Crônicas Do Olimpo - A Batalha Do Labirinto
1 Velhos amigos... Só que não.
Notas iniciais
Para Mariana
Inteligente e estrategista como Atena
Há três anos atrás eu descobri que os deuses ainda existiam, e que o olimpo mudava junto com o coração do ocidente... Ou Algo assim. Há três anos atrás eu descobri que esses deuses tinham filhos com mortais. Esses... São chamados de meio-sangues. Ou semideuses se quiser ser mais formal... Há três anos atrás eu descobri que eu era um desses semideuses. Há três anos atrás eu costumava ser Megan, A Filha do Mar. Mas se quiserem intimidade...
Eu sou Megan Jackson, e três anos se passaram e hoje estou com meu destino escrito em uma profecia — que ninguém quer me contar. — que envolve um filho ou filha dos três grandes deuses... Mas essa história eu tenho certeza de que você já conhece.
Naquele dia eu estava em mais uma missão, os monstros andavam á solta, não apenas atacando semideuses perdidos, como também atacavam os mortais. Sério, dois mortais foram devorados por formigas gigantes, Myrmekos, que nem deveriam estar lá! Na cidade! Então os semideuses estavam tendo mais trabalho do que nunca.
Eu e Jake nos enfiamos nessa missão, meio que não tinha um terceiro voluntário, Hansel, o sátiro que me resgatou estava ocupado demais, algo sobre Pã... Não sei, ele não quis me contar. Quiron nos ajudou a nos passarmos por alunos, na Goode High School aonde supostamente tinham ocorrido alguns desaparecimentos recentes de alguns garotos. Problemas... Monstros é claro! Tivemos que fazer uma prova e Jake foi parar em um ano a mais que eu, mas sabem, nem todo mundo pode ser abençoado pela deusa da sabedoria.
Eu sabia que seriamos facilmente expulsos de lá...
– ...Mas antes precisamos achar a coisa. — disse Jake.
Suspirei.
– É mais fácil a coisa nos achar. — comentei.
Jake me lançou um olhar do tipo você-não-esta-facilitando-as-coisas ou algo como você-não-esta-ajudando, o que dá no mesmo.
– Apenas tente ficar longe de problemas. — disse ele enquanto caminhávamos na direção da entrada.
– Tá certo, tá certo. — falei.
– Lembra do plano? — perguntou ele pela enésima vez.
– Sim, sim... Em resumo é desintegrar, mentir e correr. — falei.
– Pode ser... — disse ele.
Paramos de andar de repente.
Paul Blofis, o nosso professor de inglês estava em frente à escola, recebendo futuros alunos do primeiro ano conforme eles subiam os degraus. Com seu cabelo grisalho, roupas de brim, e jaqueta de couro, ele me lembrava um ator de TV, mas ele era apenas um professor de inglês.
– Preparada? — perguntou Jake.
– Tenho escolha?
– Não... — disse ele.
Então eu olhei para frente pronta para ir na direção da entrada principal, quando eu avisto ele. Reconheceria aquela jaqueta jeans em qualquer lugar. Quando ele se virou, eu peguei um vislumbre de seu rosto, estremeci com aqueles olhos verdes.
Pior que monstros! Pior que Profecias! Pior que a roupa de Banho do Hades!... Tá, essa última nem tanto. Não vou exagerar, mas ali estava ele. Meu pesadelo moreno, o Britânico Daniel Kane.
"
– É... Jake?
– Sim?
– Existe outra entrada?
– Depois do bloco do lado direito. Por quê?
– Hum... Vejo você mais tarde...
Então eu o deixei e corri, amaldiçoei ele depois que ele gritou meu nome, pois foi nesse momento que Dave... Daniel, se virou, não fiquei tempo suficiente para descobrir se ele tinha me visto.
O que ele estava fazendo aqui? Nem mesmo a minha sorte poderia ser tão ruim. É, certo. Eu estava prestes a descobrir que minha sorte poderia ser muito pior.
Entrar às escondidas na orientação não funcionou muito bem. Duas líderes de torcida em uniformes roxo e branco estavam de pé na entrada lateral, esperando para emboscar calouros.
– Olá! — disse uma delas.
– Ah... Oi. — cumprimentei.
