Crônicas De Ninguém

5 Capítulo 4: Volta às aulas


Notas iniciais
O capítulo tem como opcional para ambientar a leitura duas músicas, como se tratam de duas músicas para dois momentos separados do capítulo, resolvi deixar em forma de palavras com link no corpo de texto, as palavras estarão destacadas, aí é só clicar com o botão direito nelas e abrir em nova guia ou nova janela para não sair da página do texto. Geralmente o link abre com http://fanfiction.com.br/ antes do link do vídeo, basta remover isso e as aspas e dar enter, sim eu sei, muito trabalho, mas como eu disse, as músicas são opcionais :)

Rapidamente visto o uniforme escolar, pego alguns cadernos e coloco na mochila, então vou para a escola.

O prédio em si não mudou muito, só as cores mesmo, mas os alunos, mesmo não sendo os mesmos se dividem nos mesmos grupos: Os folgados, as meninas que correm atrás dos folgados, os nerds e os bobos da corte. Nunca me encaixei em nenhum deles, o pouco contato social que tive foi com George e Mauro, mas ainda assim não nos via como um grupo, eles eram apenas dois nerds que resolveram puxar assunto comigo.

Tenho 14 anos e estou na 6ª série (ou 5º ano) ainda, não tem como me sentir mais deslocado que isso, ainda mais com meu jeito de me vestir. Visto que o "uniforme" é apenas a camiseta da escola, eu estou com uma calça jeans rasgada nos joelhos, um coturno e luvas com as pontas dos dedos cortados, fora o fato de sempre manter meu cabelo longo.

As outras crianças da sala me olham estranho, caminho até o fundo da sala e me sento ali.

–- Hey, você não tá na sala errada? – me pergunta uma garota pequena e extremamente magra.

–- Não. Sou dessa sala mesmo.– respondo sem tirar os olhos de minha mesa.

–- Mas você parece ser mais velho, você é repetente?

–- Não sou repetente, eu parei de estudar.

–-Ah... Por quê motivo parou?

– Eu estava preso, estrangulei uma menininha que fazia perguntas demais. – nunca tive paciência com perguntas e acabei exagerando para fazer a garota parar, o que parece ter dado certo.

–- Ain, seu estranho. Não precisa ser ignorante!

–- Não gosto que me perguntem muito, e você nem me disse seu nome, é falta de educação sair interrogando as pessoas sem se apresentar.

–- Meu nome é Josi, e o seu nome é como, mal humorado?

–- Armand.

–- Que nome diferente.. É.. – eu a interrompo.

–- Antes que pergunte, é um nome francês, minha mãe é de lá.

O professor chega.

–- Todos em seus lugares.

Antes mesmo dele terminar de formular a frase todos já estão em silêncio absoluto, pelo visto é um professor rígido. Ele pega um bilhete.

–- Armand?

Levanto minha mão, já imagino que terei de me apresentar à sala.

–- A diretora quer conversar com você.

Me levanto, posso ouvir alguns alunos falando baixo "nem chegou e já está encrencado" "que menino estranho", caminho até a sala da direção e bato na porta.

–- Pode entrar.

–- Boa tarde.

–- Boa tarde Armand, sou Cristiane, a nova diretora. Sente-se.

A diretora antiga, Tereza, abandonou o cargo depois do ocorrido, pelo que eu soube ela não queria mais trabalhar em escolas devido ao trauma.

–- Eu te chamei aqui devido ao seu atraso escolar, sei que foi um excelente aluno e por isso, no segundo bimestre quando ocorre a prova de reclassificação eu gostaria que você participasse, pelo menos não fica tão atrasado nos estudos, tudo bem para você?

–- Como funciona isso?

–- Você faz uma prova com o conteúdo da série que você está agora, se passar, a partir do segundo bimestre passa a frequentar a série seguinte. Mas você só pode fazer uma vez, visto que está pouco atrasado.

–- Tudo bem então.

–- Outra coisa, algumas crianças sabem do ocorrido, se começarem a fazer perguntas não se irrite, pode pedir autorização aos professores e se retirar da sala se preferir, combinado?

–- Tá... – não me agrada em nada que saibam aquelas coisas.

–- Pode voltar para a sala.

No caminho de volta para a sala de aula posso lembrar vagamente de todo o sangue no pátio e as cenas daquele dia, mas me concentro em não lembrar.

Peço licença e entro na sala.

–- Armand, poderia continuar aqui na frente e se apresentar aos seus colegas?– me pede o professor, o que eu mais temia acontece, odeio falar em público.

–- É... Tá...

–- Então, se apresente.

–- Meu nome é Armand, tenho 14 anos, gosto de ler e não gosto de me apresentar em público. Está bom assim?

O professor sorri e acena com a cabeça que sim, me sento de volta em meu lugar.

