Crônicas Do Olimpo - A Batalha Do Labirinto
29 A Benção Final! O Legado de Pã
Notas iniciais
Como deve sua desordem, desordem,
Agora, em algum lugar entre o sagrado silêncio
Sagrado silêncio e sono
Em algum lugar, entre o silêncio sagrado e o sono
Desordem, desordem, desordem"
- System of a Down (Toxicity)
Nós corremos até nossos corpos ficarem dormentes. Daniel nos desviou de armadilhas, mas não tínhamos um destino em mente – apenas para longe daquela montanha negra e do rugido de Cronos.
Eu estava em estado de choque, eu sei que tipo... Sou a personagem principal aqui! Mas não deixo de ter minha parte humana, quando se vive aquilo... Bem, acredite, se você estivesse lá, você me entenderia perfeitamente.
Nós paramos em um túnel de rocha branca úmida, como se fosse parte de uma caverna natural. Eu não ouvia nada atrás de nós, mas eu não me senti nem um pouco mais segura. Eu ainda podia me lembrar daqueles anormais olhos dourados me encarando no rosto de Luke, e da sensação de que meus membros estavam lentamente se transformando em pedra.
Eu desmoronei no chão, eu realmente não estava preparada para isso. Mas eu não tinha escolha, não posso ser corajosa e determinada o tempo todo. As vezes temos que simplesmente apostar o destino em algo ou alguém, e Quiron e mais o acampamento inteiro apostou em mim. Mas eu já não tenho certeza se posso fazer isso, mas também, desistir não é opção.
- Cheguei no meu limite... — arfou Daniel recuperando o folego.
Eu queria dizer "Idem", mas eu não tinha força para isso... Devo ter deixado minha voz para trás em algum momento. Eu escorreguei pela parede e abracei minhas próprias pernas ainda tremula.
- Droga! — arquejou Jake atacando a parede com seu sabre. Fagulhas voaram. — Eu sabia que não podia deixar você ir lá! Eu sou um...
- Ficar se xingando realmente não vai ajudar em nada. — disse Daniel com a respiração pesada. — Megan, como você está?
Eu não olhei para eles, apenas permaneci ali ainda abraçada aos meus joelhos e olhando fixamente para o chão, com as mesmas imagens na minha cabeça. Me pergunto se era assim que Chris Rodrigues se sentira... Perdido.
Jake suspirou, Nico desabou ao meu lado.
- Você sabe não é? — Jake disse para ele. — Aquela parede de pedra negra? Foi realmente impressionante. Se Cronos não sabia quem você era antes, agora ele sabe. Um filho do Mundo Inferior.
Nico franziu as sobrancelhas.
– Grande coisa.
Eu sabia que ele estava apenas tentando esconder o quanto estava assustado, diferente de mim. Eu não conseguia fingir, como disse Jake e Hansel: Sou péssima mentirosa.
Nico colocou a mão em meu ombro.
- Luke... — eu disse finalmente com a voz vacilante. — Ele se entregou a Cronos...
- É, nós vimos. — disse Jake.
- Cronos possuiu Luke. — eu disse engolindo seco. — Luke... Está morto, ele se entregou por medo... Isso está errado.
- Não importa agora. — disse Nico. — Estamos salvos.
Mas eu sacudi a cabeça.
- Não... Estamos só adiando nossa morte.
- Megan? — Jake chamou, talvez porque aquelas palavras não eram muito normais vindo de mim. — O que houve?
- Nada. — soltei a respiração. — Estou bem.
Então olhei para Daniel com respeito.
- Você... — hesitei. — Você atacou o titã do tempo com um Mp4.
- Bem, eu não tinha uma caneta-espada ou algo do tipo, então... — ele riu.
Eu voltei a olhar para o chão, Nico ainda segurava o meu ombro me olhando como quem não sabia o que dizer, mas sabia que eu estava mal. Mas não era por Luke, por mim que morresse Luke mesmo. Ele era realmente mal, mas... Agora que Cronos voltou, não posso voltar atrás.
Olhei para Jake.
- Eu tenho que ficar mais forte.
Ele franziu as sobrancelhas para mim.
- Silena estará na batalha. — eu disse. — Ela vai tentar me matar e dessa vez vai ser pra valer... Ainda não acredito que ela vai fazer isso.
- Do que está falando?
- Cronos vai testa-la... Entende? Luke disse que o dever dela era me matar. — contei sobre meu sonho. — Ela vai comandar o exército, ela vai vir atrás de mim. Mas ela hesitava... Ela hesitou!
