Correnteza
1 Capítulo Único
Notas iniciais
–É bonito aqui, né? – eu disse nervosamente, olhando para Flake.
–Uhum. – ele disse, acompanhando os meus passos. Eu fiquei admirando as cores vivas das suas roupas e quase bati a cara numa árvore. Ele caiu na gargalhada – Esqueceu que precisa olhar para frente enquanto anda?
–Não consigo olhar para frente – eu cocei minha cabeça. Flake levantou uma sobrancelha e eu sorri – Não com um cara tão lindo assim do meu lado.
Ele tentou engolir um sorriso e suas bochechas ficaram vermelhas. Flake era bonito sempre, apesar de ele sempre querer ficar feio. Mas naquele dia em especial ele estava mais bonito. Ele estava usando um poncho de lã multicolorido, que parecia um caleidoscópio, por cima de uma de uma camisa de flanela verde e preta. Estava usando também uma calça jeans de um azul bem claro, umas luvas sem dedos pretas e seu coturno de couro surrado, como sempre. Ele parecia um personagem tirado de um livro de crianças, todo colorido e esguio.
Flake de repente se colocou na minha frente e começou a andar de costas, acompanhando meu passo, com um sorriso sarcástico no rosto. Eu dei uma risadinha.
–O que você tá fazendo?
–Assim você não bate mais nas árvores. – ele riu.
–Flake, você vai cair. – eu disse isso esperando que ele risse e saísse do caminho. Mas ele continuou andando, com aquele sorriso de lábios fechados no rosto – Flake, pára com isso. Eu não quero que você caia. – ele continuou andando e eu engasguei quando ele quase bateu numa árvore – Flake! – eu o puxei pelo braço. Ele agarrou meu braço e me puxou e nós rolamos no chão coberto por folhas vermelhas.
Paramos de rolar quando chegamos bem perto de um rio, o rio que tinha naquela floresta. Flake jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada. Eu também comecei a rir e dei um soco nas costelas dele, o que o fez tossir, mas ele não parou de rir.
–Seu idiota! – eu disse, entre risadas.
–Sou o seu idiota. – ele cantarolou. Eu rastejei para cima dele e dei um beijo em sua bochecha. Ele respirou fundo, tentando se acalmar, notando que o que viria a seguir seria sério. Enrolou seus braços ao redor da minha cintura e colocou seus lábios suavemente sobre os meus. Notando que ele não ia fazer nada, eu introduzi minha língua na boca dele. Flake tremeu e acompanhou o movimento da minha língua com a sua.
–Eu te amo. – eu sussurrei, quebrando um pouco o beijo.
–Também. – ele respondeu e seus olhos se moveram para cima, se concentrando no rio à nossa frente – Você sabe nadar? – ele disse depois de uma pausa.
–Um pouco. E você?
–Ah... – ele pareceu envergonhado – Não. Eu não gosto de nadar.
–Já tentou? – eu levantei minhas sobrancelhas.
–Não. Mas eu sei que eu não gostaria. – o olhar dele continuava fixo no rio.
–O que te preocupa? – eu perguntei depois de um tempo, me ajeitando em cima dele.
–Em não saber nadar? – ele riu.
–Não, na vida. Você parece preocupado.
Flake suspirou. É, alguma coisa o preocupava ou o deixava triste. Eu o conhecia faz tempo, eu conhecia sua linguagem corporal.
–Não é nada. – ele disse.
–Flake... Me fala. Sou seu amigo. E namorado.
Ele riu.
–Ah, Izzy, eu só me sinto meio perdido.
–Perdido como?
–Você sabe como. – ele resmungou. Eu gelei. Não queria que ele ficasse bravo naquele momento, porque eu queria mais do que nunca que esse “encontro” desse certo.
–Você não gosta mesmo daqui, não é? – eu perguntei suavemente.
–Não é isso... Aqui tem umas coisas legais, tipo esse bosque e o cinema, tem uns doces legais, meninas bonitas, Izzys bonitos... – ele deu um sorriso grande e eu ri suavemente.
–Você vai voltar para Berlim daqui a uma semana, vamos aproveitar. – uma sensação de tristeza me invadiu, apesar de eu parecer feliz. Eu não queria mesmo que o Flake fosse embora, principalmente agora que nós estávamos namorando.
