Notas iniciais
O conto faz parte de uma série disponível no meu site, com histórias dentro da árvore genealógica de Cordélia Bloxam (indico ler Lembrem-se de Cedrico Diggory para mais detalhes).
Também estão disponíveis no meu site as histórias de Nerissa Gaunt e Astérope Black, personagens originais.

Era uma tarde perfeitamente agradável, ela pensava. O sol se incidia por de trás da mansão dos Bloxam e, da janela da biblioteca, onde se encontrava Marilyn, dava para ver uma faixa de mar, brilhando em azul antes de encontrar o horizonte ainda mais azul acima. O movimento das ondas a dava preguiça lá embaixo, depois das falésias, e Alastair abrira uma janela, deixando entrar o cheiro de sal e maresia.

—Cheque. –Disse uma voz vitoriosa ao seu lado.

Marilyn se virou para observar a sogra, com seus olhos negros brilhantes, observando o marido com um ar de contentamento. Hector Bloxam fez seu melhor, mas estava perdido. Era a terceira derrota na última hora, mas Marilyn tinha a impressão de que isso não o incomodava nem um pouco.

Asterope e Hector Bloxam tinham sua própria mansão em Londres, onde Hector havia crescido e para onde se mudaram quando Alastair e Marilyn decidiram se casar; para deixar a casa do norte da Escócia para eles. Estavam ali apenas para fazê-la companhia, Marilyn sabia, e era grata por isso; mas sentia falta de seus próprios pais e sua própria família, na casa dos Mckinnon. Alastair a prendera ali, praticamente.

A guerra já estava acontecendo há alguns bons meses agora. Mais de um ano, certamente. Os Bloxam, no entanto, apenas haviam se escondido há algumas semanas, desde que Arcturo e Alastair haviam sido “convidados” a se juntarem aos Comensais. Tendo ambos recusado, agora eram considerados um alvo, desde o último verão. Haviam enchido a casa com feitiços de proteção, feitiços contra arte das trevas e anti-mapeamento. Não teria sido o suficiente, provavelmente, se Alastair não fosse agora tutor de um garoto no Instituto Flammel onde trabalhava. Um garoto que entrara para os Comensais, e que o estava ajudando.

Entediada, Marilyn suspirou audivelmente. Atrás dela, seus sogros trocaram olhares.

—Marilyn, querida, quer dar um passeio na praia? –Era Asterope, gentilmente, embora não houvesse se levantado de seu lugar de frente para o marido na mesa onde ficava o tabuleiro de xadrez.

A sua sogra era uma mulher altiva, de cabelos escuros cheios de mechas brancas, e mesmo agora seu rosto mostrava poucos sinais de idade. Ela nem sempre fora tão receptiva com Marilyn; havia quase enlouquecido a bruxa mais nova durante o planejamento do casamento, mas, após Marilyn concordar que sua sobrinha, a recém-casada Narcisa Malfoy e melhor amiga de Marilyn dos tempos de Hogwarts, fosse a madrinha no lugar de Emmeline Vance, tudo havia se tornado mais simples; atingindo o ápice agora que a outrora Mckinnon carregava o herdeiro dos Bloxam no ventre, embora o alto relevo em sua barriga fosse tão pequeno que mal era notado.

—Estou bem aqui. –Murmurou de volta, virando a cabeça apenas para lançar um sorriso para os sogros, que deram de ombros e ficaram onde estavam.

A biblioteca não era desagradável, afinal. Era clara, cheia de janelas e cheia de sofás. Marilyn estava acomodada no sofá de tecido florido mais perto da janela leste, que dava vista ao Mar Norte. Atrás dela, prateleiras se estendiam, cheias de livros importantes do mundo da magia, assim como alguns clássicos, mas nenhum realmente a interessava. Alastair estava fora, no Instituto, o que sempre a deixava nervosa. Tudo a deixava nervosa ultimamente, especialmente desde que sua irmã caçula, Marlene, decidira entrar no curso de aurores do Ministério da Magia.

Ela estava pensando justamente em sua família quando um som de estalo familiar a fez, quase alarmada, se esticar para olhar da janela, alcançando sua varinha no assento ao seu lado. Seu sogro estava de seu lado em um segundo, ajeitando os óculos no rosto. Asterope, mais atrás, ficou igualmente atenta.

