O sol brilhava intensamente sobre uma clareira habitada por uma comunidade de coelhos. Eles estavam ocupados com várias tarefas, desde a elaboração de túneis até a colheita de ervas e cogumelos, bem como a vigilância das fronteiras. Se algum perigo surgisse, eles imediatamente correriam para suas tocas e lançariam projéteis venenosos em qualquer intruso que ousasse colocar o nariz nas entradas. Parecia apenas mais um dia normal para eles.

No subterrâneo, encontrava-se Mahãk, a filha mais nova do chefe leporídeo, Arãk. Ela não tinha permissão para sair muito, pois seu pai só permitia que os filhos machos saíssem para buscar suprimentos e patrulhar as fronteiras. No entanto, Mahãk era habilidosa em misturar e reconhecer ervas.

"Este é o décimo dia, certo, senhora Orama? Não precisa mais disso. Em breve, a senhora ficará boa", disse a coelha jovem.

"Obrigada, querida. Já me sinto muito melhor", respondeu a senhora leporídea, saindo vagarosamente da toca.

Ela guardou a erva que acabara de usar e saiu para fora. Avistou um dos seus irmãos vigiando a parte sul da clareira e foi conversar com ele.

Era um leporídeo grande para a espécie, suas orelhas e testa eram escuras e o resto do corpo era rajado. Ele vestia uma tanga e segurava uma Zarabatana, uma espécie de cano que, com o sopro, lançava projéteis. Os dos coelhos geralmente tinham veneno.

"Boa tarde, Chaun. Dando duro aí na vigília?" — ela falou com uma voz irônica.

"É um trabalho sério." — Ele respondeu sem dar muita atenção à irmã.

Mahãk se jogou nas costas dele e começou a amassar suas orelhas.

"Sai! O que você quer? Passear por aí, aposto. Nem pensar." — disse ele, depois de conseguir se desvencilhar.

"Como sabia?" — disse ela frustrada.

"Papai não está na toca, você deve ter terminado seus afazeres e agora está aqui me chateando. Muito previsível."

"Por que não? Eu só quero dar uma volta perto do rio. Eu queria... ver um negócio."

"Arasil voltará hoje à noite. Ele mencionou que por enquanto é muito arriscado sair. Os Onca podem retalhar a qualquer momento." — Ele voltou a prestar atenção na direção sul.

"Se eles podem retalhar, eles vão vir aqui, não no rio, certo? Então estarei mais segura ainda longe da toca. Não concorda?" — ela começou a rodeá-lo.

"Não. Além do mais, se Arasil ou o papai chegarem e você não estiver aqui, eu serei culpado."

"Eu volto antes, juro, juro, juro!" — ela juntou as mãos implorando.

Ele apenas acenou negativamente com a cabeça. Ela respirou fundo e disse.

"Posso marcar um encontro com a Tainá e subitamente não aparecer, mas você estará por perto e terá uma chance de conversar a sós." — Ela continuou rodeando.

Chaun ficou um pouco sem jeito.

"Se... sério? Mas você não vai demorar mesmo? Será que a Tainá ficará chateada se me vir?" — Ele começou a corar e olhar para a toca tentando encontrar essa leporídea.

"Confie." — Mahãk estendeu a mão.

"Nesse caso, tudo bem. Só não me dê problemas." — Ele também estendeu a mão, e logo em seguida a irmã o abraçou.

Ela cumpriu a promessa, encontrou a coelha Tainá e disse que tinha algo para mostrar, para que ela se encontrasse mais tarde na toca onde guardavam as ervas. Depois, pegou sua bolsa e correu em direção ao sul.

Caminhando na densa floresta tropical, todo tipo de criatura alada emitia sons ao longe, insetos enormes rastejavam nas copas das árvores e bichos inomináveis se escondiam nos grandes charcos e riachos. O silêncio nunca tocava a vida vicejante dali.

Mahãk colhia cogumelos, fungos e outras coisas que achava interessantes. Não estava muito longe de sua toca, afinal, os perigos espreitavam de todos os lados. Até que achou um canteiro bom para coletar.

‘’Bem, acho que vocês estão aprendendo, não?’’ — Ela colhia com toda delicadeza para não danificar o caule de alguns cogumelos, queria apenas o fruto ou a "cabeça" deles. E outros puxava até a raiz.

‘’De tanto arrancá-los, eles estão crescendo mais afastados uns dos outros, aumentando a chance de sobreviver? Será que é por isso mesmo? ‘’- Ela observava as cores vivas e chamativas deles. Tons de vermelho, verde e roxo.

Parou um pouco, suas orelhas felpudas haviam captado algo. De todos os sons vivos que havia ali, ela tinha que saber distinguir os que podiam lhe tirar o fôlego. Aprendia essas lições de sobrevivência com seus irmãos. Olhou para os lados para avistar algum perigo e, por mais tentador que fosse explorar a floresta, não podia se dar ao luxo de se encantar por ela.

Ainda alerta, voltou sua atenção ao canteiro. Se fosse para correr, não poderia ser aleatoriamente. Seu irmão mais velho ensinou a não se movimentar em vão se quisesse sobreviver. Tinha que saber de onde vinha o perigo, então voltou ao seu afazer.

‘’Correr para aquela toca escura de novo... Eu estou cansada, sabe? Tanta cor aqui, tanta vida’’. — Ela pensou. — ‘’Apesar da maioria querer me devorar.’’ — Ouviu algo, definitivamente havia alguém próximo. Seus ouvidos nunca a traíram, até agora.

Lentamente, foi fechando sua bolsa feita com folhas e raízes secas. Ela já havia coletado o suficiente para um passeio casual.

''Strack'' — um graveto partido.

Agora sabia exatamente onde estava seu predador. Talvez pudesse até chutar qual tipo era: dois metros, bípede, magro, garras maiores que os dentes.

Ela pensou em uma rota de fuga. Podia esperar o bote para se desviar ou podia começar a correr antes para surpreender seu inimigo. Podia até começar a conversar com ele, vai que entendesse? Tantas coisas passavam na cabeça dela, era difícil escolher. Queria fingir que estava tranquila com isso, pois acreditava na sua capacidade de correr, ou era apenas um desejo indiscernível de sentir outra coisa? A dúvida apertava.

O bote veio. Era um réptil magricela e fucinhento, de coloração verde-amena. A coelha saltou na direção do ataque, passando entre o pescoço e as garras. O caçador tentou mordê-la no ar, mas como não esperava, foi uma tentativa desengonçada e frustrada. Ela usou as costas do algoz para pegar impulso e começar a correr na direção que ele veio. A perseguição começou.

O inimigo era rápido. Numa corrida plana, ela eventualmente seria alcançada, então usava as plantas e obstáculos inumeráveis da selva para despistar e, aos poucos, atrapalhar a visão do perseguidor. Poucas eram as estradas da selva. No geral, os caminhos precisavam ser explorados cortando e atravessando o matagal. Com frequência, zigzagueava por baixo de alguma folha grande que tampava quase todo o seu corpo ou uma fruta colorida, que por alguns instantes confundia a criatura sedenta, o suficiente para manter distância. Mas isso não funcionaria para sempre. Conforme fazia suas acrobacias, o réptil atacava com mordidas, cortando o ar muito perto de suas orelhonas. O bicho estava pegando o jeito rápido de persegui-la.

