Os caminhos de Nancledra eram os mesmos em relação ao passado. Em pleno advento de novas tecnologias a identidade da cidade não foi abalada. A circulação de pessoas e mercadorias cresceu vertiginosamente.

Mesmo com as inovações por toda a parte, sendo algumas restritas ou mais discretas que outras, havia uma perturbação disseminada por toda Mediterra.

Ainda que a noite demorasse para chegar em diferentes pontos do mundo conhecido, ela sempre chegava, juntamente com os pesadelos que para muitos se tratavam da materialização de seus medos, pecados e tantos problemas sob formas nunca antes vistas, além das já há muito conhecidas. Para outros, eram almas vagantes que se tornaram criaturas obscuras condenadas a uma condição irreversível.

A noite se tornou selvagem em todos os ambientes. Todos precisaram se adaptar com a força de suas crenças e instintos de sobrevivência.

Os animais noturnos suprimiam seu medo. Trabalhadores, vagabundos, comerciantes, mercadores, viajantes, autoridades, soldados, mercenários, espiões, piratas, criminosos... todos apenas precisavam enfrentar a noite. E nada consegue se colocar a frente daquele que precisa fazer o que tem que fazer.

Kenji guardou o caderno enquanto saía pela rua de acesso a estação observando tudo ao seu redor. Se sentia numa realidade muito diferente da qual estava acostumado. Talvez não somente pela arquitetura local ou o comportamento incomum das pessoas. Vagar numa cidade desconhecida, sem residência fixa, sem um trabalho, com perspectivas incertas do que estava por vir lhe deixava internamente assustado. Por fora exalava uma segurança artificial, como um aventureiro que fingia saber muito bem o que estava fazendo.

Muitos passos foram dados antes de parar numa praça. Em seu centro, havia o mapa da cidade talhado numa pedra solitária e logo a frente, grandes pedras quadrangulares estavam posicionadas de forma semicircular, apresentando relevos, pontos cardeais e alguns símbolos em suas superfícies que indicavam a direção e a distância de outras localidades.

Rolou os olhos por elas percebendo que uma mesma inscrição se repetia em todas: Basja Hatisui.

Quem sabe só essa ilha já é maior que Meusen, pensou consigo mesmo enquanto terminava o seu último recipiente de água.

Não muito longe dali, na taverna cinzenta, pessoas se embebedavam de reclamações e risadas, enquanto no balcão figuras solitárias se isolavam em seus próprios pensamentos.

Uma mulher de orelhas pontiagudas parcialmente cobertas pelos longos cabelos castanho-avermelhados se encontrava numa das pontas do balcão. Parecendo em transe com os olhos semicerrados e cabeça levemente inclinada.

Quando inesperadamente algo se chocou contra a entrada do local provocando um silêncio generalizado durante alguns segundos.

Homens se levantaram para arrancar os pedaços de madeira da porta danificada e empurrar o que havia ido de encontro a ela. Ela se levantou dirigindo-se até a rua.

Autoridades abordavam um rapaz, prendendo-o imediatamente e deixando seus pertences para trás.

A mulher de orelhas pontiagudas dobrou o pescoço para o lado. Na sua visão, restaurou tudo o que havia acontecido ali no passado recente.

Uma carroça desgovernada corria na direção de alguém que identificou ser uma freira. Num gesto rápido o rapaz que foi preso apontou a mão para o veículo o qual abruptamente mudou de direção para colidir contra a entrada da taverna.

De volta a si, memorizou o rosto do rapaz antes de desaparecer dali.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.