no braço, quando as duas armas se chocaram, que gritou alto. Dagfinn soltou uma gargalhada hilariante e seus homens o acompanharam. Furioso e envergonhado, Aeldred segurou a espada com as duas mãos e a girou contra Dagfinn, mas este meteu sua espada dentro do giro da espada oponente e forçou a para baixo, então, Aeldred soltou a espada, porque a força do dinamarquês era muito superior a sua, e viu-se sem qualquer arma, já que numa luta daquele tipo não se usavam escudos.

— O que vai fazer agora, senhorzinho? — Dagfinn cantarolou, arrancando gargalhadas de todos, eu mesmo não me contive. — A mulher é minha, não há o que contestar.

Dagfinn afastou a espada e estendeu a mão para o inglês, na intenção de selar o acordo. Aeldred, no entanto, cerrou os olhos e vociferou: É melhor me matar, ou então tornarei a este lugar e matarei todos! Dagfinn apenas fitou Alfredo e esperou que o rei dos ingleses desse uma resposta.

— Pegue sua espada, Aeldred — disse o rei. Percebi que Alfredo temia que os dinamarqueses se voltassem contra ele. Temia que Ragnar os deixasse entrar em Dunholm e nunca mais outro inglês pisasse naqueles campos. — Tome-a e lute! Lute por sua mulher, se é que ele é mesmo sua.

Não foi preciso repetir, Aeldred empunhou a espada e se lançou novamente contra Dagfinn. E o gigante revidou com fúria, sem vontade para rodeios, e lançou a espada de Aeldred há longos metros de distância, então girou a espada duas vezes e quando estava para aplicar o golpe final, Grisilla intercedeu. Meu coração estarreceu, pois parece a mim que Dagfinn iria atacá-la como se ela fosse uma inimiga. Ela colocou a mão sobre o largo braço de Dagfinn, murmurou alguma coisa, e se dirigiu a Aeldred.

— Senhor, não quero que lutem até a morte por mim. Desejo apenas que se faça justiça porque nem eu nem o senhor temos culpa do que aconteceu — ela disse com uma voz fininha, para que somente Aeldred ouvisse, mas estávamos próximos, não havia como não ouvir. — Sinto muito pelo que o senhor passou esses anos todos afastado de seu castelo e de tudo o que o senhor mais ama...

Aeldred quis falar, mas não conseguiu. Talvez porque as palavras dela lhe doíam na alma, talvez porque ela ainda continuava a mesma menina com quem se casara um dia.

— Suponho que seja muito fácil para um homem bom e generoso como o senhor conseguir uma esposa mais nova e mais bela. E será ainda mais fácil perdoar-me, pois já não posso deixar este lugar. Não que não fui feliz ao ser lado. Não, não é isso. O senhor foi muito bom para mim. Acontece que eu sempre quis ter filhos e o senhor não mais. E aqui eu os tenho e amo-os mais do que qualquer coisa nessa vida. — Ela parou bem perto dele, ajoelhou-se e encostou os dedos nos pés dele. — Pelo amor ao que lhe é mais sagrado, senhor, permita que eu permaneça com minhas crianças.

De início Aeldred sentiu ódio e repulsa por Grisila, mas então, depois de ouvir a tão conhecida e saudosa voz, ajoelho-se também e, tomando o rosto dela com as mãos, soltou um meio sorriso.

— Você ama mesmo essa gente? — ele quis saber com a voz embargada, baixa. — Porque parece tão bem. Parece que a trataram bem...

— E trataram, senhor. Mas não se lamente. Foi o destino, a mão de Deus que nos separou. Se eu não tivesse sido trazida para cá, talvez o senhor não tivesse encontrado auxílio para retomar Eoferwic...

Aeldred levantou bruscamente, respirando fundo — eu sabia o que ele sentia, porque eu também já senti a dor da perda quando perdi minha primeira mulher para Ragnar -, aproximou-se de Dagfinn, fez uma breve reverência e, depois de recolher sua espada, entregou-a ao oponente vencedor.

***

Os ingleses partiram todos com Alfredo. Fui convocado também, mas decidi ficar por mais algum tempo para conseguir um local a salvo para Gisela e meus filhos, pois não os levaria comigo. Quando estivesse tudo arranjado para mim, encontraria o exército de Alfredo na baixada antes da primeira floresta de Eoferwic.

Notas finais
Nota do autor:

Na era medieval, a idade para uma mulher se casar era de 13 anos. Com 20 era considerada mulher, sendo velha demais para o casamento se fosse solteira. Era raro encontrar vivas mulheres com mais de 30 anos que tinham vários filhos, porque a morte ao dar a luz era uma das principais causas de óbito entre as mulheres daquele tempo.