Courage
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Rachel
Durantes os dias deitada ao leito do hospital, recebi remédios, comida e água, além de ter a alegria da companhia de Finn. Ele saía cedo da faculdade e ficava comigo até chegar a hora de ir ao trabalho no restaurante. D. Clotilde e o senhor Tony não apareciam, mas a senhora Walters vinha de vez em quando, geralmente no período da manhã, e levava consigo as aventuras que passara durante a infância no interior do Mississippi, estado em que também vivi. Ela era uma senhora muito amorosa e gostava de acariciar o meu cabelo enquanto falava. Às vezes eu adormecia com o doce som de sua voz.
Mas o que eu mais gostava eram as horas em que Finn ficava ao meu lado. Ele era um bom rapaz e assim como a senhora Walters, gostava de conversar comigo. Finn tinha apenas 19 anos, mas mantinha visões maduras a respeito da vida. Vinha de uma família pobre de Ohio e perdeu o irmão mais novo aos quinze anos em um terrível atropelamento. Começara a trabalhar ainda adolescente para ajudar a sustentar a família e devido ao sucesso que adquiriu nos estudos, conseguiu uma bolsa para estudar teatro na NYU. Admirei-o bastante por isso.
–Gostaria que falasse um pouco sobre você. – ele disse certo dia, enquanto me ajudava a comer o lanche terrível do hospital. –Você fica aí me ouvindo, mas nunca diz nada. Não sei quase nada a respeito de você. Só que se chama Rachel Berry e veio de Jackson.
–O que precisa saber mais?
–Não sei. Talvez a sua idade. Quantos anos têm?
–Tenho 22.
–E como adquiriu essa cicatriz? – ele passou os dedos em meu braço, traçando um caminho na minha enorme cicatriz.
Não quis contar a ele a verdade. Não quis contar que adquiri essa cicatriz porque o homem que achei que me amava me atingiu com um castiçal durante um acesso de fúria. Não quis contar a Finn sobre a noite em que quase morri. Não quis contar a ele sobre os meus medos ou sobre a minha tão vergonhosa fraqueza. Finn era um rapaz tão corajoso, tão confiante de si. O que ele iria achar de uma pessoa que se deixara um dia submeter a tanta maldade?
Fechei os olhos quando menti a ele:
–Eu era pequena e o cachorro da vizinha me atacou. Foram quase cinquenta pontos.
–Caramba. – ele disse. Ficou um tempo em silêncio, examinando a cicatriz, e então voltou a falar: — Rachel, você se importa se eu perguntar sobre a sua mãe?
–Não. O que gostaria de saber sobre ela?
–Como ela era?
–Ela era linda, Finn. Seu nome era Shelby. E era uma daquelas pessoas especiais, sabe? Não se contentava só com o que via, queria alcançar a alma de todo mundo. E conseguia.
–Entendo. Meu irmão Kurt também era assim. – ele disse, esboçando um sorriso triste. – Como ela morreu, Rachel?
–Éramos apenas nós duas. Só eu e mamãe. Sempre foi assim. – eu falei de cabeça baixa e senti-o tocar em minha mão. – Nossa vida sempre foi difícil, mas piorou quando completei seis anos. Acabamos indo morar em um albergue horrível. Era úmido e sujo, mas também o único que o dinheiro cobria. Mamãe acabou ficando doente. E depois de meses de sofrimento, ela partiu. Sorrindo.
Vi quando os olhos de Finn se encheram de lágrimas.
–Sinto muito que tenha passado por isso. O que aconteceu com você depois? – ele perguntou, ainda tocando em minha mão.
–O dono do albergue cuidou de mim. – eu respondi grata pela a enfermeira ter entrado no quarto e impedido que eu continuasse a história. Mesmo assim, eu não teria contado toda a verdade a Finn.
–Ora veja só. – a enfermeira Nancy disse quando viu o prato vazio da refeição. Mal sabia ela que Finn comeu a maior parte da comida. – Comeu tudo dessa vez? Já é um grande passo. Mais tarde o Dr. Michael vem consulta-la.
Quando a enfermeira saiu do quarto levando a bandeja da refeição, Finn disse:
–Talvez eu devesse parar de comer a sua comida. Você precisa ganhar peso para sair daqui de uma vez.
–Não se preocupa com isso. Eles me dão de comer seis vezes ao dia. Dá pra acreditar?
Finn sorriu e olhou para o relógio no pulso. A hora para ir ao trabalho havia chegado.
–Gostaria de ficar mais tempo com você, mas tenho que ir para o restaurante.
–Tudo bem.
Ele se levantou da cadeira ao lado do leito e beijou-me na testa.
–Você vem amanhã?
–É claro que sim. Até mais, Rachel.
