Notas iniciais
A ideia para essa fic era escrever algo mais leve e sem muito planejamento. Essa será uma história curta, provavelmente 3 ou 4 capítulos (não tenho previsão para a postagem dos próximos).

Glossário:
1. "Nii-san": irmão mais velho
2. "Jii-san": Avô
3. Tattsuke-hakama: um tipo de calça tradicional japonesa com um formato bufante (larga nas coxas e afina próximo ao tornozelo). Elas foram criadas para imitar a vestimenta dos portugueses. Ver:https://en.wikipedia.org/wiki/Hakama
4. Jinbei: outro tipo de vestimenta tradicional japonesa, de mangas e calças curtas, utilizada no verão. Ver: https://en.wikipedia.org/wiki/Jinbei

Espero que gostem, e se possível deixem um comentário ♥

Capítulo 1: Raw

O som de uma forja em chamas preenchia o ambiente, estalando as lascas de carvão que a alimentavam e cobrindo o pequeno espaço com um calor denso que dificultava a respiração. Diversos objetos de vidro espalhados em uma estante e iluminados pelas chamas brilhavam em cores translúcidas, projetando imagens disformes na parede de madeira escura. Dois jovens de aparência similar trabalhavam no local em silêncio, um nutrindo o fogo com novas lascas de carvão, e outro analisando cuidadosamente um objeto de vidro que ele havia retirado do forno, e que estava em processo de resfriamento.

O jovem avaliou o trabalho com olhos clínicos, e por fim suspirou.

— Nada bom. Vou ter que começar de novo. —Era possível ver que uma longa trinca começava a se espalhar pela jarra em suas mãos. — Desde que o nosso velho Numel morreu, não tem sido a mesma coisa. Não estou conseguindo acertar a temperatura.

Ele suspirou, aparentando estar exausto.

— Hokuro, já chega por hoje. Vá descansar.

O menino que cuidava da forja aparentava ser o mais novo, e pelo aspecto de suas feições jovens, devia ter em torno de quinze anos de idade. Ele usava um lenço branco amarrado na cabeça, e um fio de suor escorria na lateral de seu rosto sujo de fuligem. Sua roupa era composta por luvas grossas que subiam até o fim de seu antebraço, um kimono azul-marinho de mangas longas puxadas e amarradas na altura dos cotovelos, e um tattsuke-hakama cinza escuro bastante desbotado, terminando em botas pretas de couro.

Hokuro se afastou a forja e atirou o último pedaço de carvão que estava em suas mãos em uma pilha no canto da sala.

— Está bem, nii-san.

Sem trocarem mais palavras, o garoto abriu a porta de correr e se retirou para um pequeno quintal nos fundos da casa. Lá, apanhou um balde de madeira e coletou água de um poço de pedra.

Hokuro apoiou o balde no chão e agachou. Tirando o lenço de sua cabeça e soltando seu cabelo, começou a lavar o rosto diligentemente, emitindo um breve suspiro de prazer quando a água gelada tocou sua pele e aliviou o calor que o trabalho havia causado. Quando se deu por satisfeito, ele levantou o rosto, e pequenas gotas escorreram por sua franja, seus cílios e seu queixo, enquanto ele buscava uma toalha limpa para se secar. Após terminar de se limpar, alçou novamente seu cabelo preto em um rabo de cavalo desleixado, prendendo-o com uma fita branca.

Ele deu a volta em torno da edificação que servia como local de trabalho dele e do irmão, e se aproximou da lateral de uma pequena casa que ficava logo ao lado. Abrindo um pouco a porta, murmurou para dentro:

— Jii-san, vou dar uma volta.

De dentro, a voz de um homem idoso o respondeu de algum cômodo.

— Não volte tarde.

O garoto assentiu com um breve “hm”, e apanhou uma flauta de vidro azul que estava pousada num banco de bambu em frente à casa, prendendo-a em sua cintura. Com passos leves e rápidos, partiu em direção à Fallarbor. Suas botas levantaram pequenas nuvens da fuligem vulcânica que cobriam a relva amarelada. A rota que ele percorria era repleta dessa fina cama de fuligem no solo, na grama, nas folhas das árvores e dançando pelo ar, dando uma aparência envelhecida e melancólica ao local. O irmão mais velho de Hokuro, Hideki, costumava dizer: “A única coisa mais abundante aqui do que a poeira vulcânica são os Spindas. Infinitos Spindas dançantes.