- Megan, eu realmente acho que você... — ele hesitou. — Deveria esquecer dela, ela se foi... Silena não é a mesma pessoa que você conheceu antes...
- Você não sabe nada dela! — eu gritei agora. — Eu conheço ela mais tempo, você não pode dizer nada dela!
Ele em vez de se irritar, suspirou e disse:
- É isso, se você continuar com esse tipo de pensamento. — disse ele. — Vai morrer.
- Você não entende... — eu vacilei.
- Ei, vocês dois, parem com isso! — disse Daniel.
- Cala a boca! Você é outro.- eu gritei para ele, mas vacilei novamente tossindo.
Eu ainda me sentia atordoada, como se o efeito câmera lenta de Cronos tivesse afetado meu cérebro. Eu apenas não conseguia compreender o que eu vira. Cronos estava vivo. E o fim do mundo provavelmente estava bem próximo.
– Temos que ir andando – disse Nico. – Ele vai mandar monstros atrás de nós.
Ninguém estava em forma para correr, mas Nico estava certo. Jake se ajoelhou ao meu lado.
– Ei, sinto muito, eu não entendo mesmo, mas temos que ir.
- Eu sei... — eu disse. — Eu... Eu estou legal.
Era bem obvio que eu não estava bem mesmo, mas ele me ajudou a ficar de pé, mesmo cambaleando, por um longo percurso eu tive de me apoia nele. E começamos a nos afastar pelo labirinto mais uma vez.
- Voltando a Nova York. — eu disse finalmente. — Daniel, você poderia...
Eu congelei. Alguns metros a nossa frente, minha lanterna encontrou um pedaço de tecido vermelho pisoteado e deixado no chão. Era um boné rastafari: O que Hansel sempre usava.
Minhas mãos tremiam quando peguei o boné. Parecia ter sido pisoteado por uma bota enlameada gigantesca. Depois de tudo que tinha acontecido hoje, eu não podia suportar a ideia de que algo pudesse ter acontecido com o menino-jegue também.
Então eu notei outra coisa. O chão da caverna estava lamacento e úmido por causa da água que caía das estalactites. Havia pegadas enormes como as de Tyler, e outras menores – cascos de bode – indo pela esquerda.
- Temos que ir atrás deles. — eu disse.
- Mas e o acampamento? — perguntou Nico. — Não temos tempo.
- Mas eles são nossos amigos! — insistiu Jake. — Não podemos simplesmente deixa-los...
Jake pegou o boné da minha mão e seguiu adiante, e eu fui logo atrás do mesmo.
Eu segui preparada para o pior. O túnel era traiçoeiro. Ele inclinava em ângulos esquisitos, e estava viscoso pela umidade. Metade do tempo estávamos escorregando e derrapando ao invés de andar.
Finalmente chegamos à base de uma encosta e nos encontramos em uma grande caverna com enormes colunas de estalagmite. Pelo centro do lugar corria um rio subterrâneo, e Tyler estava sentado na beirada, embalando Hansel em seu colo. Os olhos de Hansel estavam fechados. Ele não se mexia.
- Tyler! — chamei.
- Megan! Venha rápido!
Nós corremos até ele. Hansel não estava morto, graças aos deuses, mas seu corpo todo tremia como se ele estivesse congelando até a morte.
- O que houve? — perguntei.
- Muita coisa... — disse Tyler. — Cobra grande. Cachorros grandes. Homens com espadas. Mas então... nós chegamos perto daqui. O menino-jegue estava agitado. Ele correu. Aí chegamos a este lugar, e ele caiu. Desse jeito.
- Mas... Ele disse alguma coisa? — perguntou Jake.
Tyler assentiu.
- Ele disse: "Está perto." Então bateu com a cabeça nas rochas.
Eu me ajoelhei perto dele. A única vez que eu vira Hansel desmaiar foi no Novo México, quando ele tinha sentido a presença de Pã.
Eu iluminei as paredes da caverna com minha lanterna. As rochas brilharam. Na outra extremidade havia uma entrada para outra caverna, flanqueada por colunas gigantescas de cristal, que pareciam diamantes. E além da entrada...
Olhei para Hansel, e chamei:
- Hansel! Acorde.
- ... A boca da caríbdis, abre e fecha, abre e fecha, abre e fecha... Pelo mar de...