Finn apareceu no dia seguinte um pouco mais tarde que o usual. Disse que poderia ficar até o final do horário de visitas, pois havia conseguido folga do trabalho. Não conversamos mais sobre o passado. Pedi que contasse sobre a faculdade e as cadeiras que cursava, e ele me falou tudo com os olhos brilhando.
–Quem sabe um dia você assista uma das aulas comigo. Você pode ser ouvinte. – ele sorriu ansioso com a ideia. — Você estuda?
–Não terminei o colégio. Então não fiz faculdade.
–Entendo. Eu não faria uma faculdade se não tivesse conseguido uma bolsa. Mas o que você gostaria de ter estudado?
–Eu não sei.
Ele franziu a testa.
–Não sabe?
–Não.
–Mas você deve gostar de fazer alguma coisa, não é? Pense em algo que você gostaria de estar fazendo, daqui a alguns anos.
Pensei um pouco, mas não consegui dizer nada a ele. Nos últimos anos, ser livre era a minha única ambição. E agora que havia conseguido, não sabia mais o que gostaria de ser.
–Acho que nada.
Fiquei calada. Finn soltou um suspiro e então disse:
–Temos que descobrir o seu dom. Quem sabe você não assiste a algumas aulas comigo e encontre o seu caminho no teatro? Você pode não cursar a faculdade, mas pode tomar gosto para fazer peças na cidade.
–Preciso conseguir um emprego primeiro antes de pensar nisso, Finn.
–Sim, com certeza.
–Mas acho que não levo jeito para o teatro.
–Você já tentou atuar alguma vez?
–Não.
–Então como sabe que não é boa?
Dei de ombros.
–Às vezes, Rachel, os melhores atores são os que não tiveram treinamento algum.
–Então por que está na faculdade?
–Porque ela vai me dar mais oportunidades de trabalho do que se eu não estivesse cursando uma.
Aquela conversa já estava me irritando. Eu não queria fazer teatro e também não queria fazer parte de uma coisa que não era para mim. Naquela época, eu achava que eu era boa apenas em ser a mártir.
Finn me examinou por algum tempo, sem dizer nada, mas vi que me olhava com carinho. A última vez que alguém olhara para mim daquele jeito foi há 16 anos e havia sido mamãe.
–Rachel, acho que você é boa em muitas coisas. Mas ainda não sabe disso.
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Saí do hospital após longos dias de internação, em uma manhã quente de sábado. Consegui atingir um peso saudável e não parecia mais um cabo de vassoura, como a D. Clotilde havia dito. Também me recuperei da constipação e estava forte o suficiente para procurar um emprego.
Finn veio me buscar no hospital e dividiu um táxi comigo até a pensão em que morávamos. D. Clotilde e o resto dos pensionistas haviam feito um almoço em comemoração à minha alta médica e comecei a chorar assim que vi.
Depois do almoço, saí em busca de um emprego. Depois de horas procurando algum restaurante com alguma vaga de garçonete aberta, achei um pequeno café irlandês que precisava de um funcionário. O dono do local me contratou assim que eu disse que tinha experiência em servir mesas e também na cozinha. Eu começaria a trabalhar na segunda-feira, das sete da manhã até às cinco da tarde, e o que eu receberia era o suficiente para o pagamento da pensão e também de algumas roupas e objetos de decoração para o meu quarto.
No caminho para a pensão, fui para o restaurante em que Finn trabalhava. Ele estava lá, servindo algumas mesas, com uma expressão de cansaço. Acenei para ele assim que adentrei o local e Finn foi até a mim com um sorriso no rosto.
–Pelo tamanho do seu sorriso já sei que conseguiu um emprego. – ele disse. Fiz que sim, tão animada quanto Finn. – Precisamos sair hoje para comemorar. Termino o meu turno daqui à uma hora. Se quiser esperar.
–Sim. – sorri, sentando-me a uma mesa. Ele acabou com o serviço antes mesmo de uma hora e fomos passear por Nova York. Finn disse que nunca havia ido ao Central Park, mesmo morando em Nova York há alguns meses, e como eu também não tinha ido acabamos passando por lá.
–Nova York é maravilhosa, não é? – Finn falou, enquanto andávamos entre as árvores do parque. Seus olhos refletiam todos os seus sonhos e seu sorriso ia de orelha a orelha. – Há tanta coisa que eu gostaria de fazer aqui. Ser um ator bem-sucedido, participar de um grande musical... ser feliz.
–Não tenho dúvidas de que vai conseguir fazer tudo isso, Finn.
–Obrigada, Rachel. Às vezes acho que nada vai dar certo. Mas depois eu lembro que não vai acontecer nada mesmo se eu não confiar em mim.
–Com certeza.
Ele me olhou.
–Rachel, o que aconteceu com você antes de aparecer na pensão?
–Como assim? – eu perguntei, sabendo que ele se referia às marcas de agressão que meu rosto ainda carregava.
–Esses cortes. Na boca e na sobrancelha.