A região era pouco visitada, pois não eram muitos que conseguiam respirar o ar dali sem se sentirem asfixiados com as partículas que rodopiavam e caiam constantemente. Hokuro conhecia a rota com a palma de sua mão. Tomando o caminho mais curto, logo a paisagem no horizonte começou a se modificar para um pequeno vilarejo, com campos de plantação de arroz e pequenas cabanas de madeira com telhados cobertos de palha.

O fim da tarde se aproximava, e os trabalhadores rurais já estavam se retirando da função laboriosa e caminhando em direção às suas moradias, com seus companheiros Pokémon se arrastando ao lado. Alguns cumprimentaram o menino, e receberam leves acenos de cabeça em retorno. Hokuro respondia de forma educada mas contida, sem exibir traquejos de um temperamento jovial que melhor caberia à sua idade. Seu rosto se mantinha sereno e absorto, como se sua mente divagasse com questões que necessitavam seriedade.

Hokuro percorria sempre o mesmo caminho no fim da tarde, adentrando brevemente nos campos de arroz, e se desviando por uma trilha rochosa para evitar cruzar a parte habitada da vila. Pelo caminho irregular, ele se dirigia ao lago que se encontrava ao sul de Fallarbor, acompanhando todo o perímetro dos campos. Ao chegar à sua margem, ele buscou com os olhos por uma canoa modesta, que, como previsto, estava flutuando a uma pequena distância nas águas tranquilas.

Dentro dela estava um velho pescador. O homem vestia um chapéu de palha e carregava duas longas varas de pescas e uma grande cesta de bambu. Já acostumado a ver o jovem com frequência naquele mesmo local, abriu um sorriso animado e acenou.

— Dia bonito, não? — Disse ele de bom humor. — Quer uma carona?

— Sim senhor. — Hokuro respondeu. Aquele velho pescador era um dos poucos moradores da vila com quem o garoto costumava interagir. A canoa se aproximou da margem, e o garoto pulou de forma ágil para dentro. — Pegou algum dragão hoje?

O velho pescador soltou um resmungo gutural.

— Há! Até parece. O único dragão por aqui é aquela porcaria de Whiscash. — Ele deu alguns tapas na cesta apoiada no fundo do barco, como se indicasse que qualquer esforço à procura de algo raro seria inútil.

Havia, na região, algumas lendas sobre dragões habitarem o lago e as montanhas adiante, e sobre um clã secreto que os treinava e se escondia nas profundezas de Meteor Falls. No entanto, Hokuro vivia ali desde seu nascimento e nunca tinha visto nada, de modo que tais histórias lhe pareciam apenas fábulas para as crianças.

— Como vai o seu irmão? E o seu velho?

— Hm. Bem. — Hokuro concordou de forma lacônica.

Os dois deslizaram pelo lago, circundando a vila e evitando contato com outras pessoas. A cena seria pacífica, não fosse o longuíssimo e empolgado monólogo do pescador enquanto ele falava de forma insaciável com o garoto. Por sua vez, Hokuro se pronunciava poucas vezes, concordando com breves acenos de cabeça. Na realidade, aquele era um evento frequente. O velho gostava da companhia do jovem, considerando-o um bom ouvinte por não o interromper nem descreditar suas histórias absurdas; Hokuro gostava que o interlocutor não exigia dele respostas articuladas, e por ajudá-lo a chegar mais rápido no seu destino.

Aos poucos, conforme os dois progrediram em seu caminho, tornou-se possível ouvir o som estrondoso de uma cachoeira e sentir pequenos respingos de água límpida no rosto. Ali, nos limites de Fallarbor, se encontrava uma ponte que atravessava o lago e permitia acesso à uma estreita região verde não habitada, logo antes da rota montanhosa que precedia Meteor Falls. O velho encostou a canoa perto da ponte, e Hokuro saltou para ela de forma ágil.

— Tome cuidado, eu vi uma Seviper enorme rondando perto da estrada. — Disse o idoso enquanto se despedia.

Hokuro acenou com a cabeça novamente, e retirou uma Pokéball de seu bolso. O objeto esférico era composto por duas partes de mesmo tamanho, uma vermelha com a superfície lisa e polida, e uma de madeira clara com ranhuras naturais. As duas partes se uniam por um fino aro de metal, fechado por um botão mecânico, e no topo da superfície vermelha havia uma válvula prateada. Abrindo o botão da bola com um breve som de “click”, Hokuro liberou o Pokémon que ali estava. Um Sandshrew apareceu se espreguiçando e soltando um longo bocejo, e o garoto agachou para afagar a orelha do companheiro.

