Corrompidos
1 Capítulo 1 – Chuva, Livro e Decisão
Notas iniciais
Espero que gostem!!
Uma boa leitura o/
Os pingos grossos de chuva chicoteavam as costas de Thalia Grace. Mesmo com as gotas geladas escorrendo pelo seu corpo, a garota ainda andava curvada com intuito de proteger seu exemplar. Doces Brutalidades vinha ganhando cada vez mais fama no exterior, e ela sentia orgulho por ter sido uma das primeiras a contemplar a saga Quem disse que os brutos não amam?. Nunca admitiria para alguém que algumas vezes desejara ser como a protagonista, tendo alguém para apoiá-la mesmo sendo uma mulher problemática.
Thalia estirou a língua enquanto tentava fugir da chuva. O que raio a fazia pensar dessa maneira? Ponderou em começar uma discussão consigo mesma, mas já sentia seu corpo ficando quente. Estaria ela com febre? A ideia a fez sentir raiva. Se estivesse era provável que seu pai a proibisse de continuar morando no pequeno dormitório, e ela voltaria para algum reformatório horrível.
Ao longe, a enorme e esquisita hospedaria exibia o letreiro vergonhoso que dizia Qualquer um é bem vindo, e logo abaixo uma pequena foto de três crianças sorridentes. Thalia nunca sentiu alegria ao ver aquela publicidade medíocre, mas com o vento forte que a fazia tremer, conseguiu sorrir. Correu para dentro do pequeno cômodo aonde a proprietária esperava por mais inquilinos.
Senhora Fitz não era uma pessoa agradável à primeira vista. Sua corcunda e baixa estatura a deixavam com jeito de bruxa má, apesar de seus olhos castanhos e doces contradizerem a imagem. Senhora Fitz colocou as mãos gorduchas nos cabelos grisalhos e gritou.
- Thalita! – Thalia deixou seu exemplar em uma das pequenas poltronas vermelhas, e continuou em pé, encharcada. Senhora Fitz nunca acertava o nome dos inquilinos, ou assim deduzia, já que não havia encontrado nem visto ninguém além de Senhora Fitz, e enquanto pudesse evitar contato com outras pessoas, melhor para ela. – Fique aqui, querida. Buscarei uma toalha.
- Não precisa se preocupar, senhora Fitz. – A última coisa que a garota queria era dar trabalho para alguém. Doces Brutalidades poderia ter esperado na livraria.
- Imagine!
Thalia observou a pequena senhora se afastar, as perninhas andando rápidas. Ao deparar-se com o cômodo vazio, não se importou com trivialidades. Colocou as mãos nos cabelos curtos e os torceu. Viu os pingos caírem no tapete velho. Sentia seu corpo trêmulo, apesar da salinha quente e aconchegante.
- Você quer morrer de epidemia? – perguntou uma voz atrás de Thalia. Já na defensiva, ela se virou para a porta, irritada consigo mesma por não ter se prevenido contra um ataque. Na verdade, nunca imaginaria que mais alguém teria sido pego pela chuva além dela. Era um horário bem tarde. Será que a pessoa também comprara Doces Brutalidades?
O rapaz loiro fechou o guarda-chuva azul. Que infeliz, pensou ela levemente irritada. Bem, a sorte não costumava sorrir para si mesmo, ela se conformou. Logo em seguida, ele a encarou. Seus olhos tempestuosos eram sugestivos. Thalia se perguntou se ele podia ler mentes, e ergueu as sobrancelhas. Quem sabe?
Para sua surpresa, o menino riu.
- Pode abaixar os punhos? – Ele ergueu as mãos em sinal de rendição. Com vergonha, Thalia fez o que ele pediu. Mal percebeu que estava em posição de ataque. Ela o analisou mais cuidadosamente, assim que ele abaixou as mãos. Usava camisa social com um logo azul que Thalia se lembrava muito bem, uma pasta de couro e calça social. Ah, droga.
