Correndo em Círculos
23 Capítulo 23: Não sou perfeito
Notas iniciais
–- Não vai me convidar pra entrar? – pergunta Vicki, com um sorriso falsamente inocente nos lábios.
Mas Karina não tem tempo nem mesmo de responder e ela já havia entrado, mexendo despreocupadamente nas unhas, como quem não quer nada.
A loira respira fundo, começando a perder a paciência.
–- O que você quer aqui?! – pergunta, ríspida.
A cantora a encara, ofendida.
–- Nossa! Teu pai lutador não te deu educação, não?
–- Certas pessoas não merecem esse tipo de tratamento... – responde a lutadora e Vicki levanta as mãos em um sinal de rendimento.
–- Eu vim em paz! Só queria saber se o Cabeludinho ta aqui...
–- Cabeludinho?! – murmura Karina, o rosto ficando vermelho de raiva e os dedos quase se fundindo com a própria pele. – O que você quer com ele?!
–- Ele sumiu ontem de noite... imaginei que fosse estar aqui. Agora é a minha vez.
–- Sua vez de quê?! – pergunta a lutadora, confusa. Raiva acumulada em cada palavra sua.
–- Pra que tanto ciúmes?! Tem que aprender a dividir... ele ficou com você essa noite e nem por isso eu to pirando.
Karina nega devagar com a cabeça e solta uma risada irônica, entendendo o que a megera pretendia.
–- Você só ta me provocando que eu sei... ta com inveja porque o Pedro continua gostando de mim e não te dá uma chance sequer! – acusa ela e vê a garota fechar a cara e engolir em seco.
–- Eu não preciso disso... tem uma fila de garotos querendo ficar comigo.
–- Pode até ter... mas o único que você quer não está nessa fila.
–- É verdade. Ele não está nessa fila porque ele não precisou passar por ela.
Karina revira os olhos.
–- Eu sei que você e o Pedro nunca tiveram nada. Não precisa inventar historinha pra mim ficar fula.
–- Ah... foi isso o que ele te falou? Interessante... não foi isso o que pareceu quando ele implorou pra mim não ir embora noite retrasada.
Karina ergue uma sobrancelha, ainda sem acreditar.
–- Por que você acha que a gente saiu noite passada? Ele ficou com a consciência pesada por ter transado comigo sem compromisso. Um fofo, nem precisava de tudo isso.
–- Ah isso é verdade... pra você deve bastar só um saco de ossos com pênis, não é verdade? – puta, completou em pensamento.
–- Pelo menos eu não fico me fazendo de santinha por aí, deixando meu namorado subindo pelas paredes porque tenho medo de mostrar o meu corpo.
–- Da onde você tirou isso, sua magricela?
Vicki ergue o olhar e encara o corpo da lutadora descaradamente.
–- Pra se esconder debaixo de trapos masculinos você deve ser bem esquisita... o muay thai te deixou com o corpo masculino, é?
Karina revira os olhos, sem mais paciência.
–- Chega! Vai embora! – murmura ela, apontando para a porta.
–- Relaxa... eu te entendo. Deve ser difícil pra você mostrar um corpo praticamente de homem...
–- Vai embora... – repete Karina, tentando não elevar a sua voz, a mão apontando para porta ainda aberta.
Vicki solta uma risadinha.
–- Quem cala consente, sabia?
E esse é o bastante para que a lutadora empurre a garota com todas as forças, derrubando-a sobre o sofá – que pena...
–- Eu já falei pra você ir embora! – repete ela, baixinho.
Vicki suspira.
–- Ta legal... mas avisa o Pedro que eu vou estar esperando ele lá em casa hoje à noite.
Karina sorri, irônica.
–- Pode esperar sentada... – e a empurra para fora da casa, fechando a porta em seguida.
Ela suspira, não podia se deixar abalar pelas estupidezes daquela maluca. Pedro era louco por ela e ela sabia disso. Todos os toques, olhares e carícias haviam provado isso na noite passada. O único problema era que uma pulga continuava comichando atrás de sua orelha.