–Ah, sim. – eu disse, antes de resolver contar a verdade a ele. — Um homem me atacou em uma noite que passei no abrigo. Se eu não tivesse conseguido ficar na pensão de Clotilde, eu iria ser obrigada a dormir lá de novo ou na rua.
–Rachel, que coisa horrível. Ainda bem que não aconteceu nada mais grave.
–Sim. – sussurrei.
–Gostaria que contasse mais sobre você. – ele falou depois de um tempo. – Não me falou o que aconteceu com você depois que sua mãe morreu.
–Sim, eu falei. O dono do albergue cuidou de mim.
–Mas como foi sua vida com ele? Ele cuidava bem de você? Ele era bom para você?
Cruzei os braços enquanto decidia se deveria ou não abrir o coração para Finn. Ele era um rapaz tão bom e sincero, mas eu o conhecia há tão pouco tempo. Após alguns segundos, algo dentro de mim resolveu que era a coisa certa falar tudo para ele.
–Ele era bom comigo até Margot aparecer.
–Margot?
–Sim. – eu sussurrei, sentando-me em um banco ao lado de Finn. – O tio Thomas, o dono do albergue, cuidou bem de mim depois que mamãe partiu. Ele me fez ir à escola, cuidava de mim quando eu ficava doente e até lia histórias para mim antes de dormir. Mas quando eu tinha catorze anos, ele se casou com a Margot, uma senhora que veio da França. Ela era muito cruel e me odiava. Também sentia muito ciúmes de mim. Achava que eu tentava seduzir o tio Thomas e roubá-lo dela. Mas na verdade eu só queria ter o meu pai de volta. Entende?
–Sim. – ele assentiu tristemente.
–Tio Thomas mudou depois de um tempo, principalmente quando Margot deu a luz ao primeiro filho deles. Eu não existia mais para ninguém, a não ser quando pediam para cozinhar as refeições do albergue ou servir os clientes. Até que certo dia, Tio Thomas disse que eu não podia mais ficar lá. Eu tinha quinze anos na época. Ele me deu um dinheiro que quase não dava para nada e fechou as portas do albergue para mim. Para sempre.
–O que aconteceu com você depois disso?
–Conheci Brody.
Suspirei, tentando não chorar. Finn segurou minha mão e sorriu triste para mim.
–Tudo bem, Rachel. Você pode me contar.
–Brody era um homem mais velho, tinha 23 anos quando o conheci. Ele era um jovem muito rico, herdou dos pais mortos uma fazenda bem- sucedida com uma área enorme para o plantio de algodão. Eu trabalhava... em um bordel quando conheci Brody. Ele costumava ser meu cliente e depois de uns anos, me tirou da prostituição e me acolheu na casa dele. Casamos depois de três anos.
Olhei para Finn, achando que veria uma expressão de choque em seu rosto. Mas ele estava calmo e seus olhos estavam cheios de compaixão por mim.
–Brody era bom com você?
–Ele era. Mas depois eu vi o outro lado do Brody ... o lado que eu não gostaria de ter conhecido. Está vendo essa cicatriz? Eu menti para você quando disse que tinha sido atacada por um cachorro. Brody fez isso em mim. Usando um castiçal, quando voltou para casa. Depois de alguns anos, finalmente consegui fugir dele. E agora estou aqui.
Fiquei calada, evitando olhar além das minhas mãos. Finn tinha os olhos cheios de lágrimas e tentou falar algo para mim, mas não conseguiu.
–Você está chorando, Finn? Está chorando por mim?
–Sim. É só que... a vida pode ser muito cruel às vezes. E você não merecia viver o que viveu. – ele falou, ainda tocando em minha mão. – Você tem medo que ele a encontre?
–Claro que sim. Todos os dias. Mas peço a Deus para que me proteja dele.
Ficamos calados por um tempo.
–Por que não jantamos? Vamos procurar algo para comer. Vai melhorar os nossos ânimos. – ele sorriu, puxando-me pela a mão. Eu soltei uma risada, de repente esquecendo-me de tudo que eu havia contado a ele. Finn me guiou até uma barraca que vendia cachorro-quente e comemos o lanche enquanto andávamos pela a Time Square.
–Isso pode ser um ritual nosso, Rachel.
–O que?
–Sei lá... como é o horário do seu trabalho?
–De segunda a sábado, das sete da manhã até às cinco da tarde.
–Então você vai ficar livre nos sábados a noite.
–Sim.
–Ótimo. Eu também. Por que a gente não faz assim? Todos os sábados, depois do trabalho, será sempre o nosso horário. Vamos assistir a algum espetáculo ou qualquer coisa que essa cidade pode oferecer. Só nos dois. O que acha?
–Seria muito legal, Finn.
Ele sorriu para mim e continuou a andar ao meu lado pela as ruas de Nova York.
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