Ao perceber que ele também a olhava, Thalia sentiu um misto de querer se esconder e de querer socá-lo.
- Ahn – Ele desviou o olhar. – Pode me dar licença?
Thalia percebeu que estava bloqueando a passagem, e deu um passo para o lado. Não responderia em hipótese alguma, ainda não sabia se ele era inimigo ou um aliado. Não poderia dar liberdade para alguém com aparência suspeita como ele.
Ele passou por ela e apoiou-se no balcão de madeira. Inquilino novo? Seus olhos se voltaram para a pasta. Más lembranças vieram como uma avalanche. Thalia precisava esquecer novamente. Agindo como se a culpa dos acontecimentos fosse toda do loiro e de seu uniforme bem passado, ela ficou emburrada.
A morena sentiu seu corpo ser envolto por algo macio e aconchegante. Senhora Fitz já havia voltado.
- Bem melhor, não é querida? – perguntou a senhora.
Thalia assentiu. Ela apertou a toalha mais forte contra o corpo e logo começou a se enxugar ali mesmo. Se senhora Fitz não via nenhum problema, ela também não.
- Ah! Você aqui, querido? – Senhora Fitz colocou seus óculos minúsculos e Thalia percebeu a expressão de preocupação que ela exibia.
- Estava com saudade de seus cookies. – Thalia olhou para as costas grandes do rapaz e sentiu um pouco de repulsa. Que puxa-saco. Ele começou a bater uma chave no balcão; era um barulho incrivelmente irritante.
- Ora – Fitz riu. – Não fale isso, o segredo é ter paciência para assá-los.
Thalia desistiu de tentar secar sua roupa, mas conseguiu ficar um pouco menos encharcada. Ela colocou a toalha no braço e tomou extremo cuidado ao pegar seu livro. Pelo menos aquela chuva combinaria com o exemplar.
- Vovó Fitz – A garota, que antes havia se encaminhado até a porta que dava acesso aos dormitórios, parou para escutar. O loiro era neto? – Ainda tenho um lugar aqui?
- É claro que sim. – ouviu.
A morena girou a maçaneta e adentrou o corredor coberto e de madeira. Seu coturno fazia barulho enquanto ela se dirigia ao seu quarto, o 303. Abriu a porta com um solavanco, já que de acordo com senhora Fitz, aquela porta por ser antiga costumava emperrar com frequência.
Deixou o livro na pequena poltrona que comprara por um preço muito baixo e tirou o casaco de couro. Ela olhou para o seu lugar. Não havia nada que dissesse “este lugar pertence à Thalia, você vai se ver com ela se entrar”. Não tinha fotos de família, nem pequenas esculturas decorativas, como costumava ter na casa de Madalene em Quem disse que os brutos não amam?.
Ela se sentia cansada e sozinha. A distância que tinha de sua família geralmente não a afetava, mas ouvir que até mesmo senhora Fitz tinha um neto, e que ele tinha um lugar para voltar, deixou-a em um estado crítico.
Com desânimo, Thalia entrou no banheiro. Colocou a toalha que pegara emprestado na pia minúscula, tirou os coturnos, o jeans velho e preto, e a blusa cinza com os dizeres “Não me siga, eu também estou perdida”. Olhou para seu rosto no espelho e fez sua usual análise. Ela não se parecia com a mãe, uma atriz insana, nem com o pai, nem com o irmão perfeitinho. Talvez os olhos fossem semelhantes, mas apenas eles.
Entrou no Box e ligou o chuveiro. A água quente era acolhedora. Tomou uma decisão. Ela não iria para a escola de seu pai, de jeito nenhum. Não suportaria ser taxada novamente como a filha desordenada; detestaria conviver com metidos como aquele loiro; e definitivamente seu irmão não iria querê-la em seu território.
É, ela provavelmente iria para outro reformatório. Isto é, se seu pai conseguisse encontrá-la.
Notas finais
Vejo vocês no próximo o//
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