Costumes Familiares
1 ONE SHOT - O começo do fim
Notas iniciais
Quando se busca um herdeiro para um clã de alta honra e se nasce mulher, você não é bem recebida.
Não se é ensinada a arte da estratégia, do combate nem da liderança. Você é posta como uma maiko desde cedo para que saiba se portar quando sua mão for oferecida para outro homem poderoso.
O mundo atual é algo perigoso e que você nunca tem contato. Você é isolada a apenas estudos com os melhores senseis de cada área e a pré-determinada reunião com familiares para avaliarem sua postura e graciosidade.
Você cria amizade com as serviçais e acaba se divertindo com as aventuras que cria em sua mente. Disputa na limpeza dos corredores, patinando com os panos. E, às vezes, excede os limites ao acessar durante a noite a biblioteca de memórias da família que abriga desde os registros de combates até histórias de deuses e monstros.
A amizade com as filhas das serviçais é importante para você, mesmo que elas a tratem diferente — como uma superior — e só agem formalmente ao seu lado.
Quando você atinge certa idade, seus familiares te enviam para o santuário do seu clã, dizendo que agora você teria um trabalho muito importante. Você é levada contra vontade e treinada por senhoras e senhores carrancudos como limpar e zelar pelo ambiente sagrado.
Você vive em paz e começa a habituar-se a esgueiradas durante a noite para admirar o arsenal das lendárias armas utilizadas durante as guerras. Você pode ver o sangue milenar encrustado nelas. Com o tempo você acaba conhecendo todo o santuário e alguns pequenos lugares secretos; descobre um pequeno punhado de livros com anotações dos antigos pages dos líderes, aprende sobre as armas. Você estuda durante um bom tempo e treina durante as noites quietas.
Após anos de iniciação no santuário, você é chamada para um encontro na önsen e parece ser de grande importância. Você usa seu melhor quimono.
A névoa, talvez criada pela água aquecida aparenta ser mais densa do que o normal. Você faz a preparação tradicional, mas quando atravessa o shöji não há ninguém lá. Você começa a se sentir fraca e decide entrar na água, afinal, eles podem estar atrasados. A água começa a parecer mais pesada, seu corpo começa a amolecer e antes que você perceba, está desacordada.
Você berra, esperneia e protesta quando descobre o que estão fazendo com seu corpo. Mas você não se lembra no dia seguinte.
Você acorda trancada num cômodo diferente. Não é a önsen, não é seu quarto. Seu corpo dói, sua mente dói. Você está física e psicologicamente cansada. Sua visão está embaçada, você sente frio. Você não tem forças para protestar, questionar ou se movimentar. Você tenta resistir, mas perde a consciência outra vez. Você sonha.
“Eles aparecem como belos homens, graciosas mulheres, excêntricas criaturas e até mesmo espectros sem formas definidas. Eles dizem coisas boas, agraciam com os melhores elogios, fazem extensas promessas e mostram os lugares mais eloquentes.”
Você acorda sem ar, suando frio e com algo pesando em seu peito. Você tenta levantar no despertar, mas algo te prende no futon.
Você perde a conta de quanto tempo precisou para se recuperar, talvez uma semana, talvez cinco dias. Mas, apesar do tempo que se passasse, quando ganhou forças para andar e olhou pela primeira vez para sua perna você entrou em choque. Você tremeu. Seus olhos encheram de lágrimas e seu espanto, sua frustração, saiu do fundo da alma num grito. Seus braços, pernas, você. Pintado, marcado, inchado, irritado. Você percebe que seu corpo estava rejeitando o que você achava que era tinta encrustada em seu corpo e tudo doía.
Foram-se meses até você se recuperar, até recomeçar a andar com firmeza, até sair do quarto. Durante todo esse tempo uma mulher cuidou de você. Você questionou sempre que pode, gritou e se irritou, pediu desculpas e implorou explicações, mas recebeu um silêncio frio e indiferente durante todo o tempo.
Todos te ignoravam, mas eles falavam com você. Eles nunca te abandonavam.
Você precisou de um ano inteiro para começar a entender as pontas soltas. Você descobriu, com muito tempo de pesquisa e leitura, que alguns kanjis em seu corpo eram nomes dos renomados samurais do seu clã e muitos dos símbolos tinham origem em outras culturas. Você percebeu que se tornou difícil treinar ou pensar por muito tempo, fazia você ter fortes dores. Você notou que quando ficava perto do pátio dos túmulos as vozes se exaltavam e seu corpo desistia (por isso parou de frequentar o local).
Você começou a comer menos. Agir menos. Falar menos. Dormir menos. Ler menos. Viver menos.
Você tinha que sair do santuário, mas sempre que tentava seu corpo sobrecarregava e você acordava no novo quarto.
Sempre que você conseguia fazer seu corpo resistir um pouco mais, pessoas estranhas te tomavam pelos braços e você voltava para o novo quarto.
Você estava fraca. Estava presa. Durante um ano inteiro.
Você pensou em desistir e teve momentos em que acreditou que, finalmente, tinha desistido.
“Não se lembra de ter andado até o jardim.
Não se lembra de adormecer.
Não se lembra de morrer.”
Os shojis eram trocados todos os dias, rasgados e cheios de sangue. Sangue que secava em baixo das suas unhas. Seu sangue.
Você tinha um plano. Talvez o último plano. Você precisava. Você precisa escapar ou enlouquecerá.
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