Cosmos.
19 O encontro com o Leão de Cíteron.
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Uma forte tempestade assolou a ilha de Andrômeda e de imediato as águas do mar se tornaram agitadas, grandes ondas furiosas pareciam querer engolir a ilha, foi neste cenário que Albion tomou a decisão de deixar aquele lugar e seguir para Thera, a residência de seu tutor. Contudo a voz do grande mestre surgiu enigmaticamente como uma mensagem telepática, e ordenou para que se mantivesse na ilha e protegesse armadura de Andrômeda e seus pupilos. O cavaleiro pausou a sua corrida ofegante, e olhou para o céu trovejante com semblante aflito, estava trajando sua armadura, e em seus braços sua temível corrente de prata, aquele homem estava pronto para enfrentar qualquer inimigo. Arrefecido, obedeceu à ordem do grande mestre, e ponderou melhor o significado da mensagem de Dédalo seu antigo tutor, e a mesma se alinhava com o propósito do santuário: se prepararem para o regresso de Athena.
AIOROS FINALMENTE CHEGOU AO CÍTERON do alto de uma colina ele pode vislumbrar um centro descampado árido na ilha, onde os jovens aspirantes a cavaleiros faziam o seu treino, todos estavam neste círculo como espectadores da luta de dois cavaleiros que se digladiavam ao centro. E exasperou-se ao reconhecer que um daqueles lutadores era seu irmão Aioria. Aflito deslocou-se até aquele centro, com o objetivo de interromper aquela luta absurda. Porém, no momento em que com um salto ofegante descia a colina abaixo, uma voz o interceptou bruscamente. E Aioros ao ouvir aquelas palavras paralisou:
— É um erro um cavaleiro de ouro transitar por essa região – advertiu a voz em tom seco.
Aioros respondeu imediatamente sem olhar para trás.
— O maior erro foi permitir as atrocidades deste homem chamado Nicurgo, eu sozinho irei ao seu templo e o destituirei do comando.
O homem riu lacônico.
— Cavaleiro de ouro, vá embora daqui. Esta ilha desaparecerá logo.
Aioros virou-se e pode reconhecer a voz daquele homem, em seu âmago pensara que nunca mais recordaria, ele era o misterioso Iko, um cavaleiro esquecido que deixou a sua patente no santuário para viver naquela ilha, amigo ou inimigo esta era uma grande dúvida:
— Impossível, está ilha esta selada por Athena...
O corpulento cavaleiro lançou um sorriso ricto, e não respondeu mais nada, deu as costas e foi se retirando da conversa.
— Espere Iko! O que quer dizer?!— gritou Aioros com autoridade.
O misterioso cavaleiro foi subindo a colina árida, e sua silhueta ia desaparecendo contra a luz do sol poente, apenas acenou para Aioros e desapareceu misteriosamente naquele entardecer. Aioros gritou, e cogitou persegui-lo, mas parecia que aquele quebra cabeças aos poucos ia se encaixando: o velho Dédalo estava tentando confidenciar todo esse acontecimento quando o recebera em sua residência, todo aquele encadeamento de acontecimentos parecia ser coordenado por alguém, era esta a preocupação do grande mestre, e por este mesmo motivo ele havia sido recrutado para adentrar na ilha. Somente Aioros poderia destituir Nicurgo. Mas a conclusão mais temível era que ele e seu irmão estavam correndo perigo, e Yaren estava sendo manipulada por uma força maligna que atentou contra a sua vida na ponte, resquícios de uma força de uma estrela que não foi sepultada no tempo, que só um deus teria o poder de fazer despertá-la. E Aioria foi por ela atraído, e agora estava numa arena a mercê da morte. Parecia que algo estava se desencadeando de uma maneira que ambos se afastassem do santuário. Naquele momento tudo fazia sentido, Aioros exasperou-se mais uma vez, o santuário também corria perigo e precisava regressar urgentemente. Correu para arena e ao chegar foi interceptado por vários soldados e ele lutou bravamente repelindo a todos com o seu golpe. Centelhas de raio dourado saiam dos punhos do cavaleiro de ouro e devastava todos os seus inimigos. O gigante Nicanor levantou-se furioso ao ver aquele cavaleiro de Athena:
— Iko, aquele vagabundo miserável! Poderia ele conter este homem, mas vejo que sobrará pra mim, deveria ter dado cabo de Iko há muito tempo. Traidor!— pensou o gigante com os dentes cerrados de raiva.
— Pare esta luta imediatamente!— gritou Aioros com autoridade. Todos os jovens aspirantes olharam assustados para o cavaleiro de Athena; e Kei ficou aliviado com a presença do cavaleiro, pois era doloroso ver seus amigos numa arena lutando um contra o outro.
— Cale a boca! Você não tem autoridade para ditar ordens aqui, essa ilha pertence ao meu irmão! – o gigante gritou furioso avançando contra Aioros.
