Cosmos.
17 Kanon e suas reminiscências. Parte II.
17
“Jamais na minha vida culpei as pessoas que não conseguem esquecer o passado, e às vezes caem em prantos por causa disso. As pessoas comuns são assim, mas você não! Você é um cavaleiro!”
— Kamus de aquário a Hyoga; batalha das doze casas. Saint Seiya original script by Takao Koyama. ©Masami Kurumada.
Kanon fala:
Os olhos dele era de um brilho esplendoroso, seus cabelos oscilavam na cor de um dourado vivo para um branco pálido, mas seu rosto era incrivelmente jovem, parecia ter quase a minha mesma idade. Sua força era inacreditável, que cosmo energia profunda que brilhava incessantemente através de seu corpo. Ele lentamente esticou o braço direito que fez um barulho metálico através da armadura, à capa que envolvia seus ombros esvoaçava ondulante. Esticou o dedo indicador apontando para mim, na minha altura, aquilo me causou um receio, e das pontas dos dedos surgiu uma luz, e desferiu contra mim um fino feixe de luz branco, que se iluminou como um relâmpago e trespassou a minha cabeça pelo meio da minha testa. Aquilo fora tão rápido que ao menos eu nem pude perceber, meu corpo paralisou de imediato, meus músculos estavam rígidos em espasmos, fui caindo lentamente de joelhos, como se o tempo tivesse parado, meus olhos permaneciam fixos no olhar dele, como se fosse o meu horizonte. Ele tinha as feições rígidas e porém a harmonia de seus traços eram suaves. Meus olhos se perderam, e voltei para minha mente confusa em pensamentos. E ele disse, suas palavras ecoaram, até o eco desaparecer:
— O passado te acompanha, siga com ele.
Eu não queria, mas, meu campo de visão mudou bruscamente, e vi a minha terra natal Lakonia, como era bela! Aquele céu azul profundo visto pelas montanhas, o mar calmo, a estátua do guerreiro espartano no centro da cidade trajando suas vestes clássicas, o escudo em defesa na mão esquerda e a lança em riste. Era assim a minha terra, repleta de homens prontos para a batalha deste tempos imemoriais, e eu fui forjado ali em meio a estes homens. A imagem mental mudou, estávamos em uma arena debaixo de um sol escaldante, eu e Saga com o peito desnudo, sem armadura que nos protegesse, apenas a força de nossos punhos, muitos guerreiros estavam ali, alguns tinham o rosto oculto pelo elmo. Outros eram jovens como nós. E éramos castigados e duramente desprezados pelos homens de maior patente. Havia uma semana que nosso tutor nos abandonou para seguir Athena, e isso era de uma traição descomunal. O deus honrado em nossa cidade era Ares. Sua estátua estava no alto da cidade, sempre recorríamos a sua proteção nas batalhas. Mas nosso mestre não. Deixou-nos, e encontrou em Athena a justiça que ele prezava, mas nós estávamos ali, eu e Saga sofrendo o castigo e a humilhação. Éramos o filho do desertor. Mas Saga não se abalava se mantinha sempre firme e acreditava em seu mestre até o fim. Eu o questionava sempre, havia momentos que ficava do lado de meu povo e sentia muita raiva de tudo isso, outras vezes não. Eu queria um dia ser detentor do poder, para punir todos aqueles que nos perseguiam. E neste mesmo dia, se ainda posso recordar, guerreiros nos castigaram tanto que despertaram a força sombria de Saga, eu me afastei e apenas observei, de suas mãos surgiu uma explosão que fez vários jovens guerreiros tombarem à nossa frente. Naquele dia, os guerreiros nos deixaram de lado, e simplesmente nós deixamos de existir em nossa sociedade. Diziam que por sermos gêmeos éramos Castor e Polux reencarnados. Mas nem isso fez aqueles guerreiros nos respeitarem. Vivíamos com o nosso tio, um senhor muito velho e sábio, era como um filósofo da corte, na era moderna das mansões de homens que detinham o poder em Lakonia. Não tinha habilidades militar, eu tinha muita estima por ele. Em castigos que eu sofria muitas vezes ele intervinha como pode, e eu ficava furioso por ver homens sendo rude com alguém tão velho como ele. De meus punhos já foram desferidos golpes contra a injustiça instalada em nossa cidade. Mas, o pior dia foi aquele, quando nosso velho tio adoeceu, procuramos de toda forma ajuda, e não conseguimos, fiquei pensando em como seria minha vida sem ele. Mas Saga sempre me dizia que não havia mais nada a temer da vida desde que nosso mestre nos deixou. Que haveria um momento que entenderíamos tudo aquilo que estávamos passando. Mas eu não tinha esse entendimento. Eu era tão jovem, e tão amargurado com tudo. Saga não falava mais sobre o deus da guerra, me falava apenas sobre a deusa da justiça. E eu não queria ouvir. Estava preocupado com o meu tio que padecia em sua enfermidade.
