Cosmos.

7 O guardião do mar.


7

Em algum lugar próximo ao Cabo Sunion.

Kanon aproximou de seu mestre cuidadosamente, sentando-se ao seu lado, e percebera que ele parecia hipnotizado ao olhar para o fundo do lago, não era apenas isso, parecia se comunicar mentalmente com as águas. Que poder residia dentro daquele homem soturno? A cada toque suave na água cristalina, um pequeno cardume se aproximava dos pés alvos de Gaios, ele tinha o poder de atrair o seres de natureza observou Kanon, como era forte, e por que este homem fica aqui tão isolado de toda a hierarquia?
Gaios sem olhar para o seu discípulo respondeu, sem fitar nos olhos, com se estivesse lendo a sua mente.
— Kanon, eu sei bem que você acha que eu deveria estar lá – disse Gaios apontando o dedo indicador para o céu. Mas eu prefiro ficar aqui, nessa solidão eterna que Athena me impôs.
— Um homem da sua estirpe relegado ao esquecimento? Por quê!- argumentou Kanon.
Gaios deu de ombros, e fechou os olhos suave:
— Que importância tem tudo isso, não deveria plantar esse tipo de sentimento no coração de Saga, seu irmão tem um fardo muito pesado dentro dele.
Kanon levantou frustrado.
— Como sempre essas palavras enevoadas! Diga-me quem é você, é apenas o que eu preciso saber.
Nesse instante uma borboleta branca pousa nos ombros de Gaios que se diverte, Kanon começa a se irritar com todo aquele desdém.
— Sente-se. – sugeriu o mestre calmamente. Eu não tenho muito a dizer, eu já disse tudo a ela, mas você precisa saber de uma coisa garoto, a ganância vai arruinar-te. O seu caminho é proteger seu irmão e sucedê-lo, essa é sua missão, a minha já está no fim. Já vivi demais neste santuário, minha vida resume-se apenas em proteger este lugar sagrado.
Eu não quero ouvir isso!— disse Kanon exasperado.
— Eu disse para ficar onde está! Aliás...onde parei?
Kanon ficou furioso com a maneira evasiva de seu mentor.
— Lugar sagrado... é isso mesmo que eu estava falando, as doze casas ...é lá que os cavaleiros de alta patente guardam com suas vidas, e você também fará isso. A sua casa é a sua vida, e lá todos os seus ancestrais guardiões residem, mesmo Saga sendo o futuro detentor legítimo, você estará sempre lá, guardando a casa de gêmeos, quanto a mim estou cansado de proteger as doze casas junto do mestre, não posso mais viver aqui, eu protejo o selo do mar sobre a terra, minhas costas doem de ficar aqui. – informou o mestre graciosamente.
— O que você disse? Saga se tornará o cavaleiro guardião? Por quê? Que critério você escolheu para isso?
Gaios tocou os pés na água límpida, ao fazer isso a água de todo o lago agitou-se.
— Ele fingiu que não me ouviu...- pensou Kanon enfurecido.
— A armadura escolhe o seu cavaleiro, eu apenas repassei os meus ensinamentos, e espero que façam o uso justo do que Athena me cofiou.
Bobagem! – exclamou Kanon colérico. Eu quero lutar contra Saga pela posse da armadura!
— Não é possível – disse Gaios levantando-se.
— Por que não? General Gaios?
O que disse?— O semblante do mestre mudou completamente.
Kanon mesmo amedrontado manteve-se firme, enrijecido com um olhar desafiador, e Gaios despistou sorrindo.
— Você sempre fala do general, talvez eu seje este homem que tanto afirma, você acredita tanto nisso, que é possível ser uma verdade.
— Você jamais comandaria este santuário, argumento tolo! Pensei que fosse um homem inteligente, vejo que estou enganado, perdi meu tempo conversando com você. Não pode ser o general, ele comandava um exército de homens, era admirado pelo deus da Guerra, e respeitado por todos, você não! É apenas um guardião do mar que conversa com peixes.
Dito tais insultos, Kanon foi se retirando grosseiramente. Porém Gaios interveio com seriedade:
— Kanon é a última vez que veremos, e tenho um pedido a fazer...
Kanon ficou perplexo com a reação do mestre, tinha acabado de proferir palavras ásperas, mas mesmo assim ele parecia indiferente.
— Proteja Athena com sua vida, e quando chegar o momento que eu deixar essa terra, desapareça com o meu corpo, nem o senhor do submundo poderá tomá-lo, descansarei até o chamado de Athena no céu. E irei despertar para a última batalha, a qualquer chamado da deusa, em qualquer lugar do universo eu sempre estarei pronto para lutar.
Foi a coisa mais enigmática que Kanon tinha ouvido em toda sua vida, dita tais palavras Gaios em seguida despediu-se sorrindo, e começou a andar pelas águas, Kanon ficou atônito com a visão, realmente só um homem de imenso poder poderia caminhar pelas águas. E este homem era o seu mentor.

