Correndo em Círculos
39 Capítulo 39: Eu juro fazer você feliz
Notas iniciais
Na manhã seguinte, Karina acordou sorridente. Era engraçado que mesmo no desastre em que estava a sua vida, ela conseguisse encontrar a felicidade. E a sua felicidade estava exatamente ao seu lado, dormindo de boca aberta e com a bunda para cima e mesmo assim sendo irresistível.
Ela ri. Se fosse á um ano atrás, ela nunca diria que achava lindo aquele seu jeito desajeitado, mas agora até mesmo ver ele dormir de boca aberta o era. Devia ser por isso que as pessoas falavam que o amor era cego.
Se curva sobre ele e beija sua bochecha, passando, em seguida, suas mãos por entre seus cabelos crespos. Ele sorri durante o sono, mas ela interrompe a carícia, com medo dele acordar.
Se levanta da cama com o maior cuidado que poderia ter e sai nas pontas dos pés em direção a porta e então para o banheiro, mas antes que chegasse lá, alguém a chama.
–- Tem visita pra você. – diz Delma, assustando-a.
Ela se vira, confusa e quando vê a longa cabeleira de Dandara parece despertar.
–- Oi Karina. – diz a mulher, baixinho, encarando-a com dor nos olhos.
A lutadora sente seu coração acelerar. Dandara era o mais próximo que chegara de seu pai em dias, sua única ligação com a mulher era, justamente, isso. Caminha até ela.
–- Bem... eu vou deixá-las a sós. – diz sua sogra, se levantando e saindo do recinto.
Karina continua encarando a mulher, até que ela dá três tapinhas no acento do sofá e decide se senta.
–- Você veio falar sobre o papai, não é? – pergunta, curiosa.
Dandara sorri.
–- A Bianca me contou tudo, e fico feliz que ainda o chame assim.
A lutadora cora, mas se mantem firme.
–- Você me entendeu... ainda é difícil pra mim digerir que ele não o seja.
A cantora se aproxima levemente e encara mais intensamente seus olhos azuis.
–- Quem disse que ele não é? Foi ele que te criou, que estava lá quando você aprendeu a andar, falar e se apaixonar.
–- É. Foi ele que passou a vida inteira tentando me regular. – rebate a menor, teimosa. -- Não acredito que a Bianca te chamou pra vir... aquela fura-olho.
–- A sua irmã só quer te ajudar, Karina. Gael é seu pai. Ele é careta, machista, duro e difícil, mas ele ainda o é. Os erros dele não anulam tudo o que ele tem de bom, tudo o que ele fez por você.
Karina suspira.
–- Eu sei. – admite, com água nos olhos. – Mas eu não posso simplesmente aparecer lá e perdoá-lo, o que ele fez é muito sério, Dandara. Ele escondeu praticamente a minha vida toda.
A mais velha leva suas mãos para o rosto da pequena e o ergue para a altura do seu, encarando aqueles pedaços de lua que muitos chamavam de olhos e que agora se cobriam de água, como uma cachoeira. Ela sente um arrepio percorrer sua coluna, tão jovem e mesmo assim sofrendo mais do que um adulto. Ela conseguia ver o amadurecimento aparecer em seus olhos, se mesclando com sua infantilidade e lutando para vencer aquela disputa. Karina amadurecera tão rápido... em um pulo só, aquele seu ano a transformou. Ela havia começado a namorar pela primeira vez, tido sua primeira vez, aprendido com sua primeira decepção amorosa e agora, por último, mas não menos impactante, visto sua vida mudar do dia para a noite. Ela ainda não era cem por cento madura, mas estava aprendendo e Dandara se sentia na obrigação de guiá-la.
Seca seus olhos, que logo imitaram os da pequena, e se preencheram de água.
–- Você não sente saudade dele? – pergunta ela, com a voz fanha pelo choro.
–- É claro que eu sinto. Todo o dia. – e sorri. – Ele é meu mestre da vida e do ringue. Eu sinto falta de treinar com ele, brincar com ele, até mesmo de brigar com ele.
–- Então não deixa seu orgulho impedir que você seja feliz. Se você quer estar perto dele, faça-o.
Karina seca suas lágrimas com agressividade com as costas das mãos.
–- Eu não consigo. Eu não vou conseguir chegar perto dele sem lembrar de tudo aquilo.
–- Bem... demos tempo ao tempo então. – conclui a mulher, se levantando. – Só com ele as coisas vão se ajeitar.
