Corte de Promessas e Legados
5 Capítulo 5
Notas iniciais
O banho demorou mais do que Nehemia pretendia. Horas haviam se passado e a lua iluminava seu quarto, fazendo as peças de prata brilharem. Envolta em uma toalha ela se sentou na cadeira confortável que ficava em frente a sua penteadeira e observou seu reflexo.
Estava sozinha com seus pensamentos a tanto tempo que sentia como se estivesse sendo puxada para um lugar obscuro em sua alma, cada vez mais fundo e rápido, até que comessase a duvidar de se mesma. Será que estava realmente certa? Ou Rhyagan tinha razão em se afastar e ela não passava de uma aberração carente cheia de inseguranças, que estava tão desesperada a ponto de ficar com alguém como Niklaus.
Como ele conseguia fazer isso com ela em tão pouco tempo, a garota não sabia. Quando Nehemia estava começando a sonhar em supera-lo, ele a acordava com um grito. Toda vez que ela se atrevia a ama-lo, ele a odiava cada vez mais. Talvez o real inimigo estivesse dentro dela, a fêmea pesou.
Nehemia sentia que seria mais fácil lutar com alguém do que a guerra que enfrentava dentro de si. E ali parada na frente do espelho ela viu um monstro. E pela primeira vez na vida ela tive medo de si mesma e do era capaz de fazer pra se sentir viva, queria desesperadamente ser outra pessoa.
Ela estava horrível. Os olhos estavam vermelhos e inchados pelas horas que derramara lágrimas. Sua boca estava seca e seus lábios outrora carnudos e rosados, estavam secos e apagados. E sua pele branca estava pálida, sem seu brilho natural. Isso sempre acontecia quando Nehemia se deixava consumir pelas vozes dentro de sua cabeça. Os ecos silenciosos que a faziam se odiar. Seu corpo não gostava desses sentimentos e reagia de tal maneira.
Batidas ecoaram pelo quarto e a fêmea sentiu uma sentelha de esperança quando disse que, quem quer que fosse, podia entrar. Mas ao contrário do que ela pensou, era sua mãe que passara pela porta e veio até ela. Ela usava um de seus vestidos azuis acinzentados, simples, porém elegante e estava linda como sempre, o tempo só lhe fazia bem.
— Você está péssima.- Nestha falou com seu mal humor habitual. Mas a filha sabia que não falava por mal, acostumara- se a muito tempo com o temperamento e personalidade excêntrica da mãe. Aquilo a tornava única, e ela a amava do mesmo jeito.
— Nada que uns retoques não resolvam.- Sua tentativa de humor foi um fiasco, mas era tudo que conseguiu.
Sua mãe a encarou pelo reflexo e semicerrou os olhos cinzas a avaliando, e quando por fim terminou, ela suspirou e pegou a escova da penteadeira e começou a pentear os cabelos da filha.
—Ele a forçou a alguma coisa?- seu tom era sério, e Nehemia sabia que era melhor falar a verdade.
— Ele insinoou o que queria várias vezes, mas nunca deixei que chegasse tão longe. — Não era mentira, o herdeiro da corte primaveril tentara diversas vezes avançar em seu relacionamento, se é que isso podia ser chamado assim. A fêmea estremessia de repulsa só de pensar em dividir a cama com Niklaus. Ela não era boba, sabia que ele apenas a usava, isso não significava que não podia fazer o mesmo.
Talvez ela fosse mesmo uma aberração. Um monstro.
— Não deixe que ele a intimide.- Nestha intercalava as escovadas com suas mãos delicadas acariciando os cabelos longos da filha. Aquilo era o máximo de carinho que conseguia da mãe. E pra Nehemia, já era o bastante.
— Você é dona do próprio corpo. Faz e deixa de fazer o que quiser. Não deve explicações a ele.- sua mãe continuou, e já não falava mais de Niklaus.
— Minha relação com o Rhyagan é complicada mãe.- foi tudo que Nehemia falou e sua mãe não fez perguntas. Pronunciar aquele nome fez seus olhos arderem, mais ela não tinha mais lágrimas pra derramar.
A relação das duas era simples mais forte. Não havia demonstrações exageradas de afeto. Também não conversavam muito. Mas quando Nehemia precisava, ela estava sempre lá, firme como uma rocha, para acalmar a filha e dizer que no fim, tudo ficaria bem. Foi para a mãe que Mia correu quando seu primo a ignorou como se ela não fosse digna de se quer falar com ele.
— Terminei. Agora vá se vestir, estão todos esperando por você pra jantar.- Então Nestha devolveu a escova à penteadeira e pois a mão no ombro da filha, um leve sorriso iluminando seu rosto.
Nehemia, sem vontade, sorriu também e foi se vestir, enquanto sua mãe deixava seu quarto.
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Logo depois que seus pais o deixaram, Rhyagan abriu sua jaqueta e tirou de um bolso interno um conjunto de cartas que Nehemia lhe enviará a muito tempo atrás. Ele não havia lido nenhuma se quer. Não tinha conseguido. Era ridículo, chegava até a ser irônico se não fosse trágico. O herdeiro da Corte Noturna, o filho dos dois Grãos Senhores mais fortes de toda história de Prythian, não passava de um corvarde.
As coisas aconteceram rápido e de forma confusa naquela época. Ele tinha apenas 8 anos quando sentiu pela primeira vez o laço de parceria entre ele e a prima. Os dois estavam em uma das muitas comemorações da Queda das Estrelas daquele ano, e uma música lenta começou a tocar. Rhyagan não sabe o porquê, talvez fosse o caldeirão conspirando para que os dois ficassem juntos, mais ele a puxou para dançar.