*****


PYRGOS ERA UM VILAREJO localizado próximo ao mar Egeu, ali residia o jovem Laio, um rapaz de muita bondade. Ajudava o pai adotivo no comércio situado entre os corredores rochosos da cidade. A vila era de um riqueza histórica belíssima, muito arborizada e todos os seus habitantes viviam em paz, a deusa protetora reverenciada é Athena, os cidadãos acreditavam na proteção da deusa. Entrementes, pessoas antigas da cidade proferiam histórias em cordéis, era uma tradição cantar o epíteto dos cavaleiros de Athena de outrora, afinal Pyrgos era próximo ao santuário, portanto a ‘lenda’ permanecia sempre viva no imaginário das pessoas.
Havia uma procissão e Laio seguia em meio as pessoas, muitos celebravam o nascimento de Athena, as festividades em sua honra marcava o início de agosto no calendário grego, a vinda de Athena era aguardada com muito entusiasmo, mas não somente Athena era citada, os cavaleiros de ouro eram venerados, pessoas entoavam cânticos pela cidade em homenagem aos sagrados guerreiros. A narrativa era uma fábula, mas tudo era verossímil e Laio sabia disso, havia encontrado o seu herói, mas manteve segredo.
Belas jovens Atenienses dançavam pela procissão espalhando flores pela cidade, as pétalas de rosas ornavam o chão e o seu perfume exalava de maneira extasiante. Era um dia muito festivo e o povo expressava júbilo. Contudo um cavaleiro misterioso surge diante de todos, era muito alto e forte, tinha a pele morena, e um rosto tenebroso, chegou sorrateiramente diante de todos, zombado da crença daquele pobre povo que ele julgava ‘infeliz’.
Porém Laio, corajosamente se interpôs, defendendo o seu povo com palavras amigáveis, embora muito jovem, a sua essência era de um lutador.
Deixe o nosso povo em paz seguidor de Nicurgo, não zombe de nossa deusa e dos cavaleiros que tanto amamos!
O homem gargalhou sarcasticamente, enquanto se fartava com todas as oferendas para a deusa:
— Esses tempos já morreram seus ignorantes, Athena não reinará sobre esta terra, meu senhor me explicou tudo sobre isso. Os cavaleiros de Athena são uma piada de mau gosto. Veja o que posso fazer. – disse o execrável homem que se intitulava cavaleiro.
E com golpes destruía absolutamente tudo ao redor, sem o menor remorso.
— Estão vendo isso? Athena não pode fazer nada!
E com a mão segurando uma pedra a esfacelou, todos ficaram assombrados, crianças fechavam os olhos para não ver aquilo.
— Os cavaleiros se tornarão pó das estrelas, meu mestre me contou que serão a maldição, assim como nós, hoje somos renegados, no futuro não sobrará nada destes homens, serão odiados entre os deuses– dita tais palavras uma pequena menina se pôs a frente do cavaleiro chutando seu calcanhar em afronta:
— Cala boca seu idiota, ninguém aqui vai acreditar em você! Athena vai sempre proteger esta terra, por que os seus cavaleiros são santos. Meu avô me disse que um dia, um cavaleiro montado num cavalo de asas salvará todas as crianças do mundo do monstro maligno que vive debaixo da terra.
— Saia da minha frente... – disse o homem indiferente.
Laio tirou a garota do meio do caminho e devolveu aos seus pais.
— Vai embora daqui, você não é bem vindo com suas calúnias. Eu posso enfrenta-lo!
Todos ficaram atônitos, Laio não era um guerreiro, não tinha técnica de luta, como poderia blefar diante de um homem tão forte? O cavaleiro misterioso ri escarninho. E num movimento quase que imperceptível, o cavaleiro o golpeia no estômago, Laio vai ao chão se contorcendo em dor, enquanto as pessoas ficavam aterrorizadas com a cena.
Mesmo assim, o rapaz digno, foi levantando-se, meio trôpego, segurando o abdômen. E o cavaleiro repugnante e sádico, começa a desferir golpes em seu rosto, por fim lhe segura pelos braços exibindo-o para todos ali presentes, como se aquele menino ratificasse as palavras ditas anteriormente, e se caso alguem atrevesse a desafia-lo, acabaria derrotado.
— Todos viram isso? Athena não fez absolutamente nada!
A sua risada maquiavélica parecia ecoar por toda a cidade. Contudo, uma voz firme e àspera, assim como uma rajada de vento. profere as seguintes palavras:
— Athena não está, mas eu estou!
O cavaleiro olhou para os paredões da cidade, tentando identificar a localização da voz, fazendo isso, soltou Laio ao chão, e sentiu uma cosmo energia terrível naquele momento. As pessoas ali presentes ficaram mais assustadas ainda:
— Apareça covarde imundo!
— Com toda certeza!— disse a voz numa gargalhada superior.
E no alto de uma coluna branca jônica estava o homem detentor da voz misteriosa, oculto pelos raios do sol:
— Desça daí e lute comigo!- sugeriu o cavaleiro.
— É uma perda de tempo lutar com um verme como você..
— O que disse maldito?! – rosnou o homem terrível.
E num pestanejar o homem desapareceu, o cavaleiro deu um sorriso no canto dos lábios, sabia que aquilo era apenas palavras, era algum perdedor querendo bancar o herói afinal, quem poderia se atrever?
Contudo, uma névoa se espalha no meio do local, e contra ele, numa direção reta, em meio ao nevoeiro, delineia-se uma silhueta, um homem caminha em sua direção, se fez um silêncio, só escutava o seus passos contra o chão. A tensão aumentava e o cavaleiro renegado começava a suar frio, com os olhos fixos para descobrir a identidade daquele homem que caminhava até ele confiante. Laio que estava ao chão muito ferido, inclinou o rosto lentamente para fitar o intrépido homem que comprou aquela luta. E todos ali presentes, inclusive as crianças estavam felizes, era um presságio positivo de Athena.