Notas iniciais
Estêvão precisa de conseguir a prova encontrada pela detective Pinho e está disposto a roubar-lha para a conseguir.

Sozinha dirigiu-se a um carro particular, não pertencia á policia tratava-se do seu próprio veiculo. Despediu-se dos seus parceiros de trabalho e entrou no automóvel. Tenho de rapidamente engendrar um plano para lhe conseguir tirar o amuleto Wicca. Teria de lhe o roubar á força não restaria outra alternativa visto não ter argumentos para que me o entregasse de livre vontade. Sempre foi da minha natureza ser violento, mesmo antes de morrer, mas a ideia de machucar aquele ser tão belo e atraente deixava-me desconfortável. Seria duro, se necessário agredir, um rosto perfeitamente idealizado e concebido e maltratar um corpo divino como o que possuía não era o que desejava dele. Apenas me imagino a adora-lo e idolatra-lo e cuidar delicadamente como se fosse frágil como porcelana. Não sei bem o que se passava comigo mas estava preocupado com esta humana que mesmo linda não passava disso mesmo. Algo me cativou nela como um feitiço bem forte e eu que pensava já não possuir tais sentimentos.

Era tempo de agir, o carro arrancou estrada abaixo. Peguei com as pequenas patas de corvo uma garrafa abandonada no ladrilho e voei num bater de asas desenfreado até ao cruzamento mais próximo onde tinha a certeza que passaria. Na estrada deixei cair a garrafa que se partiu em vários cacos para quando ela passasse pensar que Seia ai que tinha furado o pneu do seu carro. Recolho a um sítio mais discreto e volto a assumir a forma humana. Caiem-me as penas negras de corvo e as asas dão lugar aos braços de novo. Avisto o automóvel a descer em direção á armadilha que montei. Mesmo á minha frente, com apenas umas palavras, faço rebentar o pneu esquerdo da frente do carro da detective. O ruído foi aparatoso mas nada que acordasse a vizinhança.

A detective Pinho sai atrapalhada do carro para verificar o que se passou. O ar desesperado ao ver o pneu em baixo demonstra que nunca lhe tinha acontecido tal situação. Agora que a tinha conseguido parar e a deixei vulnerável em plena rua vazia tinha de simular um assalto. Avanço para a rua para emboscar a detective mas ao vê-la desamparada olho-a nos olhos castanhos-claros infinitos e sinto fraqueza no coração. Quebram-me as forças e perco a tesão nos músculos, fico pasmado mais uma vez perdido na sua beleza.

— Desculpe, senhor ai! Pode ajudar-me?

Estou paralisado a olhar a rua cinzenta á minha volta. Ela olha-me em espera que lhe responda.

— Senhor de preto pode ajudar-me? É que tenho de trocar um pneu e não tenho muito jeito para isto.

Finalmente volto a ter saliva na minha boca.

— Minha senhora quer ajuda?

— Se me pudesse dar uma mãozinha… mecânica, carros e afins… não combinamos.

A bela ruiva estava agora ali indefesa e era o momento exacto para me atirar a ela e roubar-lhe o pingente.

— Sim claro, não entendo muito de carros também mas é um simples pneu furado.

Perdi a coragem, não era capaz de fazê-lo, não lhe faria mal.

Ambos rimos um para o outro com a situação. O seu provocava-me uma sensação lívida no estômago.

— Bem, eu sou a Rosa Maria. – apresentou-se e estendeu-me a mão como cumprimento.

— Sou o Estêvão Cortês. – respondi-lhe gentilmente perante tão doce interpelação.

Estendo a mão até á sua.

Mas o que é isto? Estou a arder! A minha mão está a ficar queimada. O toque da sua mão macia fere a minha. Corto rapidamente o contacto e esfrego a mão nas calças.

— Que tem?

— Deu-me choque. Electricidade estática, acontece-me várias vezes. – sorriu para disfarçar a situação.

Não se tratou de um choque comum como disse. O seu toque no contacto das nossas mãos queimou a minha pele. Algo provocou aquela estranha reação, mas ela não a sentiu como eu e fixou-se em mim antes de sair naturalmente até ao veículo e trazer-me o colete refletor e o macaco.

— Acho que vai precisar disto.

— Obrigado. Trate de por o triângulo na estrada que eu vou-lhe resolver este problemazinho.

Ela sorri e caminha no seu passo que se assemelha a deslizar sobre o asfalto. Cada simples movimento feito por ela tornasse num motivo de culto para mim. A sua delicadeza e leveza de movimentos irradiam luz e ofusca-me.

— Então está com dificuldades em colocar o macaco? – ela dizia-mo sorrindo.

Não sentia dificuldade alguma mas perdia-me com facilidade a observar as ondulações do seu corpo.

— Não, não… só…

Rosa Maria apercebeu-se da minha atrapalhação e aliviou a tenção com o seu maravilhoso sorriso.

Enquanto faço levantar o automóvel levantar com o macaco ela despe o casaco e guarda-o dentro do carro sobre o banco do condutor. Olho para ela só de camisa branca e com a pistola presa nos suspensórios.

Ela tinha guardado o pentagrama Wicca no casaco, assim já não teria de lhe o tirar á força. Apenas precisava que se distrai-se para ter acesso ao casaco sem esta se aperceber.

Está a olhar para a minha arma? – soltou um riso sonoro. – não tenha medo não sou malfeitora sou policia — Sorriu novamente e sempre que o fazia derretia-me mais um pouco por dentro.

— Não, não tenho medo que me faça mal. Tem um ar tão amável.

