Crânio de boi
1 Crânio de boi - Capítulo 01
Era em algum período da tarde, quando partimos para aquele lugar. Me lembro de que havia sido em algum sábado ensolarado de agosto. Uma ideia de meu pai para que retornássemos ali após cinco anos. Um local distante de nossa casa e do estresse. Seria bom. Encontramos um lugar bacana. Forramos um lençol de mesa no solo, no espaço amplo paralelo à ruazinha de terra. Apreciamos o local com vista para altivas montanhas ao longe. Dava para ver muitas casas dali, do bairro onde morava, em meio à constelações doutras.
Mamãe deixou a bengala de lado e com um suspiro pesado foi a primeira a sentar-se, já empurrando para longe o focinho de Pimpo, quando este, de rabinho abanando, foi inocente para cima dela. Achei que ela fosse dar com a bengala de novo no nosso Fox paulistinha. Ele nunca aprendia! Mas mamãe não o feria, embora gostasse de espantá-lo de uma forma severa.
Fizemos um lanche com biscoitos recheados, alguns cachorros-quentes pequenos e ‘’refri’’. E lembro bem de papai ter levado um pandeiro. Não parava de bater, além de cantar um pagode que falava da vida. E Pimpo parecia adorar, pois acompanhava latindo com a cabeça erguida, dando pulinhos com as patinhas da frente.
Ficamos ali mais um tempo. Passei a mexer no celular enquanto papai afagava os cabelos de Julian, deitado em seu colo. Passamos a conversar sobre algo curioso que tínhamos visto no caminho até ali. Antes de nos aproximarmos dali, havíamos feito uma parada próxima de um sítio. Lembro-me de sacar meu celular e de começar a filmar o lugar. Meu pai abaixou o meu braço. ‘’É falta de respeito’’, ele me disse. Quis saber quem morava ali. Nenhum dos meus pais soube dizer. Por uns bons metros, em ambas as direções, não havia nenhuma outra construção; seja lá quem vivesse ali, vivia bem à moda antiga.
Da outra vez em que viemos não me recordo de havermos questionado nada sobre o local. Dava para ver um pilar de fumaça clara ascender de detrás da casinha. Mamãe disse que possivelmente era de um fogão à lenha. Vimos alguns bois e vacas lá dentro e sons de gansos, fora de vista. Julian, que tinha treze anos, correu e empoleirou-se na cerca. Mamãe mancou rápida até ele e bateu de leve com a bengala na bunda dele, obrigando-lhe a descer.
Pimpo havia começado a latir para algo atrás de nós e, quando nós viramos, recordo-me apenas de Julian gritando, já indo esconder-se atrás das costas de papai. Recuamos para a beira da estrada, ao lado da cerca de arame farpado quando os cascos passaram por nós a toda. Tive de fechar os olhos pela poeira. Quando os abri, vi o ser parado a dez metros e de costas para nós.
Quando se virou, mergulhei na imensidão umbrosa de seus olhos e nadei contra a onda de pavor que se assomou sobre mim. O boi negro de chifres leitosos nos fitava impávido. Na época, não havia prestado atenção, mas ao refletir depois, não lembro haver nada nas proximidades da ruazinha antes de ele aparecer. O boi grande ciscou o casco no chão por duas vezes. Minha família se recolheu e nos abraçamos praticamente. O boi mugiu e minhas pernas ficaram bambas, e acho que foi a mão de meu pai em meu ombro que não permitiu que eu desabasse em terror completo.
Ouvi uma voz repentina atrás de nós, sem ser acusada por passos ou nem outro ruído sequer, apesar de que o pavor pudesse ter me impedido de prestar atenção em tais detalhes. Viramos, e vi a mão parda espalmada para cima. O velho passou por nós com a mão ainda espalmada e acalmou o boi, tocou-lhe na cara e lhe fez um carinho. Enquanto mantinha o bicho segurado, nos pediu desculpas. Ouvi mais mugidos um pouco longe, olhei para além da cerca de arame e vi mais bois e vacas se aproximarem do cercado. Olhavam obstinados para nós. Ao menos oito pelo que recordo. Agradecemos o velho de boné sujo e seguimos nosso caminho.
Retomando ao piquenique, mamãe findou por me chamar até ela, aninhou-me em seu colo, também afagando meus cabelos, como às vezes fazia. Mas Julian – que parecia querer estragar o momento bom sendo inconveniente, diga- se para mim, pois não queria que aquilo viesse à tona – resolveu inquirir-me sobre se não devolveria o anel de prata de caveira de Fernão.
