Notas iniciais
Boa leitura!

Ele não fala nada depois que eu paro de vomitar. Também não esboça nenhuma reação.

— Por que... — Minha garganta está arranhada, mas eu me forço a perguntar. — Por que fizeram isso? Quem fez isso?

— Seus soldados fizeram isso, majestade. E o motivo? Bem, alguns deles foram insolentes, outros ganharam nas cartas contra eles, e outros simplesmente reivindicaram um pouco mais da comida que produziram para passar o inverno.

Sinto minhas entranhas se contorcerem novamente. Não só pelos mortos a minha frente, mas pela raiva e ódio que emanam do rapaz ao meu lado.

Eu sou uma péssima governante, cercada por porcos mentirosos que levaram meu reino ao abismo. A guerra, a fome, a miséria, e agora junto à minha lista, traidores desgraçados. O terror que eu sentia há pouco dá lugar a alguma coisa nova, mais letal, mais forte. Ódio.

Ódio puro e incontrolável. Ódio daqueles porcos que se sentam no meu palácio, me manipulando e matando meu povo. O povo que eu jurei defender e proteger. Eles estão destruindo meu reino, o reino que eu jurei que faria prosperar.

Só me dou conta de que deixei meus poderes fugirem do controle quando vejo o relâmpago atingindo a forca, que instantaneamente começa a queimar. O rapaz ao meu lado tenciona os braços e inspira um longo gole de ar antes de se virar para mim.

— Não vou mais te manter como prisioneira, majestade. Se quiser voltar para sua vida feliz, pode voltar.

— O quê? — pergunto, sem entender as palavras completamente.

— Eu não irei mais te prender. Ver que você não passa de uma marionete nas mãos daqueles nobres prova que não gastarão muito para tê-la de volta.

A frase me acerta como um soco no estômago, não pelo tom, mas pela pura verdade ali. Ele se vira e caminha para longe.

— Não pode me deixar aqui! — grito, sem me importar em parecer uma criança mimada.

Ele gira a cabeça para me olhar.

— Quer apostar?

Ele volta a se afastar. Eu ainda sou a responsável por este reino. Se for mais útil fora dos palácios, que assim seja.

— Quero propor um acordo — grito novamente. E isso o faz parar.

Ele parece ser um bom lutador e com certeza conhece melhor as estradas e técnicas de sobrevivência do que eu. Ele é útil. Ele me manteve viva e pode continuar fazendo isso até que eu faça o que tenho que fazer.

— Que tipo de acordo?

Ando até ficar perto dele, para que nenhum estranho escute a conversa.

— Posso te dar o tanto de riquezas que quiser: ouro, joias, terras, um título... Posso te dar seu peso em ouro.

— E por que isso?

— Você tem razão sobre eu ser um fantoche. Meus conselheiros mentiram para mim sobre absolutamente tudo, mas viu o que meus poderes podem fazer. Sei que sabe lutar e que consegue viajar pelo reino, eu preciso que me leve a Numida para eu acabar com esta guerra.

Ele solta uma gargalhada.

— Perdeu o pouco de juízo que tinha? Por qual razão no mundo você quer ir até Numida?

— Eu ainda sou a guardiã deste reino, eu jurei protegê-lo e fazê-lo crescer. Se para conseguir fazer isso, eu preciso enfrentar os Selvagens, eu vou fazer. Com a sua ajuda, talvez eu não me mate no processo e chegue mais rápido.

Ele parece considerar minha proposta.

— Posso começar a pensar nisso se você me der o dobro do meu peso em ouro.

Ele está jogando sujo, e provavelmente irá tirar bastante ouro dos cofres reais, mas eu simplesmente não me importo com isso. Não agora, quando na minha frente está alguém que eu considerava nunca mais ver. Se ele está aqui, significa que os Espíritos não sumiram de Érodion. Eles podem ajudar, e se as lendas estiverem corretas, eles também estão em Numida.

A única coisa que me importa é conseguir proteger meu povo, e se para isso tiver que me aliar a um ladrão meio-Espírito e ir atrás de lendas, que assim seja.

— Te dou o quanto quiser e um pedaço de terra na província que quiser.

Seu sorriso lupino, misturado com a malícia de seus olhos, faz com que eu tenha vontade de desaparecer, mas permaneço encarando seus olhos cor de ouro.

— Temos um acordo, ladrão? — digo, estendendo a mão.

— Acho que, a partir de agora, pode me chamar de mestre, majestade. — E ele sela nosso acordo.

***

— Por que estamos aqui? — pergunto pela enésima vez.

Saímos de Maleagre logo depois de termos feito nosso acordo e não voltamos para a estalagem em que acordei. O garoto disse que seus homens não estavam aceitando bem o que eu fiz com o brutamonte e estavam obstinados a me dessecar para entender o que eu era, afinal a falta de orelhas pontudas e ter magia não eram uma combinação comum. Portanto, ele simplesmente comprou dois cavalos e seguimos para oeste.