Então eu dei um tapa em sua cara gritando:
- ACORDA GAROTO-JEGUE!
- PASTEL DE QUEIJO! — gritou ele de volta. — Ah... O que? Megan? Jake? Onde estamos? O que eu perdi?
- Você desmaiou. — eu contei. — A presença foi demais para você. Mas está tudo bem agora.
– E-eu me lembro. Pã.
– É – eu disse. – Algo poderoso está bem atrás daquela entrada. Ah e sim... Esse aqui é meu amigo, Daniel Kane... Daniel esses são Tyler, meu irmão caçula e Hansel, meu melhor amigo sátiro.
Eu me levantei e ajudei o menino-jegue a levantar.
- Oi... Você não tem cheiro de meio-sangue. — disse Hansel.
- Oi... E... Você é metade... jegue? — disse Daniel.
- Bode... — disse Hansel segurando a paciência... Todo mundo fazia isso com ele. — Sou metade bode.
- Foi mal. — disse Daniel.
– De qualquer forma – falou Jake. – Vamos, Hansel. Se apoie em mim. Megan, me ajude aqui...
- Certo. — eu disse.
Nós ajudamos Hansel a recuperar o equilíbrio então juntos, atravessamos o rio subterrâneo. A correnteza era forte. A água chegava às nossas cinturas. Eu desejei ficar seca, o que é uma habilidade bem útil, mas isso não ajudava os outros...
- Isso é sacanagem, Megan... — disse Daniel.
Eu ri.
- As vantagens de ser filha de Poseidon.
– Eu acho que estamos nas Cavernas Carlsbad – disse Jake com seus dentes batendo por causa do frio. – Talvez uma parte inexplorada.
- Como sabe disso? — perguntei.
- Carlsbad é no Novo México – ele disse. – Isso explicaria o inverno passado.
Eu assenti. O episódio do desmaio de Hansel ocorreu quando passamos pelo Novo México. Foi onde ele se sentira mais perto do poder de Pã.
Saímos da água e continuamos andando. Conforme as colunas de cristal ficavam maiores, eu comecei a sentir o poder emanando do cômodo adiante. Eu já tinha ficado na presença de deuses antes, mas isto era diferente. Minha pele formigou com energia viva. Meu cansaço sumiu, como se eu tivesse tido uma ótima noite de sono. Eu podia sentir que estava ficando mais forte, como uma daquelas plantas em vídeo de tempo acelerado. E o aroma vindo de dentro da caverna não era nada parecido com o de um subterrâneo frio e úmido. Cheirava a árvores e flores e um dia morno de verão.
Hansel choramingou de emoção. Eu estava atordoada demais pra andar. Mesmo Nico parecia sem palavras. E Daniel disse:
- Velho... Isso aqui é irado!
As paredes brilhavam com cristais – vermelho, verde e azul.Em luzes curiosas, lindas plantas cresciam – orquídeas gigantes, plantas em formato de estrela, vinhas estourando com frutas laranjas e roxas que penetravam entre os cristais.
O chão da caverna estava coberto de musgo. Acima, o teto era mais alto que uma catedral, brilhando como uma galáxia de estrelas. No centro da caverna havia uma cama no estilo romano, a madeira banhada em ouro com o contorno de um U curvado, com almofadas de veludo.
Animais descansavam em volta dela – mas eram animais que não deveriam estar vivos. Havia um pássaro Dodô, algo que parecia o resultado de um cruzamento entre um tigre e um lobo, um roedor gigante que parecia a mãe de todos os porquinhos da índia, e perambulando atrás da cama, pegando frutas com sua tromba, havia um mamute coberto de lã.
Na cama jazia um velho sátiro. Ele nos observou conforme nos aproximávamos, seus olhos tão azuis quanto o céu. Seu cabelo enrolado era branco assim como a sua barba pontuda. Até o pelo de bode em suas pernas estava polvilhado de cinza. Seus chifres eram enormes – marrons polidos e curvados. De jeito nenhum ele conseguiria escondê-los sob um boné como Hansel fazia. Em volta de seu pescoço havia um conjunto de flautas de madeira.
Hansel caiu de joelhos diante da cama:
- Lorde Pã!
O deus sorriu gentilmente, mas havia tristeza em seus olhos.
- Hansel, meu querido bravo sátiro. Esperei um longo tempo pela sua chegada.
Hansel corou.
- Eu... Eu me perdi.
