Corte de Promessas e Legados
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Aquilo era tão familiar. Viajar pela escuridão se tornara um hábito para Nehemia ao longo que seus poderes foram florescendo. Seu tio, Rhys, era muito prestativo e assim que a garota demonstrou a habilidade, ele a ensinou tudo que sabia. Ela adorava está cercada pela escuridão, acolhida pelas sombras como se fizesse parte dela. Mas enquanto era levada de volta pra casa, com seu primo segurando seu braço, emanando fúria pelo fraco laço que por pouco ainda existia entre eles, ela desejou com todas as forças que aquela viajem acabasse logo e pudesse se desvencilhar dele.
Por que as pessoas faziam promessas? Por que insistiam em dar esperanças só para depois quebra-las. Nehemia não entendia. Rhyagan tinha sido seu confidente mais íntimo desde que se lembrava, ela o amava com todas as forças e faria qualquer coisa por ele. Ele havia feito promessas para ela antes de partir, que eles não iriam se separar, que ficariam juntos apesar da distância e do tempo.
Mas ele não cumpriu com sua parte do acordo e agora estava com raiva porque ela fizera o mesmo. Inacreditável, era o que era.
Nehemia só percebeu que já haviam chegado quando ele soltou seu braço seu um pingo de delicadeza. Leves marcas marcharam a pele branca dela, latejando com a força que ele fizera, mas logo sumiram. Ela ignorou a dor e semicerrou os olhos pra ele, o faria pagar por aquilo, mas antes tinha que ver como sua mãe estava.
—Mãe, você está bem? O que foi que houve?- a garota foi correndo até a mesa de jantar, para os pés da sua mãe e se colocou de joelhos entre ela e seu pai que olhava confuso pra garota.
—Como assim se estou bem? Estou ótima, não houve nada!- Nestha respondeu rapidamente, desviando o olhar da filha para Rhyagan. Seus olhos cinzas brilharam ao ver a verdade estampada na face do sobrinho. Nehemia se encolheu ao seguir o olhar da mãe para Rhy, mas ele apenas escondeu as mãos nos bolsos e segurou o olhar da tia.
— Tem certeza?- Nehemia perguntou novamente, não queria acreditar no que o primo tinha feito.
— Sua mãe quase me matou hoje de manhã, então sim, ela está ótima! Afinal, de onde você tirou a idéia de que sua mãe não estava bem?- Cassian disse entre risos.
— É mesmo, de onde você tirou essa idéia ?- Nestha disse inocentemente, ainda mantendo o olhar no sobrinho, ela sabia muito bem o que ele tinha feito e não gostara nada.
Nehemia se levantou devagar, inspirou profundamente e soltou o ar, torcendo para que aquilo a impedisse de matar Rhyagan nos próximos segundos. A garota se virou e olhou para aquele mentiroso descarado, e com a calma que ainda lhe restará, ela falou:
—Você mentiu pra mim?-
Rhyagan não respondeu. O silêncio dele já era resposta suficiente.
—Por que raios você fez isso? No que estava pensando garoto…- ela se aproximava dele rapidamente.
— No que eu estava pensando? O que você tinha nessa cabeça oca quando aceitou ir sozinha pra corte daquele verme?- ele também se aproximou dela gritando, até que os dois estivesse a poucos centímetros um do outro. -Ele podia tê-la machucado, se é que ja não fez isso!-
—Até aonde eu sei, o que eu faço ou deixo de fazer não é da sua conta. Não lhe devo satisfações e eu sei me cuidar muito bem!- Nehemia gritou e então virou lhe as costas, passou a mão na cabeça que já latejava de raiva. Ela queria sair dali para se acalmar, não queria brigar, apesar de que ele merecia. Mas seu sangue fervia e mais do que nunca ela queria respostas, queria confrontar ele.
—E desde quando você se importa comigo? Da última vez que nos vimos, você virou as costas pra mim e sumiu!- ela se voltou pra ele e lhe deu um empurrão no peito, enfatizando a palavra você como se fosse um insulto.
—Eu me preocupo com você! Pensei que estaria aqui quando cheguei para conversamos, mas para minha surpresa a encontrei aos beijos com Niklaus como se fosse uma…-
Aquilo era demais. Antes que Rhyagan pudesse terminar a frase, Mia pulou nele e enroscou as mãos em seu pescoço e afundou as unhas muito bem feitas em sua carne. Ah ela queria fazer aquilo a muito tempo e se divertiu ao ver a cara de espanto dele ao tentar se desvencilhar de seu golpe, sem exito.