As outras aulas seguem sem problemas, ninguém mais me pergunta nada, com exceção de Josi que insiste em falar comigo a cada intervalo entre as aulas.

Meio que forçadamente acabei fazendo uma amizade, pois Josi mora perto da minha casa e se convida para ir embora junto comigo.

–- Por que você se interessou tanto em mim?– eu pergunto à garota.

–- Sei lá, você estava sozinho, não gosto de deixar as pessoas sozinhas, é triste ficar sozinho.

–- Ah, então estava com pena?

–- N.. Não!– ela parece ter se irritado.–- Eu não fiquei com pena de você, eu só acho que todas pessoas devem ter pelo menos um amigo oras!

–- Você não parece ter outros amigos...

–- É... – Josi abaixa a cabeça. –- Ninguém gosta do meu jeito porque falo demais...

–- Tudo bem, eu gosto. Não gosto muito de falar mesmo, então poderemos ter uma boa amizade, você falando e eu ouvindo.

Posso ver que ela muda de expressão e parece alegre novamente. Mesmo sendo curiosa demais, ela parece ser uma pessoa legal, e não me perguntou do massacre nem do hospício pelo menos.

Continuamos caminhando até que uma mulher de vestido cinza e um manto cobrindo o rosto nos para.

–- Vocês gostariam de saber do futuro?

–- Não, obrigado.– Uma cigana, eu puxo Josi pela mão e continuamos caminhando.

–- Armand! – me chama a mulher estranha. –- Isso não vai durar muito tempo! Se tentar lutar, só vai perder mais. E você deveria saber que nada pode mudar o destino.

–- Como você sabe meu nome? Do que diabos está falando?– corro na direção da mulher que desaparece na multidão.

–- Quem era ela?

–- Eu não sei Josi, vamos embora logo. É perigoso ficar na rua com uma louca solta assim.

Deixo Josi na frente de sua casa, a minha casa fica alguns metros dali ainda.

–- Amanhã podemos ir juntos?– ela me pergunta.

–- É... Eu não sei...

–- Eu to com medo daquela doida lá e não tem ninguém em casa para ir comigo esse horário.

–- Tá... 12:30 em ponto eu vou te chamar aqui, se não aparecer eu vou sozinho.

Continuo caminhando até que na frente da minha casa sinto algo me atingir na cabeça...

Eu acordo em um lugar estranho, parece um prédio abandonado, mas é antigo demais para ser um prédio de fato, me levanto e tiro a poeira da minha roupa. As paredes são cobertas de crânios, espero eu que não sejam reais... E no chão também posso ver alguns ossos humanos espalhados aqui e ali, vou seguindo a "trilha" de ossos até que encontro uma pilha cheia deles, todos aparentam estar ali há muitos anos já.

O local é muito escuro exceto pelas tochas acesas em alguns suportes espalhados ao longo do grande corredor e do salão.

De repente ouço passos e me escondo atrás de uma bancada de pedra.

Dois homens vestidos como a criatura que vi no massacre se aproximam, um deles tem um cajado em mãos e o outro está de mãos vazias, estão conversando em um dialeto que não consigo identificar, eles parecem estar discutindo pelo tom de suas vozes. Um deles, o que está de mãos vazias sai e o outro permanece ali gritando como se estivesse furioso com algo, ele então bate com o cajado na bancada que está me escondendo, posso sentir os grãos de areia caindo em meu cabelo enquanto o homem continua a esbravejar. Ele não me viu ali, sorte. O homem se afasta um pouco quando começo a ouvir vários passos, mas dessa vez parecem ser de pessoas correndo, então surgem cerca de 8 homens ali com as mesmas vestimentas, porém segurando lanças e logo atrás o homem de mãos vazias, como se ele é quem desse as ordens ao restante do grupo, eles cercam o homem do cajado e uma luta começa ali, o homem do cajado consegue quebrar o pescoço de dois deles antes de ser ferido no peito e capturado. O arrastam de volta pelo corredor enquanto o homem de mãos vazias permanece ali, ele olha em volta procurando algo e depois também se retira do salão.

Penso em uma maneira de escapar daquele lugar, olho em volta e vejo uma pequena fresta logo atrás da pilha de ossos por onde posso ver luz entrando, é pequena, porém grande o suficiente para que eu passe ali.

Vou me esgueirando até chegar na abertura, sempre observando a entrada do salão para ver se vem algum daqueles homens estranhos, até que entro ali. Engatinho alguns metros até que a luz fica mais forte e finalmente saio do prédio, mas tudo o que posso ver ao redor é areia, quilômetros e quilômetros de areia e um calor escaldante apenas, daqueles que o ar parece ondular diante dos olhos de tão quente. Não demora muito minha observação do local, pois logo vejo uma sombra me cobrir e antes que pudesse me virar para ver o que era, desmaio outra vez...