Karina concorda com a cabeça e se levanta junto. Parecia que todas as suas conversas sempre acabavam concluindo a mesma coisa: que ela teria que esperar suas feridas curarem.
Dandara se aproxima dela e acaricia sua cabeça antes de beijá-la.
–- Eu quero que você saiba que eu to de braços abertos pra você e que eu tenho muito orgulho de te ter como enteada. Você é forte, Karina.
A pequena sorri, emocionada, abraçando-a de volta.
–- Obrigada, Dandara. Você pode não ser minha mãe de sangue, mas eu não me importaria nenhum pouquinho se fosse.
–- É... pensa assim sobre o Gael também.
Karina assente. Ela ia pensar. Só ia fazer isso a partir de agora e tentar se esquecer de toda a sua dor e raiva.
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–- Ta tudo bem agora? – pergunta Cobra, depois de ir buscar um copo de água para sua dama.
Ela solta um soluço mais enquanto toma a água, mas não nega nem assente. Encara-o, aborrecida e quando ele se aproxima e passa uma mão por suas bochechas coradas de tanto chorar, ela olha para baixo e sente uma dor diferente a preencher.
–- Não é da sua conta. – responde, seca.
Ele se ofende, é claro, mas ao contrário do que ela imaginou, sorri. Aquela era sua doce e esnobe dama.
–- É sério, Jade. Me conta... o que houve pra você ficar desse jeito?
Ela olha para baixo, desconfortável e ele vê seus olhos marejarem novamente. Respira fundo, se preparando para mais um ataque de choro.
–- Eu cheguei da aula e o Ed estava saindo correndo daqui. Ele me disse que a cirurgia de minha mãe teve complicações. Ela teve uma metástase; isso quer dizer que o câncer se espalhou. – entrega ela, e por incrível que pareça sua voz quase não muda enquanto as lágrimas voltam para sua face.
Ele a encara, preocupado e ao mesmo tempo sem saber o que fazer ou dizer. Câncer era uma coisa muito séria e ele sabia que quando atingia certos órgãos era muito mais difícil de vencê-lo.
–- O que você ta fazendo aqui? – pergunta a garota, nervosamente, tentando de alguma forma quebrar aquele silêncio constrangedor e a possível evolução daquele assunto que só a trazia tristeza. Mas, além disso, ela perguntara pela simples curiosidade humana. Era incrível que ele tivesse ido ali justamente no momento em que ela mais precisava de seu colo. Incrível e intrigante.
Ele desvia de seu olhar, levemente envergonhado por ter sido pego em um momento de fragilidade. Havia ido ali apenas com um intuito e com uma extrema dedicação, mas vê-la daquele jeito o havia feito mudar de foco e agora a vontade de se tornar livre lhe trazia um frio na barriga.
Ergue o olhar, determinado. Se ele a amava como achava que o fazia tinha que deixar o orgulho de lado. Espera... amava? Ainda era estranho usar esse verbo para determinar seu sentimento. O que ele tinha por Jade era... carnal? Não. Ele sabia que era muito mais que isso. E ao olhar novamente em seus olhos negros e brilhantes de expectativa ele teve a certeza que faltava. Ele a amava.
–- Eu percebi que não podia mais deixar meu orgulho tomar conta de mim. – responde ele, seriamente e se aproxima mais dela, fazendo com que suas pernas se encostassem sobre o sofá. – Que eu tinha que lutar pelo que eu queria.
Ela ergue seu olhar felino, tentando decifrar se havia verdade nos dele.
–- E como você pretende fazer isso se toda vez que nos envolvemos mais afundo, você me afasta? – pergunta ela, secando as lágrimas de seus olhos com as pontas dos dedos.
Ele não hesita, apenas a ajuda em sua tarefa e seca as lágrimas que ela esquecera sobre sua bochecha.
–- Pra começar... eu quero dizer que te amo.
O coração dela falha uma batida e é imprescindível que não sinta uma alegria imensa a consumir e um sorriso beirar os seus lábios.
–- Eu ouvi direito?
Ele ri de seu jeito perplexo e volta a acariciar seu rosto.
–- Não, Dama. Foi exatamente isso que eu disse: eu te amo. – ela o encara, boquiaberta; e é tentadora a vontade de puxar seus cabelos e arrancá-los da raiz. – Eu cansei de ser aquele cara medroso, assombrado. Tudo o que eu quero é lutar, ser bom nisso e trazer de volta as pessoas que importam pra mim. Como você. – ele a encara arregalar os olhos e sorri ainda mais, se interrompendo apenas quando a vê erguer as mãos até as pontas dos cabelos e puxá-los sorrateiramente.