Perdi o carinho pela minha Lakonia! Mas mesmo assim era um lugar de uma beleza indescritível, eu e Saga quando éramos muito pequenos, brincávamos juntos no jardim do templo de Ares, era um lugar de paz. Não parece ser coerente sentir paz em um lugar que se reverenciava um deus das batalhas sangrentas, mas estar com Saga ali me passava uma suavidade terna que nunca mais senti. Nosso tutor estava conosco também, como um pai, prestava sua reverência ao deus, e nos contava ali no jardim sentado aos blocos de pedra do templo, em meio ao colorido das flores e o canto dos pássaros canoros, história dos deuses e heróis da Grécia antiga. Foi ali que escutei pela primeira vez a lenda da constelação da constelação gêmea, mas não dei muito importãncia. Não acreditava no poder dos deuses, depois de todos esses infortúnios. Quando anoiteceu uma fina garoa vertia na cidade, e ele nos protegia através de sua capa como filhos, singelos momentos aprazíveis. Em nossa terra vivíamos com os nossos tutores que nos treinavam, e não com nossas famílias, posso dizer que não tenho memórias sobre nossa família. Éramos praticamente entregues, mas o nosso mestre era diferente, era humano e justo, a virtude aprendi com ele. Não sei por que me lembro de tudo isso agora, queria que tudo se apagasse como a chama de uma vela. Mas não é assim, eu escutei a voz da deusa e me tornei um cavaleiro de Athena e nem ao menos sei o que estou fazendo. É como se quisesse o poder para retornar a Lakonia, e dizer para todos quem meu mestre era de verdade! Que suas convicções estavam corretas. Meu velho tio me dizia para ser forte e piedoso, mas infelizmente não conseguia. Eu queria o poder, meu espírito intrépido era um mar revolto.
Em uma noite a uma garoa vertia dos céus, e derramava sobre a terra úmida, o céu relampeava entre nuvens escuras, nas poesias diziam ser o divino Zeus do alto do Olimpo em alguma discussão. E Saga estava na janela de nossa casa absorto, contemplando o som dos céus sombrios. E eu estava sentado próximo ao meu tio que me instruía, mas estava a cada dia mais debilitado. Pela pouca força que tinha e com a voz rouca debilitada, ordenou que Saga viesse até ele, e eu me afastei. Saga sentou-se ao seu lado no leito cálido, e o nosso tio o tocou o rosto carinhosamente de Saga e disse:
— Como és belo, lembra meu irmão em tenra idade. És tão calado, o que passa em sua mente? És uma águia, e nunca se esqueça, a força deve estar sempre acompanhada da compaixão. A razão é um domínio superior dos guerreiros de verdade. A sua maior batalha meu filho será o domínio de si mesmo.
Saga ficou silencioso, mesmo assim meneou a cabeça em assentimento, retirou-se e foi para a janela novamente, e debruçou-se no umbral ornado pela folhagem úmida E o som da garoa era o único som no recinto naquele momento. Ouvir aquelas palavras o deixou desconcertado. Na verdade meu irmão tinha um elo muito forte com o nosso mestre, ele confiava nele com a sua vida. Mas tinha gratidão por nosso tio. Eu afoito sentei-me no leito dele, e pedi que falasse do meu futuro. Ele demorou a proferir uma palavra, só falou que devíamos seguir a justiça em que acreditávamos, a intuição era a maneira que os deuses conversavam com os humanos, e se a intenção deles era partir em uma busca, que o fizessem, tinham a sua benção. Eu não entendi. Não queria deixar a Lakonia. Mas nosso tio, em apenas poucos instantes pode ler a alma do meu irmão. E naquela mesma noite, meu tio se fora para sempre. Adormeceu serenamente para toda a eternidade. Saga se manteve firme o tempo todo nos dias que seguiram o funeral, eu fiquei triste, mas naquele mesmo momento escolhi o mesmo caminho de Saga. E no nono dia, meu irmão quebrou o seu silêncio e veio falar comigo. Estávamos de frente para o mar, ao som do marulho, em uma noite fria próximo a aurora, eu me enrolei numa túnica escura e fiquei sentado na areia em frente ao mar mediterrâneo, contemplando. Saga veio em minha direção e disse que partiria da Lakonia para sempre. Que não havia nada para nós ali. Tudo tinha acabado.