Elas sorriram, o que eu presumi que seria a primeira e última vez que qualquer líder de torcida seria amigável assim comigo. A maioria das líderes de torcida que eu já conheci eram esnobes, chatas, arrogantes e patricinhas — nada contra, algumas patricinhas são maneiras, tinha Beatrice Rosetti do chalé de Afrodite.
Uma delas era loira com frios olhos azuis. A outra era afro-americana com cabelo escuro encaracolado como o da Medusa (e acredite, eu sei do que estou falando). Ambas tinham seus nomes costurados em letra cursiva no uniforme, mas com minha dislexia, as palavras pareciam um espaguete sem sentido e deformado.
– Seja bem-vinda a Goode! — disse a loira. — Você vai amar isso aqui, eu sei que seremos grandes amigas!
Mas conforme ela me olhou de cima a baixo, a sua expressão disse algo mais como: Quem é essa esquisita?
Ela me lembrava uma garota loira que me importunava quando pequena, Amber alguma-coisa que eu não lembro. A outra menina se aproximou desconfortavelmente de mim. Eu estudei a costura em seu uniforme e li Kelly. Ela cheirava como rosas e algo mais que reconheci das aulas de equitação no acampamento – o cheiro de cavalos recém lavados. Era um cheiro estranho para uma líder de torcida. Talvez ela tenha um cavalo ou algo assim. Enfim, ela ficou tão perto que eu tive a sensação que ela iria tentar me empurrar pelas escadas.
– Qual é o seu nome, calo? — perguntou ela.
– O que? — perguntei.
– Caloura.
– É... Megan.
As meninas trocaram olhares.
– Megan Jackson... Estávamos esperando por você.
Isso já estava ruim demais.
– Eu não lembro de ter dito...
– Srta. Jackson! — era Paul Bloofish... alguma coisa desse tipo, o professor de inglês salvando minha vida, me livrando do Bullying e fazendo diferença na Goode.
As líderes de torcida se afastaram. Eu estava tão ansiosa para passar por elas que acidentalmente dei uma joelhada na coxa de Kelly.
Clang.
Sua perna fez um som oco, metálico, como se eu tivesse batido num mastro de bandeira.
– Ai! Olhe por onde anda, Calo. — disse ela.
– Desculpe. — falei.
Eu olhei para baixo, mas a perna dela parecia uma perna normal. Eu estava muito assustada para fazer perguntas. Eu deslizei para o corredor, as líderes de torcida rindo atrás de mim.
– Ai esta você. — disse ele.
– É... — me forcei a sorrir.
– Vejo que já fez amigas, não é?
– É... Mais ou menos isso. — falei.
Eu olhei para trás, mas as esquisitas líderes de torcida tinham desaparecido.
– Megan... Você parece que viu um fantasma. — disse ele.
– Acho que foi isso... Quer dizer, eu só... Estou nervosa para... meu primeiro dia.
Engole essa, engole essa... eu pensava.
– Ouça, eu sei que você está nervosa, mas não se preocupe. Nós temos uma porção de adolescentes com TDAH e dislexia aqui. Os professores sabem como ajudar.
Eu quase quis rir. Como se apenas o TDAH e a dislexia fossem minhas maiores preocupações. Quer dizer, eu sabia que o professor estava tentando ajudar, mas se eu contasse a ele a verdade sobre mim, ele pensaria que eu estava louca ou sairia correndo gritando. A primeira opção...
Onde estaria Jake... Aquelas líderes de torcida... Eu tinha um mau pressentimento sobre elas... Então eu olhei para o fundo do corredor, e me lembrei que tinha outro problema.
Daniel Kane que eu vira nos degraus da frente estava passando pela entrada principal.
Não me note... Não me note.
Mas como eu sou muito sortuda, ele me notou e seus olhos se arregalaram.
Me voltei para o professor Bloofish.
– Onde é a orientação?
– No ginásio. Por aqui. Mas...
– Até mais tarde!
– Megan? — ele chamou, mas eu já estava correndo de Denver como se ele fosse o pior monstro de todos.
Minutos depois eu pensei ter despistado o britânico.
Um monte de garotos e garotas estava indo para o ginásio, e logo eu era apenas um entre os trezentos adolescentes de quatorze anos de idade enchendo as arquibancadas.