Uma vez que reconheceu a figura lá embaixo, porém, Marilyn soltou uma exclamação de alegria e pulou do sofá, correndo para fora da biblioteca. Os seus pés faziam um barulho abafado no piso de madeira enquanto ela se impulsionava, desejando que a casa fosse menor, em direção ao lado de fora.

Marcus havia aparatado há alguns metros da entrada da casa, na área específica que eles haviam separado para isso. Se ele houvesse aparatado em qualquer outro ponto, teria disparado uma série de alarmes. Ainda estava caminhando pela entrada ladeada de cercas vivas floridas quando a irmã abriu a porta e se apressou na direção dele.

—Não, Marilyn, não. –Ele disse, levantando as mãos para que ela parasse. –Me faça a pergunta.

A mais velha suspirou. Toda vez isso acontecia, o que parecia exagerado. Ela podia reconhecer seu próprio irmão quando o via. Para Marcus, porém, aquela atitude impensada apenas o deixava a par do quanto a irmã ficava alienada, presa naquela enorme casa, ignorante do que acontecia do lado de fora. Provavelmente nem lia o jornal, e o jornal nem relatava tudo realmente naqueles dias.

—Muito bem, como era o nome do seu primeiro pufoso? –A mais velha cruzou os braços enquanto esperava a resposta.

—Patroclus. –Marcus respondeu alegremente, voltando a andar. Marilyn, descalça, não deu mais nenhum passo para fora da área de mármore na entrada. A grama estava um pouco seca por causa do verão, mas logo voltaria a ser verde e macia de novo, ela sabia. –Não foi tão difícil, foi?

A mais velha descruzou o braço e os abriu para receber o irmão em seu peito quando ele se aproximou, passando as mãos pelos cabelos louros macios do jeito que fazia quando ele era um bebê quase careca.

—Você parece bem. –Ele voltou a falar quando se afastou, analisando-a. Marilyn de repente estava consciente de que não devia parecer bem: estava descalça, com um vestido branco de algodão e não havia penteado seus próprios cabelos louros quando acordara naquela manhã. Porém, sua sogra não parava de repetir que a gravidez a fazia bem, então talvez fosse aquilo.

—Você parece cansado. –Comentou de volta.

Era verdade. Agora que o via de perto, haviam meias-luas cinzentas na pele fina abaixo de seus olhos azuis e suas pálpebras pareciam cansadas. Marcus bufou, mas não negou. Ele tirou o casaco de viagem na porta de casa quando a seguiu para dentro da mansão. Marilyn invocou um dos elfos, uma elfa jovem que provavelmente ficaria na família ainda por muitos anos, e pediu que guardasse o casaco e preparasse café.

A elfa se encolheu.

—A Sra. Bloxam está na cozinha fazendo isso agora, Sra. Bloxam, mas Wendy pode dizer a ela que a Sra....

—Não. –Marilyn a interrompeu. –Tudo bem. Está dispensada.

A mais nova dona da casa fez um gesto para que o irmão mais novo a seguisse para a cozinha, enchendo-o de perguntas no trajeto: “Onde está Marlene? Por que não veio? Ela ainda está com aquele Black? Uma moto voadora? Espero que Marlene tenha o bom senso de não a usar. Você não pode estar falando sério, Marcus, quer apenas me preocupar; Marlene não faria isso com aquele pequeno irresponsável. Onde está seu amigo Gilderoy? Certo, certo, me desculpe, seu namorado. É mesmo? Bom para ele.”, então finalmente os irmãos alcançaram a enorme cozinha dos Bloxam, cheia de armários de madeira e com uma ilha no meio, e banquinhos altos já ocupados pelos seus sogros.

Os dois Bloxams presentes ficaram claramente aliviados com a presença de seu irmão; Marilyn sabia que não estava tornando fácil a tarefa que Alastair os deixara de distraí-la e fazê-la companhia. A visita de seu irmão era uma mudança bem-vinda na rotina, e ele trazia novidades do mundo exterior, que parecia quase um mundo à parte da vida dela; uma fantasia distópica terrível, mas que não poderia atingi-la.