–Eu não vou mais. – ele levantou os ombros.
Meu queixo caiu.
–Você tá ficando por minha causa?!
–Uhum. – ele deu um sorrisinho – Sem você eu não existo.
–Aah, isso é fofo. – eu o abracei com força – Te amo, Flake.
–Também te amo, Izzy. – ele riu suavemente.
Ficamos lá, deitados na margem do rio, olhando o céu azul em cima de nós que se misturava com as folhas das árvores altas, nos estapeando para tirar as formigas que subiam na gente. Eu fechei os olhos para me concentrar no quente do peito de Flake e no barulho dos passarinhos. Comecei a ouvir passos suaves, e o barulho deles só foi aumentando.
–Tem alguém vindo. – Flake levantou a cabeça. Ele parecia alarmado.
–Deixa pra lá. – eu sussurrei no peito dele – Eles não vão ligar.
Mas ele não deitou a cabeça de novo. No meu estado quase dormindo, eu o ouvi engasgar e tremer. Abri os olhos, confuso.
–Isso é fofo. – soou uma voz que não era nem minha e nem de Flake. Eu levantei a cabeça e vi parados à nossa frente um grupo de uns três meninos. Eu os conhecia. Os nomes deles eram Felix, Leo e Paul. Esse segundo mencionado, Leo, era aparentemente o líder dos três. Ele também tinha uma fama na escola. Primeiro porque ele era o mais velho da classe (tinha 17 anos enquanto todo mundo tinha 16), segundo porque ele era rico e podia arrumar o que ele quisesse e quem ele quisesse e terceiro porque as meninas o achavam bonito. Apesar de todas essas características que o transformavam no homem que toda menina fútil quer e no exemplo que todos os meninos querem seguir para se darem bem na vida, esse cara era mau. E a podridão da sua alma escorria por entre as suas roupas caras de marca.
–Ah, que ótimo. – Flake disse sarcasticamente, irritado – Agora isso para estragar o meu dia.
–Ninguém pediu sua opinião, Christian. – Leo cuspiu o nome verdadeiro de Flake como uma maldição. Flake, por sua vez, se levantou furioso, com os punhos cerrados.
–Por que vocês não vão encher o saco de outra pessoa? – eu disse, me levantando também.
–Porque é mais legal encher o saco dos nerdzinhos. – Leo disse, rindo perversamente. Ele se aproximou de nós e nos avaliou dos pés a cabeça. Eu mordi o lábio quando ele se aproximou mais de Flake. Flake também notou a ameaça, mas não se mexeu. Ou ele estava assustado demais para se mexer, ou ele estava testando o playboyzinho.
Leo levantou uma mão e Flake se encolheu inteiro, esperando o tapa. Eu engasguei e quase agarrei a mão de Leo, mas para nossa surpresa, ele não deu um tapa em Flake, e sim pegou seus óculos grossos de lentes redondas. Eu fiquei esperando o momento em que ele ia explodir. Ele odeia quando tocam em seus óculos (e livros). Pelo que eu sei, o Flake usa óculos desde bem criançinha, então o objeto já tinha virado uma parte do corpo dele.
–Devolve isso. – Flake disse com uma calma que me surpreendeu. Leo colocou os óculos de Flake sobre seu próprio nariz.
–Nossa, você é cego mesmo, hein? – ele olhou à sua volta, rindo. Aí Flake explodiu e pulou em cima dele, tentando desesperadamente pegar os óculos.
–Você vai quebrar! – Flake gritou enquanto seus braços se mexiam desesperadamente, tentando arrancar os óculos do mais forte – Me devolve, por favor!
Antes que eu pudesse fazer algo, os outros dois meninos me seguraram para que eu não pudesse ajudar o meu namorado desesperado.
–Deixe-o em paz! – eu grunhi, tentando socar os meninos que me seguravam com força.
Leo pediu para Flake parar de lutar, pois ele ia devolver os óculos. Ele segurou-os com as duas mãos e sorriu maliciosamente. Ele deu um chute no peito de Flake, que voou facilmente e caiu no rio. Por sorte, a correnteza não estava tão forte e aquela parte do rio era rasa. Flake engatinhou desesperado, saindo da água ofegando por causa do chute em seu peito. Leo apenas riu e forçou os óculos com as mãos.