Até que sua audição captou outros passos rápidos, mais pesados, mais vorazes, quadrúpede, mas...

"Aaargh!"

Outra mordida, dessa vez sentiu o calor do hálito. O desespero louco que pulsava da criatura era quase audível. Rosnava e rugia atrás da presa. A pequenina continuou correndo o máximo que pôde, mas começou a cansar. Ela pensou em subir na árvore e continuar saltando para fugir. Talvez os bracinhos desse réptil não fossem úteis nas alturas, porém outras criaturas...

‘’Por Kratz!’’ — Seguiu com um rugido.

Um quadrúpede laranja com pintas negras saltou em cima do réptil, empalando uma lança com ponta de pedra na boca que há pouco tentava mordê-la. O novo caçador segurava os extremos da lança para que o réptil não conseguisse abrir a mordida. Logo jogou o corpo para o lado, levando os dois ao chão. No entanto, o quadrúpede laranja se levantou com muito mais agilidade e rapidamente enfiou a ponta da lança na cabeça do réptil quando ele estava quase ficando de pé para atacar novamente.

Ofegante e apoiado perfeitamente sobre duas pernas, ele retira a arma e limpa o sangue da criatura no peito.

A coelha sabia que seria a próxima. O réptil era estúpido e animalesco, mas de fato era um caçador de onças. A coelha precisava tentar, Laporiel nunca a perdoaria se desistisse de correr pela vida. E assim foi, antes que pudesse recuperar o fôlego do último predador, já estava correndo de outro.

Correria para a toca? Não, ele a rastrearia até lá e sua família ficaria em risco. Tolice, não era difícil achar uma toca de coelho, ainda mais de uma comunidade considerável. Algum lugar mais aberto? Quem sabe encontraria alguma outra presa maior para caçar. Mas e se não encontrasse? No pior dos cenários, os dois disputariam para caçar a leporídea. As grutas? Sim. No final das contas, os buracos escuros eram seu maior trunfo. Mas estava longe, apenas correr até lá não seria suficiente. E até o momento ela não o ouviu perseguindo-a. Será que desistiu?

‘’É esse sentimento de segurança que mata todos os leporídeos’’ — disse ela, imitando a voz de seu pai. Ele vai caçá-la, sabe que vai.

Ela parou de correr. Precisava saber onde estava para poder ir até as grutas. Ao tentar subir em uma árvore qualquer, sentiu uma dor lancinante no meio das costas. No fim das contas, o réptil a feriu. Quando ela olhou para trás, viu tímidas gotas de sangue no chão.

‘’ Ele nem vai precisar se cansar. Eventualmente, eu vou cair.’’

Suas orelhas captaram algo. No meio de tanto barulho vindo de todos os lados, era difícil saber quais eram os sinais certos. Ela continuou correndo sem direção enquanto olhava desesperadamente ao redor para identificar algo familiar. Até que sim, viu uma árvore de tangerina que ela adora na época do fruto. Ao reparar nisso, seu desespero aumentou, pois a direção da gruta para a qual ela queria ir ficava na direção contrária.

—’’Talvez, talvez haja outra gruta. Deve ter várias por aí’’ — pensou ela.

Um instante depois, o coração de Mahãk parou quando percebeu que o Onça estava atrás dela. Ficou paralisada e se perguntando como não conseguiu ouvi-lo antes de chegar tão perto.

Mas antes que pudesse fazer qualquer interação, sua espinha gelou, algo ao longe chamou a atenção dela e do felino Onça, como se algo tivesse acontecido. E sem delongas, o seu caçador correu em direção a seja lá o que fosse aquilo.

Mahãk soltou o ar e se deitou no chão de barriga para cima.

"Eu sobrevivi então?"

Ela se recompôs e voltou para a toca. Se pudesse, não falaria sobre o ocorrido. Iria chegar, esconder o ferimento da mordida e dormir.

Em meio a gritos longínquos, um sono é interrompido. Mahãk acorda assustada. Ela estava tendo algum sonho e tentou se lembrar do que se tratava, mas os berros e barulhos vindos de fora da toca eram mais urgentes. Conforme ela caminhava para fora, podia ouvir gritos de dor e batalha dos seus semelhantes, além de um outro grito ou rugido de algo que não conseguia identificar. Quanto mais ela se aproximava dos sons, mais nervosa ficava, como se uma catástrofe fosse acontecer a qualquer instante, o que presumiu que já estivesse acontecendo. Enquanto andava pelo corredor da toca, arrastava a mão nas paredes de barro e podia sentir as vibrações e os tremores, como se tudo pudesse desmoronar a qualquer momento.

Quando ela saiu, deparou-se com um cenário completamente caótico: amigos caídos no chão, alguns ainda inteiros, mas a maioria não. Correria misturava-se com pequenas luminosidades coloridas dos fungos e plantas. O autor de todo o caos era um jaguar enorme, quadrúpede, envolto em trevas, ao contrário dos habituais inimigos humanoides. Em vez de pintas e pequenas listras, havia olhos por todo o corpo da criatura, mas na face havia cinco que eram diferentes dos demais. A besta se movimentava como fumaça, ora como um animal, ora como uma nuvem.

Antes que Mahãk pudesse processar o horror que acabara de testemunhar, foi puxada para dentro da toca novamente.

‘’Saia daqui, estão todos fugindo para o templo Quercus.’’ — disse um coelho.

"Arasil, o que é isso, meu irmão?" — Mahãk interrompeu-se enquanto escutava os barulhos distantes.

"Acho que é alguma feitiçaria dos Onca. Eles foram longe demais, monstros!" — disse Arasil com temor na voz.

A criatura lançou outro rugido, o coração de Mahãk congelou antes de disparar.

"Foi o veneno na água, não foi? Eu disse, Arasil, eu disse que isso era extremo. Eles devem ter invocado a magia antiga para criar isso. E agora? Só vai parar quando todos estiverem mortos, talvez destrua até nossas almas." — Ela começou a chorar.

"Vá para o templo a leste, irmã, ele não pode perseguir todos. Os xamãs de Quercus não vão negar abrigo aos desamparados. Tentarei levar alguns comigo." — Ele abraçou a coelha e arrancou uma tufa de pelos do próprio corpo, depositando nos ombros da irmã.

"Que você escute o coelho." — E ele correu para o escuro da selva.

Ela encara mais uma vez a clareira onde viveu por muitos anos, totalmente destruída e com corpos cobrindo a paisagem. Muitos que ela cresceu e com quem conversou algumas horas atrás estavam estraçalhados no chão. Outros tentavam salvar seus parentes despistando a criatura ou tentando atacá-la em vão. Mahãk se enche de ódio e tristeza; em seu coração amaldiçoava os Onca e o monstro que atiçaram ali. Outro rugido da besta e tudo é substituído por pavor. Ela não pensa em levar nada, olha em todas as direções e apenas o sul parece menos barulhento. Ela foge para esse lado da floresta.