Depois de um chá, que foi levado à varanda do lado de fora da sala de estar, onde o vento de verão batia em seus cabelos, especialmente após Marilyn ter subido e se vestido mais decentemente, os seus sogros a deixaram a sós com seu irmão por um segundo. Marilyn já havia ido se sentar ao lado dele, arrastando sua cadeira e colocando uma cabeça no ombro do mais novo, onde ela se encaixava perfeitamente, como se houvesse cavado um espaço para si mesma nos braços do irmão ao longo dos anos.

—Me diga o que está acontecendo. –Marilyn pediu, finalmente, com mais seriedade.

Já haviam discutido o novo trabalho de seu irmão no St. Mungos e ela havia descrito para ele o trabalho de parto de um de seu primeiro cavalo alado tipo abraxano apenas na semana anterior. Marcus havia falado que seus pais estavam bem, e não vinham saindo de casa por causa da guerra; e que Marlene vinha passando seu tempo com o namorado e uns amigos grifinórios. Então ele chegou ao assunto que parecia querer tratar.

—Imagino que você tenha ouvido falar na Ordem da Fênix? –Marcus pousou a xícara de chá no pires com um estalo.

Marilyn se moveu desconfortável na cadeira, achando o vento da varanda de repente um pouco frio.

—É um tipo de... resistência? –A garota usou a palavra experimentalmente. –Uma coisa de grifinórios, eu soube?

Aqui ela sorriu, provocante. Sendo a única corvina em uma casa cheia de grifinórios; e pior, uma corvina que era melhor amiga de uma sonserina e casara com um sonserino, era fácil se ressentir da Casa vermelha e dourada.

—Não, somos democráticos com as Casas. –Ele respondeu, embora ela pudesse ver que era mentira. Mas aquela não era a questão. A questão era o pronome que ele havia escolhido usar.

—Você não fez isso. –Marilyn tirou a cabeça do ombro dele para olhar nos olhos azuis do irmão.

Durante toda a vida, não havia quem não se impressionasse com o quanto os irmãos Mckinnon eram parecidos. Um gene único diretamente passado para eles; os olhos no mesmo formato e tom, os rostos ovais simétricos, as bocas cheias e os cabelos finos e louros. Mesmo naquele momento, Marilyn ficava impressionada de olhar nos olhos do irmão e ver a si mesma.

—Marlene também fez.

Aquilo era pior. Sua irmãzinha caçula, é claro que ela o faria. Grifinória até o fim, e desde o momento em que nascera, abrira seus pequenos olhos azuis e começara um berreiro que Marilyn pode ouvir do quarto onde estava, lá em cima, na casa da família.

—Você a levou consigo? –Ela não conseguia deixar que a acusação colorisse sua voz.

—Não. –Marcus suspirou. –Não fui a favor da entrada dela, se quer saber. Mas Sirius Black, James Potter e Lílian Evans também entraram, então o que acha que ela faria?

Marilyn se lembrava do dia em que Marlene fora selecionada para a Grifinória. A mais velha era uma sextanista à época, e estava mais preocupada em escrever uma carta para Alastair, que se formara no ano anterior, do que em prestar atenção à seleção que se desenrolava no centro do salão. Ainda assim, quando “Black, Sirius” foi chamado, Marilyn prestou atenção. Ele era primo tanto de Alastair quanto de sua melhor amiga, Narcisa. Como os primos, ele deveria ser um Sonserino. Exceto que não foi.

Se ele houvesse sido, Marilyn estaria feliz com o relacionamento dele com Marlene. Seriam um quarteto: Marlene, ela, Sirius e Alastair. Mas Sirius era um grifinório, e Marlene era uma grifinória, e não deveria significar nada, mas eles estavam em guerra e, no fundo, era uma guerra entre Casas.

—Você devia ter impedido. –A voz de Marilyn agora era agressiva. –Qual o ponto de estar na organização se não tem nenhum poder dentro dela. Que dissesse a Dumbledore para não deixar!

Marcus não ficou na defensiva.

