Crânio de boi
2 Crânio de boi - Capítulo final
Papai disse que eu estava pálido. Não falei nada, apenas sentei-me ao lado dele e ficamos na espera da ambulância, que chegou. Entramos atrás e partimos. Antes do meio dia do dia seguinte, papai estava na cozinha, consertando a porta desta no quintal da parte detrás. Julian tinha levado sete pontos e, por pouco, não havia tido traumatismo. Na sala, despojado no sofá, assistia a vídeos na internet em seu celular. Uma faixa branca envolvia sua cabeça.
Estava com muita fome, e o cheiro de ovos mexidos que mamãe fazia para o almoço estava me devorando. Enquanto mexia em meu celular à toa em meu quarto, pensava no que havia visto no sítio; havia sonhado com o boi e seu olhar atento sobre nós e com, meu Deus! Com aquilo que havia visto naquele corredor. Não contei para ninguém. Não queria mais sonhar com aquilo. Peguei-me paralisado por vários segundos pensando naquilo e a minha atenção se perdeu por completo. Perdi-me por completo até que a porta se abriu de súbito e pulei da cama com o barulho.
— Moleque, desce logo pra comer. Tá surdo?
Respirei fundo e segui minha mãe. Enquanto comíamos, ouviu-se algo lá fora. Um ‘’Ô de casa!’’ Pimpo começou a latir. ‘’Ô de casa!’’ e agora com palmas. Ninguém disse nada. Minha mãe revirou os olhos.
— Vai lá, Mikael. Se for pra mim, fala que eu não tô — ela sussurrou, como muitas vezes fazia.
Julian riu. Olhei para o meu pai e ele fez sinal com a mão espalmada para mim, como que para esperar.
— Sua mãe é maluca. Deixa que eu atendo — papai falou, se levantou e foi.
Ouvimos a conversa. Era Ramon, no portão da frente. De algum modo, ele achou nosso endereço. Pensei que havia regressado para saber se Julian já estava bem. Como ele havia nos achado? Meu pai o questionou e o velho apenas mudou de assunto. Disse estar ali por algo. Queria de volta, algum tipo de objeto.
Não parecia grosseiro, pedira com gentileza. Fui à janela da sala, que dava vista para nosso portão de ferro de grade, e espiei da greta a conversa. E após meu pai insistir que não havia nada conosco, Ramon, quase que rendido, recuou, porém, deu meia volta após alguns metros e voltou. Pimpo latia bravo. O velho de boné sujo segurou em nosso portão. Respirava forte e passou a falar pausado, se não me engano. Clamava para que devolvêssemos algo; um objeto. Era insistente.
Papai pediu mais informações do objeto, mas Ramon não parecia muito bem. O homem pardo estava muito vermelho e começou a arfar. Tinha vindo de charrete sob o sol quente daquele dia. Agachou-se no chão, se segurando no portão com uma mão e usando a outra para apertar a testa, então desabou para trás. Chamamos uma ambulância que o levou para o hospital. Discutimos sobre o episódio naquele dia, porém, além do fato de acharmos estranho, não fomos muito adiante com isso. Fiquei pensando naquilo, no objeto. Que coisa mais estranha aquele homem queria dizer?
O desespero nele era evidente, uma ânsia obstinada para sanar algo. Seu olhar lacrimejante enquanto suplicava para que devolvêssemos o objeto. O maldito objeto que ele tanto falava. Eu apenas pensava. Dormi com isso na cabeça e sonhei com a coisa maldita de novo, a coisa que tinha visto no corredor. O boi preto me perseguia no sonho, até me encurralar contra a parede, seus chifres leitosos a trinta centímetros de furar meu crânio; ele mugiu alto no sonho, insistente, como se questionasse, e eu não entendia sua língua ferina. Ele mugiu muito alto e despertei na madrugada com as calças molhadas.
