— Podemos ir um pouco mais rápido, se quiser.

— Seria bom.

— Aguente firme.

Ela aguentou. O estágio do trote, entre cavalgar e galopar, foi a única coisa de que não gostou. Seu corpo balançou na sela como uma bola de basquete em um jogo disputado.

Galopar, entretanto, mesmo durante o breve período de tempo em que fizeram isso, era como estar voando. Ela adorou.

Quando o passeio terminou, disse:

— Vamos repetir o galope!

Edward balançou a cabeça em negativa.

— Já foi o bastante para um dia. Suas pernas ficarão muito doloridas.

Bella não sabia sobre o que ele falava até apear e mal conseguir ficar em pé. Em breve recuperou o equilíbrio, e o tremor nas pernas cedeu, permitindo-lhe sentir a dor nas costas.

— Quer cavalgar novamente? — ele perguntou ao tirar a sela de Mel.

— Claro! Mas não hoje.

Fazendo uma careta, passou a palma da mão pelos quadris.

— Fale-me se você sentir muita dor mais tarde — disse ele. — Tenho um bálsamo que poderá ajudar.

Por volta das oito horas daquela noite, Bella caminhava como se tivesse oitenta anos. Gostaria de um banho quente após o jantar, mas não tinha certeza se conseguiria abaixar-se para entrar na banheira dos aposentos da empregada, quanto mais sair.

Não precisava preocupar-se com iguanas vagantes, entretanto. Parecia que Dallas detestava escadarias, por isso limitava suas jornadas ao andar superior da casa. O que significava que Bella teria o banheiro somente para si.

Poison, a cobra, conseguia esgueirar-se degraus abaixo mas não parecia gostar de fazer isso. Joe ficara confinado em seus aposentos, até então. Mesmo assim, a cada noite ela sempre dava uma verificada debaixo das cobertas e da cama apenas para se certificar de que o rato não estava ali.

Mas naquela noite teria de esquecer-se da inspeção. Inclinar-se definitivamente não era uma boa idéia em sua atual condição física. Ficar debaixo de uma ducha de água quente era muito mais recompensador. Fazia com que se sentisse melhor por alguns instantes. Então a imobilidade e as dores pelo corpo rapidamente retornavam.

Quem diria que havia tantos músculos em suas pernas? Na verdade, parecia haver apenas uma musculatura gigante de concreto em cada perna.

Com vagar moveu-se... sim, vagarosamente saiu do banheiro e caminhou até a cama onde, com cuidado, sentou-se e então rolou de costas.

Jamais conseguiria mover-se da cama. Encontrariam seu corpo pela manhã e em sua tumba não colocariam nada inteligente como os epitáfios sobre os quais Billy lhe falara.

Nada como: "Aqui jaz Jester Moore. Nada mais, nada menos".

Não, em sua tumba estaria escrito: "Garota da cidade não conseguiu cavalgar". Ou talvez: "Garota da cidade falhou em sua grande hora". Ou algo como: "Aqui jaz Bella Swann, aquela que não foi capaz de sair da cama".

Até que a última não parecia tão ruim.

Uma batida à porta interrompeu sua análise dos epitáfios.

— Estou de folga agora — gritou. — Volte durante o horário comercial.

— Trouxe aquele bálsamo de que lhe falei — Edward disse do outro lado da porta.

Poderia ser corajosa, suportando a dor física e dizendo-lhe que estava bem. Ou deveria ser covarde e pedir sua ajuda? Dor ou não dor? Não havia como errar na escolha.

— Entre!

Edward entrou. Ela o ouvia mas não podia vê-lo porque olhava para o teto. Mover-se requereria muita energia, sem mencionar desconforto.

— É tudo culpa minha — disse Edward, a voz refletindo seu pesar. — Jamais devia ter deixado uma pessoa frágil como você cavalgar durante mais do que alguns minutos.

— Veja bem a quem está chamando de frágil, cowboy! — respondeu.

— Estou vendo — murmurou em resposta.

Algo no tom de voz de Edward a fez arriscar mover a cabeça para o lado para poder fitá-lo. A empatia nos olhos azuis quase a fez chorar.

— Não sou uma fracassada — falou com firmeza.

— Não, você não é uma fracassada — ele prontamente concordou. — Eu, por outro lado, deveria fazer um exame mental.

— Por ter me contratado, é isto que quer dizer?