A música era linda e melancólica, daquelas que fazem você repensar toda sua vida em meros minutos. As vezes ele se lembrava de pedaços desconectos da melodia, mas nunca por completo. E ali, com o corpo próximo ao dela, reparando as nuances do seu cheiro pela primeira vez, sentindo se completo por apenas segurar sua mão, ele começou a olhar ela com outros olhos. Um véu que os separavam havia se rasgado e ele pode vê ali, bem diante dele, a sua parceira. Tão linda com um vestido preto rodado e brilhante que a fazia parecer com o próprio céu estrelado.
Rhyagan sabia que ela sentiu o mesmo. O sorriso descontraído que havia no rosto dela, sumiu, dando lugar a um olhar de compreensão, como se tudo fizesse sentido. Entretanto, o garoto não se sentiu assim.
Na verdade, aqueles minutos foram os mais assustadores de toda sua vida. Como era possível que eles tivesssm se encontrado com tanta facilidade? Ele lembrava das histórias do pai, que teve que esperar 500 anos para encontrar sua parceira, no entanto, lá estava ele, com apenas 8 anos, uma criança, descobrindo que sua parceira estivera ao seu lado desde que ainda eram bebês. Aquilo o fez perder sua mente. Não fazia sentido. E ele teve medo. Teve medo do que sentia por Nehemia.
Foi naquele mesmo momento que ele tomou a decisão de não cumprir com a promessa que tinha feito a ela poucas horas antes, enquanto bricavam, inocentes sobre a ligação entre eles. Ele não iria manter contato com ela.
Rhyagan sentia que não tinha outra escolha. Talvez, com a mentalidade que tem agora, tivesse feito diferente. Mas ele queria se conhecer, ter experiências que o fizessem crescer, se tornar um homem, antes que pudesse assumir aquele laço e pensar em amor. Mas não poderia fazer aquilo com ela por perto.
Ele queria está ao lado dela. Mas não podia.
Então ele e Ariel foram mandados para o acampamento ilyriano para receber treinamento. Não demorou muito para a primeira carta chegar. Morrigan viera visitar e fazer companhia a sua mãe, Feyre, enquanto ela ainda se instalava na velha cabana que pertencera a sua falecida avó, e trazia consigo dois envelopes. Um pra Ariel e um pra ele.
Seu primo abriu e leu a carta em poucos segundos, escrevendo uma resposta logo então. Rhyagan fugiu para seu quarto e encarou a carta durante uma hora antes de decidir guarda-la na gaveta de sua cabeceira, com a desculpa que iria ler depois. Mais cartas se seguiram e esse dia nunca chegou. Até que essas parassem de vir.
Uma dia, quando ele tinha acabado de completar 12 anos, e voltava pra casa depois de um longo dia de treino pesado, Rhyagan paralizou quando sentiu um cheiro inebriante. O cheiro dela. E parada na frente da velha cabana ele a encontrou.
Ele ainda se lembra perfeitamente de sua aparência. Nehemia tinha crescido e seu corpo estava criando forma de uma mulher rapidamente. Seus cabelos negros brilhavam e balançaram ao vento e sua pele pálida se destacava em meio a toda aquela lama e sujeira. Usava calças coladas no corpo e uma bata folgada com um leve decote de cor azul marinho. Ele sabia que aquela era sua cor favorita, e com razão, combinava e realçava seus encantadores olhos azuis. Mais o que arrebatou o coração de Anakin, fora o sorriso. Ela sorria pra ele, e ele sentiu pela ligação, que estava feliz em vê-lo.
O garoto esquecerá de como respirar. Seu coração batia acelerado e a única coisa que ele queria era correr ao encontro dela e beija-la. Queria saber qual era o gosto de seus lábios carnudos. Queria saber a sensação de abraca-la forte enquanto o fazia.
Aquilo era deslumbrante e assustador. Foi então que descobriu que a amava. Todo aquele tempo que passará a afastando, só fazia com que esse sentimento crescesse até que não fosse mais capaz de ser contido. Ele havia conseguido encontrar o amor da vida dele aonde ele menos esperou ou devia procurar. Bem ali na sua frente.
Rhyagan se jogou na cama, afundando o corpo cansado da viagem nos lenços quentinhos e macios. Ele estava com raiva, com ódio por ter sido tão medroso e covarde naquela época. Pois quando Nehemia fez menção de ir em sua direção, ele virou as costas e voou para bem longe, sem olhar lara trás.
Ele soube que tinha ido longe de mais quando sentiu uma onda de sentimentos pela ligação de parceria. Raiva, dor, tristeza, dúvidas e muitos outros confusos sentimentos que Nehemia sentiu naquele momento.
Depois daquilo, ela não voltou mais ao acampamento. Ainda enviava cartas para o irmão, mas nenhuma chegava para ele. Nem mesmo a ligação parecia existir.
Então ele figiu que o que sentia era apenas um devaneio de sua mente, que adorava lhe pregar peças. Rhyagan começou a descobrir sua sexualidade com as ilyrianas de sua idade e quando completou 17, tinha conquistado a fama de galinha no acampamento.
Por isso Nehemia estava tão chatiada. Logo ele, um cafajeste em pessoa querendo lhe dar lições de moralidade e pudor. Realmente, ele merecera o que ela fez e muito mais.
Tinha que se desculpar com ela,não só porque seus pais mandaram, mais porque era o certo a fazer. Ele tinha tomado essa decisão depois de longas horas de ponderamento e lembranças.
O herdeiro usaria essas lembranças como um sinal de alerta a partir dali. Ele faria de tudo para reconquistar sua amada e usaria o que sentia por Nehemia como um ponto focal para não perder de vista o que mais queria. Sua parceira.
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