–Já chega! – Flake gritou, quase chorando – Não os quebre, eu gosto deles!
–Ah, gosta? – Leo forçou ainda mais e um estalo foi ouvido, mas os óculos não se quebraram.
–Pelo amor de Deus! – Flake gritou e sua voz ondulou enquanto ele estendia uma mão para tentar pegá-los inutilmente.
–Não! – eu gritei, enquanto meu coração acelerava. Ver o Flake naquela situação me deixou muito nervoso.
Leo nos ignorou e partiu os óculos ao meio, com um estalo alto. Flake escondeu o rosto nas mãos, chorando muito. Leo riu da desgraça dele e jogou os óculos no chão. Flake tentou pegá-los e Leo pisou com força na mão dele. Ele deu um grito seco e Leo o puxou pelos cabelos.
–Você vai chorar, Christian? Vai chorar no colo da sua mamãezinha? – Leo riu alto – Ah, me esqueci de que você é adotado! Você não tem uma mamãezinha!
Lágrimas queimaram nos meus olhos. Aquele cara conseguia ser realmente podre quando queria.
–Deixa a gente ir. – eu disse e minha voz ondulou – A gente só quer ficar em paz.
–Paz? – Leo disse suavemente – Vou te dar um pouco de paz. – meu coração foi parar no estômago quando ele levantou seu punho fechado no ar e o desceu com tudo no rosto de Flake, que soltou um gemido abafado e caiu de cara no chão – Que tal essa paz?
Flake levou as mãos ao ferimento recém-aberto no canto de seu lábio, tremendo quase que convulsivamente. Leo agarrou o cabelo dele novamente e enfiou seus dedos nojentos na garganta de Flake, que tossiu igual um condenado e quase vomitou por vezes.
–Ah! – ele tirou os dedos da boca de Flake abruptamente – Não me morde, sua putinha! – ele o chutou no estômago e Flake rolou para o lado, gemendo e se encolhendo numa posição fetal, tentando inutilmente se proteger.
–Acabe com isso. – a voz de Flake era um mero sussurro fraco – Se você quer me matar, vá em frente.
–Não, Flake! – eu comecei a chorar e ele olhou para mim e seus olhos de repente ficaram calmos. Mas isso foi por pouco tempo, porque Leo o arrastou até o rio. Ele tentou rastejar para fora, mas Leo o segurou e mergulhou sua cabeça na água. Eu entrei em pânico profundo e comecei a gritar e me debater feito um louco – Seu psicopata! Solte-o, você vai matá-lo! Não, não o mate!
Flake não podia fazer muita coisa além de se contorcer como um peixe preso numa rede de pesca. Quando os movimentos dele tinham praticamente cessado, Leo o puxou de volta para a superfície e ele tossiu e ofegou, buscando ar.
–Você é doente! – Flake grunhiu e Leo o segurou embaixo da água novamente.
De repente, uma espécie de alarme começou a soar. Eu sabia o que aquilo significava: o rio ia transbordar. Esse rio já não era um lugar seguro com o nível normal, então quando trasbordava ele parecia um mar violento. Leo sorriu maliciosamente.
–Leo, sai daí. – eu disse – O rio vai transbordar, é perigoso.
A correnteza já começava a ficar mais forte. Um Flake encharcado olhou para mim, com seus olhos azuis cheios de medo.
–O Izzy tem razão. – Flake disse, tentando manter a calma – É melhor a gente ir embora.
–Quem disse que eu vou te deixar ir embora? – Leo sorriu novamente e antes que Flake pudesse dizer “O quê?!” o punho dele já havia aterrissado duas vezes em seu rosto. Flake caiu para trás e Leo saiu de cima dele. Com a perda de peso e a força da correnteza, Flake começou a ser levado lentamente.
–Merda! – ele berrou, tentando agarrar qualquer coisa, as plantas em volta da margem, a terra embaixo do rio. Mas a correnteza era mais forte do que ele e a força só aumentava. Fora que ele não sabia nadar. O desespero tomou conta de nós dois – Alguém me ajuda, eu não sei nadar! – ele gritou, chorando enquanto a correnteza o levava.
–Não! – eu gritei, me debatendo ainda para me soltar dos braços dos dois meninos, que pareciam ser feitos de aço – Flake, volta! Flake! – me virei para Leo e cuspi nele – Seu psicopata! Ele vai morrer! Ele vai se afogar!