Apenas quando Ariel correu até os dois e puxou a irmã para longe do primo foi que Rhyagan voltou a respirar com dificuldade, tossindo enquanto se apoiava nos joelhos. Feyre o ajudou a recompor, mais ela olhava pro filho com descrença, como se não o reconhecesse.
—Você é louca!- Rhy falou voltando a se endireitar.
—Sou louca mesmo, e da proxima vez que ousar me insultar, eu mato você.- Não podia acretitar. Como ele era capaz de falar com ela daquele jeito. A garota sentiu seus olhos arderam se enchendo de água, mas por mais chatiada que estivesse, não iria da esse gostinho a ele. Ela respirou fundo e se acalmou. -De todos presentes, você é o único que não tem direito nem moral pra me chamar de vadia!-
Ariel segurava a irmã pela cintura, contendo sua fúria ao despejar aquelas palavras para que todos ouvissem. Nehemia não escutava nada ao seu redor. Seu ouvido zunia e sua mente estava longe.
Entretanto, podia ver sua mãe e pai apenas observando, ainda sentados. Aquilo não era novidade, eles dois sabiam quem venceria aquela briga. Cassian até ria um pouco do espanto do sobrinho. Mor estava de boca aberta assim como a inocente Elaim e Azriel estava calado como sempre. Amren sorria, e quando Nehemia olhou em sua direção ela levantou a taça de vinho em saudação e sorriu maliciosamente. Devia está adorando toda aquela algazarra.
—Está me ouvindo? Você está bem Mia? — Ela ouviu a voz do irmão que ainda lhe segurava cauteloso. Ela apenas balançou a cabeça em concordância para que ele a soltasse, e assim o fez. Ariel se manteve ao lado da irmã, ela sabia que não era pra conte-la e se para apoia-la.
—Vocês dois sabem realmente como dar um show em?- Foi Amren que quebrou o silêncio.
—Cala a boca Amren- Azriel falou calmamente.
— Eu vou para meu quarto, perdi a fome. Me desculpe mãe.- Rhyagan falou para a grã Senhora e então sumiu entre os corredores da casa sem dizer mais nada.
— Me desculpe por isso Mia, meu filho passou dos limites e vou ter uma conversa com ele.- Rhysand disse sério ao se aproximar da sobrinha.
—A culpa não é sua tio, não me deve desculpa alguma.- ela conseguiu falar. Amava os tios como se fossem seus pais, e se odiou por causar tanta confusão.
— Mesmo assim, vou conversar com ele.-
— Nós vamos querida.- sua tia Feyre falou com um meio sorriso e então seguiu os passos do filho, seu parceiro a acompanhando.
Depois que os dois sairam, ela segurou a mão do irmão e apertou com força em agradecimento. Se ele não tivesse a segurado, as coisas poderiam realmente ter ficado bem feias. Ariel apenas balançou a cabeça em concordância e voltou para a sua cadeira.
— Vocês não contaram pra ele, não foi?- a jovem caminhou até a mesa e apoiou as mãos em uma das cadeiras agora livres.
— Não tivemos a chance minha flor, antes que Cas falasse ele explodiu e foi busca-la. Espero que ele não tenha feito alguma besteira na Corte Primaveril. Isso só nós traria mais problemas.- explicou Morrigan.
— Felizmente não, e Klaus não percebeu nada, na verdade ele se divertiu com a situação, aquele cretino.-
— Então está tudo bem, pelo menos por enquanto.- Mor indicou a cadeira ao seu lado. — Venha, sente e coma. Beba alguma coisa!-
—Tudo que eu quero agora é um banho e descansar, mas obrigado tia.-
— Essa palavra ainda me apavora!- a loira brincou, conseguindo tirar um sorriso contido de Nehemia.
—E vocês dois- A garota falou, apontando para o seu pai e Amren que tentavam não rir da situação. — Tentem pelo menos fingir que não estão se divertindo com isso!- ela passou e deu um peteleco na cabeça do pai e então seguiu para a escada que levava para os quartos.