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Pedro acordou se sentindo um deus, seu corpo inteiro cansado da noite passada ainda se recordando das sensações que sua Esquentadinha havia causado nele. Mas, além disso, sua felicidade maior estava no simples fato de que eles estavam se acertando. Karina, a orgulhosa Esquentadinha havia finalmente admitido seu amor por ele e aquilo era inacreditável, ele se beliscava a cada momento para que percebesse que era real.
Mas quando ele abriu os olhos naquela manhã, não foi preciso, pois a primeira coisa que ele viu foram as costas largas e os cabelos curtos de sua amada, sentada na borda da cama.
Ele sorri e se levanta devagar, abraçando-a por trás e beijando seu pescoço. Karina dá um pulo em seus braços, mas sorri, tímida.
–- Bom dia, minha Esquentadinha. – murmura ele, o som de sua voz abafado na pele dela.
–- Bom dia, Pê. – responde a garota, baixinho e Pedro para com suas carícias, afasta um pouco o seu rosto e a encara.
–- Ta tudo bem, linda? – pergunta, preocupado.
Ela suspira e se vira para o garoto.
–- A Vicki esteve aqui. – responde simplesmente.
Pedro franze a testa, surpreso.
–- Como assim? O que ela veio fazer aqui?
Karina morde o próprio lábio e o encara intensamente nos olhos antes de perguntar:
–- Você e ela realmente não tiveram nada, néh? Você não esconderia isso de mim...
O garoto engole em seco e fecha a cara.
–- Claro que eu não esconderia. Eu já disse que não vou mais te enganar. – afirma ele, encarando-a de volta enquanto acaricia seu rosto, tentando acalmá-la.
–- Você não precisa ter medo de me contar nada. Se vocês ficaram... eu não vou me importar.
Pedro ergue as sobrancelhas, desacreditando que ela realmente estivesse dizendo aquilo.
–- Eu não to te entendendo...
–- Ontem não foi sua primeira vez, foi? – pergunta Karina, interrompendo sua fala.
–- Eu não acredito que você ta duvidando de mim... depois de tudo o que eu fiz! – afirma ele se levantando com as mãos entre os cabelos, nervosas.
Ele a encara, magoado.
–- Eu ainda não te provei o meu amor? O que eu preciso fazer pra você acreditar que eu te amo?
–- A questão não é o amor, Pê... – ela engole em seco. – Você estava carente, a Vicki é bonita e gosta de você... seria aceitável se você tivesse ficado com ela.
Pedro solta um suspiro e se ajoelha na frente dela.
–- Não aconteceu nada entre eu e a Vicki. Nem mesmo um beijo... eu não conseguiria fazer algo sem que fosse com você. – afirma ele, sério e vê os olhos de sua amada marejarem.
Ela suspira, resignada, e o puxa pelo pescoço para um abraço meio torto, seu rosto molhado abafado na curva de seu pescoço. Ele a abraça de volta, suas mãos suaves contra suas costas, quase como se pudesse quebrá-la, sua fragilidade às vezes o assustava, ela poderia passar de irritada, esquentadinha, para chorosa de uma hora para a outra. Beija sua bochecha e a aperta mais contra si.
–- Me desculpa, Pê, mas é que às vezes... eu não sei... quando a Vicki fala essas coisas, mesmo eu sabendo que ela só quer me provocar... eu fico com medo de estar sendo muito segura e pouco cuidadosa... de você estar me enganando novamente e eu estar tão cega de amor que não enxergue. – murmura ela, se afastando levemente para encarar seus olhos.
Ele seca uma lágrima sua com seu dedo e a encara de volta.
–- Mas você vai ter que acreditar em mim... a gente não vai conseguir ficar junto se toda vez que a Vicki inventar alguma história você acreditar.
Ela olha para baixo, envergonhada e admite:
–- Pra falar a verdade não é só a Vicki o problema... toda vez que eu te olho vem uma coisa na minha garganta, sabe? Eu acho que eu ainda não me convenci de que isso tudo é real, que eu não vou acordar em uma manhã e sentir toda aquela dor novamente.
–- Ka... é real. – afirma ele, acariciando o seu rosto delicadamente para então beijar suavemente seus lábios. Ela fecha os olhos e sente seu corpo entrar em transe com as sensações que aquele simples toque dele lhe causava e continua assim até alguns segundos depois dele se afastar.