Eu, só tinha ainda lembranças mas Saga advertiu para desapegar dessas memórias, pois tínhamos alma de cavaleiros. Eu assustei, então eu era um cavaleiro? E o indaguei. Ele me disse que não acreditava na justiça de sua cidade. Que Athena era a deusa que encarnava os idéias sublimes que seu mestre tanto fora procurar. E que sentira que devera lutar pela justiça, assim seu mestre quer que deixemos a Lakonia para seguirmos para o santuário de Athena, aquilo era um ensinamento, uma prova. Quando Saga disse tudo isso olhando para mim, os seus olhos brilhavam numa convicção infinita. Ele gesticulava, olhava para o horizonte apontava para o todo. Sua retórica era fascinante. Saga falava como um deus. Mas, era a vontade do mestre, ou a vontade íntima de Saga? Eu não me convencia à amargura não me permitia. Amanhecera e o sol erguia-se lentamente no horizonte róseo, o mar estava calmo de um azul profundo. Adormecemos ali, eu e meu irmão, e as cinzas de um pequena fogueira. Talvez aquela longa conversa que tivemos por toda a noite, seria a última. De longe, gritavam o nossos nomes, um bando de jovens aspirantes corriam em nossa direção nos saudando. Eram os nossos amigos de treino. Juntos já fizemos viagens em busca de aventura pelas ilhas mais próximas. Eles passaram a noite toda nos procurando pela cidade, ao nos encontrarem sugeriram que seguíssemos com eles para Argos, continuaríamos o treinamento militar e ficaríamos longe da Lakonia até que completássemos vinte anos.
Ouvindo aquilo quase aceitei a oferta, mas Saga recusou e ninguém entendeu, revelou a todos que iria para o santuário de Athena, se tornaria um cavaleiro. Fez-se um silêncio. Ninguém objetou contra Saga, todos confiavam na sabedoria dele. E um dos jovens disse:
— Está certo, que o deuses soprem os ventos favoráveis nessa missão. Mas saibam que aqui tem amigos, no que precisarem estamos todos juntos, unidos. Pela primeira vez sorrimos em concordância, isso se chamava amizade. Logo depois despedimos, e seguimos nossa viagem rumo ao santuário. O tempo todo guiados por um cosmo divino.
Aquela imagem se dissipou, e retornei ao templo de Nicurgo, estava de frente ao espectro de um cavaleiro que usava a imagem de nosso mestre. Ele estava terrivelmente sério. Novas imagens surgiram na minha mente, vi o espírito do meu tio sofrendo em chamas, e os corpos de nossos amigos aspirantes todos mortos. Eu gritei de dor, não queria aquela ilusão.
— Mas quem disse que isso é uma ilusão, é a verdade!
Tampei os ouvidos e me contorcia ao chão. O cavaleiro virou as costas para mim, seus cabelos eram longos por cima da capa branca que envolvia as suas ombreiras.
— Pensei que fosse forte. Mas não. Está perdendo tempo demais com o seu passado. Esqueça! É chegado o momento que você precisa se tornar um imperador de verdade, para isso deve enterrar o seu coração!
— O que disse? – balbuciei arrefecido.
— Você entendeu porque Saga é o cavaleiro de gêmeos? Ele não é conduzido por sentimentalismo, aprendeu desde cedo o que era ser um cavaleiro, ele tem desprezo pela dor, é indiferente ao mundo. Ele se concentra apenas em ser o mais forte, é o senhor de si mesmo! Ele nasceu para ser um cavaleiro de ouro.
Fechei os punhos com raiva, o que aquele fantasma sabia sobre mim, eu era tão forte quanto Saga e iria provar. Levantei-me, e o desafiei, naquele mesmo instante. Ele me olhou pelos ombros sombrio. Queimei o meu cosmo dourado, com tanta força, que da palma de minha mão esquerda uma bola de luz incandescente surgiu, pronta a explodir, direcionei na direção daquele espectro, uma chuva de explosões e exclamei com força:
— Explosão Galáctica!
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