Notas iniciais
Este conto é outro presente. Arrisco dizer que foi um dos melhores que eu já escrevi não o mais bonito, mas o mais denso. Talvez alguém um dia o compreenda por completo.
A primeira agulha de prata caiu incólume aos meus olhos. Nunca sou capaz de perceber o início da queda da chuva. Um homem andava à frente. Uma linha tridimensional de fumaça cinzenta dançava entre as gotas que caíam, sucessivamente, progressivamente, num ritmo desesperador. A brasa da ponta do cigarro brilhava no escuro da noite. O homem soprava a ponta, uma mania que muitos anos depois, eu iria aderir ao meu vício. Mas naquela época o inferno, para mim, estava na ponta de um cigarro. O homem seguiu e parou no meio-fio, o farol fechou, e ele atravessou. Continuei meu caminho. Uma mãe cortou meu caminho com um carrinho de bebê, apressada, para que seu filho não tomasse a garoa. Eu parei no pé da escada da igreja. Ela estava vazia, a não ser por um par de joelhos parado à frente do altar na nave. Eu entrei. O barulho da sola do sapato criando um eco seco. Sentei na primeira fileira de cadeiras de madeira escura. A garota ajoelhada se levantou e olhou pra mim. Não retribui o olhar.
— Então é você?
— Acho que sim.
Ela veio e se sentou ao meu lado. Colocou as mãos sobre a perna, e abaixou levemente a cabeça. Ela tinha o rosto inchado.
— Eu achei que não acreditava.
— Você não acredita mesmo. Mas foda-se.
Ela olhou pra mim com um olhar doce. Sua expressão era inominável. Uma mescla de súplica, complacência, admiração e amor. Um amor tão genuíno quanto impossível.
— Eu sempre me achei incapaz. Mas sentia que estaria pronta no momento em que eu precisasse de ajuda. Mas agora você está aqui, e minha coragem ainda não chegou.
— Nem chegará. Você nasceu pra ser covarde.
Ela se levantou. Uma procissão de passos e sussurros inaudíveis começou a permear o corredor da igreja. Um sopro de noite entrou, tremendo as novecentas e dezessete velas do santuário. A luz âmbar sorriu para as lágrimas secas no rosto da garota. Era uma agulha de prata derretida, em sal e desgosto.
— Uma vez me disseram que a vida tem propósito. Que os fatos acontecem por algum motivo. Essa é uma das poucas coisas que eu sempre procurei acreditar. Como o porquê de você estar aqui.
— Você me chamou.
— Não. Você veio porque quis. Eu estava orando por um anjo.
— Você me chamou.
Ela se virou. E olhou fundo nos meus olhos. Ainda me lembro do semblante duro e rígido dela. Era o rosto do sol. Não a estrela, mas sim o calor.
— Não quero que você seja quem você é.
— Não importa o que você quer que seja. Importa o que é.
A garota tinha a pele da cor mais bonita do mundo. Era a cor do chocolate, o melhor dos doces. Os olhos dela eram castanhas de vidro. Ela toda era feita de vidro. Um vidro cortante, precioso e indestrutível. Eu a chamei de Diamante. Nunca me ative muito a nomes, mas respeitei ao menos a inicial.
— Homem, por que você veio?
— A noite desse mundo é muito escura. Sempre foi. Eu precisava de algo pra iluminá-lo. Um polígono iridescente. Mas precisava ser algo que viesse da mesma estrutura dessa escuridão. Precisava de uma pedra bruta, pronta a ser lapidada.
— Você acha que eu sou essa pedra bruta?
Levantei-me da cadeira. Os passos foram acompanhados pelo olhar de Diamante. Ela não sorria. Parei com as mãos nos bolsos, em frente à cruz de Cristo. Algumas lembranças me vieram à cabeça. Duas mãos atravessaram o espaço entre meus braços e meu corpo. Fui abraçado. A cabeça encostou-se às minhas costas. Diamante começou a chorar ruidosamente.
— Você não merece isso – ela disse.
— Seu coração sangra.
Ela era feita de vidro. O pó da terra tão girado, que se cristalizou. Ela era a matéria que Deus usara pra fazer o homem, tão chacoalhada pela vida, que tomara outro formato. Mas sua alma era um diamante bruto, e não havia sobre a terra martelo poderoso o suficiente pra lapidá-la. Ouvi, inconscientemente, o choro dela. O coração sangrento pingou uma gota escarlate em minha asa quebrada. Eu senti. A lua argentina lançou um raio opaco pela janela redonda da igreja. As velas tremularam com outra lambida do vento. E apagaram-se. Um brilho difuso sobrou dos raios opacos, deixando um cenário de estacas de prata. Lá fora uma chuva de agulhas e lágrimas. Aqui dentro uma floresta de lanças de âmbar.
— Eu não aguento mais. Toda essa dor. As pessoas sofrem. O mundo todo sofre, e eu sinto cada gota, cada traço, cada vírgula desse sofrimento todo. Eu não aguento mais. Preciso morrer, preciso ir embora daqui logo.
Ouvi sua voz dizer aquelas palavras, carregadas de todos os sentidos do universo. Ela não queria só ir, ela queria deixar algo.
— Você acha que eu sou um herói que salvará a alma de todas as pessoas que sofrem, mas não. Não adianta me dar sua alma. Eu não tenho alma. Almas são intransferíveis. Não são como órgãos do corpo. As pessoas precisam de luz. De direção. Você pode mudar o mundo. O meu trabalho é diferente. É encontrar essas luzes. É fazê-las brilhar.
Ela me abraçou mais forte. Eu consegui sentir uma eletricidade me atravessar, e com isso, toda a dor dela. Por um segundo eu me senti na ponta da brasa de um cigarro.
— Eu te amo.
— Você não me conhece.
— Eu te amo.
Eu soltei as mãos dela. Virei-me. Olhei-a em seus olhos, embotados de agulhas de prata derretidas com sal. Os olhos de Meridiana. Os olhos de quem enxerga o mundo com a clareza das estrelas. Os olhos do sol. Aproximei-me, e beijei o alto de sua cabeça. Abracei-a.
— Me perdoe por tudo. Eu quero somente que você seja mais forte que eu, Diamante. E mais forte que si mesma. Um dia você conhecerá uma Estrela, e ela brilhará em você. É necessário que você esteja lapidada, pra refletir toda essa luz. Você é a mulher mais impressionante que eu já vi.
Distanciei-me pelo corredor. Diamante era uma estátua. Acendi um cigarro, e traguei o inferno. Minhas entranhas esfumaçaram-se. A garota dobrou os joelhos. E orou por mim.
Soprei as brasas, soltando fagulhas no silêncio.
— Você é a mulher mais impressionante que eu já vi.
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