— Te mostrarei a minha autoridade, veja! – Aioros desferiu um soco com tanta intensidade que derrubou o gigante que foi ao chão desmaiado. Todos ficaram atônitos, Aioros não usou nenhum de seus golpes, apenas a força. Os soldados vieram em direção de Aioros, muitos prostraram e imploraram para que os levassem dali de volta ao santuário, alguns relataram a suas histórias com brevidade. Mas um fenômeno repentino ocorreu assustando a todos ali presentes, uma forte luminosidade dourada emergiu da arena onde estava Aioria e Kurazo, uma luz que consigo emitia ondas de calor, todos ficaram com medo, uns gritaram para que fujam, era o Leão de Cíteron, quando ele surge é impossível aplacar a sua fúria que pode culminar com o desaparecimento da ilha.
— Aioria, afaste-se! — gritaram para alertar o jovem cavaleiro de Athena, mas Aioria não deu ouvido e permaneceu imóvel, o chão lentamente se abria em filetes de luz. E Kurazo permaneceu ao lado de seu amigo, se fosse para enfrentar aquele leão, enfrentariam juntos para que a ilha fosse poupada. Aioros não sabia o que fazer, podia interpor a esta luta, mas algo o dizia para ficar onde estava e observar o potencial de seu irmão. Aquela podia ser a última lição que seu irmão precisava aprender, e a maior de todas elas.
O mito do Leão de Cíteron era uma realidade que se aproximava cada vez mais aos olhos daqueles homens incrédulos. Uma forte luz explodiu diante aos olhos de todos, ninguém conseguia enxergar mais nada, porém Aioria foi o primeiro a visualizar um enorme leão dourado surgir da terra, envolto por uma intensa cosmo energia que se multiplicava e aquilo atraía o jovem Aioria que da sua imobilidade surgiu um enorme desejo de seguir em direção daquela fera. Naquele momento, em meio à fúria que se interpunha no seu caminho, viu uma armadura de dentro daquele animal, ela brilhava intensamente que Aioria sentiu que poderia ficar cego. A belíssima armadura de ouro reluzia no coração da fera, tinha o formato de um leão idêntico ao próprio Leão de Cíteron. Aioria se sentiu como Hércules, e destemido tentou tocar aquela armadura, o leão ficou tão furioso que levantou uma de suas patas para esbofetear o jovem Aioria, se as garras daquele animal fincassem naquele jovem cavaleiro, provavelmente ele estaria morto. Entretanto, no mesmo instante foi possível escutar um grito em meio àquela aparição; a luz ofuscante se desfez, e Kei desmaiou nos braços de Aioria. Foi um choque, ninguém compreendia o que estava ocorrendo, mas era tudo muito real, no momento que o animal atacou Aioria, Kei jogou-se em sua frente como um escudo humano para protegê-lo, Aioria ficou paralisado com aquele ato. Com uma dor lancinante, Kei abriu os olhos e disse:
— Aioria me perdoe por duvidar de você. Jamais em minha vida deveria duvidar de um cavaleiro de Athena, gostaria de deixar essa ilha contigo e seguir ao santuário, mas vejo que é impossível. Prometa-me que protegerá Athena por mim. – com a voz enfraquecida, mas com os olhos brilhantes por encontrar um verdadeiro amigo, Kei se foi em paz. Os olhos de Aioria ficaram repletos de lágrimas, com um aperto na garganta não conseguiu dizer uma palavra, meneou a cabeça em afirmação e despediu do seu amigo. Aioros tentou intervir com o seu poder tentando curar as feridas de Kei, mas já era tarde demais. Aquele animal não era comum, era um leão mágico, protetor da armadura de ouro. Kurazo chorou, e as lembranças do passado atravessavam a sua mente, não era a primeira vez que o jovem Kei protegia os amigos. Havia dentro dele um senso de lealdade muito grande, por mais que não parecesse devido a sua aparência rude, sem dúvida é também um cavaleiro de Athena. Aioria olhou para o leão e viu ele mesmo, como uma imagem do futuro trajando a armadura de ouro de Leão, era muito parecido com seu irmão; e o Leão de Cíteron decidiu afastar-se por ter encontrado o seu cavaleiro, mas disse tais palavras enigmáticas:
— Cavaleiros de Athena, é chegado o tempo das grandes batalhas, como é chegado o fim desta ilha, nada daqui pertencerá aos deuses, nem tampouco aos homens. Voltarei ao meu descanso na couraça da justiça. Se os homens que habitam o santuário forem fortes sobreviverão, se não sucumbirão às sombras. – e foi se afastando em meio às luzes, porém Aioria correu em sua direção — Menino, não se aproxime mais. Quando for um cavaleiro nos reencontraremos e provará da sua força, lutaremos de igual. Mas há uma luta já ocorrendo, e quando ela terminar essa terra desaparecerá. Só os fortes sobreviverão.
Aioros sentiu um calafrio, era uma mensagem profética, pois o céu no mesmo instante se tornara negro, relâmpagos ribombavam nos céus, era um prenúncio de uma tempestade que dali estava indo em direção ao santuário, e questionou se tal fenômeno poderia atingir a barreira que protegia o santuário. Contudo, pressentiu que as palavras daquele leão era uma advertência.