–Não tem problema...
–Socorro! – a voz de Flake estava distante e logo ele era um pontinho claro navegando sem controle no rio.
–Flake, eu vou te salvar! – eu gritei para ele – Aguenta!
Eu não escutei nada como resposta. Meus olhos aflitos procuraram Flake, mas ele não estava mais lá. Ele tinha afundado. Leo me deu um soco no rosto e os meninos me soltaram. Eles caminharam calmamente para fora do bosque, rindo. Eu até pensei em ir atrás deles, mas eu não tinha tempo. Eu tinha que tirar o Flake da água o quanto antes.
Eu corri até meus pulmões ficarem em brasas, chamando pelo nome dele e procurando-o pelo rio violento. Eu vi umas pedras meio submersas e meio fora da água do rio e fiquei com medo de ele ter se machucado ou ficado preso nelas embaixo da água. Mas aí eu ouvi a voz característica:
–Izzy! Eu to aqui!
Me virei e lá estava ele, pendurando numa pedra, lutando contra a correnteza e cuspindo a água que batia em seu rosto.
–Flake! – eu exclamei com alegria – Flake, eu to indo aí! Segure-se na pedra!
–Rápido! – ele choramingou.
Eu tinha colocado meu pé na água, quando um jorro de água bateu no rosto de Flake e o arrancou da pedra. Eu acompanhei com a cabeça o corpo magrelo sendo levando, enquanto seus bracinhos batiam desesperadamente na água. Eu corri mais, tentando acompanhar o corpo. Mas aí ele simplesmente desapareceu de novo. Eu gemi e pulei na água. Logo a correnteza me puxou e meu corpo bateu contra as pedras. Eu estava com dor e meus olhos queimavam porque eu os abri em baixo da água. Mas eu não ia parar de procurar. Eu sairia dali com o Flake ou não sairia. E de repente eu me senti disposto a morrer junto com ele. Fiquei até pensando na notícia que sairia no jornal “Corpos de garotos são encontrados no rio”. E aquele merda do Leo ia sair ileso, como sempre. Mas ele ia ver só, quando eu saísse daquele rio, vivo e com o Flake. Minha lágrimas já se misturavam com a água do rio e meus pulmões ardiam de tanto que eu segurava a respiração. “Não se afogue, não se afogue” eu pensava nisso para me manter consciente.
Eis que eu vi algo colorido e meu coração bateu mais rápido. Flake! Eu tinha achado-o! Eu o agarrei e ele não se mexeu. Vi que os olhos dele estavam fechados e isso me preocupou. Tentei puxá-lo do fundo, mas ele não saiu. Nadei mais para o fundo e descobri que o pé dele tinha ficado preso em uma pedra, por isso ele não subia. Girei o pé dele e o tirei de lá com cuidado, porque o tornozelo parecia quebrado. Eu o agarrei pelo peito e nadei para fora até alcançar a margem.
Eu puxei Flake para longe do rio e me deitei ao lado dele.
–Fla... Flake... Nós conseguimos, amor... Estamos vivos... – eu sorri, dizendo entre pausas para respirar. Aí eu notei que ele não estava respirando. O peito dele não subia e descia como o meu. Dei um pulo e comecei a fazer respiração boca a boca. Os lábios dele tinham gosto de sangue por causa da ferida que Leo tinha feito e de água do rio. Fiz aquilo por um bom tempo. Mas nada – Flake respira – eu disse, repetindo o procedimento – Merda, respira! Respira, seu idiota! Não é pra você morrer! – lágrimas escorreram dos meus olhos e eu continuei respirando por ele – Christian, não! Não morre! Respira! Abra os olhos! – minhas esperanças estavam indo embora – Eu quero que você abra os olhos pra mim de novo, como você sempre faz... – eu solucei, desistindo daquilo. Deitei minha cabeça no ombro dele, chorando desesperadamente. Acariciei o rosto molhado e frio dele. Os lábios dele estavam azuis – Chris... Christian... – eu o abracei com força, chorando convulsivamente. Ele não se mexeu e eu fiquei mais frustrado ainda – Por que agora? Por que você tem que morrer agora? Eu não acredito que aquele filho da puta do Leo tenha te matado! Ele vai para a cadeia, Flake. – eu dei um beijo nos lábios inertes dele e tirei alguns fios de cabelo que tinha caído sobre seu rosto. Eu olhei para cima, como se buscasse ajuda divina. E eu estava mesmo. – Está um dia lindo, não é? Deus? Deus, se você existe – eu não acreditei que estava rezando. Era a primeira vez em 4 anos – Faz o Flake ficar bom, ainda não é a hora dele, traz ele de volta para mim! Se você o fizer viver, eu juro por você que nunca mais fumo maconha! Ah, merda! – eu apertei o corpo contra mim, soluçando.