Os dois continuaram o caminho atravessando a ponte, se desviando da estrada e adentrando na grama alta que cobria a região. Um vento agradável balançava a relva e os fios de cabelo lisos do jovem. Ele respirou devagar, apreciando a sensação refrescante. Fallarbor era uma cidade bastante abafada. Por estar cercada em seus dois lados por altas formações rochosas que bloqueavam qualquer circulação de ar, nos meses da primavera e do verão a temperatura chegava a ser sufocante, combinada com a umidade constante da cachoeira e a poeira de fuligem descendo do Mt. Chimney. Mas agora, no início do outono, a sensação abafada enfim diminuía e uma agradável brisa as vezes podia ser sentida perto de Meteor Falls.

Satisfeito, Hokuro se deslocou até o início da área rochosa que demarcava o perímetro da montanha, e habilmente escalou alguns metros até pular sobre uma plataforma de pedra que permitia uma bela vista da região. Pela facilidade com a qual ele encontrou o lugar, percebia-se que ele estava habituado a se sentar ali.

Em direção ao oeste, era possível ver no céu um tom degradê de azul escuro, roxo e por fim laranja, onde o brilho do Sol descansava em seus últimos momentos do dia. Observando o horizonte, o jovem apanhou em seu bolso duas pequenas frutas azuis e redondas e as passou para seu Sandshrew, que havia escalado o penhasco atrás dele. O Pokémon agarrou as duas Oran Berries e as jogou para dentro da boca de uma única vez. Hokuro retirou um dorayaki do mesmo bolso, e, enquanto mastigava devagar, aguardou.

Na copa das árvores, algumas pequenas manchas azuis e brancas começaram a despontar, pulando de um lado para o outro e balançando as folhas. À distância, misturadas no meio da folhagem, era difícil identificar o que eram aquelas formas. Seus movimentos brincalhões e graciosos compunham junto com o pôr do sol uma vista deveras agradável. Hokuro as acompanhou com atenção enquanto terminava de mastigar, com uma expressão pacífica no rosto.

Ele engoliu o último pedaço, e, com um movimento leve, soltou delicadamente a flauta de vidro que estava amarrada em sua cintura. O instrumento era feito para ser tocado em uma posição transversal. A cor era um azul claro translúcido — sua aparência evocando o aspecto de um fragmento de gelo —, e havia uma fita branca de seda presa em sua ponta, que Hokuro utilizava para amarrá-la em sua cintura. Não era possível encontrar imperfeições no corpo do objeto, o que demonstrava que ele havia sido feito pelas mãos de um artesão habilidoso.

Hokuro levou a flauta em direção a seu rosto, tocando com leveza os seus lábios no bocal. Respirando fundo, ele assoprou uma única nota límpida. O instrumento de vidro tinha um som um pouco mais grave do que uma flauta de bambu, e soava de forma melodiosa. Ao ouvir o som, as figuras azuis na copa das árvores pararam brevemente de se mover e prestaram atenção. Satisfeito com o resultado, o jovem começou a tocar uma música suave e harmoniosa.

Instigadas pelo som, as criaturas azuis começaram a se erguer das copas e alçar voo em direção ao céu, iluminadas pelos tons alaranjados do fim do dia. Enquanto Hokuro tocava, uma brisa leve balançava seu rabo de cavalo e a fita branca presa na flauta. Os Swablus aproveitavam o vento para planar no céu, balançando de tempos em tempos as asas que mais pareciam novelos de algodão. A cena era tão bela que sem dúvidas tiraria o fôlego de qualquer um que por ali passasse, e arrancaria suspiros da jovens moças do vilarejo. Porém, não parecia haver mais ninguém ali.

....Não?

Hokuro gostava precisamente do silêncio e isolamento daquele lugar, e por isso ele o visitava com uma frequência assídua. Entretanto, seu ritual de relaxamento foi interrompido por um grito que cortou o ar da montanha, amedrontou os Swablus e o fez afastar a flauta dos lábios, surpreso.

O som vinha do penhasco acima da plataforma onde ele estava. Arregalando os olhos, ele viu um garoto descendo em disparada pela encosta íngreme, acompanhado por um Zigzagoon com a língua pendendo de lado para fora da boca, ambos com uma aparência desvairada.

