Crônicas De Tempo E Prata

2 A vida é uma luta que vale a pena


Notas iniciais
É difícil explicitar o meu gosto por cada conto que eu produzo todos eles têm um valor especial, e esse, como os que serão lidos mais pra frente, surgiu de um enorme sentimento de desmotivação. Diferente das pessoas, os meus melhores contos saíram quando eu estava passando pelos maiores bloqueios mentais e criativos. Ele é um conto de terror, então quem não gostar não leia, mas sinto que ainda que o tema seja pesado, sua essência é o amor.

“A vida é uma luta que vale a pena”. Dizia o Sérgio. Marco o olhava com um tédio cinzento. Para ele todo o universo variava simplesmente em tons cinzentos. Mas sua cor preferida sempre fora o vermelho. A cor que pulsa, e que eletrocuta motivando a existência a se modificar. Ele mesmo nunca soubera bem o valor dessa ideia, mas para ele fazia todo o sentido do mundo. Assim como os rabiscos sádicos em seu caderno. Mulheres nuas decapitadas, sendo estupradas por dez pênis de aço ao mesmo tempo. Órgãos controlados pelo pensando de um demônio paraplégico, que assistia a tudo com um riso maléfico. Ele tentava desenhar Rita naquela orgia infernal, mas não conseguia. O rosto dela se borrava em sua mente, ainda que a estivesse olhando fixamente. As duas coisas eram inconciliáveis. Não dava para desenhá-la e imaginá-la ao mesmo tempo. Era algo como nadar e voar. O sinal tocou junto com um piscar de olhos. O som durou o mesmo tempo da escuridão, e ele se abstraiu. O retrato detalhado do rosto dela, numa cabeça ensanguentada e estuprada por ossos de abutre. Era lindo demais. Ele sentia até um aperto no peito. Havia tanta beleza no mundo, que chegava a doer.

Da sombra de um dos pilares do corredor ele ficava tirando fotos dela com os olhos. Imaginava, dentre todos os incontáveis tons cinzentos, o vermelho pulsando dentro dela, explodindo em vida, e avivando suas ações. Os sorrisos. As falas. Ele queria muito ver um mundo tingido pelo vermelho que a preenchia. Seria belo. Como a metáfora do amor. “Sim, o amor é uma metáfora”, dizia Marco. A si mesmo. Desde sempre ele dizia a si mesmo o que acreditava. Havia em seu interior um dicionário próprio de seus conceitos, que mudavam a cada pulsar do vermelho que avivava seu mundo artificial. A metáfora do amor era justamente o enquadro de uma cena sangrenta. Um coração caindo pra sempre num abismo preto e cinza, como um ponto vermelho infinito. Uma esperança infinita. Em sua própria consciência. Ele acreditava na consciência das coisas também. Na consciência de uma mesa, de um copo, de uma rosa. Ele imaginava: “como deve ser, ser um tijolo?”. Ele imaginava não era algo muito diferente de ser o que ele já era. Pensar não o fazia especial, dizia. Especial era o vermelho, estar banhado dele, vivo, contrastando violentamente com o resto da realidade. Rita era uma lata de tinta. O mundo era um quadro. E Marco o pintor.

Do excerto de suas próprias poesias, “No mundo só falta dor”. A primeira ideia que lhe veio à cabeça na primeira aula sobre Guerra, foi a de que as pessoas só lutam por não conhecerem o verdadeiro desespero. Nunca foram latas de tinta para ninguém. Mas acima de tudo, não sentiram seu corpo transformar-se num coração em queda, brilhante e escarlate, por uma eternidade negra e corrupta. Ele seguiu Rita pelas vielas da cidade até encontrar sua casa. Nas mãos um bloco de notas branco, e um grafite que marcava todos os caminhos, como João e Maria, só que com pontos gráficos, ao invés de pedaços de pão. Rita era um marca-texto no tom mais gritante do cinza, já que por mais bela que as coisas fossem nunca seriam nada diferente do cinza. Ele sentia como se ela fosse o tom mais contrastante do mundo, num mar de monotonia monocromática, e dentro dela o pulsar do vermelho expulsasse para fora o destaque como marca natural. Ele comprou cinquenta câmeras com o dinheiro acumulado de seus trabalhos com edição. Mas vendeu muitos pertences importantes, como a coleção de livros do Poe, na edição de 1968 brasileira, censurada pela ditadura. Se bem que fora uma história estupidamente inventada para dar um valor maior ao conjunto. Passou duas madrugadas montando no perímetro mapeado que Rita tomava para casa, um caminho de câmeras em vários ângulos, para monitorar todos os percursos que elas fazia. E mais dois dias fazendo avaliações de materiais afiados. Facas, serrotes, canivetes, alicates, agulhas e todo o tipo de apetrecho que tivesse um potencial de tortura. Cada vez que analisava uma arma, ele a olhava em todos os mínimos detalhes, cada tom cinzento que teria o privilégio de se banhar do vermelho que ele queria mergulhar. Imaginava cada parte do corpo que ele cortaria, perfuraria, amassaria e desfiaria como um suíno. Chegara o grande dia. Ele desceu até o porão, onde abriu todos os arquivos gravados dos caminhos que ela fazia. Seus olhos percorreram todas as cenas, todos os retratos, todas as imagens. Seus olhos petrificaram. O mundo explodiu num tom congelado de cinza, sem nuances, uma unidade quase desesperadora. A bolsa do lado, preenchida de apetrechos de todos os tipos, continuou estática. Ele se levantou, e desligou tudo.

Rita virou a chave na fechadura. A mão foi ao interruptor. A luz piscou duas vezes até acender. A chave caiu de suas mãos. Seus olhos piscaram duas vezes antes de entender. Um emaranhado de fotos em varais de barbante se espalhava pela casa. A televisão estava ligada numa gravação de má qualidade mostrando ruas em vários ângulos, sempre ela como foco central. Uma poltrona estava no meio da sala, totalmente livre de qualquer outro móvel. Um homem estava sentado nela. Seus olhos eram frios. E em suas mãos havia uma faca. Ela soltou um grito e se voltou, mas a fechadura do lado de dentro estava muito quente, fervendo. O intruso se levantou, e mostrou o maçarico na outra mão. Ele se desesperou. Ele levantou a faca. E apontou para as fotos. Rita cuspindo em um mendigo ferido. Rita jogando lixo no chão. Rita transando com Roger da Engenharia de Produção atrás de um poste. Rita comprando cocaína em uma viela. Rita perdendo o brilho que a diferia do cinza comum. Rita revelando sua podridão. Rita sendo um ser humano. Marco deu um passo. Encostou o maçarico no chão. Deu dois passos. Levantou a faca em direção a ela. Deu três passos. Colocou a ponta da faca no pescoço de Rita. Girou a ponta e voltou para o seu. Levantou a mão dela, que em choque nem resistiu, e a fez segurar o cabo. Os olhos frios fitando diretamente os olhos petrificados de Rita. Marco perfurou a própria garganta. E se banhou pela última vez com o vermelho que lhe dava esperanças. Tingiu em sua derrocada o mundo com a cor do avivamento. Desistiu de mata-la porque ela era pior do que ele. E percebeu que a vida é uma luta que vale a pena.