Pedro sorri, encarando-a com adoração até que ela abre seus olhos e cora, envergonhada por ter sido flagrada em seu momento de apreço.
–- Eu vou no banheiro, minha linda. – murmura ele depois de um tempo e depois de beijar seus lábios se levanta e sai do quarto.
Karina se atira de volta na cama, sorridente e fecha os olhos por dois segundos, antes de ver seu celular piscar sobre a escrivaninha e se levantar rapidamente, apavorada com a possibilidade de seu pai querer falar com ela naquele momento. Ainda não estava com cabeça para mentir ou admitir, afinal, esse era um de seus maiores temores: a mentira. Ela sempre levava para um mau caminho e mesmo que admitir que estava com Pedro novamente fosse significar mais uma briga com seu pai, talvez fosse o melhor.
Ela desbloqueia o celular e sente sua garganta secar ao ler o que estava ali:
Olha o celular de seu namorado.
Engole em seco, era muito provável que fosse só mais uma das provocações de Vicki, mas não pôde negar que estava curiosa. Olhou em sua volta, a procura do celular de Pedro e viu sua calça no chão com o bolso piscando uma luz branca. Seria exagero? Não... ela era agora a namorada dele e não tinha porque não poder olhar seu celular.
Se agacha e coloca a mão dentro do bolso, à procura do aparelho. Sorri depois de desbloquear, vendo uma foto dos dois juntos estampar o fundo da tela, até que ela entra na caixa de mensagens e seu sorriso cai.
Muito obg, Cabeludinho, vc salvou a minha noite. ♥ – Vicki.
Sempre que você precisar...
É sério, Cabeludinho. Espero que tenha dado tudo certo com sua Esquentadinha. Ela não desconfiou de nada depois de ver nós dois, néh? – Vicki.
Acho que não adianta mais correr atrás, ela quer que eu siga em frente... mas obg pelo apoio e eu já resolvi isso com ela.
Vc pode usar meu ombro como apoio sempre que quiser.
Pode deixar...
Beijo, gato. ♥ – Vicki.
Beijo.
E ai, Cabeludinho? – Vicki.
Minha vez agora. To te esperando aqui em casa. – Vicki.
–- Você não faz ideia do quão sexy você fica com essa camiseta. – diz uma voz, atrás de Karina, e logo ela se vê dentro de um abraço, os lábios suaves de Pedro em seu pescoço.
As coisas acontecem muito rápido, sem que ele tivesse tempo de atinar o que estava nas mãos dela, ela o empurrou para longe, fugindo de seu abraço e o encarou com os olhos cobertos de lágrimas de raiva.
Ele arregala seus olhos, somente agora reparando em seu celular nas pequenas mãos de Karina.
–- O que...
–- Por que você continua mentindo pra mim?! – acusa ela, sua voz firme e alta retumbando no quarto.
Pedro franze a testa, confuso e corre até ela, arrancando seu celular de suas mãos e lendo as mensagens com rapidez enquanto ela o encarava, tremendo de raiva.
–- O que essa maluca ta dizendo? – murmura ele, e a encara. – Eu te juro... eu e ela não temos nada, ela só ta querendo te provocar. Só pode.
Karina limpa as lágrimas debaixo de seus olhos com as costas da mão.
–- Mas e as outras mensagens? Não me faça de boba, vocês já ficaram outras vezes!
–- Como? Não! A gente só ficou mais próximo depois da festa na Ribalta... eu me senti meio culpado por ela gostar de mim e eu não retribuir.
–- Mentira! – grita a garota, fora de si.
Pedro solta um suspiro irritado.
–- Eu não sei mais o que fazer pra você acreditar em mim. Eu te amo. E só á você. – murmura ele e se aproxima dois passos. -- Você nunca vai acreditar em mim, não é? – pergunta baixinho, sua voz cheia de dor e mágoa.
–- Você vai sempre duvidar, não é?
–- Como você não quer que eu duvide? Se depois de tanto tempo confiando em você eu descubro que tudo não passou de uma farsa?! – grita ela, de volta, sua voz rouca de tanto chorar.
Pedro a encara, silencioso.