Pã riu. Era um som maravilhoso, como a primeira brisa da primavera, enchendo toda a caverna com esperança. O lobo-tigre suspirou e descansou sua cabeça no joelho do deus. O pássaro Dodô bicou a pata do deus afetuosamente, fazendo um barulho estranho no fundo do seu bico. Eu podia jurar que ele estava cantarolando “It´s a Small World.”
Mesmo assim, Pã parecia cansado. Toda a sua imagem tremeluzia como se ele fosse feito de Névoa.
Percebi que meus amigos estavam se ajoelhando. Eles tinham olhares receosos em seus rostos. Por último, me apressei em me ajoelhar também.
– Você tem um pássaro Dodô que canta... – eu disse estupidamente.
Os olhos do deus cintilaram.
– Sim, esta é Dedê. Minha pequena atriz.
Dedê, a Dodô, pareceu ofendida. Ela bicou o joelho de Pã e cantarolou algo que parecia uma marcha fúnebre.
- Esse lugar... — disse Jake. — É maravilhoso.
– Estou feliz que tenha gostado, meu rapaz – Pã disse. – É um dos últimos lugares selvagens. Receio que meu domínio acima tenha se encerrado. Apenas pedaços remanescem. Minúsculos pedaços de vida. Este deve permanecer intocado... por mais um pouco.
- Lorde Pã... — Hansel chamou a atenção do homem-jegue... — por favor, o senhor deve retornar comigo! Os anciões jamais acreditarão em mim! Eles ficarão radiantes! Você pode salvar a natureza!
Pã pôs a mão na cabeça de Hansel e embaraçou seu cabelo enrolado.
- Você é tão jovem e cheio de vida, Hansel. — disse o deus. — Tão bom e verdadeiro. Acho que escolhi bem, afinal.
- Me escolheu? — gaguejou Hansel. — Eu não entendo...
A imagem de Pã tremeu, momentaneamente transformando-se em fumaça. O porquinho da índia gigante foi pra debaixo da cama com um guincho terrível. O mamute peludo grunhiu nervoso. Dede escondeu a cabeça sob a sua asa. Então Pã se formou novamente.
– Eu dormi vários éons– o deus disse miseravelmente. – Meus sonhos têm sido sombrios. Eu acordo de forma intermitente, e a cada vez fico desperto por menos tempo. Agora estamos próximos do fim.
- O que?! — exclamou Hansel. — Ma-Mas... O Senhor esta aqui agora!
– Meu querido sátiro – Pã falou. – Eu tentei dizer ao mundo, dois mil anos atrás. Eu anunciei para Lysas, um sátiro muito parecido com você. Ele morava em Éfeso, e tentou espalhar a notícia.
Jake arregalou os olhos.
- O conto... Um marinheiro passando pela costa de Éfeso ouviu uma voz gritando da margem, “Diga a eles que o grande deus Pã está morto.”
- Mas era mentira! — disse Hansel.
– Sua espécie nunca acreditou – Pã disse. – Vocês queridos, teimosos sátiros se recusaram a aceitar minha morte. E eu os amo por isso, mas vocês apenas adiaram o inevitável. Vocês apenas prolongaram minha longa, dolorosa passagem, meu obscuro sono crepuscular. Isso deve acabar logo.
- Não... Não pode. — insistiu Hansel.
- Jovem sátiro... — disse o deus. — Você deve aceitar a verdade. Seu companheiro, Nico, ele entende.
Nico assentiu devagar.
– Ele está morrendo. Ele deveria ter morrido há muito tempo. Isto... isto é mais como uma memória.
– Mas deuses não podem morrer – Grover disse.
– Eles podem desaparecer – Pã disse, – quando tudo que eles prezam se foi. Quando eles param de ter poder, e seus lugares sagrados desaparecem. A natureza, meu querido Hansel, é tão pequena agora, tão despedaçada, que nenhum deus pode salvá-la. Meu domínio acabou. É por isso que preciso que você leve uma mensagem. Você deve voltar ao Conselho. Você deve contar aos sátiros, e às dríades, e aos outros espíritos da natureza, que o grande deus Pã está morto. Conte sobre a minha partida. Pois eles tem que parar de esperar que eu os salve. Eu não posso. A única salvação vocês mesmos devem fazer. Cada um de vocês deve se dedicar ao meu chamado. Começando por você, Hansel Phelps.
- Mas... Não! — Soluçou Hansel.
