Notas iniciais
Esse é o conto que inaugura essa coletânea. Pode ser que algum leitor esteja habituado à minha escrita, ou não, então aos novos leitores, espero que possamos viajar juntos. Muitos dos meus contos têm um teor um pouco mais pesado, então resolvi escolher o mais leve, para apenas abrir a coletânea, mas aos poucos vamos nos conhecendo. Espero que gostem, e se possível comentem. Bon apetit.

Acendi um fósforo. Ele começou a queimar. Eu fiquei olhando a chama. Ela era amarela na ponta, e ia ficando laranja, vermelha, azul. O palitinho ia ficando preto, e da ponte do amarelo saía uma fumaça branca. E a fumaça tomava círculos lineares tridimensionais, que girava, giravam, giravam, e se espalhavam... E sumiam. Eu sorri. O fogo foi consumindo, e eu fui acompanhando, até me queimar. Eu estalei o dedo e fiz uma careta. Eu me levantei e fui olhar a janela. O céu estava bonito. Eu consegui identificar um dragão e uns rinocerontes. Os pontinhos eram tão juntos e tão incontáveis, que viravam fumaça branca, massas estelares, mares de luz. Peguei uma folha de papel, e desenhei vários círculos. Até não ter mais espaços sem preenchimento. Eu dobrei o papel e fiz um aviãozinho. Joguei no céu, ele espiralou duas vezes, e caiu de bico. Eu sorri. Fui até a cama, coloquei as duas mãos no colchão e virei de ponta cabeça, os dois pés foram lá no alto. Fiquei trinta segundos, até a cabeça doer. Eu sorri. Eu deitei no chão, e fechei os olhos. Respirei fundo, e sorri. Peguei um cigarro, e o acendi com isqueiro. Com a mesma flama eu acendi um incenso. Eu traguei o cigarro enquanto respirava a fumaça do incenso. Eu sorri. Eu peguei minha garrafa de café, e despejei tudo numa xícara. O aroma se misturou ao tabaco e ao incenso. E eu sorri. Apaguei a luz. Estrelas de plástico se acenderam verdes no meu teto. Eu sorri no escuro. Eu sorri. Sorri. Ri. Peguei a folha de papel. Li. Acendi um fósforo. Ele começou a queimar.