Rápida como um leporídeo, adentra o matagal escuro sem olhar para trás. Cada vez que se lembra das cenas vistas há pouco, parece que está lá novamente. Tudo está confuso, por algum motivo se lembra de cenas aleatórias de seu sonho; já não tem certeza se é mesmo como se lembra ou se sua mente preenche as lacunas com imaginação. Está começando a acreditar que sonhou com o dia de hoje. A culpa invade seus sentimentos, não deveria estar fugindo, e sim ajudando a recuar seu povo.

Até que se dá conta de que não sabe para onde está indo. O templo Quercus fica a dias de distância, e ela nunca viajou sozinha. Arasil conhecia essa parte da selva como a palma de sua mão. Seu pai e seus outros irmãos também. Ela sabe encontrar qualquer planta, mas nunca foi até o templo, tinha apenas noção de onde ficava. Se tiver sorte e for rápida, pode chegar em seis dias.

‘’Será mesmo que temos mais chances separados?’’ — questionou ela sobre a decisão do irmão em deixá-la ir sozinha.

Ela para. Rapidamente, sonda sua volta para achar algum refúgio para que pudesse planejar o que fazer. Ouviu barulhos aleatórios, o monstro dos Onca não era o único perigo da floresta. Ela encontra um buraco em um tronco caído e entra imediatamente. Por um tempo, só ouvia grunhidos e insetos, mas instantes depois começou a ouvir passos. Nem de longe pareciam ser de algo grande como a besta dos Onca, mas se aproximavam rapidamente. Mahãk estava desarmada, mas ainda podia correr bastante.

Os passos ficaram tão próximos até que pararam. A qualquer momento ela correria, só esperando o momento certo. Um único fôlego separava o ímpeto e a paralização:

"Não tenha medo", disse uma criatura do outro lado do tronco.

Mahãk reconheceu na hora o que era, embora não fosse comum. Era uma Toupeira andarilha. A coelha soltou a respiração e o indivíduo começou a se aproximar.

"Venha comigo, tem um túnel que fiz próximo daqui", disse a toupeira. Ela parecia amigável, e o sorriso não saía do seu rosto. Embora fosse gordinha, se movia relativamente ágil e de forma engraçada.

"Por que está me ajudando?" — perguntou Mahãk, enquanto começava a segui-la.

"Eu estava passando perto quando ouvi o tumulto. Apesar de vocês coelhos se meterem com quem não deviam, eu simpatizo com cavadores. Mas essa não é a primeira toca que esse bicho atacou hoje", explicou a toupeira, enquanto passava a mão no tronco e cheirava ao redor.

Ele sinalizou para continuar e ambos saíram da árvore oca.

Pouco tempo de caminhada em silêncio, a coelha abraçava os braços e olhava para o chão. Havia algo na respiração da toupeira que a incomodava, um barulho que dava a impressão de que havia algo dificultando. Estaria ela cansada?

"Como se chama?" perguntou a toupeira.

"Hã? É... Mahãk. E você?" respondeu a leporidea, como se tivesse saído de algum afazer importante.

"Kauã. Você sabe por que a criatura atacou?" apontou a toupeira com o nariz ao arredor.

"Não tenho certeza, mas acho que é alguma retaliação. Essa violência descontrolada..." Mahãk engoliu em seco, a garganta doía.

"Eu sinto muito"- disse Kauã.

A maior parte da caminhada eles ficaram em silêncio até que a toupeira ficou agitada, parecia que haviam chegado ao túnel.

"Sempre quis a opinião de um coelho. Entre, entre, ficaremos seguros"-, disse Kauã enquanto retirava algumas plantas e começava a cavar. Rapidamente, um buraco cedeu e revelou a entrada. Quando adentraram, ele cavou novamente para tampar o buraco.

"Eu até queria opinar, mas não enxergo nada. As tocas de coelho são escuras, mas aqui é um completo breu"- mentiu Mahãk tentando disfarçar a opinião negativa. Coelhos enxergam muito bem no escuro.

"Ah, então vocês são muito visuais... sentiu isso?" disse Kauã.

"O quê? O quê?" Mahãk tentou olhar para todos os cantos para tentar enxergar qualquer coisa.

"Está vindo."

A toupeira segue à frente. O túnel tinha espaço para ambos ficarem de pé, mas as orelhas da coelha roçavam na parede.

Mahãk tropeçava bastante no terreno irregular do túnel, tateava e se ajustava para continuar. Kauã não teria gostado da opinião dela.

Instantes depois, um tremor. Em seguida, outro.

"Ele sabe que estamos aqui", disse a toupeira.

"Esse túnel aguenta, não é?" A frase foi seguida por um tremor mais forte e, em seguida, um rugido familiar.

Eles começaram a correr, ou tentar.

Mahãk imaginava a criatura cavando e perseguindo vorazmente. Mas os rugidos não deixavam dúvida da fome carniceira, sedenta e implacável da besta. Geralmente, o grito de animais grandes queria dizer alguma coisa, um aviso ou ameaça, mas não esse. Era como se várias criaturas estivessem gritando, chorando e suplicando. Às vezes, era puro ódio com desespero.

Mahãk e Kauã progrediram um pouco no túnel, embora nunca se sentissem seguros.

"Onde isso vai dar?" perguntou a coelha.

"Em uma caverna no rio, acho que podemos despistar o bicho lá".

A coelha conhecia o lugar, e todos temiam, diziam que se ouviam vozes e sussurros sinistros. Quem sabe a fera seria repelida pela magia antiga lá?

Depois de mais um tempo de caminhada, voltaram a ouvir apenas os próprios passos no túnel, e parecia que ele estava ficando mais íngreme e lamacento.

"Vamos ter que subir", disse a Toupeira.

"O quê? Por quê?" — a coelha estava nervosa.

"Está ficando bloqueado, acho que desmoronou. Que vergonha, não era para isso acontecer. Se afaste."

Mahãk obedeceu e ele começou a cavar para cima.

"Eu vejo poucos de vocês. Não tem algum grupo, vila ou comunidade? Ou estão sempre sozinhos?" — perguntou a coelha.

"Mais ou menos. Não temos cidades por aqui, só ficamos juntos com familiares próximos e depois, quando crescemos, cada um segue seu caminho. Aprendemos muito ouvindo e observando os outros." Ele pigarrou e cospe um pouco de terra e continuou cavando.

"E você observa mais os coelhos, então..." — ela se senta.

"Também, mas ouvi muito sobre todos que vivem nessa parte da selva." — jogou um bom tanto de terra para o lado.

"Achei um pouco solitário e estranho. Saber de todo mundo, mas fica muito tempo sem a família." — disse Mahãk.

"Vocês é que são muito comunitários. Acho que na minha raça não temos esse apego tão forte. Meus primeiros, segundos e terceiros filhos já cresceram e foram para outros lugares. Às vezes encontro-os por aí. Não me sinto sozinho, apesar que não seria má ideia ter companhia. Acho que depois disso, irei ver o que minha prole andou fazendo.’’

" Ele cospe mais terra. "Acho que nunca disse isso em voz alta." — Ele ri e joga o resto de terra, liberando o caminho para cima. O luar era visível.

Quando Mahãk olha ao redor, ainda reconhece o caminho, pois não andaram tanto assim. Aparentemente, não há nenhum sinal do monstro também.