Fortes rajadas de vento trespassavam a ilha de forma repentina, como o céu se encontrava, parecia que das nuvens escuras aglomeradas um furacão estava prestes a se formar para o desespero de todos. Aioros gritava como uma líder para estabelecer ordem em meio ao caos estabelecido, ordenou que todos fossem para a costa e seguissem pelo mar de Pyrgos, rota segura para chegar até o santuário, e todos obedeceram. Todos juntos correram para deixar a ilha, contudo no meio do caminho Aioros se lembrou de Yaren correndo perigo, e decidiu regressar para poder salvá-la, sentia em dívida com aquela mulher; mas Aioria não entendeu, não compreendia o motivo de o irmão escolher retornar para o interior da ilha, e discutiram em vão. Aioros se mostrou autoritário em sua decisão, ordenou que seu irmão seguisse com os outros soldados, e correu para longe de sua própria segurança, sem olhar para trás. Aioria se manteve forte, ajudando todos aqueles homens a salvarem suas vidas, porém preocupado com o retorno de seu irmão a salvo. Mas Kurazo também tinha a sua própria dívida: deixou o Japão com tenra idade para treinar no santuário, mas quando deu por si estava naquela ilha controlada pelo misterioso Nicurgo e seu irmão asqueroso, se alinhando contra o santuário, e dia após dia lutava por sua sobrevivência, assim como Kei, através da amizade forjou a esperança daqueles jovens meninos. Afinal quando Kei se lançou para proteger Aioria do ataque do leão, para Kurazo tudo ficou muito claro, se não o fizesse ele sabia que ele mesmo o faria, era um código de honra entre amigos, todos se protegiam e isso se chamava “amizade”.
Kurazo decidiu que também ficaria na ilha, foi uma decisão inaceitável para Aioria, houve uma argumentação acirrada entre ambos, mas Kurazo se manteve firme em sua palavra, ajudou a todos a ocuparem os barcos, e cedeu o seu lugar para um jovem menino que fora capturado recentemente de Pyrgos, ele iria orientar a todos no mar por uma rota segura. Kurazo correu em direção ao interior da ilha e desapareceu, Aioria ficou atônito, era inacreditável aquela atitude depois de todos os perigos que enfrentaram juntos, mas por fim o que lhe restava era entender, porém com os olhos marejados de lágrimas.
KANON DESPERTOU ATURDIDO, NÃO PODE MENSURAR O TEMPO em que se encontrava inconsciente, era observado de forma enigmática pelas corujas no topo do templo. Estava lutando contra um cavaleiro misterioso que teve o poder de adentrar em seu inconsciente; contudo ao despertar suas lembranças eram precárias. Sentia uma forte dor nas costelas, e pelos braços exibia escoriações como se fosse uma queimadura; poderia ter havido uma luta? Sim, constatou ao olhar mais atentamente aos arredores em meio à penumbra, havia resquícios de uma forte colisão de poderes, pilares tombados e estilhaços próximos a longa escadaria rumo ao trono dos dragões. Kanon tentou levantar-se e percebeu que estava muito ferido, se arrastou pelas escadarias e seguiu por uma forte luz que emanava do topo, uma luz avermelhada, uma cosmo energia misteriosa que envolvia todo aquele templo. Curvado, e percorrendo cada degrau com lentidão, chegou a topo e ficou atônito com o que vira, o misterioso cavaleiro estava ali ao centro, logo abaixo da cúpula que o banhava com uma luz tênue, de costas sua capa branca esvoaçava ondulante, uma energia avermelhada o circundava como um campo magnético; Kanon fechou os punhos e chamou a sua atenção, naquele mesmo instante a armadura branca foi ficando negra, os cabelos dourados daquele cavaleiro foram ficando grisalhos, o irmão gêmeo de Saga ficou paralisado, tentava movimentar os braços e parecia impossível, aquele cavaleiro era muito poderoso, mas quem poderia ser? É este o tal do Nicurgo? Este é o poder de uma cavaleiro de prata? Kanon tentava sair desse campo magnético e não conseguia, sentia que seu fim era ali. Exclamou com fúria para que o cavaleiro falasse com ele, mas aquela imagem espectral nem lhe dava ouvidos, seu rosto estava fora do campo de visão de Kanon. Havia uma grande tensão, Kanon se contorcia de dor, mas mantinha-se firme, em pé, não ia se entregar a derrota tão facilmente. Houve um silêncio mortal, o campo que paralisava Kanon se desfez e fora de joelho aos chão, apoiando com as mãos. O misterioso guardião daquele templo leu a sua mente e os seus desejos: movimentou lentamente o tronco e olhou pelas ombreiras revelando o seu rosto real; Kanon levantou a cabeça enfraquecido, e no momento que viu o rosto daquele homem estremeceu, foi tomado por uma ira, fechou os punhos novamente, e com este sentimento conseguiu manter-se em pé, com os dentes cerrados, e com uma vontade imensa de golpear aquele cavaleiro. Fez-se um silêncio entre ambos. E Kanon o quebra, com tais palavras, de um tom baixo inicialmente, logo em seguida com um grito de ódio:
— Covarde! Miserável!
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