O menino gritava a plenos pulmões:

— Cuidado! Sai, sai daí!

Hokuro conseguiu rolar para o lado no último instante, desviando do garoto que por pouco não o atropelou. O desconhecido se jogou no chão, tentando interromper a inércia de seu movimento. Mas a plataforma era pequena, e, em vez de parar por ali, ele rolou até a beirada e prosseguiu despencando pelos próximos metros do penhasco, uma bola indistinguível de roupas, braços e pernas, e só parou quando finalmente atingiu a relva.

Chocado com a interrupção abrupta, Hokuro se debruçou na plataforma e olhou para baixo, tentando captar o que havia acontecido. O garoto estava caído no chão numa posição pouco anatômica, seu rosto virado para baixo, os membros dobrados de jeitos estranhos, e tinha arranhões e cortes cobrindo seus braços e pernas. As marcas eram todas visíveis porque ele vestia um jinbei listrado de mangas e calças curtas, expondo toda a pele abaixo dos joelhos e dos cotovelos. Ele gemeu e rolou para o lado, virando o peito pra cima e se esticando, com os braços e pernas bem abertos. E, então, ele começou a rir.

Sua risada era jovial, soando como se ele houvesse escutado uma piada muito engraçada, ou acabado de ver alguém em uma situação ridícula.

— Hahaha...haHAHAHAH...

O som da risada ficou cada vez mais alto, enquanto ele permanecia deitado no chão de olhos fechados, e seu Zigzagoon, que também havia chegado no solo, corria em volta dele ainda com a língua para fora.

Insano!”, pensou Hokuro, mudo com o choque. Ele não sentia a menor disposição para se aproximar do garoto caído, mas havia mais alguém para socorrê-lo? Com uma queda daquelas, ele poderia muito bem ter quebrado alguns ossos, mesmo que seu comportamento bizarro não desse indicação de que ele estava sentindo alguma dor. No entanto, Hokuro ainda demorou algum tempo até, enfim, suspirar e começar a descer a encosta com cuidado.

Quando ele chegou no chão, o garoto que até então ainda ria começou a tossir — Hokuro não sabia se ele havia engasgado ou se estava com dor. Ele caminhou poucos passos até se aproximar do corpo esticado, e o observou com cisma nos olhos.

Com frieza, cutucou o outro menino com a ponta de seu pé.

— Aí. Não seja rude. — O garoto abriu os olhos e dirigiu as palavras a Hokuro. Mas sua expressão em nada não parecia indicar que ele estava aborrecido com a abordagem rude. Sua voz ainda carregava algo próximo do tom de sua risada.

— Quebrou alguma coisa? — Perguntou Hokuro de forma seca, sem se preocupar com floreios ou cortesias no diálogo.

— Acho que não. — Ele pausou por um instante, abrindo um sorriso no rosto. — Ou será que quebrei? Acho melhor você me carregar até um médico, por garantia.

Hokuro não o respondeu, mas estreitou os olhos em um claro sinal de desaprovação. O menino riu novamente, e com um suspiro dolorido, se sentou.

— Se você fosse dar uma nota para minha queda, qual seria? Eu acredito que mereço pelo menos uns bons pontos pela minha graciosidade.

O garoto continuava fazendo comentários jocosos, sua voz escondendo qualquer sinal de desconforto, e a sua expressão despreocupada fez Hokuro cerrar os punhos. Os Swablus haviam desaparecido após o barulho, seu fim de tarde relaxante interrompido por tamanho escândalo, e agora ele era obrigado a lidar com as tolices saindo da boca daquele moleque.

Olhando-o de cima, Hokuro examinou atentamente a aparência do garoto no chão. Tudo nele lhe parecia descabido. Em primeiro lugar, eles estavam no outono, mas o menino vestia trajes de verão. Em segundo lugar, ele estava sujo da cabeça aos pés, provavelmente por conta da queda, seus cabelos bagunçados de forma desordenada, e havia um corte sangrando no seu queixo. Mas, mesmo se ele estivesse limpo e arrumado, Hokuro sentia que sua aparência, não obstante, seria igualmente selvagem. Em especial, porque havia um brilho ferino em seus olhos castanhos.

O garoto percebeu que estava sendo observado, e não tardou a abrir a boca de novo:

— E então? Gracioso, né? Eu sei que sou.