"A outra parte do túnel pode estar intacta. Não falta muito para chegarmos à caverna", disse a toupeira.

Um rugido interrompeu a conversa.

"Como ele sabe?", Mahãk se desesperou.

Ambos começaram a correr, mas instantes depois a coelha percebeu que a toupeira não conseguia acompanhar o ritmo dela.

"Ajude-me a cavar, garota. Vamos nos esconder", a Toupeira farejou rapidamente algum canto e começou a cavar.

Mahãk não acreditava que teriam tempo para fazer algo até a besta chegar. Começou a ouvir a corrida do monstro vindo na direção deles. Dominada pelo medo, ela simplesmente fugiu sem olhar para trás.

A cada passo dado, ela imaginava a pior das atrocidades acontecendo com Kauã. A visão de seus conhecidos da vila sendo estraçalhados aparecia em sua mente como se estivesse lá. Ela se via fazendo algo diferente, como agora poderia ter feito. Mas mais uma vez ela faz o que não queria fazer. Cavar poderia ter funcionado, não é? Ela queria voltar, mas não conseguia parar de correr e não olhava para trás.

Os minutos correndo pareciam horas; ela pensava em parar, mas não podia. Os passos tão pesados da criatura faziam parecer que ela estava muito perto. Ela enxergava silhuetas das árvores e matagais por todo canto e pensava que algo sairia dali. Até que o chão começa a ficar diferente; da terra que sujava seus pés, começou a pisar em pedra e rocha. Ela percebeu também um barulho de água bem próximo, o qual seguiu prontamente.

Mahãk encontrou um rio que passava dentro da caverna. Ela bebeu um pouco para restabelecer o fôlego e se sentiu revigorada. Estava próxima do lugar que fez o seu passeio mais cedo. Ela entra na caverna escura.

Estava hesitante; por inconveniência, lembrou das histórias horríveis sobre o lugar que geralmente envolviam algo sobre vozes e sussurros enlouquecedores. Mas dada a situação, sentiu-se até aliviada de que as histórias não poderiam nem de longe apavorar como o monstro que a perseguia. Ela se sentiu segura, como se tivesse despistado o algoz.

"Espero que a fera tenha medo também," comentou sozinha e continuou caminhando lentamente.

Ela olhava para as direções, tateava a parede e seguia adentro. Não se permitia baixar a cautela; a única coisa que ouvia era a água corrente, mas estava ficando difícil caminhar entre as rochas até que escorregou e caiu no rio. Ela gemeu e a caverna imediatamente emitiu um barulho. Ela se segurou para que a correnteza não a arrastasse para fora enquanto tentava encontrar a origem do som emitido há pouco. Ela finalmente saiu da água e começou a rir sozinha, enquanto a caverna respondia simultaneamente.

"São ecos, sua idiota", ela termina de se levantar.

Agora as coisas começaram a se ajeitar melhor. Talvez as histórias horríveis sobre o lugar fossem apenas para assustar crianças mesmo. Infelizmente, alguns continuavam a acreditar mesmo depois de adultos.

Agora, menos preocupada, ela podia explorar a caverna. A escuridão não era o problema. Conforme ela avançava, começou a escutar várias coisas: outros animais pequenos, a água, os próprios passos, o vento. A mistura formava um ambiente auditivo novo. Quando ela notou isso, lembrou que já fazia um tempo que não ouvia os rugidos da fera.

"A fera", pensou ela, e a imaginação de Kauã sendo devorado a dominou. Ela se sentiu culpada por ter parado de pensar nisso, e também na sua vila. Como pode? Ela engoliu seco e respirou.

"Se controle", disse bem baixinho. E mesmo assim, a caverna devolveu algum sibilo.

Um pouco mais à frente, a caverna mostrou alguns caminhos a seguir e Mahãk não tinha ideia de qual escolher. A princípio, pensou em seguir o caminho mais próximo, afinal, seu objetivo era explorar a caverna, teria que olhar todos de qualquer maneira. Mas quando deu um passo, ouviu um estalo diferente, efêmero e quase imperceptível. Ela não gostou e não sabia exatamente o porquê. Começou a prestar atenção nas outras direções, imaginando que tipo de som poderia ouvir em cada uma delas.

Teve sensações diferentes. O caminho ao lado que ela pretendia seguir emitiu um som que a fez sentir que não era tão profundo, talvez sem saída. Já do outro lado da encruzilhada ouviu um som baixo, mas que parecia se estender bastante ao fundo da caverna. Foi o que ela escolheu.

Quando chegou perto da entrada, ouviu um rosnado vindo de suas costas. Ela não queria acreditar, mas sabia que era questão de tempo até a fera a alcançar. Sem olhar para trás, Mahãk correu com a esperança de ter escolhido o túnel certo.

"A fera começa a perseguir, não tão ágil como se estivesse na selva. A caverna era muito irregular e escorregadia, mas ela não desiste, e pelo visto, estava pegando o jeito tão rápido quanto Mahãk.

Conforme adentravam, a coelha corria o máximo que podia, mas não deixou de notar que a fera emitia barulhos estranhos, mais evidentes com os ecos. Era como se fossem lamentos, gritos de pavor e de ódio amalgamados. Quando entendeu isso, viu à frente uma saída. Ela sorriu, mas imediatamente seu rosto se contorceu em dor. A fera a arranhou e empurrou perto de um declive, que na verdade se mostrou apenas parte de uma cascata. A água caía para dentro da caverna e para fora, formando uma cachoeira fraca.

No chão, a frieza líquida toca seus ferimentos. O monstro apareceu face a face e parecia que cada vez que olhava, ficava mais horrivel. Seu rosto era felino, mas tinha expressões marcantes, quase caricatas. O barulho não parava e ele se aproximava com calma, como se já tivesse vencido. E de fato, Mahãk viu aquilo como se fosse a própria morte encarnada. Ela simplesmente desistiu e aceitou.

No instante que fechou os olhos, no meio do barulho que a fera emitia, jurou ter ouvido uma voz familiar, foi por um instante, mas ela teve certeza de que ouviu."

Tainá! — gritou a coelha.

A fera parou e começou a passar as patas no rosto, como se quisesse tirar algo. Nisso, Mahãk se levantou com as últimas forças e pulou na cachoeira.

Não se lembra de quando recobrou a consciência, mas ainda sentia que estava em queda, não de uma cachoeira, mas em um vazio infinito. Não sentia o corpo e sequer tinha forças para abrir os olhos ou gritar por ajuda. Não ouvia nada, apenas sabia que estava caindo.

Acabou? Então isso é morrer? — pensou a coelha.

Não. — respondeu uma voz.

Foi seu próprio pensamento que respondeu? Mas não parecia dela. Com um esforço descomunal, abriu um triz de seus olhos para ver. Por um instante, viu Laporiel um pouco à frente. Era um coelho, não como Mahãk, mas quadrúpede, com asas e cauda de penas, mais alto que um coelho normal e com chifres de galhos. Uma belíssima criatura.