—Nós precisamos de todo mundo, você não faz ideia. –Sua voz dura era pior do que raiva. –O lado das trevas tem números! Você-Sabe-Quem tem bruxos, criaturas! Gigantes, dementadores, inferius, além dos Comensais. Sabe quem eu encontrei, aliás, semana passada numa batalha em Godric’s Hollow? O marido de sua amiga Narcisa. Lucius! Ele e Bellatrix quase arrancaram a cabeça de Emmeline fora!

Marilyn hesitou, com a sensação de que dera um passo em falso.

—Emmeline faz parte? –Perguntou. –Minha amiga?

—Sua melhor amiga, sim. –A voz de Marcos ficou mais gentil. –Achei que sabia. Que constrangedor seria para Lucius explicar a Narcisa que matara uma de suas amigas mais próximas.

Os olhos de Marilyn marejaram perigosamente, mas isso não era o suficiente para fazer Marcus parar, nunca fora desde que eles eram crianças.

—Chega disso.

Astérope entrara na cozinha sem que Marilyn percebesse, e pelo sobressalto de Marcus, ele não havia a notado tampouco. Ela carregava uma bandeja com chá em suas mãos firmes e se posicionou ao lado da nora.

—Honestamente, Marcus, essa conversa não fará bem algum ao bebê. –Disse a senhora altivamente. O outro, que parecia haver esquecido a gravidez da irmã, teve a decência de parecer envergonhado. –É muita irresponsabilidade sua deixar uma meninota de dezenove anos lutar numa guerra, especialmente sendo ela sua irmã. Não interessa se meu sobrinho a influência ou não. Eu sempre disse a Walburga que aquele garoto seria problema.

—Sirius é um rapaz decente e de princípios, não um problema. –Marcus interferiu.

Astérope fez como se não o ouvisse.

—Tom não vai parar até vencer, se querem saber. –Ela suspirou. –Ele sempre foi assim.

Houve um silêncio longo, os irmãos esperando que a senhora continuasse e ela colocando chá em três xícaras como se tivesse encerrado a conversa.

—Quem é Tom? –Marilyn perguntou, finalmente, depois de trocar um olhar com Marcus.

A Sra. Bloxam fez um gesto de impaciência.

—Tom! Tom Riddle. Vocês o chamam de Você-Sabe-Quem como se fosse grande coisa. –Ao perceber o olhar surpreso dos outros dois, ela suspirou longamente. –Estudamos juntos. Ele me ofendeu uma vez. –Ela fez uma pausa, se lembrando. –Nunca contei a Hector; ele teria matado o Riddle. Talvez houvesse sido melhor.

Os irmãos trocaram apenas mais um olhar, para ter certeza de que ambos estavam ouvindo a mesma coisa.

—A senhora estudou com ele? –Foi Marilyn quem perguntou. –Como ele era?

Sua sogra fez um olhar, como se ela fosse boba.

—Nada como hoje, e exatamente como hoje. –Foi sua resposta, mas teve de continuar ao ver as expressões insistentes dos dois jovens na cozinha. –Ele era bonito, charmosos, inteligente. Manipulador, arrogante, perigoso. Ele não precisava ameaçar ninguém para convencê-los. Bastava conversar um pouco. Os professores o adoravam, exceto, é claro, Dumbledore. A Sonserina inteira o venerava, exceto, talvez, Hector. A Corvinal o invejava, a Grifinória... já o temia, na época. Eu achava se tratar de inveja, mas deviam saber o que estava por vir.

—Você o admirava? –Marcus perguntou, com curiosidade.

Astérope olhou brevemente à porta, mas não havia sinal de Hector.

—Não. –Respondeu. –Eu era apaixonada por ele. –Antes que os irmãos pudessem soltar exclamações exageradas, ela continuou. –Ele acabou me mostrando quem realmente era antes que eu fizesse alguma bobagem, ainda bem.

—Acha que ele vai ganhar? –Foi Marilyn quem perguntou agora.

Ela olhou para o chão, e pareceu voltar no tempo ao fazê-lo.

—Acho que vocês farão de tudo para impedir. –Agora ela estava se dirigindo a Marcus. –É nobre, mas é inútil também. Tom só pode ser derrotado por ele mesmo. Traído pela própria arrogância.