A garota andou devagar pelo corredor cheio de portas, mas não ouviu nada, seu tio tinha colocado uma barreira para que ninguém ouvise sua conversa com o filho, além do mais, Nehemia não ligava, a última coisa que queria agora era ouvir a voz de Rhyagan.
Sentia como se fosse desabar no momento em que estava sozinha em frente ao seu quarto. Como as coisas tinham saido do controle tão rápido? Como ela lidaria com ele depois do surto? Porque ele conseguia tirar ela do sério tão facilmente?
As perguntas viam e saiam de sua mente tão rápidas que não permitiam Nehemia de pensar na resposta. Realmente precisava de um banho. Não só para se acalmar e esclarecer a mente, pensar nas temidas respostas para suas inúmeras perguntas...mas também para tirar o cheiro de Klaus que se empreguinara nela nos últimos três dias, um cheiro de rosas e grama molhada delicioso que a fazia se sentir como o verme a que aquele aroma pertencia.
A fêmea estava com a mão na maçaneta da larga porta de madeira escura que se abria para seu quarto, quando antes mesmo dele falar alguma coisa, ela sentiu sua presença confortante, e olhou para vê seu irmão vindo em sua direção.
— Você realmente está bem?- Foi tudo que Azriel falou.
E não precisava dizer mais nada. Aquelas poucas palavras já eram o bastante para sua gêmea saber tudo que ele queria perguntar. "Eles te machucaram? Quer que eu fique com você ? Quer que eu acabe com fuça dele pra você ?"
Nehemia correu até seu encontro e o abraçou forte. Em meio a confusão, não tivera tempo pra falar com ele. A garota acariciava e cheirava os cabelos negros e rebeldes do irmão, lembrando da sua infância e de quanto o amava, quando sentiu suas mãos apertarem sua cintura com força.
— Eu senti sua falta, encrenca!- ele falou enquanto lhe cutucava as costelas dela bricando.
— Eu também senti sua falta, cabeça dura! Você não imagina o quanto.- ela falou a segurar o rosto dele com as duas mãos e lhe da um beijo na bochecha. — E não se preocupe comigo, eu não estou bem, mas vou ficar!- ela sabia que não adiantava mentir para o irmão, ele a conhecia melhor do que qualquer um.
—Quando estiver pronta, quero saber de tudo, tudo bem?-
— Eu te aviso.- e então os dois se soltaram e ela voltou para a frente do quarto e abriu a porta. — E ah, antes que me esqueça, pode deixar que eu mesmo quero ter o prazer de quebrar aquele rostinho bonitinho dele.- então piscou pro irmão e entrou no quarto já tirando aquele vestido e o jogando num canto.
Seu quarto era grande e arejado. Duas grandes janelas de vidro iluminavam o local com maestria, envoltas em cortinas azul marinho de um tecido grosso mais macio. Do lado esquerdo a entrada, sua cama a chamava para um cochilo. Lençóis brancos e macios se destacavam entre o dossel da mesma cor das cortinas, mais em um tecido leve, quase transparente. Na sua frente, bem no centro do quarto, uma estante estava cheia dos mais variados livros de romance, ação e feitiços dos quais Nehemia se aventurava sempre que tinha tempo. Uma pequena mesa com duas cadeiras estava largada ali para apoio, mais a fêmea quase nunca a usava, preferia está jogada nos tapetes fofinhos que ganhara de presente de sua tia da loja da melhor tecelã de Velaris. Mas foi para o lado direito que ela seguiu enquanto tirava sua langerie e seguia nua para o quarto de banho anexado. Era ali que sua penteadeira ficava e também seu guarda roupa.
Nehemia encheu a banheira, grande o bastante para comportar asas e até duas pessoas, com água quente e alguns sais e essências de sua preferência. Entrou na água sentindo o corpo todo relaxar com o contado, gemendo ao perceber o quando estava tensa. Deitou com a cabeça apoiada na borda e olhou para o teto, ela havia pintado estrelas prateadas e espirais de sombra ali quando era mais nova, agora a pintura já estava toda desbotada, mais ainda enchia o coração da garota de pensamentos bons.
Mas aquilo não era o bastante para esquecer o que havia acontecido. E antes mesmo que a água esfriasse, ela já não tinha mais lágrimas para expressar o quanto estava triste.
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