Quando piscou, ele já não estava mais lá. Seus sentidos começaram a voltar, principalmente a dor. Pelo visto, a única parte funcional era seu braço esquerdo, o resto do corpo doía, estava quebrado ou seriamente lesionado. Ela se arrastou com seu braço esquerdo e um pouco de movimento do quadril com todo o sacrifício do mundo até a margem do rio, e dali, até a árvore mais próxima para se encostar. Pareceu o esforço de uma vida, estava exausta.

Estava amanhecendo, talvez não tenha ficado tanto tempo inconsciente. Ela estava em uma posição que doía menos e resolveu tomar fôlego antes de tentar se remendar.

Seria mesmo Laporiel? Será que ele a salvou da queda mortal? Será que a fera Onca ainda estava atrás dela? Estava cansada até mesmo de pensar. Talvez dormir algumas horas devolvesse um pouco de disposição.

Toda vez que pensava em começar, ela dizia para si mesma "só mais um pouco", pois sabia que qualquer movimentação faria tudo doer e só iria parar quando terminasse, o que poderia levar um bom tempo. Ela ouvia seu corpo rangendo e estralando, a situação estava crítica.

"Vamos lá", ela respirou fundo.

Tentou colocar o outro braço no lugar certo, mas foi especialmente difícil no meio de vários gritos e gemidos. Depois, começou a tentar fechar o corte das garras da fera e os que ela ganhou enquanto era arrastada pela correnteza. Ela perdeu algumas unhas do pé e estava latejando, mas pelo menos não era pior do que isso. Com suas vestes e galhos ao seu redor, conseguiu fazer uma tipoia para o braço direito.

Estava tremendo de exaustão. Queria ficar por tempo indeterminado encostada ali, mas estava exposta. Se alguma coisa aparecesse, não teria como se defender. Com dificuldade, ela se levanta e olha para o fundo da floresta e depois para o alto da cachoeira, não muito longe. Não sabia se voltava. Talvez Kauã tenha sobrevivido? Impossível. Alguém das tocas então? Primeiro, queria achar algo para comer. Tinha que se recuperar antes de pensar em ajudar alguém.

Aguentando a dor, ela começa a procurar petiscos, frutas e ervas que pudesse comer. Não foi difícil encontrá-los, mas seu estado físico fazia tudo demorar mais. Ela encontrava diversos rastros de pedaços de corpos de todo tipo de animal, provavelmente vítimas da fera dos Onca. Nessas condições, ela precisava evitar o perigo, mas agora prestava mais atenção no que sua audição mostrava. Quando ela se concentrava, conseguia ter um bom palpite do que poderia encontrar em determinada direção. Sempre que ouvia algo que não gostava, ela desviava do caminho. Mesmo as criaturas mais rasteiras e silenciosas não escapavam de suas orelhas.

Mahãk tinha o pressentimento de que sabia onde a besta estava, mas ir até ela seria o seu fim. Será que desistiu de caçar os leporídeos? Era difícil pensar na mudança de comportamento da fera. Alguma coisa mudou na caverna dos ecos.

‘’É claro! ‘’- A coelha teve um estalo. — Os nomes de suas vítimas, é assim que vou desfazer essa magia.

Por um momento, ela ficou animada, era algo que podia fazer. Mas instantes depois, se indagou quantos nomes precisaria dizer até enfraquecer a besta o suficiente para ser derrotada.

‘’No melhor dos cenários, as pessoas que eu conhecia. No pior, todas as vítimas.’’

Ela engoliu em seco e a coragem que tinha agora pouco rapidamente sumiu.

"Calma, se controle", pensou ela. "Uma coisa de cada vez, pelo menos descobri como atingi-lo."

Ela continuou vasculhando os arredores em busca de rastros. As vezes era um pouco dificil encontrar danos nessa floresta colorida. A besta poderia estar perto, ela sentia isso, mas existiam outras criaturas grandes que poderiam ter causado estes estragos. Ela encontrou outros vestígios de criaturas diferentes, mas por quê? A besta deveria estar apenas atrás dela.

"Entendeu que descobri sua fraqueza e está se fortalecendo", pensou ela.

Ela passou instantes refletindo sobre o que acabara de dizer e soltou uma risada que a fez sentir dor no corpo. Ela realmente não acreditava que poderia vencer o monstro, mas tinha certeza de que alguém no templo Quercus poderia.

Ela não sabia exatamente onde ficava o lugar, apenas tinha uma noção geral de que ficava em um grande encontro de águas diluviais que cercavam um desfiladeiro. Ela não tinha ideia de como isso se pareceria de verdade, mas acreditava que saberia quando o visse. Atravessar a selva era perigoso demais, mesmo se estivesse em condições perfeitas, mas ela não tinha outra opção.

Mahãk decidiu se recuperar um pouco antes de atravessar a selva em regiões desconhecidas. Ela tinha uma boa noção de onde estava, então seria ainda mais conveniente se esconder e evitar problemas. O som caricato da besta alertava a posição para à coelha a uma distância suficiente para ser evitada se ela agisse rapidamente.

Depois de três dias sem nenhum conforto e com sonhos que ela não conseguia se lembrar, não muito longe do rio da caverna dos ecos, Mahãk procurava por plantas para aliviar a dor dos cortes da fera. Pareciam não ser cortes comuns, pois ela sentia que não haviam melhorado quase nada, ou talvez ela simplesmente não estivesse acostumada a sentir as garras felinas. Ela decidiu procurar por um cogumelo que sempre ajudou a tratar das piores enfermidades de sua tribo, chamado Bufo, que não era difícil de encontrar e parecia uma bolinha que variava de marrom para branco.

Depois de encontrar algumas outras plantas, ela finalmente achou o cogumelo que poderia ajudar. Mas quando ela pensou em colhê-lo, seu coração parou. Sem ruído, sem anúncio, ela sentiu o monstro poucos metros atrás dela. Ela se virou rapidamente e se deparou com uma besta ainda maior do que da última vez. Como ela não conseguiu ouvi-la? O único som que começou a emitir foram os passos vagarosos e pesados na direção dela, como se agora permitisse ser ouvida. Os olhos ao longo do corpo do bicho miravam a leporídea, tão sedentos quanto as presas.

"Anacé, Enawene, Carajá, kaimbé!" — gritou a coelha aleatóriamente.

E como um golpe, a fera se contorceu e caiu no chão, se debatendo. Mahãk aproveitou a oportunidade e correu o máximo que pôde, o que não era muito devido aos seus ferimentos. Cada passo parecia fazer seus próprios ossos rangerem, mas ela não se importou com a dor, só pensava em se esconder, em como não conseguiu ouvir a fera, e em como estava indefesa mesmo sabendo o que poderia ferir a criatura.

Não sabia para onde ir, apenas se afastava o máximo possível. Estava no meio do dia e os lugares para se esconder pareciam escapar de sua visão. Cavar? Nem mesmo se estivesse com seus ferimentos fechados. E quanto mais ela se esforçava para correr, mais sentia os cortes da fera se abrindo.

A fera rugiu, esse sim era o som que ela esperava. Um barulho distorcido, lamuriante, e que fez suas feridas arderem. Sabia que a perseguição havia começado, e mesmo assim, Mahãk já sentia que estava no limite. A fera se aproximava, podia ouvir a corrida, podia ouvir aquele barulho familiar de cacofonia.

