Covil do Demônio
1 Capítulo 1
Cibele abriu os olhos e os voltou para cima, para a abobada do lugar onde estava. Por um instante tentou descobrir se estivera dopada ou se a mandala do vitral no teto estava formando formas psicodélicas demais. Provavelmente as duas coisas. Ela olhou para as colunas que apoiavam o teto e elas formavam ondulações. De repente, o mundo girava além do limite de velocidade na sua visão.
Uma melodia tirada de um piano tinha notas trágicas e vinha da sua esquerda, uma música que a deixava mais desconfortável do que se sentia.
Fechou os olhos para escapar das peças que a vertigem pregavam na sua retina. Procurou tomar consciência de onde estava deitada com as mãos. Antes que o tato pudesse dar alguma informação precisa, os ouvidos denunciaram passos e a melodia ficou melancólica.
Uma mão veio precisa na direção das suas entranhas fincar uma estaca no corpo supostamente adormecido de Cibele. Ela virou-se em desespero para o lado e caiu da sua cama improvisada. Tentou esquivar de mais um golpe e a vertigem pareceu uma das melhores coisas que poderia enfrentar diante destas constantes tentativas de assassinato. Dois homens vestidos de sacerdotes e faces mutiladas tentaram conte-la. Suas pálpebras e nariz tinham cortes e os lábios carcomidos denunciavam que algo se alimentava da pele que rodeava a boca dos sacerdotes. Teria sido bom se sua visão ficasse completamente turva no instante que percebeu estes detalhes. Teve vontade de vomitar. É. Era fraca mesmo.
As mãos dos sacerdotes envolveram seus braços e ela gritou, contrariando as notas musicais da festa da sua morte. O algoz encapuzado veio ao seu encontro com sua máscara negra e a estaca. Uma abertura mecânica foi ativada no topo da abobada e todos olharam para cima como se esperassem aquele sinal. Cibele revirou o braço e se desprendeu, caindo desajeitada por cima do piano imenso e fazendo-o desafinar. O pianista, desconcertado, deu um passo para trás. Cibele o agarrou pela túnica. Era um maldito anão tão mutilado na face quanto todos os sacerdotes daquele salão que a faziam de oferenda. A plateia de devotos exclamou e emitiu sons desconexos, ela ainda não havia reparado na quantidade de pessoas ali. Se é que poderia chamá-los de pessoas. O anão que agarrava pela roupa logo se debateria demais e seria retirado dela para voltarem ao sacrifício. Cibele começou a enforcá-lo, sem pensar duas vezes, talvez isso lhe garantisse uma sobrevida um pouco maior.
O portal do Templo da Estrela Tamot irrompeu com um chute vigoroso. Mutton olhou para o salão de oferendas e todas aquelas cabeças peladas de rostos auto-flagelados dos aspirantes a sacerdotes. Eles estavam alvoroçados, entoando um cântico com as mãos para cima e alguns poucos se voltaram para ele. Estavam compenetrados com outras coisas para prestar atenção nele. Mutton não estava acostumado a este tipo de recepção. Bufou e voltou seus olhos para o altar. A pedra de ônix que marcou no seu mapa como o local onde estaria o alvo do resgate estava vazia. Por um momento ele pensou que chegara tarde demais. Foi quando percebeu Cibele segurando o pianista pelo pescoço e três homens tentando se aproximar da garota. Ela não podia se safar dessa sozinha e fazer com que ele não recebesse a recompensa pelo seu serviço. Esmurrou a multidão a esmo para abrir caminho. Um homem moreno e imenso provocava uma onda de desmantelo nos noviços do templo. Mutton não usava armadura, sua pele era a casca grossa que o protegia desde sempre, suas adagas tilintavam no cinto em seu quadril. De repente, ele parou entre os devotos, abobalhado, olhou para o teto.
Acimas das suas cabeças, na fenda aberta na abobada do Templo da Estrela Tamot, uma cauda metálica pendia e uma garra gigantesca forçava a abertura fazendo estilhaços de vidro caírem.
-Merda sagrada!
Foi o que pensaram alguns devotos e foi o que proferiu Mutton com sua voz gutural.
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