Hokuro soltou um resmungo injuriado, e se virou para ir embora.

No entanto, o garoto levantou-se do chão e o agarrou pelo braço.

— Espera aí, não vá embora.... — Hokuro puxou bruscamente seu braço, tentando se livrar da mão que o prendia. Mas, para sua surpresa, a força que o segurava não diminuiu — Ai ai, tá doendo, porra. Seja mais gentil, sim? Talvez eu realmente tenha quebrado algo. Como é seu nome, jovem mestre flautista?

— O que você estava fazendo lá em cima? — Hokuro não queria responder à pergunta dele, e, percebendo que não conseguiria se afastar dali tão facilmente, resolveu mudar de assunto e distraí-lo.

— Pensando em como capturar um Swablu. É difícil encurralar algo que voa, sabe. — Ele abriu um sorriso grande. — Mas aí, enquanto eu os espiava lá de cima, eu ouvi sua flauta e levei um enorme susto! Quem esperaria ver outra pessoa aqui?

É o que eu estou me perguntando.”, pensou Hokuro, irritado.

— Mas sério, aquilo foi incrível! Eu fiquei comovido com o quão bem você estava tocando, me curvei para olhar melhor e... Perdi o equilíbrio. O resto você viu, né? A propósito, meu nome é Kouta, Kou-ta, escrito com os kanjis de “paz”, e “grande”. — Ele gesticulou no ar com um dedo, mostrando a grafia.

Se Hokuro tivesse algum senso de humor, ele com certeza riria da combinação de ideogramas daquele nome ser tão discrepante da personalidade em questão. No entanto, a ironia da situação só o exasperou ainda mais.

— Ok. Me solte.

—Eh, por quê? Você ainda não me disse seu nome!

— Se eu disser, você vai soltar?

— ....Talvez?

Como os dois tinham alturas similares, a linha de seus olhos ficava na mesma posição. Os dois se encararam em silêncio.

Hokuro franziu as sobrancelhas em uma expressão de descontentamento que intimidaria qualquer um com um pouco de juízo, mas Kouta não parecia inclinado a desviar o olhar, e seus lábios se curvaram para cima em um sorriso trocista. Ao ver aquilo, Hokuro desistiu de qualquer resquício de cortesia que ele ainda tinha, e...

....Chutou a canela do garoto na sua frente.

Acompanhada de um gemido de dor, a força que prendia o pulso de Hokuro se soltou. Virando-se sem olhar para trás, ele começou a caminhar em direção ao vilarejo.

— Ai ai, ok ok, eu mereci.... Ei! Não vá embora! — Kouta o seguiu. — Eu paro de falar, ok? Mas você pode tocar outra música pra mim? Por favor?

Kouta caminhava a uma distância desconfortavelmente próxima de Hokuro, falando alto e próximo de seu rosto, e o jovem vidraceiro estava prestes a se virar novamente para chutá-lo quando percebeu que, distraído, havia retornado para a estrada cedo demais. Hokuro havia se esquecido do aviso do pescador.

— Ah, merda.

As palavras saíram da boca de Kouta, mas o que passou pela cabeça de Hokuro era bem mais grosseiro. Os dois deram de cara com uma enorme Seviper, que os observava com as presas à mostra e olhos maldosos. Aquela não era uma Seviper comum: seu tamanho era bem maior do que o normal, e seus olhos brilhavam com um tom avermelhado e agressivo. Tratava-se de um alfa, um indivíduo de comportamento territorialista e imensa força.

— Alguma chance da gente correr mais rápido que ela? — Perguntou Kouta.

— Não. — Hokuro respondeu de forma seca, sem tirar os olhos da Seviper.

— Alguma chance do seu chute funcionar com ela?

— Cale a boca.

A Seviper os analisava, procurando uma abertura para atacar. Nenhum dos dois ousou recuar um passo sequer. Hokuro chamou em voz baixa:

— Tama.

Seu Sandshrew moveu lentamente a cabeça em um sinal de atenção.

— Eu acho que a gente deveria.... — Kouta abriu a boca novamente para falar alguma outra estupidez, mas ele não pôde concluir a frase.

A Seviper disparou em um bote na direção dele.

Tama reagiu com velocidade, se enrolando em uma bola e investindo na adversária, que foi atirada pra fora da direção de Kouta. Os dois se embolaram em uma luta violenta.

