Crónicas Felinas
2 A Abominável Terceira Classe
Notas iniciais
Lynx, é um nome incomum para um gato, mas verdadeiramente apropriado, para um felino com uma mentalidade fora do comum.
O gatinho, adotara a cria humana, de cabelo platinado e aura incandescente, no exato momento em que o encontrara pela primeira vez. Havia algo inexplicável que o atraía naquele humano, ainda quando este desprezasse a raça inteira, até certo ponto.
Como tal, Lynx havia criado três classes distintas, para medir o valor de cada ser humano com o qual se cruzava.
Até à data, havia apenas uma única classe, que acabou por se tornar a Primeira Classe. A classe geral, ou seja, os Escravos. No entendimento do pequeno felino, estes existiam apenas para o servir, visto que essa era a sua única utilidade. Se tinha fome, estes alimentavam-no, se tinha sede, estes proviam-lhe bebida, se sentia frio, agasalhavam-no…
A Segunda Classe, nasceu no dia em que pisou a residência da família Malfoy pela primeira vez e colocara os seus olhos na cria humana. Esta nova classe, provou ser muito distinta em comparação com a anterior, visto que tinha um único membro: Draco, o seu protegido. Foi exatamente pela existência desta segunda categoria, que nasceu a Terceira Classe: Inimigos, qualquer humano, que ousasse olhar de forma inapropriada para o seu humano, era categorizado como uma ameaça.
A Terceira Classe, logo, vir-se-ia a revelar, mais numerosa e variada que a Primeira Classe, pois, qualquer ser vivo, não apenas humanos, podiam fazer parte dela. Sendo assim, a lista de inimigos de Lynx continuaria a crescer diariamente, sem fim à vista, devido à sua atitude possessiva e desconfiada.
oOo
Lynx, observava atentamente, como o seu aprendiz rabiscava num pedaço de papel com uma pena.
O tempo tinha passado tão rápido.
O gatito ainda recordava, como se fosse ontem, quando o seu protegido lutava com a ferramenta de escrita, tentando imitar a caligrafia elegante do seu pai.
Lucius, tinha uma letra fluida, com traços fortes e rigorosos, que combinavam perfeitamente com a máscara que representava para o mundo exterior.
Draco, nunca havia conseguido copiá-la, por muito que tentara, mas, não havia como negar que a sua própria caligrafia, era uma derivação mais infantil e redonda da mesma. Não era como se pudesse exigir muito de um infante que apenas completara seis primaveras semanas antes.
oOo
Lynx, tinha perseguido Lucius pela casa toda, até garantir que este não arruinava o aniversário do seu protegido, como acontecera no ano anterior quando convidara alguns dos seus parceiros de negócios muggles.
Os elfos domésticos, tinham chorado durante uma semana por não terem permissão para mimar o Amito Draco e preparar a melhor festa possível, com todas as atrações mágicas possíveis.
Mas não… esse não tinha sido o verdadeiro problema...
O verdadeiro desastre tinha começado com os olhares embelezados dos filhos dos convidados.
Uma das meninas, tinha mesmo chegado a tocar no seu humano e a apertar as suas níveas e fofas bochechas, afirmando que mal podia esperar para crescer e casar-se com o seu Príncipe Encantado. A garota logo começara a planear o casamento, dizendo que iam ter três filhos e dois cães, para diversão dos humanos desprezíveis, que imediatamente entraram na Terceira Classe.
“Como é que aquela peste, se atreve a querer trazer duas bestas pulguentas, para a família?” Esta havia sido a reclamação que Lynx rugira, pouco antes, de se atirar à cara da muggle de sete anos, dando assim início, à sua longa carreira de monstro de garras inquietas.
Até à data, o gato de pêlo branco e sedoso nem sequer sabia que era capaz de fazer um ruído tão majestoso como aquele.
oOo
Mas… as adições à Terceira Classe pareciam que não iriam terminar tão cedo…
Pois o pai do seu protegido, havia decidido que estava na altura de Draco começar a sua educação, pelo que trouxe um sem-fim de estranhos que asfixiaram o pobre menino em livros, pergaminhos e tinta.
O seu humano irradiava de felicidade com cada coisa que aprendia, mas Lynx só sentia cada vez mais vontade de afiar as suas bonitas garras na cara dos tutores, que haviam sido os causantes da tremenda tragédia que assolava a sua vida…
Lynx, queria passar o dia todo com o seu protegido, mas aqueles malditos empecilhos, por vezes, nem o deixavam entrar na divisão, clamando que era uma distração e que ia impedir que o Jovem Amo progredisse nos seus estudos.
oOo
Lynx nunca esqueceria o dia em que se impôs por fim e recuperou o seu lugar de direito…
Havia espetado as suas belíssimas e afiadas garras num dos pavões albinos do pai do seu humano e como por magia… uma almofada verde esmeralda com padrões florais bordados com fios de prata apareceu num dos cantos da secretária que Draco utilizava durante as aulas.
Desta forma, Lynx podia vigiar os seus inimigos e infundir temor ao mesmo tempo.
Foi nesse mesmo dia, que o pequeno gatinho, de olhos violetas, descobriu o sádico prazer de ser a única e incontestável causa dos incontroláveis tremores, que os miseráveis humanos, que haviam monopolizado o tempo e atenções do seu adorado protegido, sofriam perante a mera visão das suas garras.
oOo
Os anos foram passando e Draco já havia completado os oito anos e como tal dedicara-se de coração à Arte das Poções, para desagrado de Lynx ao ver o convívio com a cria humana cortado pela metade, uma vez mais.
O gato não escondia o seu desagrado, cada vez que o pequeno loiro se reunia com o padrinho e se adentravam no laboratório, cujo acesso era restrito, impedindo que este se unisse a eles.
oOo
Assim que viu o homem de negro aparecer pela lareira, Lynx deixou escapar um grunhido de desgosto, ao ver que este já se dirigia ao laboratório de poções sem sequer dirigir uma palavra ao afilhado, pois sabia que este o seguiria sem dúvida alguma.
O gatinho tentou segui-los, mas foi travado à entrada.
— Não se permite a entrada a animais! — exclamou o Mestre de Poções, fechando a porta no focinho do patudo.
“Deixa-me arrancar essa expressão de constipação da tua cara, para vermos quem é que é o animal”, reclamou Lynx, arranhando a porta e miando sem cessar, planeando mil e uma vinganças, para quando conseguisse enfim, colocar as patas em cima do desgraçado que o estava a privar da presença do seu protegido.
Fale com o autor