Talvez Julian já tivesse visto o anel no dedo dele nos dias em que viera à minha casa para trabalhos escolares, e em um destes dias mesmo que o roubei, quando tirara para lavar as mãos de tinta Guache. Fingi que não sabia de nada. Creio que vivera desconfiado de mim, mas ele não quisera procurar brigas. Fora por impulso, como da vez em que roubei uma caneta doutro colega. Não usaria o anel até que ele se mudasse de cidade como dissera, porém, nunca o usei.
Julian era um maldito de um pivete com olhos bem aguçados. Mandei que ficasse calado sobre o furto, quando ocorrera. Havia dito em um tom bem sério para que ele entendesse – cheguei até a ameaçá-lo com uma faca certa vez, o mataria dormindo – mas jamais faria isso, claro, mesmo ele sendo um maldito dum dedo duro, e ele também nunca me levou a sério. Não sei por que, no passeio, resolveu abrir a boca.
Talvez porque achasse segurança nos braços de papai, que o protegeria de tudo. Meu desejo era sempre o de ser um bom filho, porém, tinham esses impulsos. Já havia afanado brinquedos aos dez anos; e a última vez em que roubei algo fora há dois anos; eram duas moedas de cinquenta centavos de troco de um sujeito, que deixara dando sopa sobre um balcão.
Não que eu fosse precisar. Era pelo impulso. A adrenalina, talvez. Sentia o remorso, que passava. Porém, sempre quis ser um bom filho. Após a chata discussão sobre o roubo do maldito anel de Fernão, deixamos o lugar e, já no caminho de volta, Julian, que saltitava na frente de nós, correu aos berros assim que passávamos próximos daquele sítio. O boizão negro saiu do matagal ao lado. O menino de olhos ‘’estatalados’’ correu para nós, mas tropeçou num buraco raso e caiu com a face no solo. O boi jazeu estático, nos fitando.
Pimpo latia para ele. Papai correu para o auxílio do meu irmãozinho maldito. Julian se estrebuchava nos braços dele com um corte perto da têmpora direita. Mamãe tentava acalmá-lo, e eu revezava meu olhar para Julian e para o boi, que se mantinha nos encarando. Vez ou outra, sacudia a cabeça.
Minha perna bambeou. Os olhos... Aquele olhar. Tinha uma coisa a mais nele, não saberia explicar. Algo além do animal; o bicho não estava apenas olhando, estava observando, notando, calculando e reparando. Era minucioso, como apenas um humano poderia ser, talvez.
Pimpo latia. Julian chorava. E atrás de nós, o velho de boné sujo surgiu de novo. Não se preocupou com o boi desta vez. Ofereceu-nos ajuda. Papai pegou Julian no colo e adentramos no sítio. Com um pano úmido, mamãe limpou o machucado enquanto meu irmão chorava e soluçava sentado no sofá da sala. Era uma casa pintada de azul-claro por fora, com mobílias um tanto antigas, madeira escura. Tinha um leve cheiro de verniz no ar ou algo assim. Quadros de pessoas nas paredes. Era de um casal de idosos, juntos, e outros três quadros menores, de crianças.
A senhorinha da casa teclava o número da ambulância no telefone fixo, nos poupando de usar nossos aparelhos. Do lado de fora, Pimpo latia para alguma coisa. Gansos grasnavam e dois cães ao longe também ladravam. Tive a impressão de escutar uma trovoada ou era o som de alguma carreta passando a toda na BR não muito distante dali. Julian se acalmava quando a senhorinha chamada Madalena nos disse que a ambulância chegaria logo.
Tivemos de esperar. Um pano fora posto sobre a ferida de Julian, e ele recebera uma dose de aspirina. Era certo que precisaria de pontos. Papai passou a niná-lo em seus braços e mamãe fazia carinho no braço dele. A senhora disse algo mais ou menos sobre que entendia como era ver um filho machucado. Alguma coisa do tipo.
Recordo-me bem de ver o velho dando um soquinho no antebraço dela na hora em que dissera e depois fazendo que não de cara feia. A mulher não disse mais nada a respeito e mudou de assunto, perguntando se éramos de muito longe. Precisei ir ao banheiro, urinar. O velho, que se chamava Ramon, me levou neste, depois da cozinha.
Tinha um cheiro de feijão fresco, alho e de algo que não lembro mais. O homem me deixou sozinho, fiz o que precisava e na hora de voltar, num corredor estreito, olhei para o lado, e ao fim deste havia algo que já tinha notado antes. Aproximei-me e parei diante de uma cortina meio transparente ao final; leitosa.
Um brilho fosco pulsava de um modo intermitente por detrás. Mas forte o bastante para berrar atenção. Um branco mais branco que o da cortina e que, por segundos, piscava no tom laranja-claro. Meu braço se moveu automaticamente. Movi a cortina para o lado. Tinha argolas em cima, como as de banheiros. Respirei muito fundo e prendi o grito. ‘’Mikael!’’ Ouvi a voz de minha mãe me chamando e voltei à sala.
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