A Seviper se movia com agilidade golpeando-o com a lâmina de sua cauda e o abocanhando com suas longas presas, enquanto Tama rolava de um lado para o outro, em forma de bola, atingindo-a sempre que podia. A serpente não conseguia perfurar a pele dura do Sandshrew nem o prender para asfixiá-lo ­­— sua forma esférica o fazia escorregar e escapar de todas as tentativas. Porém, os golpes dele não pareciam estar causando danos significativos, de modo que a luta se mantinha em um impasse.

— Incrível! — Disse Kouta em voz alta. — Realmente incrível! Não é que você é habilidoso, onii-san? Aliás, quando vai me dizer seu nome? Heim?

Hokuro queria gritar algo grosseiro e agredir o garoto do seu lado, mas a situação exigia concentração total na batalha. Ele sabia que seu Sandshrew tinha a vantagem de tipo contra a Seviper, e, se ele conseguisse usar Rollout por tempo suficiente, poderia causar danos mais significativos. Mas a Serpente era ágil continuava a desviar de seus golpes, fazendo com que Tama perdesse velocidade e precisasse começar tudo de novo. Além disso, os golpes da lâmina de sua cauda estavam ficando mais precisos e começaram a causar dano.

Kouta pareceu perceber o problema, mas continuou falando em voz alta enquanto tirava algo do bolso.

— Acho que eu posso ajudar um pouco, não que você precise, não, não, meu onii-san flautista é muito talentoso, eu só quero agilizar as coisas para nós podermos conversar em paz, sim?

Ele atirou uma Pokéball para o alto, e de dentro dela saiu um Golbat. Com um breve aceno, o Pokémon entendeu o comando e lançou uma onda sonora contra a Seviper.

Atingida pelo golpe imprevisto, a serpente pausou seu avanço contra o Sandshrew, e balançou a cabeça confusa, olhando de um lado para o outro como se procurasse algo invisível.

Kouta agarrou o pulso de Hokuro pela segunda vez, e, puxando-o bruscamente, começou a correr em direção a Fallarbor. A distração duraria tempo suficiente para que eles conseguissem se afastar do perigo. Enquanto ele corria arrastando Hokuro, seu rosto continuava ocupado com um enorme sorriso, e sua risada jovial cortava a calmaria da região isolada, se misturando com o som da brisa que balançava o cabelo dos dois.

Eles correram o mais rápido que conseguiam, acompanhados por perto pelos seus Pokémon. Kouta só parou o deslocamento frenético quando chegou em frente à ponte que ligava a rota 114 com Fallarbor.

Arfando, ele soltou o pulso de Hokuro e se apoiou nos próprios joelhos, curvando seu tronco para a frente. Mas, mesmo sem ar, ele insistiu em continuar falando.

— Isso foi bastante relaxante, nós deveríamos tentar de novo algum dia.

Hokuro já havia esgotado sua curta paciência há muito tempo, de modo que se ele se recusava a trocar mais palavras com aquele lunático. Ele se abaixou para conferir se seu Sandshrew não estava muito ferido, e ao constatar que seus arranhões eram apenas superficiais, acariciou sua orelha e o chamou de volta para a Pokéball. Kouta o imitou, recolhendo os dois companheiros de volta também. No entanto, enquanto fazia isso, ele não tirou os olhos de Hokuro e manteve sua expressão sorridente.

O fim de tarde havia terminado e a luz alaranjada fora substituída pela penumbra do início da noite. Luzes podiam ser vistas à distância nas casas do vilarejo, e atrás deles a escuridão se alastrava pela rota inabitada.

Hokuro se levantou e começou a atravessar a ponte sem dizer nenhuma palavra. Mas, como esperado, Kouta o seguiu.

Seria difícil ordenar que ele se afastasse, considerando que aquele era o único caminho possível de volta à civilização, e não era provável que Kouta tivesse outro destino para retornar além da própria vila. Por isso, ainda que insatisfeito, Hokuro decidiu não protestar contra o garoto que o seguia falando bobagens profusamente.

Mas isso não significava que ele pretendia respondê-lo. Ele se manteve estoico, olhando sempre para frente em silêncio, aguardando o momento em que o garoto tomaria uma direção diferente da dele. Porém, para sua enorme frustração, Kouta o seguiu durante todo o percurso atravessando Fallarbor, murmurando a canção de Hokuro havia tocado na flauta, andando de forma saltitante como uma criança, e soltando exclamações, comentários, provocações e risadas a cada dez passos. Quando Hokuro percebeu que eles adentraram nos campos e se afastaram das casas, ele parou bruscamente.