Uma banda marcial tocou uma canção de luta fora do tom que soou como se alguém estivesse batendo num saco de gatos com um taco de beisebol de metal. Garotos mais velhos, provavelmente estudantes membros do conselho estudantil, estavam de pé na frente apresentando o uniforme da escola Goode e olhando para todos : Ei, nós somos o máximo.
Professores circulavam em volta, sorrindo e apertando mãos de alunos. As paredes do ginásio eram cobertas com cartazes roxos e brancos que diziam BEM-VINDOS FUTUROS CALOUROS ou A GOODE É LEGAL ou ainda SOMOS TODOS UMA FAMÍLIA, e vários outros slogans alegres que me fizeram querer vomitar.
Nenhum dos outros calouros parecia excitado por estar aqui, também. Quer dizer, vir à orientação em junho, quando a escola sequer começa antes de setembro, não é legal. Ainda mais com o fato dos desaparecimentos ocorridos naquela escola. Nenhum professor agia como se tivesse acontecido algo assim.
Mas na Goode, “Preparamos para a excelência cedo!” Pelo menos isso é o que o panfleto dizia. A banda parou de tocar. Um cara em um terno de risca de giz foi até o microfone e começou a falar, mas o som ecoou ao redor do ginásio, então eu não fazia ideia sobre o que ele estava falando. Poderia ter sido um gargarejo. Eu pulei quando alguém agarrou meu ombro e rezei para ser Jake.
Mas não era.
– O que esta fazendo aqui?
Era ele, era ele, era ele...
– Daniel Kane.
Ele pareceu surpreso por eu conseguir acertar seu nome.
– Olhe, acertou meu nome. Ficou pensando em mim?
– Não se ache. — falei.
– Mas você não disse que não pensou.
– E nem disse que sim. — falei. — Acho que os dois...
Ele riu.
– Mas você... Megan tenho-que-ir. — disse ele. — Eu não peguei seu nome inteiro em dezembro passado quando você tentou me matar.
– Sinto muitíssimo, mas a ideia não era exatamente essa. — falei. — O que você está fazendo aqui?
– O mesmo que você, acho. Orientação.
– Você mora em Nova York?
– O que, você pensou que eu vivia na represa Hoover?– ele brincou, mas eu não ri. — Espera... Você pensou?
Isso nunca me ocorreu. Sempre que eu pensava sobre ele — e eu não estou dizendo que eu pensava sobre ele, ele só atravessava minha mente de vez em quando, ok? — eu sempre imaginei que ele vivia na área da represa Hoover, já que foi lá que eu o conheci.
Tínhamos gasto talvez dez minutos juntos, e nesse tempo eu acidentalmente o golpeara com minha espada, ele salvara a minha vida, e eu tinha fugido perseguida por um bando de máquinas de matar sobrenaturais. Você sabe, um típico encontro casual.
Um cara atrás de nós sussurrou:
– Ei! Calem a boca! As líderes de torcida estão falando...
– Oi, gente! – uma garota borbulhou no microfone. Era a loira que eu vira na entrada. – Meu nome é Tammi, e ela é Kelly.
Kelly deu um mortal.
Perto de mim, Daniel gritou:
– QUE DROGA É ESSA? CRUZ CREDO! É O EXORCISTA!?
Eu pisei no seu pé, mas todos já haviam visto ele. Ele apenas olhava com horror para as líderes de torcida. Tammi não pareceu notar o acesso. Ela começou a falar sobre todas as atividades maravilhosas nas quais poderíamos nos envolver durante nosso primeiro ano.
– O que deu em você? — eu sussurrei para ele.
– Corra. — Daniel me disse. — Agora
– Por que?
Daniel tentou explicar. Ele abriu caminho até a beirada da arquibancada, ignorando os professores de sobrancelhas franzidas e os garotos e garotas resmungões nos quais ele estava pisoteando. Eu hesitei. Tammi estava explicando como estávamos prestes a nos separar em pequenos grupos e fazer um tour pela escola. Kelly captou meu olhar e me deu um sorriso divertido, como se ela estivesse esperando para ver o que eu ia fazer.
Então pensei em Daniel Kane, e na habilidade especial que ele mostrara inverno passado na represa Hoover. Ele tinha sido capaz de ver um grupo de guardas de segurança que não eram guardas na verdade, que não eram sequer humanos. Com meu coração batendo, eu me levantei e o segui para fora do ginásio.