Tudo doía, e quando menos esperava, começou a doer ainda mais. Sentiu seu ombro e quase todo o lado do corpo sendo perfurado, e antes que a criatura pudesse fechar a boca, Mahãk gritou desesperadamente: "Kauã!" — E a fera subitamente desistiu de mordê-la e se contorceu no chão. Mahãk estava à beira da morte de um lado e a fera cuspia sangue enquanto tentava se reerguer do outro. Alguns olhos do corpo do monstro estavam visivelmente fechados, mas incontáveis outros estavam abertos. A coelha não tinha mais forças para levantar-se e estava perdendo os sentidos, mas não queria desistir.

"Pre'a!!!" — Um grito diferente e imediatamente a fera voltou a sofrer. Alguém saiu do mato pronto para brigar. Era um bípede felino laranja com pintas negras em todo o corpo. A parte frontal do torso, entre o peito e a barriga, tinha uma pelagem branca e ele carregava apetrechos amarrados com cordas e uma lança.

‘’Gar'rrato!’’ — Bradou mais uma vez, e a fera se debatia desesperadamente, mas agora tentando sair de perto.

O felino arremessa a lança no monstro. Pareceu bem menos efetivo do que os nomes. E por um instante, ele olha para Mahãk e, num surto de ação, a besta se levanta e corre para longe.

Mahãk entendeu pouco do que aconteceu, mas sabia que ele poderia ser um Onca. O felino se aproxima e observa por um tempo. Instantes depois, a coelha desmaia completamente.

Ela não conseguiria se lembrar completamente dos vislumbres que teve, se eram sonhos, delírios ou imaginação, mas sempre se recordará de que foi extremamente doloroso. Quando conseguiu abrir os olhos, a dor ainda não havia ido embora, estava bem mais suportável, mas ainda insistindo em ser lembrada.

Ao abrir os olhos, ela se vê numa caverna, com o amanhecer batendo nas paredes. Ela espera um pouco e rapidamente percebe o estado em que se encontra e como chegou ali. Seus olhos percorrem o lugar em busca de perigo, mas só encontram o silêncio. Dadas as circunstâncias que se recorda, ela deveria ter morrido se não tivesse recebido tratamento. Um Leporídeo não a levaria para uma caverna assim.

A coelha tenta se levantar lentamente, mas apesar de estar estabilizada, ainda estava fraca. Momentos depois de se pôr de pé, suas orelhas tremeram.

"Não saia agora", disse uma voz desconhecida.

Quando ela olha na direção da entrada da caverna, vê um felino que mostrava apenas parte da cabeça e ombros. Ele parecia estar encostado, vigiando o lado de fora.

O coração de Mahãk parou por um momento, mesmo tendo apenas percebido uma parte da silhueta, ela jamais esqueceria. Era o mesmo Onca que encontrara na selva no dia do ataque do monstro. Ela se mexeu bruscamente para correr, mas todo o seu corpo doeu e ela caiu.

"Coelha burra", disse o felino, que começou a se dirigir a ela como se fosse ajustar a bagunça de uma criança.

"Não! Não me toque! Sai!", gritou a leporídea em desespero, debatendo-se o melhor que podia.

O felino tentou contê-la por um tempo, até que ela desistiu.

"Estragou todos os curativos", ele soltou e começou a pegar algumas plantas secas colhidas anteriormente.

"Por quê? O que está fazendo?", disse a coelha enquanto se sentava com dificuldade.

"Porque você se mexeu demais. Agora tem que fazer de novo. Você vai deixar eu te lamber?"

"O que? Por quê? Digo, não! Jamais!", ela se retraiu.

"Imaginei." Ele começou a cuspir num pequeno recipiente de barro e misturar as ervas secas com um palito.

Ele foi até ela, e mais uma vez Mahãk se deu conta de que estava com um Onca e recuou. Ele hesitou e levantou o pote. Então ela se acalmou na medida do possível. O gato começou a lambuzar o dedo com a mistura do pote e passar por baixo de umas folhas grossas que enfaixavam a coelha. Ela corou.

Ele não demorou muito e ficaram em silêncio durante a aplicação do remédio. Mahãk evitava a todo momento olhar para ele, mas estava curiosa demais. Nunca tinha estado tão perto de um Onca, talvez ninguém tivesse ficado e vivido para contar a história.

"O que está acontecendo? Por que você me salvou?", questionou ela.

"Eu estava perseguindo o Alebrije nos últimos dias. Até que, subitamente, ele correu até você. Observei e entendi qual era a fraqueza dele. Como você descobriu?", ele se sentou enquanto falava.

"O nome disso é Alebrije então. Ele atacou minha toca, matou vários de nós. Eu fugi, mas ele perseguiu. Quando eu estava prestes a ser devorada por ele, juro que ouvi a voz de uma amiga que possivelmente ele devorou. Quando gritei o nome dela, foi como se ele tivesse levado um golpe. Aí eu caí numa cachoeira... me arrebentei toda, sobrevivi por uns dias, mas a ferida da garra dele não curava. Fui procurar outra coisa que pudesse ajudar e então ele apareceu de novo, bem maior. O resto você já sabe", quando a última palavra saiu da boca dela, sentiu que não deveria ter falado tudo tão facilmente. Não queria confiar nele.

Ele fica um tempo fitando a coelha.

"Entendi. Eu te salvei porque achei que pode ser preciso dizer o nome de todas, ou pelo menos, a maioria das vítimas dele. Imagino que ainda tenha nomes que você vai precisar falar. Talvez se nós dois fizermos..." o Onca fica um pouco sem jeito pedindo a ajuda dela.

"Espera, ele matou outros Oncas também? Eu pensei que vocês tivessem criado esse monstro!", disse Mahãk incrédula.

"Fomos nós mesmos, porém alebrijes são criados para combater pesadelos e guiar nossos espíritos para o outro lado. Estávamos fazendo o enterro dos nossos entes que vocês mataram com o ardil da água envenenada, mas o ancião da minha tribo, consumido pelo ódio, perverteu completamente a nossa cerimônia sagrada. Então o alebrije virou... aquilo. Mas, geralmente, são seres de bondade e orientação, são guardiões", ele se cala.

Mahãk chegou a ouvir sua respiração, algo dentro dele mudar, quase perigoso. Ela tomou as dores de sua própria espécie e disse:

"Eu também acho que envenenar o seu poço foi extremo, mas nós temos muitos inimigos, que nos caçam como se fôssemos petiscos. E, sem ofender, vocês são especialmente cruéis."

O Onca se levanta e a coelha se amedronta. Ele era pelo menos quatro vezes a altura dela, parecia ser bem jovem, mas ainda assim tinha uma presença ameaçadora.

"É verdade que meu povo não é conhecido por gentilezas, mas sempre valorizamos a nossa caça, o nosso esforço. E vocês nos roubavam! Uma vez, uma senhora importante para mim morreu sentido dor porque uma erva extremamente rara que eu colhi foi roubada."

A leporídea se levantou para replicar, exaltada, mas quando ela abriu a boca, saiu apenas um gemido de dor. Ela se ajoelha, coloca uma mão no chão e a outra do lado da barriga.