Ouvi uma tosse forte e um gemido. Afastei o corpo de mim. Sim, era o Flake! Ele estava respirando e tossindo toda a água que engoliu!
–Ah, obrigado meu Senhor! – eu gritei pateticamente – Flake, você tá vivo!
–Uuh... – ele gemeu e entortou os olhos. Parecia que ele ia vomitar. Eu o coloquei deitado novamente na grama e ele balançou a cabeça, gemendo de dor.
–Flake! Você tá me vendo? Quantos dedos eu tenho aqui? – eu levantei dois dedos na frente do rosto dele. Ele me olhou com aquela cara de “WTF?”.
–Dezessete. Me deixa em paz, Izzy. – ele gemeu.
–Esse é o Flake que eu gosto! Meu Corn Flake delicioso! – eu ri, sabendo que ele odiava quando o chamavam de “Corn Flake”.
–“Corn Flake” é a sua mãe de três tetas, sua bicha escrota! – ele rosnou, virando de lado – To me sentindo uma merda, minha cabeça tá doendo e parece que eu vou vomitar meus pulmões. E aí você vem brincar comigo!
–Ah, me desculpa... – eu gemi tristemente – É que eu gostei tanto de quando você respirou! – aí eu lembrei da promessa que tinha feito e fiquei triste de novo – Mas agora eu não vou mais poder fumar maconha. Merda, Flake! Não vou mais poder fumar maconha por sua causa!
Ele mostrou o dedo do meio para mim e eu ri.
–Por acaso você rezou enquanto tentava me reanimar? Eu podia jurar que te ouvi rezando.
–Você tava acordado, seu potro?!
–Claro que não, seu imbecil cego! Eu conseguia ouvir mais ou menos, mas não conseguia me mexer ou respirar. Deus, é a pior sensação do mundo você não conseguir respirar!
–Hmm... Vamos para casa? Você precisa tomar um banho quente e descansar.
–Eu adoraria. – ele se sentou e segurou a cabeça latejante entre as mãos.
Me levantei e dei a mão para ele. Ele segurou e eu o puxei, mas logo que ele tentou pisar no chão ele caiu.
–Aaah! Aah! – ele gemeu, segurando o tornozelo – Eu acho que quebrei o pé!
–Vamos pro hospital, eu te carrego. – estendi meus braços para ele e ele levantou uma sobrancelha.
–Você me agüenta?
–Acho que sim, você é tão leve que voou uns dois metros com aquele chute do Leo.
–Ah, aquele filho da puta... Ele me paga. Vou botar laxante na bebida dele.
Eu caí na gargalhada e Flake também, apesar de estar morrendo de dor. O pobre menino só queria descansar, mas ainda tinha que ir pro hospital engessar o pé. Eu o segurei nas minhas costas; ele era mais leve do que eu pensava.
–Tenta não balançar muito, ainda estou meio enjoado. – ele disse, me dando um beijinho na nuca – E cuidado com meu pé. É o esquerdo.
–Entendi, entendi. – eu disse debochadamente – Vou ser cuidadoso, prometo.
Flake riu suavemente. Andamos uns dez minutos até sairmos do bosque, ambos em silêncio. Mas o silêncio foi quebrado pela voz do meu namorado machucado:
–Algum dia eu ainda te carrego... Nas costas...
–Acho que você não tem tanta força. – eu ri suavemente – Mas se quiser tentar...
–Seria legal, porque você vive me carregando.
–É... Flake?
–Hm?
–Você vai aprender a nadar agora?
–Acho que não, Izzy. – ele riu – Eu realmente não gosto disso.
–Medroso...
–Bicha estúpida...
–Quatro-olhos...
–Gatinha...
–Te amo...
–Também.
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