O olhar de Astérope dizia que era menos uma impressão do que uma esperança.

Alastair ficaria furioso se soubesse que ela havia saído de casa sem avisar a ninguém. Deixara Cordélia dormindo em seu berço, com Astérope e Hector em casa. Já faziam dois anos que Marilyn não saia do chateau e ficou surpresa, ao aparatar, que o ar pudesse ter outro cheiro de não de sal.

Upper Flagley era um dos últimos vilarejos totalmente bruxos da Grã-Bretanha. Marilyn ficou surpresa ao notar que não era o mesmo desde a última vez que ela ali estivera. Não havia uma única pessoa na rua, onde um dia crianças brincavam com suas vassouras infantis. Marilyn aparatara numa das ruas principais, pois não tinha de se preocupar com os trouxas. Cinco lojas em seu campo de visão estavam fechadas; dois apotecários, uma livraria, duas lojas de utensílios mágicos.

Dessas cinco, três tinham as vidraças quebradas e o interior revirado.

Mas era mais que isso; havia um peso no ar, uma densidade, um gosto metálico na ponta de sua língua, que descia amargo pela garganta, como bile.

Medo.

Ocorreu a Marilyn que ela queria estar de volta em casa, com seu bebê cabeludo dormindo em cima de seu peito, um peso agora tão familiar que ela podia imaginá-lo com clareza. Mas não. Ela era uma mulher com um objetivo.

Por precaução, tirou a varinha do bolso da capa. Então, pôs-se a andar na direção do fim da rua.

Apenas mais perto, ela notou que havia uma concentração de pessoas ali. Como ela, todos de capa e varinha na mão. Era, porém, um grupo pequeno. Não havia mais do que quinze sujeitos, e todos se viraram para ela ao vê-la andando no meio da rua, os saltos fazendo um barulho seco.

Marilyn já havia visitado o cemitério de Upper Flagley antes.

De todas as figuras ali presentes, àquela distância era fácil apenas reconhecer Lily Evans, com seu cabelo flamejante, escoltada por dois rapazes altos. Uma vez que ela foi encontrada, foi fácil treinar seu olhar a procurar por sua irmã.

A ex-corvina também baixou o seu próprio capuz, antes que fosse confundida com um inimigo. Assim que fez isso, Marlene se destacou da multidão, seguida de perto por Marcus. A própria Marilyn já estava de braços abertos para recebe-la quando ela parou de supetão.

Fazia tempo agora que Marilyn não via a irmã. A Marlene de vinte anos tinha ares de mulher; o cabelo longo de sempre, os olhos azuis. Uma maturidade que não havia estado ali antes. A sua irmã caçula tinha visto o mundo, percebeu, e ele a marcara à fogo e ferro.

—Que animal você colocou em meu armário quando roubei seu perfume aos dez anos? –Perguntou, toda seriedade.

Os olhos da caçula estavam firmes sob a pele vermelha das pálpebras. Ela devia ter passado a noite chorando.

—Foi um cinzal. –Marilyn respondeu. –Papai ficou furioso porque teve de chamar o Departamento de Regulação e Controle das Criaturas Mágicas para resolver o problema.

—Ele ficou furioso porque você podia ter resolvido sozinha e não o fez. –Marlene sorriu, mas não era nada como o seu antigo sorriso. –Dorcas Meadowes foi assassinada. Não achei que você viria ao funeral.

—Ela era uma de suas melhores amigas. –Respondeu. Então olhou por cima do ombro da caçula para Marcus Mckinnon. Ele não a visitava já há dois anos. Ele mudara também. Marilyn se perguntou se ela parecia a mesma para eles. –Obrigada pela pelúcia. Cordélia amou.

A pelúcia era um bichinho fofo de mentira em formato de hippogrifo, grande o suficiente para que o bebê de um ano e meio se sentasse em cima.

—Faça com que ela se lembre que quem deu o melhor presente foi o tio Marcus. –Disse ele.

Algo apertou as entranhas de Marilyn.

—Faça você com que ela se lembre. –Respondeu com mais leveza do que realmente sentia. –Bem, o funeral?

O trio de irmãos voltou na direção do grupo maior.