Mas antes que pudesse de fato cair ou conseguir sentar-se, as mãos do Onca a envolveram com auxílio e cuidado. O perigo que ela ouvira dentro dele momentos antes sumiu, agora não saberia interpretar o que era, mas sentiu uma urgência.

"Calma, coelhinha. Não era para você ficar nervosa. Esse tamanho todo aí cabe quanta raiva?" Ele disse, tentando acalmar a leporídea.

Ela ficou extremamente ofendida, mas as pontadas de dor não a deixaram reclamar, por enquanto. Ela se sentou e o Onca verificou as folhas e os ferimentos de maneira superficial. Mahãk respirou fundo e disse:

"Eu vou ajudar. Seja lá qual for o histórico de nossas espécies, a criatura ameaça ambos", disse Mahãk, determinada. O Onca retribuiu o olhar com um aceno positivo.

"Sou Pan'thru", disse o Onca.

"Mahãk", ela respondeu, tentando se acostumar com as dores.

Pan'thru se levantou e trouxe um pouco de água para ela, pedindo que descansasse mais. A coelha não quisera de início, pois lembrara do seu pai dizendo que se sentir segura era o que levava muitos leporídeos à morte, mas não havia muito que ela poderia fazer nessas condições. Então, ela se conformou, bebeu e pegou no sono rapidamente.

Não estava muito confortável e acordou várias vezes. Em uma dessas vezes, ouviu Pan’thru sussurrando vários nomes, provavelmente praticando para quando enfrentasse o Alebrije. Ela deduziu que talvez fosse parte do ritual de luto dos Onca, já que o monstro nasceu durante a cerimônia e talvez não tivesse tido a chance de terminar adequadamente.

Eles ficaram escondidos na região por alguns dias até que Mahãk pudesse correr. Evitavam falar muito e só conversavam quando era necessário, às vezes por orgulho e outras por constrangimento. A única conversa que tiveram foi para compartilhar os nomes das vítimas, para que um pudesse falar por outro caso se tornasse incapacitado. Talvez não demorasse, já que as técnicas de Pan’thru foram mais efetivas em cicatrizar os cortes da fera. Ele explicou que era uma criatura que veio a este mundo por meio dos Onca e que a saliva dos felinos tinha propriedades curativas.

Com Mahãk aprimorando sua audição para antecipar perigos e Pan’thru com seu talento natural de caçador, eles não enfrentaram inimigos, mas também não sabiam onde o Alebrije estava.

‘’Não podemos esperar mais. Temos que acabar com isso antes que ele mate mais.’’ — disse Mahãk, mostrando que estava em condições de correr.

‘’Não acho que você esteja pronta. Não disfarce, sei como se movimenta. ‘’- respondeu o Onca, colocando uma segunda lança com ponta de rocha nas costas.

‘’Não posso mais fugir. Não mais.’’ — Ela manuseava uma adaga que Pan’thru fez adequada para ela enquanto olhava para um canto vazio, como se lembrasse de algo ou alguém.

O Onca respirou fundo e começou a limpar os rastros da caverna, apenas por costume, enquanto Mahãk ia para o lado de fora, sentindo-se preparada.

Agora, eles focaram totalmente seus esforços em encontrar a criatura. Parecia que quanto mais tempo passavam juntos, mais aprendiam ou adaptavam suas próprias técnicas, apenas observando, imitando e improvisando.

Foram até o último local onde viram a fera e a partir dali foram rastreando. Aparentemente, a criatura fez menos estragos do que imaginaram. Apesar da dificuldade, parecia que o monstro nem tentou se esconder. Seus rastros eram claros e, conforme eles os seguiam, Mahãk ficava apreensiva. Tudo indicava que a fera iria para a toca destruída dos leporídeos. Só de imaginar aquele cenário, causava-lhe arrepios, mas ela não hesitou.

Quando se aproximaram e Mahãk reconheceu as fronteiras da clareira, parecia que podia ouvir as risadas, conversas e sermões de seu povo, como se a memória ganhasse vida naquele momento.

"Cuidado, aparentemente ele aprendeu como ocultar totalmente seus sons", advertiu Pan’thru.

Mahãk concordou e deixou o felino ir na frente. Instantes depois, ele sinalizou para ela acompanhá-lo. Finalmente, ela pode rever sua amada clareira e, como esperava, estava totalmente destruída. Não havia local ali para a criatura se esconder, a menos que conseguisse entrar na toca, o que seria impossível pelo seu tamanho. Várias das entradas foram soterradas. Ela também viu restos mortais que gelaram seu coração. Ela desejou profundamente que sua família e amigos tivessem conseguido chegar em Quercus.

As marcas de garra inevitavelmente a faziam pensar nos Onca, e ela ficou com raiva deles, menos de Pan’thru, como se ele não fosse um deles. Ela apenas respirou fundo e tentou conter o que estava sentindo.

"Acho que ele esteve aqui recentemente mesmo", disse Mahãk.

"Concordo. E pelo que vi, os rastros continuam para o Leste", respondeu Pan’thru.

A leporídea saiu correndo na direção que o Onca indicou, sem olhar para trás.

Os dois aliados improváveis corriam juntos para o Leste, encontrando rastros e pistas do paradeiro do Alebrije. Algumas horas depois, Pan’thru logo entendeu para onde o rastro estava levando. O felino parou a corrida e disse:

‘’Ele retornou para a sua toca e depois foi para a minha vila, onde ele entrou neste mundo.’’ — disse Pan’thru, mantendo a determinação, ou pelo menos aparentando.

‘’Você acha que ele ainda estará lá quando chegarmos?’’ — perguntou Mahãk.

Ele apenas acenou em concordância.

‘’Ir para esses lugares não é uma escolha aleatória ou sem razão. Será que ele não é realmente um monstro? ‘’- disse Mahãk, começando a ficar preocupada.

‘’Ele pode ter ficado mais inteligente. No dia que nos encontramos, ele conseguiu chegar até você sem fazer barulho, isso é uma técnica Onca que aprendemos quando começamos a caçar’’. — explicou Pan’thru.

‘’Uma armadilha, então.’’ — ela respirou fundo.

‘’Não temos muita escolha, sabemos como derrotá-lo.’’ — retomou Pan’thru, seguindo em frente.

Mahãk o seguiu. Ela queria acreditar que, de alguma forma, o Alebrije recuperou algum tipo de consciência, mas o mais provável é que ele estivesse tentando eliminar os únicos que sabem como derrotá-lo.

Depois de um tempo, eles nem estavam mais rastreando, apenas se dirigindo para a vila Onca. Quanto mais se aproximavam, mais nervosos ficavam. Essas áreas eram extremamente proibidas para os leporídeos por serem território Onca, e agora estavam ali sendo acompanhada por um.

Acabara de anoitecer quando chegaram aos extremos da vila de Pan’thru, e como esperado, ela estava completamente destruída. Várias cabanas estavam caídas, objetos espalhados por toda parte, havia restos mortais para todo o lado e nenhum sinal do Alebrije. Mahãk ficou igualmente horrorizada com a destruição daquele lugar tanto quanto com a de seu próprio lar. Era o fruto de um ódio que existia antes mesmo dela nascer. Isso precisava acabar.