— Não, não está sendo tão ruim quanto eu esperava.

— A despeito dos biscoitos duros como pedra e ovos moles?

— Exatamente como gosto de saboreá-los.

— Desde quando?

— Eu nunca lhe falei sobre a velha regra dos cowboys?

— Você se refere àquela sobre expulsar empregadas domésticas que não sabem cozinhar?

— Não, aquela que diz que qualquer pessoa que se queixa da comida tem de saber cozinhar melhor.

— Eu definitivamente me lembraria se você ou Billy tivessem me falado isto antes.

— Bem, considere então que já ouviu.

Bella ficou imaginando se aquele era o jeito de Edward dizer que ela estava fazendo um bom trabalho.

— Quer que eu passe um pouco deste bálsamo em seu corpo?

Havia momentos para recato e outros para alívio de dores.

Aquele definitivamente fazia parte do segundo grupo.

— Sim, obrigada.

— Você consegue rolar para ficar de costas?

— Claro.

Bella fez isso e terminou com o nariz mergulhado em um travesseiro, o qual Edward com gentileza afastou.

Sentiu o colchão ceder um pouco quando ele se sentou a seu lado.

Edward contemplou o corpo envolto em seda e sentiu remorso pela dor que ela suportava.

Não pensou, entretanto, que aquela era uma prova de que Bella não pertencia ao mundo campestre. Em vez disso, seu primeiro pensamento foi fazer com que ela se sentisse melhor.

Edward passou o bálsamo nas mãos e começou a deslizá-las pelas pernas bem torneadas, trabalhando dos calcanhares até as coxas. Ela não disse uma palavra, o que não era típico de Bella.

Normalmente podia conversar até com uma mula. Tinha opinião sobre tudo. Algumas vezes Edward até se surpreendia em perceber que partilhavam a mesma opinião.

Também ficou espantado com o modo como ela cavalgara naquele dia. Dera-se bem com Mel e parecera estar satisfeita em ter oportunidade de ficar ao ar livre.

Sua pele era mais macia do que a brisa de verão ou as asas de uma borboleta. Frágil, e conforme a brisa ou a borboleta, Bella flutuava. Simplesmente passava, mas não ficava.

E quando o verão terminasse, ela, como a brisa quente e as borboletas coloridas, partiria.

Por enquanto, entretanto, era quente e convidativa debaixo de suas mãos. A última vez em que realmente a tocara fora no celeiro, quando se beijaram. A intensidade da resposta fora surpreendente. O que estaria sentindo naquele momento, diante de seu toque?

— Está ajudando? — indagou Edward.

— Mmm — foi o murmúrio em resposta, a voz um sussurro como o ronronar de um dos gatos do celeiro que os gêmeos ainda não haviam descoberto.

Edward insinuou as mãos debaixo do robe dela, os dedos espalmados tocando a calcinha macia e as curvas do corpo. Podia senti-la relaxando com o efeito da massagem.

Talvez a estivesse ajudando, mas definitivamente aquilo o machucava. Bem, não exatamente machucava. Mas causava uma pontada de desejo que não podia ser satisfeito.

Não importava quanto Bella pudesse tentá-lo. Edward não cederia. Não dessa vez. Não com aquela garota da cidade nem com outra qualquer. Recusava-se a desistir.

Imaginava-a agradecendo a massagem com um olhar convidativo por sobre o ombro. Seus lábios cheios sorririam de um modo capaz de fazer um homem derreter-se. Ele resistiria.

Bella poderia ficar nua à sua frente, e Edward nada faria. Poderia... o que ela estava fazendo naquele exato instante? Com cautela moveu-se adiante para captar melhor a expressão do rosto de Bella, virado para o lado com a face pressionada contra uma mão.

Seus longos cílios eram escuros em contraste com a pele clara, os lábios estavam entreabertos e ela... ressonava?

Oh, era um som bem delicado, quase imperceptível... Ela adormecera justamente como a acusara de fazer enquanto cavalgavam.

Somente ele para pensar que Bella estava deitada ali planejando um esquema para seduzi-lo. Dissera-lhe que não estava interessada em ter um relacionamento, assim como Edward. Talvez fosse hora de acreditar nela.

Bella acordou na manhã seguinte sentindo-se mais descansada do que em semanas. Não se lembrava do que tinha acontecido depois que Edward começara a passar o bálsamo milagroso em seu corpo dolorido. Recordava-se apenas da sensação de paz e relaxamento.