Eu encontrei o britânico escandaloso na sala de musica. Ele estava escondido atrás de um tambor na seção de percussão.
– Venha até aqui! — ele chamou. — E fique com a cabeça abaixada.
Eu me senti muito boba me escondendo atrás de um bando de bongôs, mas me agachei ao lado dele.
– Elas te seguiram? — perguntou ele.
– Esta falando das líderes de torcida? — perguntei.
Ele assentiu nervosamente, percebi que estava agarrando meu braço como se eu fosse sair correndo para ser devorada por... O que quer que elas fossem.
– O que você viu lá?
Seus olhos verdes brilhavam de excitação.Em sua camiseta estava escrito DEPARTAMENTO DE ARTE DE HARVAD.
– Você... Ia achar que sou louco.
Eu dei uma risada curta.
– Claro que iria. — falei. — Você pode ver através da Névoa.
– Da o que?
Suspirei.
– A Névoa. É... bem, é como um véu que esconde a forma como as coisas realmente são. Alguns mortais nascem com a capacidade de ver através dela. Como você.
Ela me estudou atentamente.
– Você fala mortal como se... Não fosse uma. — disse ele hesitante.
Tive vontade de socar um bongô. O que eu estava pensando? Eu jamais poderia explicar. Eu não deveria sequer tentar. Eu nem... Acho que... Droga!
– Eu não... Eu não deveria contar. — falei.
– Qual é... — suspirou ele. — Por favor. Você sabe o que isso significa. Todas essas coisas horríveis que eu vejo?
Ele parecia desesperado, já estava me segurando pelos ombros como se fosse me beijar.
– Olhe, isso vai parecer estranho. Você sabe alguma coisa sobre mitos gregos?
– Como... o Minotauro e a Hidra?
– É, é... Só tente não dizer esses nomes quando eu estou por perto, tá? — falei
– E as fúrias! E as sereias. — ele se animou. — E os ciclopes e...
– Eu já entendi que você sabe! — exclamei.
Eu olhei ao redor da sala de música, certa de que Daniel ia fazer um bando de nojentos sedentos de sangue saírem das paredes; mas nós ainda estávamos sozinhos.
Abaixo no corredor, eu ouvi uma multidão de garotos e garotas saindo do ginásio. Eles estavam começando o tour em grupos. Nós não tínhamos muito tempo para conversar.
– Todos esses monstros. — falei. — Todos os deuses gregos... São de verdade.
– Eu sabia! Eu estava certo! — ele exclamou. — Eu adoro estar certo... Mas nesse caso...
Percy já tinha me dito algo parecido... Suspirei, mas eu teria ficado melhor se ele me chamasse de louca ou mentirosa, mas Daniel agia como se eu tivesse confirmado sua maior suspeita.
– Você podia se controlar e não se empolgar muito. — falei.
– Você não entenderia. Todos esses anos... eu achei que... — ele gaguejou. — Eu não podia dizer a ninguém. Eu não podia... Mas quem é você? Quer dizer... O que você é?
Dessa lado ele me lembrava de Luke, uma vez ele me perguntara isso então eu o joguei da montanha do desespero em São Francisco.
– Sou uma semideusa. — falei. — Meio humana e meio...
Bem aí Tammi e Kelly entraram na sala de música. As portas bateram e fecharam atrás delas.
– Ai esta você... Megan Jackson. — disse Kelly. — É hora da sua orientação.
– Elas são horríveis! — sussurrou Daniel.
– Qual é a aparência delas? — perguntei.
– Algo entre o exorcista e o homem de lata. — disse ele.
– Ah sim... — suspirou Tammi. — Teremos que devorar os dois?
Kelly parecia pensar.
– Seria ótimo, mas o mestre não ia gostar nada disso, ele iria querer se vingar com suas próprias mãos... E ele vai...
Me perguntei de que "mestre" ela estaria falando, mas não tive muito tempo para pensar nisso, se bem que eu tinha um palpite e esperava estar bem errada...
Mas meu verdadeiro pânico começou quando Tammi começou a caminhar em nossa direção... Mas eu já passei por vários momentos como esse, não como se eu fosse ganhar em todos ele, vai saber, não se pode ganhar sempre.
Mas eu não estou nem um pouco a fim de morrer.
No meu bolso, eu pressionei Anaklusmos.
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