Franze a testa, até que vê os fios entre seus dedos longos e corre sua mão até o pulso dela. Nega devagar com a cabeça. Ela encara sua reação, absorta e quando olha para suas próprias mãos sente seu abismo aumentar um pouco mais. Estava ficando pior. Antes, ela se automutilava por não ser boa o bastante e então, por estar triste e desolada. Agora, um simples nervosismo a fazia fazer aquilo, imprescindivelmente.
–- A primeira coisa que eu vou fazer, Dama, pra te provar meu amor, vai ser te salvar de si mesma. – ela sente seus olhos aguarem novamente e o amaldiçoa em pensamentos. Estava farta de chorar, mas as circunstâncias não ajudavam. – Eu vou te acompanhar em uma psicóloga se necessário, mas isso tem que parar. Eu não quero te ver se machucando por causa de mim ou qualquer outra pessoa.
“A segunda: eu vou te apoiar o máximo que eu puder. Mesmo que demore meses pra sua mãe voltar e meses pra seu sorriso vir com ela, eu vou estar aqui, de braços abertos. E de joelhos no chão quando a dona Lucrécia quiser chutar a minha bunda pra fora dessa casa. Eu quero te ajudar. Eu quero fazer isso dar certo.”
Ela se arrepia diante de sua declaração e enfim aquele sorriso que segurava aparece em seus lábios.
–- Finalmente eu to vendo o meu verdadeiro Vagabundo.
Ele sorri de volta, emocionado e beija suavemente seus lábios macios, abraçando-a em seguida.
–- Eu estou aqui pra você, minha dama.
Ela assente, completamente crente daquilo pela primeira vez em sua vida.
–- Eu te amo, Vagabundo. – sussurra na boca de seu ouvido, arrepiando-o.
–- Eu também te amo, Dama.
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1 Semana depois...
Karina acordou normal naquele dia, sem se sentir melhor ou pior, apenas normal. Mas assim que abriu os olhos se lembrara de que aquele não era um dia normal. Havia acordado um pouco mais cedo, com os beijos de Pedro em seu pescoço, mas depois de resmungar ele deixou que ela dormisse quanto tempo quisesse.
No caso, até agora. Ela se espreguiça sobre a cama, sentindo falta do calor humano de seu lindo namorado e logo que se vira para o lado, um vislumbre vermelho desperta sua atenção. Vê um envelope vermelho sangue sobre a cômoda. Pega-o, curiosa e sorri durante sua leitura:
“Já que minha Esquentadinha-Adormecida-Aniversariante-do-dia não quis acordar, corri ali na cozinha pra fazer um café da manhã especial pra ela. Espera ai, minha linda.
Cheio de amor, seu guitarrista apaixonado ♥”
Ela ri de seu jeito fofo e se vê ainda mais derretida por ele. Se levanta da cama, teimosa do jeito que era, mas antes que chegasse na porta, Pedro entra ali dentro, com uma bandeja equilibrada sobre os braços e um sorriso no rosto.
–- Sabia que minha Esquentadinha não ia aguentar esperar... – ela o ajuda com a bandeja e beija rapidamente seus lábios antes de apoiá-la sobre a cama e se sentar sobre esta.
–- Você é mesmo bobo, em garoto?! – diz ela, olhando para as pequenas torradinhas em formato de coração e franzindo a testa ao ver uma meio esquisita. – O que é isso?
–- São luvinhas... – diz ele, como se fosse óbvio. Senta-se ao seu lado enquanto a vê rir. – Ah, poxa. Eu me esforcei, vai... – completa, fazendo biquinho.
Ela beija sua bochecha em resposta.
–- Ta tudo lindo, Pê. Muito obrigada. – admite, com um brilho no olhar.
Ele encara intensamente seus olhos, sorrindo de volta.
–- Você merece muito mais. – afirma, sério e então os dois passam a degustar a comida juntos, entre beijinhos e risadas.
Em um certo ponto, ela pega um punhado de margarina com uma espátula e a esparrama pelo nariz dele, rindo sem parar antes de beijá-lo ali enquanto ele fazia uma falsa expressão de irritação.
–- Awn... calma guitarrista. Eu to só brincando. – diz ela, levemente preocupada.