—Aparate a qualquer sinal de perigo. –Disse Marlene em seu ouvido conforme eles andavam. Sua irmã caçula soava como uma soldada. –Fique perto de mim e de Marcus.

O irmão andava um pouco na frente.

—Onde está Gilderoy?

Marlene respondeu apenas com um revirar de olhos.

—Covarde. –Cuspiu brevemente.

O trio se alojou diante de uma cova que já havia sido fechada, a terra recentemente revirada. Do outro lado do grupo, os olhos de Marilyn cruzaram com um par de olhos familiares demais: Emmeline Vance fez uma expressão para ela que não era um sorriso, mas indicava que estava feliz em vê-la, mesmo sob as circunstâncias.

Havia uma foto de Dorcas, os cabelos cacheados cor de chocolate, o sorriso aberto. Os olhos castanhos riam para a câmera, depois viravam e sorriam para alguém ao seu lado. A foto não deixava claro quem era, mas qualquer um que a conhecesse brevemente sabia se tratar de Remus Lupin, que estava parado soturnamente ao lado de Sirius Black, com uma roupa formal que já vira dias melhores e o rosto exibindo um corte de um canto a outro. Talvez relíquia da mesma batalha que levara sua amada.

Lily Evans se destacou da multidão, olhando cuidadosamente para os lados, e se postou de frente para a cova. Ela tinha papéis nas mãos, mas guardou-os.

—Dorcas Meadowes é a responsável por nos comunicarmos por patronos. Dela partiu a ideia, pois essa era Dorcas; inventiva, criativa, cheia de ideias. Ideias sobre um mundo melhor que este. Em momentos assim, eu não me sinto inspirada a lutar pelo mundo que ela acreditava. Eu sinto que este mundo perdeu algo essencial, e que talvez não valha mais a pena lutar por ele. Enterramos Dorcas hoje, mas esse momento, que deveria ser dela, é apenas povoado com pensamentos de quem de nós será o próximo. É por isso que não paramos. Porque algumas das melhores pessoas que eu conheço estão aqui reunidas hoje, e um mundo sem elas não é um mundo pelo qual valha a pena lutar.

Não houveram aplausos quando ela terminou. Era apenas seriedade. Ninguém chorava; talvez estivessem todos endurecidos demais para chorar agora. Sirius Black recebeu Lily de volta no grupo com uma palminha no ombro, e James Potter limpou uma lágrima teimosa antes que descesse pela bochecha da garota.

Marlene segurou sua mão e estava a levando de volta para a rua quando as duas foram paradas por um homem que Marilyn quase não identificou.

Alastor Moody não deixou passar o seu olhar horrorizado.

—Ah, meu nariz? Nada demais. Colocou Rosier em Azkaban, se quer saber. –Disse, sem cumprimenta-la. –Então você é uma Bloxam agora.

Alastor era um velho amigo de seu pai. Os dois haviam estado em Hogwarts juntos, uma cena que Marilyn não conseguia imaginar. Vê-lo novamente era como se sentir uma criança, tentando ficar na sala e ouvir a conversa dos adultos, mas sendo vencida pelo sono e carregada para o quarto nos braços de seu pai. Havia tempo demais.

—Sim, senhor. –Respondeu, por hábito. Ele era intimidante antes, mas agora era positivamente assustador.

—Seu marido e o irmão dele estão escondidos pois recusaram os comensais, eu soube. –Continuou.

—Eles não são aurores. –Disse Marilyn rapidamente. –Não querem lutar. De lado algum.

Alastor resmungou.

—Às vezes é preciso lutar pelo direito de não lutar. –Parecia uma lição de moral, então Marilyn se calou. –Não é o momento de se acovardar, a história vai se lembrar dos covardes tanto quanto dos algozes.

Marilyn pensou sobre isso.

—Não me preocupo com a história. –Disse lentamente. –Quero que meu marido chegue em casa para me ajudar com meu bebê. Isso é tudo.

Decepção estampou o rosto de Moody, mas ela não queria impressioná-lo.