— De onde você veio? Eu nunca te vi aqui. — Perguntou ele de forma ríspida. Afinal, Fallarbor era uma vila pequena e Hokuro conhecia de vista todos os seus habitantes.

Kouta levantou os cotovelos e colocou as duas mãos cruzadas atrás da cabeça, numa pose desleixada.

— Vim visitar uns parentes.

— Quem?

— Com quem você acha que eu me pareço?

— ....Vá embora.

— Por que você está indo para outra rota escura? Não vai se perder ou ser atacado de novo? Parece perigoso, acho melhor eu te acompanhar.

Hokuro balançou a cabeça negativamente, tentando pensar em uma forma de se livrar dele. Deveria agredi-lo de novo? Mas, depois de ver a performance atlética do menino mesmo após rolar de um morro e se esborrachar no chão, Hokuro podia inferir que não seria fácil atrasá-lo por muito tempo. Não que isso mudasse sua vontade de chutá-lo.

Uma ideia lhe veio à mente. Ele encarou Kouta nos olhos com a expressão mais feroz que conseguiu performar. Como esperado, o menino foi tomado por uma surpresa momentânea e parou de falar. Os dois se encararam no escuro, observando os poucos contornos visíveis, destacados pela luz amarela que brilhava distante no vilarejo. Então, sem dizer uma palavra, Hokuro apontou para algo atrás de Kouta.

O menino se virou para ver o que havia ali, e Hokuro disparou correndo na direção contrária, entrando na escuridão da rota coberta por árvores antigas e fuligem vulcânica. Seu plano era desaparecer por entre as folhagens e sombras, se aproveitando do seu conhecimento da região e despistando a companhia indesejada.

Pareceu funcionar. Kouta permaneceu parado por alguns instantes, confuso, até entender que nada havia atrás dele e que aquilo fora uma distração. Hokuro conseguiu ouvir a gargalhada dele enquanto ganhava distância e desaparecia de vista.

Ele deixou escapar um suspiro aliviado quando acreditou que havia conseguido se esconder. Porém, seu suspiro foi substituído por um calafrio ao ouvir uma voz alta muito próxima de onde ele estava.

— Onii-san, isso foi cruel!

Hokuro olhou para trás e invocou em sua mente todas as palavras obscenas que ele conseguiria imaginar, desejando ter um vocabulário mais amplo, porque só aquilo não lhe parecia suficiente.

Kouta havia retirado seu Golbat da Pokéball mais uma vez, e o Pokémon estava usando sua ecolocalização para encontrar Hokuro no escuro.

Soltando um impropério, Hokuro correu o máximo que conseguia pelas trilhas mais íngremes que conseguiu imaginar, mas mesmo assim Kouta o perseguiu com agilidade, se aproximando cada vez mais e gritando continuamente:

— Oniiii-saaaaaan!!!!

Os dois trombaram quando Hokuro parou de supetão em frente a sua própria casa. Kouta caiu sentado no chão, arfando e rindo, e Hokuro agora conseguia vê-lo melhor por conta da proximidade com a lanterna pendurada na porta. Kouta continuava risonho, como se estivesse fazendo algo extremamente divertido. O rosto de Hokuro se torceu com ferocidade enquanto ele abria a boca e gesticulava de forma agressiva:

—VÁ EMBORA!

Hokuro era um garoto quieto. Eram raras as vezes que ele mantinha uma conversa, e mais raras ainda as vezes que ele levantava a voz. Gritar daquela forma, a plenos pulmões? Devia ser algo inédito.

Sua voz foi ouvida com clareza dentro da casa, e seu irmão mais velho abriu a porta alarmado.

— Hokuro? O que houve? — Perguntou ele, pisando para fora e encarando os dois garotos com uma expressão assustada.

Hokuro congelou, mas Kouta abriu um sorriso tão grande que alguém poderia se perguntar se o rosto dele não doía por se esticar tanto.

— AHÁ! — Ele gritou em júbilo. — Então esse é seu nome! Ho-ku-ro! Hahaha...

O jovem vidraceiro disparou para dentro de casa, empurrando o irmão e batendo a porta com violência. Chocado, Hideki encarou o irmão, cujo rosto estava vermelho e tomado de cólera.

— Quem era aquele?

— ...Ninguém.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.