Ele aproveita seu momento de distração e repete a mesma coisa que ela, só que na borda de seus lábios, beijando-os em seguida e deixando sua boca suja propositalmente de manteiga.
Ela encara sua boca, sentindo a atmosfera do lugar mudar, o silêncio predominar e ser interrompido apenas pelas suas respirações inquietas e famintas por imediações. Ela se aproxima levemente, pronta para beijá-lo, mas ele não deixa que ela o faça, se levanta, pega seu violão e se senta na cama de Tomtom, dedilhando o instrumento em seguida e deixando-a confusa.
–- Você não vai cantar, vai? – brinca a garota, fazendo uma careta.
Ele ri.
–- Vou tentar ser menos desafinado. – ela acaba por assentir com a cabeça e se aconchegar mais sobre a cama dele. -- Eu escrevi essa música durante a minha turnê e finalizei ela esses dias. É pra você, minha linda. Especialmente pra minha esquentadinha. – completa, antes de tocar com leveza as cordas do violão e iniciá-la.
Ele respira fundo antes de começar a cantar, acompanhando o violão:
Rockstar
(Pedro Ramos)
Ela é tão bonita, toda diferente
Cabelinho curto, ela é tão inteligente
Ele é guitarrista, todo atrapalhado
Alma de artista, meio desleixado
Ela é de outro mundo, gosta de aventura
Dizem que o garoto é cheio de frescura
Ela é destemida, desconhece o medo
Ele é meio frouxo e isso não é segredo
A história de um casal bem nada a ver
Mas pode crer, quem falou que tem que ser igual?
E quando eu tocar na sua TV,
Você vai ver, nosso amor em rede nacional
Quando o mundo inteiro ouvir
A gente vai sorrir, sentados no sofá
Eu juro fazer você feliz
Tudo o que eu sempre quis, foi ser seu Rockstar
Ele pode ter desafinado em vários pontos da canção, mas tudo que Karina conseguiu fazer ao final da música foi sorrir, emocionada.
–- E eu amo esse meu rockstar. – afirma, se levantando e se atirando em seus braços a lhe beijar, derretida.
Ele fica surpreso com sua atitude, no início, mas logo coloca o violão para o lado e aperta seu corpo contra si, sentindo-a sentar em cima dele, pouco a pouco.
Ele geme contra sua boca, antes de afastá-la.
–- Desse jeito você sabe onde as coisas vão, néh?
Ela ri e assente rapidamente.
–- Sei e eu quero mesmo que elas vão. Me dá mais esse presente, meu guitarrista? – pergunta manhosamente, beijando seu pescoço.
É a vez dele de rir. Eles não faziam amor fazia mais de uma semana, já que Tomtom retornara da casa de sua amiga no dia seguinte àquela última aventura sexual.
–- Não precisa pedir duas vezes. Mamãe e Tomtom concordaram em nos deixar sozinhos até o meio-dia pra eu fazer sua surpresa. – afirma ele, beijando seu pescoço e em seguida sua boca.
Ela sobe suas mãos por entre seus cabelos e se acomoda melhor sobre sua recente ereção, fazendo-o murmurar contra seus lábios.
–- Tem certeza que não vai ter nenhuma interrupção? – pergunta Karina, ofegando enquanto sentia os beijos dele sobre seu pescoço.
Ele se interrompe e encara suas pupilas quase negras no momento. Puxa o corpo dela para o lado, sentando-a na cama e caminha até um caderno seu que estava guardado em uma estante qualquer. Arranca uma folha e depois de escrever alguma coisa ali, a cola sobre a porta com uma fita durex. Puxa as cortinas e mostra uma chave para ela.
–- Agora tenho. – afirma, fazendo-a rir ao ler o que ele escrevera na folha: Não perturbe. E então, puxando-a para mais um beijo intenso depois de trancar a porta.
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Ao meio-dia, Pedro levou sua namorada para o Perfeitão – ela vestia tênis preto e branco e uma blusa regata preta colada ao corpo para dentro de um short jeans --, alegando que os dois iriam almoçar juntos para comemorar, mas surpreendendo-a ao recebê-la com uma festa surpresa. Ela corou e riu, tentando se esconder da plateia composta pelos alunos da Ribalta e da Academia de Gael, mas Pedro fez questão que ela aparecesse para todos verem.
Depois que os gritos cessaram, ele pega um microfone e encara a sua amada.