- Você me achou. E agora deve me libertar. Você deve carregar meu espírito. Ele não pode ser mais carregado por um deus. Ele deverá ser tomado por cada um de vocês.
Pã olhou diretamente para mim com seus claros olhos azuis, e eu percebi que ele não estava falando apenas de sátiros. Ele se referia a meio-sangues, também, e humanos. Todo mundo.
- Megan Jackson. — disse ele. — Conheço suas duvidas sobre o que viu hoje e o que não viu do seu passado ainda. Mas eu lhe dou esta notícia: quando a hora chegar, você não será dominada pelo medo. Não existe o certo e o errado definitivo, tudo faz parte do que você acredita, jovem guerreira.
Ele se virou para Jake.
- Filho de Ares, sua hora está chegando. — disse ele. — Você se tornará muito forte e ao mesmo tempo sábio, o que é raro se ver em um filho do deus da guerra. Você desempenhará um grande papel, porém pode não ser o papel que você espera.
Ele se virou para Tyler.
- Mestre ciclope... Não desanime. Os heróis raramente estão à altura das nossas expectativas. Mas você, Tyler... Seu nome viverá entre os ciclopes por gerações. E Sr. Daniel Kane...
Daniel meio que hesitou quando Pã disse seu nome. Ele virou o rosto, como se fosse culpado de alguma coisa, mas Pã apenas sorriu. Ele estendeu a mão numa bênção.
- Sei que você não crê nisso agora. — disse. — Mas você é tão importante quanto seu pai, as oportunidades virão a par... Agarre-as.
Finalmente ele se virou novamente para Hansel.
- Querido sátiro. — disse o deus. — Eu lhe escolhi porque acredito que seja você aquele que carregará minha mensagem, e aceitará o meu espírito e o papel de legado. Você fará isso?
- Eu... Não posso.
- Você é o mais forte e o mais corajoso. Seu coração é verdadeiro. Você acreditou em mim mais do que qualquer um já acreditou, por isso é você que deve levar a mensagem, e deve ser o primeiro a me libertar. Você pode fazer isso, eu acredito em você.
- Eu... Não quero, eu não posso fazer isso. — insistiu Hansel.
– Eu sei – o deus disse. – Mas meu nome, Pã... originalmente significava rústico. Você sabia disso? Mas com os anos ele passou a significar tudo. O espírito da natureza deve passar para todos vocês agora. Você deve dizer a todos que conhece: se você quer encontrar Pã, leve o espírito de Pã. Refaça a natureza, um pouco de cada vez, cada um no seu canto do mundo. Você não pode esperar que ninguém, nem mesmo um deus, faça isso por você.
Hansel enxugou as lagrimas. Então vagarosamente ele se levantou.
– Eu passei minha vida toda procurando por você. Agora... eu o liberto.
Pã sorriu.
- Minha benção final... Hansel Phelps, O Legado de Pã.
Ele fechou os olhos, e o deus se dissolveu. Névoa branca se dividiu em punhados de energia, mas esse tipo de energia não era assustadora como o poder azul que eu vira em Cronos. Ela encheu o lugar. Um anel de fumaça veio direto para a minha boca, e para a de Hansel e a dos outros. Mas acho que um pouco mais foi para a de Hansel. Os cristais escureceram.
Os animais nos deram um olhar triste. Dedê, o Dodô, suspirou. Então todos eles ficaram cinza e se desintegraram em poeira. As vinhas murcharam. E nós ficamos sozinhos numa caverna escura com uma cama vazia.
Eu liguei minha lanterna.
- Eu disse. — eu olhei para ele. — Eu sabia que você ia conseguir, menino-jegue. Tenho orgulho de ser sua amiga.
Ele parecia mais velho e mais triste. Ele pegou seu boné com Jake, limpou a lama, e o firmou em sua cabeça encaracolada. E forçou um sorriso para mim:
- Obrigado, Megan.
Eu sorri de volta.
- Legado de Pã. — eu disse. — Você tem uma mensagem para passar, não é?
Ele assentiu.
- Sim, devemos contar para eles. — seu rosto escureceu. — O grande deus Pã está morto.
Notas finais
- Victor Hugo.
"O mundo tornou-se perigoso,
porque os homens aprenderam a dominar a natureza
antes de se dominarem a si mesmos."
- Albert Schweitzer.
"Quão pouco tempo é preciso para mudar todas as coisas!
Natureza de fonte serena, com que facilidade te esqueces."
- Victor Hugo.
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