Notas iniciais
Aqui está o seguimento do primeiro capítulo. Estêvão descobre que o crime que presenciou na noite anterior pode não ser apenas um assassinato mundano e vai ao encontro da sua explicação.

Mais um dia, o Sol já se está de novo a levantar. Voltei a por o meu colar, de prata com uma pedra pendurada, ao pescoço. Andar exposto á luz solar sem ele podia ser fatal para mim, preciso dele é um ritual do qual dependo. Deixei passar algumas horas e parei num café local para tomar o meu pequeno-almoço fictício. Tenho de manter a aparência normal de um comum civil humano, talvez estivesse na altura de arranjar uma casa onde assentar. Passo o tempo a deambular pela cidade dias e noite enquanto todos dormem. Se me quero assemelhar a ele, tenho de fazer como eles.

— Um café por favor.

— Com certeza. Quer curto ou cheio meu senhor?

— Cheio, obrigado.

O empregado estava com cara de sono e atendia os clientes com rispidez mas sempre fingindo ser educado e serviçal. Comum entre a espécie. Bebo café cheio para manter o meu corpo quente. Estou morto embora vivo e o meu corpo está frio portanto o café quente ajuda a mantém a minha temperatura corporal um pouco mais elevada. Como qualquer outro civil dotado enquanto bebo o café leio as notícias no jornal. Também porque gosto de saber o que perturba e está na atualidade do mundo normal.

“Carrasco de Lisboa ataca”. Assassinatos, mortes e crimes são as notícias que se destacam em todo o jornal. A fotografia do local do crime abaixo da manchete coincide com o lugar onde tinha encontrado o alvoroço na noite anterior em volta do corpo da jovem encontrada sem cabeça. Quero saber mais sobre este assunto, pode ser interessante. Vou fazer o truque do comum humano bisbilhoteiro:

— Realmente, onde vamos parar. Há pessoas cruéis, como são capazes de tamanha atrocidade.

Resultou. Puxou o interesse do empregado que está debruçado no balcão de frente para a televisão, vi-o mirar o jornal que estava a ler.

— Ah pode ter a certeza. Neste mundo são capazes de tudo. Isso pelo que ouço dizer tratou-se de um crime horrível. Mas eu, na minha opinião, não creio que tenha sido coisa deste mundo a fazer isso… como diz ai o titulo do jornal.

Começa a agradar-me. Ele gosta de falar nem é preciso que diga mais nada e já sei que me contará toda a história na mesma.

— Não é coisa deste mundo? Que diz homem? Bruxaria? Oh deixe-se disso!

O homem até pareceu ofendido com as minhas palavras.

— Não acredita? Não é daqui da zona pois não?

Acenei negativamente com a cabeça.

— Dá para perceber, nota-se que não sabe do que fala. – o empregado deixou o encosto do balcão e aproximou-se da minha mesa e começou a falar-me num tom de voz mais baixo. – Não conhece as histórias da cidade? Era ai, no pátio do Limoeiro, que morou Luís Alves dos Santos, o Último Carrasco de Portugal.

— Não estou a entende-lo. – decidi fazer-me de despercebido. Quero saber mais acerca desta história, soa-me a Espírito que voltou do Inferno para assombrar e talvez mesmo matar. Pode ter sido o próprio a decapitar a jovem ou incentivado outrem a faze-lo. E se se trata disso quero caça-lo.

— Não percebe? Esse homem anda a assombrar aquele sítio! Quero dizer a sua Alma.

Agora poderia ser eu a dizer-lhe que falava do que não sabia. As Almas não deambulam pelo mundo a assombrar as pessoas nem mata-las. As Almas estão dentro de nós, somos Nós. Quando um humano morre a Alma solta-se do corpo e consoante a Decisão Final viaja para o Paraíso ou para o Inferno. Quando uma dessa Almas nómadas volta á Terra, muitas das vezes Almas Negras que fugiram do Inferno, volta sobre a forma de Espírito ou Espectro. São esses Espíritos ou Espectros já martirizados nos fogos ardentes do Inferno que assombram o mundo e não Almas pelo que vejo os humanos as intitulam.

Mas o pobre homem continuou:

— Ainda se ouvem os seus gritos e os dos seus executados pela calada da noite.

Achei piada. Um Espírito que usava truquezinhos de gritos e barulhos para assustar as pessoas. Não tem realmente piada para os humanos, isso assusta-os de morte.

Os Espíritos, assombrações e outras coisas do “Outro Mundo” como o nomeiam e que não o podem explicar pela ciência, da qual estão cada vez mais dependentes, dá-lhes medo. Para mim é só mais um Espírito parolo que não ficou preso, como era suposto, no Inferno ou foi libertado para o mundo apenas por diversão de Demónios. Isso podia ser evitado. Mas era difícil fechar os Portões do Inferno e sozinho era impossível. Mas enquanto o mundo estivesse repleto de habitantes infernais não fazia muito sentido sela-los. Mas este Espírito teve azar, encontrou o tipo errado. Vou faze-lo voltar para o Inferno. Com a vontade de me alimentar que tenho talvez este não volte para lá e eu fique com a sua suja Alma para mim.

Está na altura das perguntas finais:

— Que mais sabe sobre esta atrocidade e do Carrasco de Lisboa?

— Pouco. Foi uma jovem chamada Maria que habitava nesse pequeno Pátio do Limoeiro a vitima e não encontraram explicação para a sua morte. Quer dizer, não tinha cabeça mas não encontraram a arma do crime. Por isso é que se fala do Negro, o Carrasco. Ele também cortava cabeças, era carrasco, e morou nesse mesmo Pátio., depois da sua morte até o intitularam de Pátio do Carrasco. São muitas coincidências, para mim é assombração. O Carrasco ainda por lá permanece a cortar cabeças.

O homem estava realmente assustado e não me podia ajudar em mais nada. Quando este se distraiu esgueirei-me pela saída sem pagar e pus-me a caminho da Rua do Limoeiro. Tenho de averiguar o que realmente se passou para saber a veracidade dos factos que o empregado do café me contou.

Embora toda esta história do Espírito do velho Carrasco Luís Alves dos Santos pode não ser ele na verdade. Pode tratar-se de um assassino maníaco a com a máscara do Carrasco a usar esta assombração para se esconder.

Notas finais
Espero que tenham apreciado a leitura e deixem a vossa opinião no comentário final. A conclusão deste conto depende do "feed back" que me for dado pelos leitores. Espero que a história vos cative e suscite a vossa leitura.