Marlene levantou as sobrancelhas para ela conforme o outro foi se afastando, e Marcus se juntou às irmãs com Emmeline em sua cola. Elas haviam sido melhores amigas desde o momento em que foram postas juntas na mesma Casa em Hogwarts, mas Marilyn conhecia Narcisa há mais tempo.

—Você tem falado com ela? –Emmeline perguntou, sem precisar usar nomes.

Agora Marilyn estava na defensiva.

—Ela não faz parte. –Se apressou em dizer. –Lucius...

—Eu sei o que Lucius tem feito. –Garantiu Emmeline, apontando para um corte que ia do canto de sua sobrancelha até o lóbulo da orelha. –Lucius, Rebastan, até mesmo Bartô.

—Bartô estudou conosco. –Marilyn sorriu incerta. –O pai dele está prendendo todo tipo de comensal, deu aval para matar...

—É decididamente Bartô. –Sirius Black interrompeu, se metendo entre eles. Ele tinha presença, com seu corpo alto, suas roupas escuras. Colocou um braço protetoramente ao redor de Marlene, que, em contraste, era toda clara. –Regulus me confirmou. Acidentalmente, claro, ele estava apenas tentando se exibir. –Olhou para todos lentamente, e quando olhou para Marilyn, ela sentiu aqueles olhos cinza pesados. –Não devemos nos demorar, é perigoso.

Marlene assentiu, mas antes que dissesse qualquer coisa, Marilyn a interrompeu:

—Visite Cordélia. –Pediu. A mão de sua irmã era fria quando a segurou.

—Eu vou. –Marlene mentiu, e Marilyn sabia que era mentira. –Alguém precisa ensiná-la a usar aquele bastão de batedor que a dei no natal.

Quando deixou a mão de Marlene ir para aparatar, sentiu que era um mau presságio.

Cheryl Shafic –a ser Bloxam –era mais uma aliada do que uma amiga propriamente dita. A garota da Sonserina era dois anos mais velha que Marilyn, tendo a mesma idade que Alastair e Arcturo, os gêmeos Bloxam. Elas estavam juntas quando precisavam demarcar território contra Astérope, e apoiavam uma à outra quando os respectivos marido e noivo estavam sendo difíceis, mas não era a primeira pessoa para quem Marilyn ligaria numa emergência.

Astérope podia até ser difícil com Marilyn, mas era bastante claro que efetivamente desgostava de Cheryl.

—Depois do casamento ela deixou o Ministério. –Cheryl respondeu à pergunta de Hector sobre sua irmã mais velha. –Está pensando em ter filhos agora.

—Imagino que você vá seguir o mesmo caminho? –Astérope perguntou venenosamente.

Cheryl e Arcturo vinham adiando o casamento desde o começo da guerra; ninguém estava em clima de celebrar, ainda mais agora que os dois jovens Bloxam estavam praticamente escondidos dos comensais. A noiva trabalhava no Gringott’s como Arcturo, mas dificilmente tinha um papel tão proeminente e Astérope nunca deixava de lembra-la disso.

Como o trabalho de Marilyn era dentro de casa, como magizoologista, cuidando dos animais na propriedade para vende-los ou preservá-los, a sogra nunca dizia nada a este respeito, a não ser que fosse para elogiá-la.

Cordélia, sentada numa cadeirinha alta para poder fazer parte do jantar, empurrou o prato para longe com seriedade.

—Você sabe que não gosto de cenouras. –Disse firmemente. Cordélia demorara a falar, mas quando finalmente disse as primeiras palavras, não eram palavras de bebê. Seus olhos verdes e redondos eram muito sérios para a idade. –Onde está a minha outra avó?

Marilyn olhou para o outro lado, na direção de Alastair, para evitar que Cordélia a visse sorrindo. A menina pronunciou “outra” de forma bastante lenta, pois ainda tinha dificuldades com a letra r.

Cheryl, ansiosa, levantou-se da mesa.

—Vou chama-los pela lareira. –E saiu rapidamente da sala, antes que qualquer um pudesse protestar.

Assim que ela saiu da sala, soou o alarme de intruso. Era o som de um agoureiro pela casa inteira, toda vez que alguém sem permissão aparatava. Arcturo e Alastair se levantaram de rompante, e Hector foi logo atrás. Haviam três Bloxams para defender a residência. Astérope e Marilyn se jogaram para a janela para observara a figura: um homem de cabelos negros e uma casaca.

