Crônicas De Tempo E Prata
5 O sonho de aço.
Notas iniciais
- Você deveria tentar parar de fumar.
- Por quê?
- Cigarro corrói seu pulmão.
- Cigarro corrói o pulmão. Bebida corrói o fígado. Cara, pro inferno com isso. A vida corrói a alma e ninguém me manda tentar morrer.
Caleb se levantou. Arremessou o toco do cigarro, que quicou duas vezes, soltando faíscas, antes de cair inerte. Olhou para o amigo. Miguel o fitava.
- Tem certeza que vai fazer isso?
- Certeza eu não tenho de nada. Mas é o que eu quero.
- Acho que é um desperdício.
- Tudo é um desperdício, Miguel. A vida é um desperdício do silêncio e do nada. Nós somos a pedra no sapato do destino, que poderia viver muito bem se não precisasse moldar o futuro dos que pensam.
- E as estrelas não pensam?
- Ah é, desculpe. Isso foi um insulto mesmo.
Ele foi até o pé da praça. As luzes da cidade refletiam o céu encoberto por elas mesmas. E as estrelas olhavam para baixo como quem olha para as estrelas. Uma agulha caiu do outro lado do continente. Uma mãe acabava de parir uma criança. Um estômago roncava na Praça Rossevelt. Caleb inspirou o ar da noite. Ele sentiu a brisa do oceano Índico. Sentiu o perfume de uma parisiense.
- Acho que você poderia usar isso de forma bem mais útil. Existe guerra em tanto lugar. Tanta gente ruim. Tanta gente passando fome. Você poderia mudar o mundo.
Caleb olhou para trás. Sua expressão era a de quem havia lido um milhão de livros em silêncio.
- As pessoas costumam dizer que os livros são bonitos. Que uma história poderia dar um livro. Que romances só são reais em livros. Mas eu acho que livros são uma cópia da vida. A vida, se bem observada, é bem mais bonita que os livros. Mas a beleza só existe porque existe o defeito. A mentira é a maquiagem da verdade. Porque a verdade é feia, Miguel. A verdade, a sinceridade, o amor. São as coisas mais horríveis e aterrorizantes que existem. Não adianta acreditar que eu vou ser um herói que salvará o mundo, porque depois de tudo o que eu fizer, serei odiado, perseguido e as coisas voltarão, quem sabe, até pior. Eu não quero explicar as coisas, mas é a mentira que mantém esse mundo em pé, meu amigo. Eu não quero fazer parte de alicerce algum. Se a verdade é uma lâmina, me cortarei todo.
- Viver em mentira é morrer.
- Então estamos todos mortos, meu amigo.
O chão tremeu. O ventou arrastou folhas e Miguel olhou para o céu. Caleb rasgou o ar na velocidade do som. As roupas farfalhando, e as luzes da cidade se tornando pontos remotos em sua visão. A jaqueta de couro abriu-se e a camisa do Superman se estirou em seu peito. Ele sorria. Subiu e subiu voando mais rápido que um foguete. O ar se tornando cada vez mais frio, mas seu corpo não sentia. Atravessou todas as esferas do ar, e as nuvens. O espaço negro se abriu, vistoso, à sua frente. “A Terra é azul”, confirmou, com os olhos brilhando. Flutuou no espaço. A pressão do vácuo fazendo cócegas em seu corpo de aço. O mundo de papelão brilhando com o reflexo do sol. Mirou a Irlanda e desceu. Aumentando mais e mais, pegou fogo ao atravessar a estratosfera. Soprava gelo em suas roupas antes de serem queimadas pela velocidade. As luzes aumentavam mais e mais. Mais e mais. E foi diminuindo a rapidez. Os pés se arrastaram duzentos metros numa colina antes de parar totalmente. Duas linhas paralelas de terra preta ficaram com sua passagem. O tênis liberando fumaça pela borracha gasta. Caleb riu. Pegou outro cigarro no bolso traseiro, mas eles estavam destruídos. Assim como o isqueiro, que deixou um pequeno buraco no bolso de trás. Caleb andou devagar, até a ficar a uns trezentos metros da janela. Ela estava sentada com o computador no colo, e o celular nas mãos. Uma mecha caía perto do rosto, mas dava para ver o sorriso. Na verdade para Caleb, dava para ver cada traço de sua pele, cada célula e átomo. Dava para ouvir seu coração, e sua respiração, até contar as partículas de oxigênio que entravam. Ela estava lá. Ele tinha vinte e quatro horas para ser o homem mais forte do universo. Poderia estar em qualquer lugar do sistema solar. Poderia parar qualquer guerra. Lutar contra qualquer coisa. E o mais importante, vencer. Mas ele estava ali. Parado. Perdendo os preciosos segundos daquelas vinte e quatro horas, para vê-la. Para simplesmente vê-la. Para admirar aquela garota.
Um vento entrou pela janela. A brisa farfalhou os cabelos negro-avermelhados de Linda, e ela olhou para fora. Quando se virou uma jaqueta negra tomou seus olhos. Ela foi levantando a cabeça, e seu coração parou por um segundo.
- E ai gata.