Os mestiços sempre foram tratados bem, até a guerra com os Selvagens. Esses têm uma magia estranha, alguns dizem que foram enviados pelos Espíritos para conquistar o reino, não parando nunca para comer, beber ou descansar.

As crenças se tornaram mais fortes de ser tudo culpa dos Espíritos, quando eles simplesmente desapareceram de Érodion. Os mestiços, como o caso do ladrão, foram caçados e mortos. Meu pai tentou fazer com que esse ódio sem sentido sumisse, mas não adiantou de nada. Olhar para o garoto sendo o líder de uma rebelião faz sentido pelo horror que ele deve ter passado.

Eu termino de amarrar as rédeas do cavalo e desço, esperando ainda uma resposta da parte dele.

— Apenas pare de fazer perguntas e me siga.

— Eu ainda não sei seu nome — digo para irritá-lo, mas ainda assim com uma pontada de curiosidade.

— Depois que terminarmos aqui, eu falo qualquer coisa que queira saber — dispara ele, em tom cortante. — Por enquanto, mantenha sua boca real fechada e fique perto de mim.

Começamos a andar por entre uma movimentada e caótica feira. Comerciantes competem com os fregueses, gritando um mais alto que o outro.

Ele para de andar de repente, e eu trombo em suas costas. Ele aponta para dois homens vestidos com roupas elegantes, e percebo no mesmo instante a águia dourada com asas abertas bordada em suas roupas. O símbolo da realeza. O símbolo da minha casa. Ao lado, está o símbolo da província, Aquila, que como produz peixe, é representada por uma âncora cinza em cima de uma concha azul clara.

— Você irá distraí-los enquanto eu roubo.

— Roubar o quê?

— Apenas faça o que eu diga. Quer chegar a Numida, não quer?

Reviro os olhos e bufo.

— E como você espera que eu os distraia?

Olho para trás esperando resposta, mas é tarde demais, ele já desapareceu por entre a multidão. Praguejo e caminho em direção aos homens.

A forca paira ameaçadora atrás deles, e embora não veja nenhum corpo, o cheiro de morte está por todo aquele lugar. Congelo onde estou quando vejo dois outros soldados se aproximarem com um homem magro e maltratado entre os braços.

A população se junta ao meu redor. Sinto o medo e a raiva em algumas das pessoas, e isso me deixa preocupada. Os dois guardas que eu deveria distrair pegam o prisioneiro como se fosse um saco de batatas das mãos dos outros.

O homem tem hematomas por todo o corpo, suas roupas estão rasgadas e manchadas de sangue. Seus pés descalços mal têm a energia para mantê-lo em pé.

Eles sobem os degraus que levam à forca e colocam a corda em seu pescoço. O guarda da esquerda, que parece ser mais velho, começa a gritar.

— Este homem, conhecido como Zahih Flocart, foi condenado à forca por ordem do grande duque Torment... — O começo de uma vaia começa, mas logo desaparece quando outros soldados aparecem com as armas em punho. — Ele foi condenado por roubar alimento destinado ao palácio e por se afiliar aos rebeldes. Como você se declara, Zahih Flocart?

O homem levanta a cabeça, e vejo a fúria genuína em seus olhos. Ele pode estar completamente condenado, mas a fúria em seus olhos diz que nunca se entregará sem lutar.

— O inferno tem lugar reservado para todos vocês, bastardos egoístas. E tenho certeza de que as punições para a rainha serão adequadas para o que aquela...

O som seco do osso saindo do lugar e um movimento único fazem com que sangue caia na plataforma. O homem levanta a cabeça devagar, com a mandíbula fora do lugar. Silencioso, continua encarando seus dois carrascos, sem abaixar os olhos.

Uma chuva de imagens passa pelos meus olhos. O homem, Flocart, de braços dados com uma mulher bonita de sua idade e uma menina da minha idade. Depois vejo a menina mais nova tendo suas roupas rasgadas e o soldado perto dela. Flocart e o guarda brigando. Raiva, sangue e medo se misturam enquanto percebo que o homem da visão é o mesmo que arrancou o sangue agora.

— Sua morte será rápida demais, Flocart — fala o homem mais velho, com um sorriso sádico.

O outro soldado vai para perto da alavanca. Meus pés se movem sem que eu perceba, mas antes que chegue até a plataforma, alguém segura meus braços.

— Que merda você pensa que está fazendo?

Encaro os olhos de ouro.

— Tenho que ajudar este homem. Eu posso ajudá-lo.

— Ninguém acreditará em você. O máximo que vai conseguir será uma corda em seu pescoço também.

Volto os olhos para o homem. Estou tão perto, agora posso ver os enormes cortes por todo seu corpo. Lágrimas ameaçam cair, mas eu me recuso a isso. Em vez disso, encaro os olhos do homem.

Ele está se contorcendo, buscando por ar. Com lágrimas nos olhos por não conseguir fazer nada, eu sugo o pouco ar que ainda o fazia sofrer. Seus olhos se tornam vidrados, e deixo que o rapaz me carregue para fora.