Talvez assim que comercializasse com sucesso o Molho Para Churrasco Billy acrescentasse o bálsamo milagroso à linha de produtos que pretendia lançar.

Após preparar toucinho com ovos mexidos que estavam com um sabor realmente bom, fez algo que fazia parte de sua rotina desde a chegada à fazenda. Verificou sua correspondência eletrônica no laptop enquanto tomava uma xícara de café para cowboys: forte e quente.

Recebera resposta de Alice Washington, de New York. Era uma executiva de propaganda companheira sua e amiga. Alice elogiara a ideia de comercializar o Molho Para Churrasco Billy. Concordou quanto ao rótulo, que trazia um pôr-do-sol com a silhueta de um cavalo. Até mesmo Billy havia ficado satisfeito com o desenho.

Restava então a parte mais difícil: convencer catálogos western a aceitar o molho de Billy. Bella enviara uma dúzia de caixas com amostras mas ainda não obtivera nenhum retorno das empresas. Até mesmo colocara uma marca na caixa: Cullen of the West, ou seja: O Melhor do Oeste, para chamar a atenção. O que casava perfeitamente com o sobrenome de Billy, Cullen.

Lembrou-se de quando explicara a Edward que seu trabalho sempre fora o de "romancear" marcas. Ele lhe disse que, na região, marcas tinham um sentido diferente, e Billy contou que cerca de trinta mil marcas haviam sido registradas por fazendeiros do Colorado.

Mas se lembrava especialmente das palavras de Edward. Tantas coisas por ali tinham um sentido diferente para ele.

Bella não saberia dizer o motivo de ser tão importante que Edward pensasse bem a seu respeito. Apenas sabia que, quando falara que ela não era um fracasso na noite anterior, foi como se seu coração houvesse sido banhado pelo sol nascente.

Aquelas poucas palavras de Edward causaram-lhe um efeito maior do que todos os discursos cheios de floreios de Jacob. Talvez porque soubesse que as palavras de Edward expressavam verdadeiramente o que pensava, enquanto Jacob apenas dizia o que achava que ela queria ouvir.

Reunindo os pensamentos, redirecionou a atenção para a correspondência eletrônica. Alice recebera sua caixa com amostras do Molho para Churrasco Billy e adorara.

Também gostou do jeito como Bella embalara as garrafas com um papel especial e uma corda rústica. A versão chamada "Selvagem" tinha no rótulo: "Sabor delicado mas selvagem", idéia de Billy..O molho mais temperado trazia a inscrição: "Apimentado".

A correspondência eletrônica seguinte vinha de um endereço que ela não reconheceu de imediato. Apenas quando começou a ler a mensagem percebeu que vinha do Southwestern Living, o maior catálogo de vendas pelo correio da região. A novidade a deixou deliciada.

— Não me diga que aquele rato se perdeu novamente — Billy murmurou ao entrar na cozinha e ver a expressão assustada de Bella.

— Não é o rato.

Agarrando-o pelos ombros, deu-lhe um enorme beijo no rosto.

— Conseguimos!

— Sobre que está falando, senhorita? Você não acrescentou alguma coisa a seu café, não é mesmo?

Lançou-lhe um olhar de desconfiança.

— Não estou bêbada, estou feliz. O pessoal da Southwestern Living adorou seu molho para churrasco!

— Bem, claro que eles adoraram — respondeu Billy como se fosse uma conclusão óbvia. — Que tolo não gostaria?

— Você não entende. Querem colocar seu molho para churrasco no catálogo! Fizeram um pedido para trezentas garrafas tanto da versão selvagem quanto da apimentada.

Billy a encarou como se Bella estivesse louca.

— Trezentas garrafas?

— Isto mesmo.

— Puxa vida! Como vou conseguir produzir trezentas garrafas daquela coisa?

— Nós o ajudaremos, vovô — os gêmeos disseram, da porta dos fundos.

— Puxa vida! — ele repetiu, dessa vez com um espanto na voz ao passar a mão pelos cabelos brancos antes de ajeitar o suspensório.

Parecia orgulhoso.

— Bem, o que estamos fazendo aqui parados? — perguntou ele. — Temos muito trabalho pela frente!

Notas finais
eai, o que acharam?