Linda paralisou. Então seus olhos lacrimejaram. E começou a tremer. Soltou o celular e jogou o notebook do colo. Pulou com força da cama e se jogou nos braços de Caleb. Em um segundo ele tinha tantos beijos quantos estrelas no céu. E lágrimas. Tomou cuidado com sua força para não machuca-la, e a envolveu em seus braços. Fechou os olhos, e veio num soco todas as lembranças dela. As noites viradas em vídeo conferências. Tardes de palavras bonitas, músicas e promessas para o futuro. A expectativa e vontade constante de tê-la a cada segundo. Mas ali, naquele abraço, tudo foi minado. Nada daquilo mais importava.
Caleb pegou seu ombro. Afastou-a. A expressão dela alterou, pelo seu semblante. Então ele deu um beijo em sua boca. O beijo mais demorado, sincero e apaixonado que alguém poderia dar. Ele pegou a mão dela, antes de qualquer pergunta, e a abraçou. Linda sentiu o chão sumir de seus pés, e quando percebeu, estava flutuando para fora da janela. O mar de pontinhos cintilantes foi se expandindo no horizonte, e o frio aumentando. Caleb a envolveu mais, para esquentá-la. Daquela altura ela via até a curvatura do mundo. Olhou nos olhos dele, sem acreditar naquilo.
- C-Como?
- Eu sonhei com um pedido que eu poderia fazer. E o meu pedido foi ser o super-homem por um dia. Eu também achei que fosse outro sonho acordar assim. Mas é verdade.
- Mas por que... Por que está aqui? Num mundo tão podre, com tanta coisa ruim, com esses poderes você poderia resolver quase qualquer coisa.
- Eu não posso resolver os problemas do mundo. É algo além da força de um homem. E eu não tenho o caráter do Superman de verdade. Eu não sou imparcial, e não pensaria duas vezes antes de matar o que eu julgasse mal, sem conhecer. Só agora posso entender o quão incrível era um ser como ele. Ainda que fictício. Eu posso ouvir a batida de coração de todos os humanos da Terra. Eu só não enlouqueci... Porque já era louco antes.
Ela lhe deu um beijo.
- Sabe... Eu poderia ter feito qualquer coisa. Mas a única coisa que eu pensei desde que acordei. Desde que vi isso me acontecer... Foi vir te ver. Eu precisava disso. Eu vou voltar, mas agora tudo mudou. Agora eu te vi. Agora eu sei. Que quero fazer tudo pra te levar comigo.
- Me leva agora.
- Eu não posso. Nem você. Eu não serei o super-homem pra sempre. Mas pra sempre serei quem eu sou. E se mesmo sendo um deus, te escolhi. Como homem, vou te escolher quantas vezes for necessário. Mas antes de eu ir, queria que você visse algo.
Ela não respondeu. Ele a virou, e Linda segurou os braços pelo pescoço de Caleb. Ela sentiu um tranco, e em segundos eles estava voando mais rápido que um caça. Ela segurava o rosto nas costas dele para o vento não machuca-la. Quinze minutos depois, eles estavam no mar. Ele foi se aproximando da água, e no alto a lua refletia seu brilho prateado na água. O peito vermelho e azul ornava a água, e Linda esticou o braço para tocar a água. Golfinhos subiram, e então Caleb levantou voo. Retomou a velocidade, e em minutos estavam na África. Leões corriam na Savana, e ele ria. Linda, maravilhada, não conseguia digerir que não estava em um sonho. Mais alguns minutos, e estavam circulando o Monte Everest. Em duas horas eles voaram pelas sete maravilhas do mundo. Caleb conseguia voar sem puxar a atenção de ninguém. Ao fim do espetáculo, ele a levou ao Brasil. Atravessou o céu de Mariana, e parou na pequena praça, onde Miguel comia salgadinhos e ouvia All Consuming Fire, de Jesus Culture. Ele sorriu. O cabelo de Linda estava todo armado, e ela tentava arruma-lo desesperada.
- Você é linda — disse Miguel.
Ela logo identificou o cabelo curto e corpo largo de Miguel. Ela o havia visto algumas vezes no Skype. Fora o primeiro de Caleb a acreditar naquele amor, e os ajudaram muitas vezes, seja com apoio, seja com o notebook no meio da noite.
- Então era isso que você disse que ia fazer?
- Ele não sabia? — perguntou Linda, olhando para Caleb com incredulidade, finalmente caindo em si que estava com pijama e blusa de lã.
- Eu disse que mostraria algo a você. Não era o mundo, era meu amigo. E disse a ele que veria meu mundo, não a Terra, mas você.
- Você é lindo.
- Hahaha, para de melação na minha frente – reclamou Miguel. – Realmente legal o que você fez, mas... O dia está próximo, você tem que leva-la de volta.
- Ah sim, é verdade.
Linda e Miguel se cumprimentaram, e então ela subiu nas contas do Superman. Cortaram dois continentes em trinta minutos, e Linda abriu os olhos em seu quarto. Os dois se olharam por um longo tempo.
- Quando vou te ver de novo?
- Não sei. Mas vou lutar com todas as minhas forças pra ficar com você.
- Eu te amo.
- Eu te amo, minha linda.
Ele tocou a testa dela com um beijo. Ela fechou os olhos. Quando abriu, só havia o vento. E no céu um ponto negro sumindo no horizonte.
Caleb abriu os olhos. O teto de seu quarto, enchendo sua pupila do branco. Ao lado da cama copos e um livro do Isaac Asimov. Ele sorriu. Seu sonho fora realizado. Seu sonho.
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