–- A Karina aqui odeia aparecer, é verdade, mas aniversário é para essas coisas, minha linda. – brinca ele, fazendo-a lhe apontar sua língua. – Relaxa, esquentadinha. Eu chamei seus amigos aqui não é pra te fazer pagar mico, mas sim pra que você veja o quanto é importante pra cada um deles. Porque você já sabe o quão importante é pra mim.
Todo mundo solta um “awn” e ela cora mais intensamente. Pedro ri de seu jeitinho e a puxa pela cintura até ele, entregando o microfone pra primeira pessoa que viu antes de afundar seus lábios nos dela intensamente. Ela puxa seus cabelos e se ergue nas pontas dos pés, tentando esquecer a plateia que os assistia. Se separa depois de um tempo, ofegante.
–- Eu te amo. – ele sussurra em seu ouvido e ela o encara de soslaio antes de vê-lo se afastar para que outros tomassem seu lugar no abraço dela: Bianca, João, Duca, Zé, Marcão, Pri, Sol, Wallace, Bárbara, Tomtom, Mari, Fabi, Paula, Rominho... eram tantos que ela perdia a conta. E mesmo seu rosto estando vermelho feito um tomate, ela amou a surpresa. Era tão bom sentir o carinho de cada um deles... fazia-a se esquecer de todos os seus problemas, exceto quando tudo ficava em silêncio e ela sentia a falta da pessoa mais especial de sua vida: seu pai.
Em um certo ponto, depois que todos já aguardavam a sobremesa e já haviam a presenteado, ela pediu licença e foi para a rua tomar um pouco de ar. Se escorou na parede e ficou a encarar sua antiga casa com água nos olhos. Tão perto, mas tão longe...
Sentiu uma mão sobre seu ombro e um beijo em sua bochecha e relaxou levemente os músculos, escorando sua cabeça no ombro de Pedro.
–- Muito obrigada por tudo, Pê. Você conseguiu fazer desse dia especial.
Ele sorri levemente.
–- Eu chamei o Cobra, mas ele preferiu não vir por causa da birra que os lutadores do Gael têm com ele, mas amanhã ele disse que te parabeniza. – ela assente, sentindo um vazio dentro de seu peito.
–- E a Jade? – pergunta, em um resfôlego só.
Ele suspira.
–- Também convidei ela, mas... – ela não deixa que ele complete a fala, ergue seu olhar choroso para ele e assente.
–- Ela não ia mesmo me perdoar do dia pra noite.
Ele seca suas lágrimas com as pontas dos dedos e pensa que talvez aquela festa não tenha sido uma boa ideia.
–- Desculpa. – sussurra, fazendo-a encará-lo de testa franzida.
–- Não se culpe pelos meus erros. Se essas pessoas não estão aqui, é por culpa minha.
Ele nega devagar, agarrando seu pequeno rosto entre suas mãos.
–- O fato dessas pessoas não estarem aqui não significa que elas não gostem de você. Os seres humanos são orgulhosos... um dia a Jade vai te perdoar.
Ela acaba por assentir levemente, e os dois ficam em silêncio por alguns segundos, até que ele coloca a mão no bolso e retira uma pequena corrente de prata ali de dentro. Ela encara suas mãos, curiosa, até que ele pega seu pulso e prende a correntinha ali.
Ela sorri, acariciando a pequena guitarra e a nota musical em formato de pingente.
–- Sei que você não gosta muito desse tipo de coisa, mas...
–- É lindo. Eu amei, Pedro. – interrompe ela, sendo sincera.
Ele sorri.
–- Não é aniversário de namoro, mas eu precisava te dar algo com significado. Pra você se lembrar de mim. – ele retira do outro bolso uma corrente prateada mais grossa, dessa vez com um par de luvinhas pendurado em forma de pingente e oferece seu próprio pulso para ela, que o ajuda a fechar. – Foi os nossos sonhos que nos uniram. Se não fosse a música, eu não teria entrado pra Ribalta, se não fosse o Muay Thai eu não te chamaria de Esquentadinha.
Ela sorri mais largamente, se emocionando com o presente. Depois de tudo o que ele fez, ainda tinha isso? Seu namorado era simplesmente perfeito. Se ergue nas pontas dos pés e alcança sua boca, beijando-o carinhosamente, até que os dois são interrompidos por um pigarro nas costas dela, que se vira curiosa para o inquilino e sente novamente seu corpo inteiro entrar em combustão.
Engole em seco.
–- Gael. – sussurra, séria, vendo seu pai e mestre encará-la com dor nos olhos e Pedro sorrir, pensando que sua surpresa enfim estava completa.
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