Quando eles começaram a procurar por detalhes no meio dos destroços, um grunhido proposital à frente deles revelou uma enorme besta quadrúpede andando do meio da escuridão. Aos poucos, dezenas de olhos brilhantes se abriram pelo corpo escuro da criatura. Por um instante, Pan’thru viu toda a dignidade e postura que um Alebrije emanaria, mas logo a baba sedenta e a cacofonia interna do monstro se fizeram presentes.

Por reflexo, Pan’thru sacou uma das lanças das costas e atirou na fera, acertando seu ombro. O bicho rugiu, fazendo o coração de Mahãk disparar. A fera avançou em direção aos dois e cada um se jogou para um lado. A fera parecia determinada a atacar Pan’thru, mas hesitou. O Alebrije olhou para Mahãk, que já estava se preparando para correr enquanto sacava sua adaga de rocha.

“Mi’o!” — gritou Pan’thru.

A fera sentiu como se uma árvore tivesse caído em cima, e foi com o queixo ao chão. Os cinco olhos do rosto da criatura fitaram diretamente Mahãk. A coelha não conseguiu discernir muito bem, mas por um momento pareceu que a fera estava ciente de tudo, e de alguma forma, uma feição suplicante.

Outro rugido é desencadeado, Mahãk nunca tinha ouvido, mas tinha certeza de quem pertencia. Pan’thru pula nas costas da fera e crava a outra lança, fazendo a criatura se levantar descontroladamente. Ela se choca de um jeito que o felino não consegue se manter por muito tempo em cima, e em seguida o arremessa com sua lança junto aos destroços da vila.

"Pan’thru!" — gritou Mahãk.

A fera corre em direção a Leporídea, mas ela reage e começa a correr. Quando consegue preparar a adaga, ela vai até uma cabana semidestruída e, como se tivesse intenção de escalar com duas patas, ela pega impulso e salta na direção do Alebrije com a faca apontada para os olhos do rosto do monstro.

"Anãná!" — gritou ela enquanto ainda estava no ar em direção ao bicho.

Nada acontece e a fera imediatamente acerta uma patada violenta em Mahãk, arremessando-a.

A leporídea no chão começa a se perguntar por que não deu certo. Em seguida, parece que os machucados anteriormente curados não estavam tão curados assim, apesar da contusão da patada não ter aberto nenhum. Mas o impacto do golpe foi forte o suficiente para turvar a visão da coelha.

Ela tenta se levantar um pouco devagar enquanto ouve passos e pequenos estrondos.

"Não funcionou? Mas... Será que ela não morreu?" — Com a visão clareando novamente, Mahãk repara que a criatura estava descontrolada. Pulava sem motivo, passava as patas no rosto como se tentasse se livrar de algo. A coelha tenta prestar atenção para entender o que acontecia e chega a escutar o barulho incessante vindo de dentro do Alebrije, que de fato parecia estar atormentado.

"Jihá! Pan’thro!" — Gritou o Onca que corria na direção da fera, pretendia aproveitar a abertura.

Os nomes claramente fizeram efeito, mas a fera chegou apenas a se curvar. Quando ele chegou perto o suficiente para perfurar o alvo, o bicho se vira subitamente e consegue cravar os dentes em Pan’thru, mas não sem antes ele conseguir cravar a lança de mal jeito no pescoço do Alebrije.

Mahãk se levanta e corre para o monstro, não teria outra chance. Enquanto ela se aproximava, tentava escutar algo familiar vindo dele e quando chegou perto o suficiente, desejou ter se enganado. E numa explosão de raiva e tristeza, ela grita:

"Chaun!!!" — cravando a adaga de rocha no meio da cabeça do bicho.

A adaga não perfurou tanto, mas enquanto Pan’thru estava sendo mordido, ele grita:

"Ancião Sabreo! Argh!" — A fera o solta junto de um rastro de sangue.

Um dos olhos da face do monstro se fecha e Mahãk tenta outra estocada nesse lugar. Um rugido, seguido de uma luz azulada vindo de todos os olhos abertos da criatura, cobre boa parte da vila. A fera se debate e empurra Mahãk no processo.

Aos poucos, era como se a escuridão do monstro se descascasse, dando lugar a uma pele revestida de luz, e o que antes eram gritos horríveis e misturados agora se tornara um coro harmônico de vozes que repetiam seus próprios nomes.

Ao ser totalmente tomado pela luz, o alebrije tornou-se manso, emitindo uma aura calmante e solene. Ele se aproximou de Pan’thru e lambeu suas feridas, que cicatrizaram instantaneamente. Em seguida, disse:

"Obrigado. Me perdoe". Sua voz soava como um coral familiar, mas o Onca jamais a ouvira antes.

Pan’thru consentiu, e o alebrije se dirigiu a Mahãk, tentando encostar a cabeça na dela. A leporídea hesitou, mas o alebrije tentou novamente até que ela permitisse.

"Todos eles estão em paz. Fique também", disse o alebrije, desaparecendo como se grãos de areia brilhantes se espalhassem ao vento.

A coelha correu até o felino para ajudá-lo a se levantar. Os dois se olharam e entenderam que essa era a resolução.

"Era para ter sido assim desde o início. Falamos o nome dos falecidos para jamais esquecermos o som da pronúncia, é o que resta deles", disse Pan’thru, levantando-se.

Agora que aquela região da selva estava segura, Mahãk e Pan’thru decidem ir juntos para o templo Quergus, uma vez que era um lugar de não agressão para todos os habitantes desta selva. Se fosse para ter um recomeço, aquele era o lugar ideal.

A viagem para o leste demorou seis dias até chegarem ao templo. Ambos apenas ouviram descrições do lugar, mas nenhuma fez jus ao espetáculo. Era um vale rodeado de cachoeiras colossais vindas de todos os lados que se encontravam e formavam uma torrente. O templo era a própria junção das montanhas do vale. Diversas cavernas e aberturas onde as cachoeiras eram mais sutis levavam para o interior da terra.

O templo era habitado por diversas espécies, inclusive algumas que não eram vistas na região, como um povo Elephantidae que guardava várias câmaras internas. Diversas raças de Leporídeos, andavam por todo o lado fazendo atividades que nem Mahãk ou Pan’thru saberiam dizer a finalidade. Outros felinos e Caninos pareciam conviver numa tolerância frágil. Espécies voadoras com o corpo colorido levavam e traziam consigo objetos que pareciam ser importantes, mas em todo lugar sempre tinha alguém escrevendo, pintando, desenhando, copiando textos e gravuras. Meditar e até orar eram uma das coisas que eles conseguiam entender.

Um lugar completamente diferente do que eles já tinham visto, com espécies improváveis interagindo juntas. E, por um momento, a esperança da paz palpitou no peito do felino e da leporídea. Por algum tempo, eles procuraram juntos seus respectivos parentes, Mahãk os encontrou primeiro e correu para abraçá-los. Seu irmão mais velho, Arasil, seu pai e mãe estavam lá, seguros. Eles choraram juntos e, quando Mahãk olhou para trás, Pan’thru já não estava mais lá. Algo dentro dela queria que ele estivesse, mas ela sabia que teria complicações se a vissem com uma onça depois de tudo o que aconteceu. Talvez fosse melhor evitar esse tipo de problema, por enquanto.

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