Era um pouco mais de uma hora da manhã e minha audição se adaptou após o susto. Mas eu ainda estava dormindo – só podia ainda estar dormindo! Quando entendi o som que acabara de ouvir do outro lado da porta, arrepiei-me dos pés à cabeça e meus olhos se arregalaram ao máximo. ‘’Muuu’’, algo assim. ‘’Muuu’’. Na escuridão eu ouvia: ‘’Muuuuu!’’. Lá fora. O urro iracundo paralelo ao rumor de cascos, indo e vindo, lá fora, apressados, e um mal-estar tomava meu corpo, meu intestino.
Meus olhos se encheram de água para chorar de horror. Gritos intercalados, coisas se quebrando. Mas não conseguia gritar. De meu olho esquerdo uma lágrima caiu. ‘’Muuu!’’. Após aquela eternidade, os barulhos e os gritos cessaram. Tudo ficou quieto por algum momento. Sentia o cheiro de minha urina. Na cama, com as costas contra a parede, ouvi novamente os cascos, pararam à porta e depois um arranhão na madeira. Um bufar. Tremi e clamei a Deus em minha mente, coisa que jamais havia feito.
A porta foi açoitada pela besta insistente. Consegui largar um grito fraco. Abriu com um estrondo e notei uma silhueta à entrada, nas trevas da sala – embora tivesse uma fonte de luz indistinta ao fundo – uma forma robusta com os contornos dos chifres leitosos que se destacavam de modo sutil às sombras. Chamei por papai e mamãe, mas eles não iriam me responder. O boi bufou e se afastou, abrindo espaço para a mulher entrar. Ela mantinha uma luminária de bateria em mãos. Aproximou-se de mim e parou ante a cama com a coisa sinistra ao ombro direito dela.
Apenas em pensar em descrever, sinto mal-estar na barriga. Parecia com a cabeça flutuante de um touro deformado; quase tocava o teto. Tinha uma tonalidade verde-escura; quase negro. O focinho era muito curto, dando a impressão do formato de uma estranha cabeça humana. Parecia de pele, não de pelo; uma pele flácida de idoso.
Os chifres negros se moviam de forma sinuosa e vagarosa. Nem pareciam sólidos. Os olhos eram negros e refletiam toda a luz da luminária. Da parte de baixo da cabeça pendiam cordões grossos. Remetiam ao corpo de serpentes com protuberâncias gibosas em todo decorrer. Madalena estendeu a mão enrugada em minha direção, e eu me mantinha encolhido na cama.
— Devolva. Não minta para Ele. A energia vem dessa casa. Meu marido, que descanse em paz, já esteve aqui. Mas o sangue dele será cobrado.
Não falei nada.
— Meu menino precisa daquilo.
— Por quê? — foi só o que saiu de minha boca num gaguejo.
Bois mugiam lá fora, na sala e cozinha, como se ao menos três vagassem por lá. Madalena falou sobre um garoto que sofrera um acidente doméstico e tivera a maior parte do corpo queimada. De cama, não poderia viver sem sofrer com dores que não poderiam ser narradas. Sem tratamento e com a morte iminente, nem para Deus ou para o Diabo eles apelaram.
A senhorinha falou de um segredo antigo de sua família, de milênios, das primeiras raízes de seu sangue, que só eles detinham tal conhecimento, somente eles poderiam contemplar uma das infinitas formas DELE sem serem obliterados pela insânia e que eram os únicos a poderem evocar o seu nome maldito e sua imagem sem terem os corpos despedaçados, se Ele quisesse.
Ele devolvera a vida, sem a dor, ao lastimado, com a imolação necessária. Ele havia trazido a vida de volta ao lar de sua família. A alma não poderia mais habitar o corpo destruído, mas habitaria em outro corpo, escolhido por critério DELE, que havia entregado a chave para isso, desde que esta permanecesse onde deveria. ‘’Ele é tudo e é nada, Ele está dentro e está fora, ele é quebrado e indestrutível ao mesmo tempo.