— Acha? Os suspeitos que interrogo não diriam o mesmo. Mas trata-me por “tu” Estêvão, não estou de serviço não preciso de formalidades.

— Claro Rosa Maria.

Ela detinha o dom de tornar o ar em sua volta leve, fazia-me sentir vivo outra vez, Humano.

Estou a trocar o pneu e ela observa-me encostada ao carro ao meu lado. Sinto o seu cheiro leve e doce. Não identifiquei o odor a nenhum perfume, era o cheiro natural da sua pele.

— Sabes, fazes lembrar-me um cantor. Conhece-lo de certeza. O Jared Letto, vocalista dos 30 Seconds to Mars. Os vossos traços do rosto e o cabelo são idênticos.

— Sim. – respondi-lhe seguindo de um sorriso, mas na verdade mentia, não o conhecia. Ando um pouco distante do mundo da música e de tudo o resto.

— Até no jeito de vestir, mas ele mais atraente e mais moderno. Ah desculpa… — ela sorria atrapalhada toda corada. – que indelicada.

— Não tem importância. Ele é uma estrela de rock.

Na verdade não importava mesmo, já não me preocupava com a indumentária á muito.

— Já está terminado. É só guardar o pneu furado e pronto.

Ela sorriu e aprontou-se a ajudar a por o pneu que tinha trocado nos bancos traseiros do carro.

— Ah muito obrigado pela tua gentileza Estêvão. Não sei como fui furar o pneu em plena cidade.

Apontei para os vidros no chão.

— Devias ter os pneus gastos e aqui os vidros trataram do resto.

— Sim, mas muito obrigado mais uma vez por me ajudares Estêvão. Não sei se sozinha o trocava, nunca o fiz antes. Confesso-me um pouco aselha nestas coisas.

— Não tem importância, não podemos entender de tudo senhora detective.

Ela riu e fez-me sinal que se ia retirar para recolher o triângulo de sinalização. Vou aproveitar a ocasião e procurar o pingente no seu casaco. Com rapidez esgueirei-me até ao assento do condutor onde pousava o casaco. Remexi-o e tirei o pentagrama do bolso interior. Antes de ela voltar já estava encostado ao capou do carro á sua espera. Creio que não deu pelo assalto.

— Agradeço outra vez pela tua ajuda Estêvão.

— De nada não me custou nada.

Ela guardou o triângulo no carro e esticou a mão novamente em minha direção para se despedir de mim. Estou com receio que o seu toque me queime de novo. E voltou a acontecer. Um ardor que começou na mão e subiu pelo braço dando a sensação de estar todo a arder.

Sorri-lhe para que ela não suspeita-se e ela retribuiu. Entrou no carro, acenou-me com a sua mão em forma de despedida e partiu estrada abaixo. Estava pasmado com a sua beleza e a sua personalidade também mas não entendo porque sinto um ardor ao tocar-lhe.

Esta reação ao seu toque era me estranha, toquei várias vezes em humanos e nenhum nunca me provocou tal. A minha mão esta vermelha como que com queimaduras e ainda a sinto arder. Algo nela me provoca estas queimaduras, uma proteção talvez. Podia ser verbena mas verbena não me impediria de lhe tocar, mas também pode ser uma proteção por feitiço. As bruxas seriam capazes de criar um encantamento como este mas teria de ser lançado por uma bem poderosa. Esse feitiço não seria aprendido no Caminho da Mão Direita, mas Rosa Maria não me parecia uma bruxa malvada. Pode ser um feitiço lançado por outrem que a não quisesse ver andar por solos sobrenaturais e conhecer os mundos paralelos.

O que me cativava nela, a sua beleza, o seu corpo esbelto soberbamente atraente, a sua graça de ser e prender com meras palavras podia derivar desse encantamento que a guardava também. Um feitiço que atrairia o sobrenatural com o intuito de o destruir e por isso eu me sentia tão frágil na sua presença e ao nosso contacto queimar-me-ia.

Já de volta á minha pick-up observo atentamente o pingente Wicca furtado á Rosa Maria. Reparo em pormenores que com a distância e em poucos segundos de observação não identifiquei. Um pingente Wicca verdadeiro, não só concebido como adorno, é feito de osso, prata etc. e este trata-se de um autentico esculpido em osso animal ou humano. As cinco extremidades da estrela representam os elementos da Natureza mas o seu significado varia consoante a ponta virada para cima. Se a quinta ponta deste se encontrar voltada para cima significa o espírito a cima da matéria opostamente se esta apontar para baixo representa o contrário, a matéria a cima do espírito. Este tratasse de um pingente satânico ornamentado com a cabeça de um bode negro no centro da estrela com as duas pontas para cima. Um pentagrama do Mal, o que pode confirmar a minha anterior teoria de o Espírito do Carrasco ter sido evocado. Resta-me quem o poderia fazer, mas a minha prioridade agora era caçar o Espírito assassino para por fim ás mortes que já eram que bastasse.

Recorro ao porta-luvas e aponto no meu “bloco de missões” este novo caso juntamente com os outros tantos. “O Último Carrasco” e se o tinha sido em vida deixaria em vida, brevemente, de o ser também.

Na caixa aberta da carrinha por baixo do toldo que o cobria vasculho entre os utensílios que normalmente uso nas exterminações a arma apropriada para destruir o Espírito de Luís Alves dos Santos. Uma catana de prata. Se se tratava de um carrasco, morreria sem cabeça como as suas vítimas. Amanhã irei caçar Espíritos.

Notas finais
Deixem os vossos comentários a cerca da história, preciso deles.