Marilyn apertou os olhos, tentando reconhece-lo, mas Astérope não precisou disso.

—Ele se parece com minha irmã. –Disse especulativa. Olhou para a Nora, percebendo que ainda não sabia de quem se tratava. –É Sirius Black.

Ela voou pelas escadas, correndo para a entrada, onde Sirius estava sendo recebido pelos primos. Alastair e Arcturo eram mais velhos, mais suaves. Cabelos castanhos ao invés de pretos. Olhos verdes e não negros. Não eram garotos Black, exceto por algo em seus maxilares e no modo como se portavam; pequenos reis em seus castelos.

Sirius não estava altivo, frio, controlado, intimidante como geralmente era. Haviam dois caminhos de lágrimas, um de cada lado de seu rosto, descendo pelas bochechas. Ele parecia alguém cujo chão havia sido arrancado de debaixo de seus pés, então sido jogado em sua cara. Quando ele abriu a boca para falar, Marilyn já estava no chão, tendo adivinhado o que viria.

O garoto Black olhou para ela, enquanto Alastair a amparava, ajoelhado ao seu lado, como se também soubesse.

—Todos os Mckinnon estão mortos. –Disse ele, a voz estrangulada. Com uma mão, ele segurava um anel prateado de noivado no dedo anelar. –Foi esta noite. Chegamos tarde. A casa foi invadida. Os jornais ainda não estão sabendo. Talvez não publiquem nada, então eu pensei...

Sirius não parecia estar pensando em coisa alguma, os olhos vagando entre Marilyn e o espaço atrás dela. Parecia doloroso.

Arcturo colocou uma mão no ombro de Sirius, e o convidou a entrar. O garoto não pareceu ouvir. Apenas quando Astérope passou pelas portas ele conseguiu focar em alguém.

—Você parece com minha mãe. –Disse debilmente. Astérope carregava Cordélia nos braços.

—Você também. –Ela respondeu com firmeza. –Entre. Você precisa de algo forte e quente. Uma poção para dormir, talvez?

Ao dizer isso, ela olhou significativamente para Alastair. Marilyn achava que não conseguia sentir os membros, nem o coração, nem ouvir os próprios pensamentos. Tudo que ela conseguia perceber eram as coisas que ocorriam fora dela.

Ela se quer percebeu que disse isso em voz alta.

—Você logo vai sentir. –Garantiu Astérope, mas foi um aviso.

Alastair praticamente a carregou para dentro, e não a deixou nem por um segundo, relegando à mãe a tarefa de fazer a poção, embora ele fosse melhor nisso. Marilyn mais tarde não se lembraria de ter bebido nada. Apenas do fogo aceso na lareira, da dor silenciosa de Sirius, mesmo depois que ele adormeceu no sofá e foi levado por Hector para o andar de cima. Ela pensou que ele deveria mesmo sofrer, já que ela não conseguia. Alguém tinha que sofrer pelos Mckinnon quando ela havia desistido de ser uma.

Antes que ela dormisse, alguém colocou Cordélia em seus braços, adormecida. Tinha os braços rechonchudos de bebê; ela se lembrava de quando Marlene tinha aquele tamanho. As covinhas de Cordélia eram como as da tia. Marilyn não se lembrava de ela ter crescido, e jamais imaginara que a perderia tão cedo.

Teria sido ela igualmente se estivesse estado na Residência McKinnon.

Era mais difícil lidar com as consequências de suas ações; havia sido ela a abandoná-los. Deixara de visitar seus pais quando os irmãos entraram para a Ordem, dessa forma ela mesma não se tornava um alvo. Havia estado grávida à época e parecera uma desculpa boa o suficiente, mas agora já não tinha assim tanta certeza.

Pensou, antes de cair no sono, que se Cordélia tivesse uma irmã, não seriam como ela e Marlene.

Notas finais
Desculpem se a árvore genealógica tem ficado confusa com todos esses novos personagens. Respondo perguntas a esse respeito! Obrigada pela leitura! Não esqueça de deixar um comentário para fazer uma escritora feliz!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!