Ele é alto e é baixo, é forte e é fraco, é grande e é pequeno. É círculo e quadrado. Ele é cheio e vazio, feio e belo, Ele corre, mas está parado. Ele está vivo e está morto ao mesmo tempo. Ele é todas as coisas impossíveis e possíveis ao mesmo tempo’’, Madalena disse ainda com a mão estendida. Era o que me lembro. Talvez, tenha dito mais, mas não me importo. Isso é demais para minha cabeça.
— Então devolva. Apenas devolva — ela concluiu.
E eu apenas não queria ouvir mais nada. Com algum esforço, arrastei-me até o pé da cama e, trêmulo, catei minha mochila sobre o banco, saquei o objeto. Enquanto no sítio, depois de abrir a cortina, eu o peguei no mais singelo impulso. Queria aquilo para mim. Era tão sedutor! A pedra ogival do tamanho de uma jabuticaba era de um material tão transparente que sua casca quase parecia invisível.
As extremidades tinham a exata mesma proporção, quase como um olho humano e, dentro da casca, um globo miúdo do tamanho da unha dum mindinho, lembrando um sol minúsculo, cintilava alvo e laranja. O alvo por mais tempo. Era mesmo como um olho, que havia arrancado da cavidade ocular do crânio depurado de um boi, dentro dum nicho de pedra lavrada acoplado à parede. Havia um pedaço de pano rubro que ajudava a segurar o tal objeto lá dentro. Tinham quatro velas apagadas, já gastas, ao redor, e o crânio jazia sobre um tecido vermelho, pelo que lembro.
O objeto era frio e ficava meio quente às vezes e segurando-o por alguns instantes notavam-se sutis vibrações e tinha um leve odor de terra ou lama. Entreguei o objeto à Madalena, depois cerrei os olhos. Não queria ter mais que ver a cabeça flutuante, esta que, ao ver o tal objeto, emitiu um gruído pavoroso, como que de contemplação. A mulher foi embora junto à aberração torpe e dos bois.
Com olhos cerrados, não vi como se foram. Apenas se foram. Mamãe havia sido esmagada contra uma parede, papai tivera seu peito e pescoço perfurados; e Julian, aparentemente, fora pisoteado. A face estava desfigurada. Já Pimpo, estava morto no quintal com sangue no corpo. Era como se tivessem sido arrastados para fora de seus quartos por alguma força. Nenhum vizinho viu ou ouviu nada, como se o tempo tivesse parado na hora do massacre por aquela força.
A polícia não descobriu e nunca descobrirá nada. E eu jamais pude explicar sem ter soado um louco. Desconfiaram de mim. E mesmo que pudessem provar que fui eu, jamais seria preso aos dezesseis. Acabei por vir morar na casa da minha tia, Patrícia, em São Paulo. Nunca mais ri de nenhuma piada, quase nunca mais sorri de nada, como se a minha alma tivesse deixado meu corpo, levando tudo o que torna um humano um humano.
Passaram-se só um ano. Ainda sonho com aquela cabeça e os bois; com tudo o que Madalena dissera. Psicólogos não ajudaram; remédios não ajudaram; e o pastor não ajudou. E tudo só está piorando cada vez mais. Até tive certa tranquilidade por um tempo, só por um tempo. Isso jamais me deixará, tenho certeza. Não saio muito do quarto. Não quero mais ter aqueles sonhos, não quero mais ver aquele demônio sempre que fecho os olhos, e às vezes quando desperto, pelos cantos. Urino na cama desde aquele dia.
Não quero mais rever aquilo. Não quero, não quero, não quero, não quero. Hoje, decidi ir dormir, porém, sem sonhar. Nunca mais irei sonhar com nada. Deixo aqui esta mensagem em áudio para quem se interessar e para evitarem aquele sítio. E não, não roubem coisas estranhas por aí! Bem... Aqui perto tem uma linha de trem... Preciso ir andando.
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