Ele só me solta quando estamos longe o suficiente da praça. Ele está desamarrando os cavalos enquanto eu tento em vão esquentar meu corpo.

— Eles me odeiam — digo. — Meu povo me odeia. — Desta vez, não consigo conter as lágrimas. — Aquele homem... Ele morreu me odiando. E o crime dele... Ele tentou defender a filha, mas foi condenado como rebelde... O... O que vocês, rebeldes, fazem afinal de contas? — pergunto, sustentando o olhar que ele me lança.

— Nós libertamos os escravos — diz ele simplesmente.

Meu corpo vacila, e tenho que conter cada músculo do meu corpo para meus poderes não se acionarem.

— Escravos? Meu pai baniu a escravidão quando assumiu o trono. — Tantas perguntas se formam em minha cabeça que tenho que fechar os olhos para colocar linha nos meus pensamentos. — Como é possível?

— Recomeçou logo que seu pai morreu. — Começou quando eu subi ao trono porque sou fraca. — Primeiro, era apenas em Argentium, trabalhando nas minas, mas depois foram Acacia e Aquila. São cidadãos de Numida os principais escravos assim como alguns imigrantes de Merindell e Dernas.

Meu sangue ferve em minhas veias. Eles me fizeram de idiota. Um ano, foi necessário apenas um ano para meu reino estar à beira de um colapso. Sinto o cheiro de apreensão no menino a minha frente e levanto os olhos para o céu. Nuvens escuras estão rodeando como um ciclone. O vento, que está contra nós, é gelado.

Respiro fundo e acalmo meus poderes. Não posso me descontrolar. Não é a hora, nem o momento.

— Sabia que seus olhos ficam da cor do seu cabelo quando você usa seus poderes? — pergunta ele, voltando a me encarar.

— Jake... O capitão Jones me disse isso uma vez, mas achei que ele estava brincando — respondo mecanicamente. Depois de controlar minha respiração, volto a olhá-lo nos olhos. — O que faremos agora?

— Diga-me você, majestade.

— Me chame de Kiara. Pelos Senhores, me chame apenas de Kiara.

— Então, neste caso, me chame de Daniel. — Ele desvia os olhos de volta aos cavalos. — Vamos sair daqui, então.

Não sei quanto nós conseguimos andar, mas quando ele diz que podemos parar, estou com todo meu corpo dolorido e a luz da lua já ilumina o terreno.

Ele conseguiu roubar uma boa quantidade de dinheiro, mesmo assim prefere que fiquemos na floresta. Daniel faz uma fogueira e me passa um pedaço de pão.

A neve ao nosso redor parece deixar a noite mais clara. Está frio, mas o fogo faz ficar suportável.

Assim que termino de comer, vejo o rapaz se levantando, e ele não me diz para onde vai.

Ajeito-me o mais confortável possível no tronco da árvore e fecho meus olhos. O sono vem mais rápido do que imaginava.

Voltei a ser menina. Devia ter uns sete anos e estava explorando o castelo muito tempo depois que meu pai havia me colocado na cama. Estava passando em direção à cozinha quando o barulho de vozes me chamou a atenção.

Devagar, sem fazer barulho, encostei-me à parede e observei pela porta entreaberta. Meu pai estava na sala com outro homem. Pelas medalhas em suas roupas e pelo seu olhar castanho, percebi que era o general Lincoln

Eles estavam de costas um para o outro e falavam alto e forte.

— Eu os impedi no momento, meu senhor, mas eles continuarão tentando.

— Eles sabem sobre ela? — falou meu pai com um tom de preocupação.

— Eles têm suas teorias, mas nenhuma certeza.

— Nenhum deles pode saber sobre todos os acordos firmados com os Espíritos, saber sobre a espada já é um problema... Imagina se descobrirem sobre Kiara.

— Eles não vão descobrir, majestade, e mesmo se o fizerem, eu a protegerei com minha própria vida.

— Obrigado, George, você é um bom amigo.

Não consegui ver a cara do meu pai quando pronunciou aquelas palavras, mas vi o rosto do general e percebi um sorriso se formar em seus lábios.

Acordo por conta de um tapa. Meus lábios estão ressecados, e todo o meu corpo treme. Olho para cima e percebo o rosto pálido de Daniel.

— Você está bem?

Tento responder, mas minhas palavras saem entrecortadas por conta do bater de queixos, então apenas assinto.

— Qual é o problema de vocês da realeza?

Ele me ajuda a levantar e me leva até próximo do fogo.

— Está um frio dos infernos. Já somos idiotas o suficiente por estarmos no meio da floresta enquanto não para de esfriar, agora se você dormir, aí não poderá fazer mais merda nenhuma pelo seu povo.

— E-e-eu não e-e-entend-o-o.

Ele balança a cabeça e joga outro pedaço de madeira na fogueira.

— Você quase morreu de frio. Quase morreu congelada.

Notas finais
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