–- Eu pensei que você tivesse me perdoado. – sussurra ele e a vê secar algumas de suas lágrimas que caiam.
Ela engole em seco.
–- Eu posso perdoar, mas eu nunca vou esquecer. – responde a garota, firmemente.
–- Então é isso, não é? Vai ser assim a partir de agora? A gente vai discutir e você vai voltar pra esse assunto? A culpa não é sua. Eu te entendo... deve ser difícil acreditar em uma pessoa que decepcionou tanto. – diz ele, e ela deixa que uma lágrima mais caia, desta vez de dor. – Mas... assim não dá.
–- Como assim? – pergunta ela, desesperada.
–- Você tinha razão. Só amor não basta.
A raiva de Karina decai ao ouvi-lo, seu ciúme cego se esvaindo momentaneamente.
–- Não! Basta sim... Pê você não vai... – começa ela, mas é interrompida por ele, que se aproxima e lhe dá um beijo na testa.
–- Pode ficar com a minha camiseta... ela fica bem melhor em você. – sussurra ele, com um sorriso dolorido nos lábios, para então pegar suas roupas no chão.
–- Você não vai fazer isso comigo... – diz ela, aos prantos, assistindo enquanto ele vestia suas calças.
–- Eu sinto muito, Karina. Sinto muito por ter estragado tudo. – diz ele, com os olhos cobertos de água. – Eu achei que o que fiz pudesse ser apagado com o tempo e com o amor, mas a verdade é que as feridas são muito fundas.
Karina o encara, e nega com a cabeça, desacreditando que ele realmente estivesse dizendo aquilo. Ele veste sua camisa e começa a abotoar os botões, com pressa para sair logo dali.
–- Você tinha razão... nós somos muito diferentes pra dar certo.
Karina nega com a cabeça e em meio às lágrimas ri, irônica.
–- Agora eu entendi... você ta usando isso como desculpa pra me largar. Você só queria isso mesmo, néh? Dormir comigo e me largar! – acusa ela e ele solta um suspiro.
–- Não... eu queria ficar com você pra sempre. – murmura ele, sincero, antes de se virar em direção á saída e deixar uma Karina encarando a porta, perplexa demais para fazer qualquer coisa a não ser chorar.
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Mais tarde, naquele mesmo maldito dia, Karina ainda estava atirada na cama, embalada pela camiseta de Pedro e por uma dor que não se esvaia. Era incrível como sua vida podia passar de perfeita para um horror assim, do nada. Primeiro quando ela só queria ter sua primeira vez com Pedro e tudo andava pelo caminho certo, até ela descobrir a verdade e agora; depois daquela noite mais que perfeita, uma manhã de horrores. Ela se sentia ridícula por ter agido daquela forma, mas a raiva e o ciúme eram mais fortes do que ela e lhe tomavam em proporções absurdas. Se arrependimento matasse, ela já teria morrido uma centena de vezes.
Seu celular toca o som de uma mensagem nova na caixa e ela se vira devagar, desânimo por todo o seu corpo.
Vi o Pedro sair chorando da sua casa. Ta td bem? – Cobra.
Ela solta um grunhido e se joga novamente na cama.
Ta td péssimo. – Karina.
E não demora nem mesmo dez minutos e ela escuta um som abafado na porta da frente. Grunhi, irritada e corre até lá, abrindo a porta com fúria.
–- Pode desabafar. – diz Cobra, entrando no recinto sem ser convidado e sendo seguido por uma outra figura.
–- Jade? – indaga Karina, ríspida e confusa.
A morena a encara, tímida e entra logo atrás de seu namorado, a cabeça baixa em nada lembrando a antiga e malvada Jade Gardel.
–- Eu vim ver como você ta. – afirma a dançarina e é notável seu esforço para parecer receptiva.
Karina ergue uma sobrancelha, surpresa.
–- Eu e a Jade estamos tentando mudar um pouco... ser menos tortos. – afirma Cobra, despertando a atenção da lutadora.
–- E o que eu tenho haver com isso?
–- Bem... bons amigos se ajudam, não é? Eu quero te ajudar. – diz ele, simplesmente, seu olhar firme sobre ela.
Karina suspira, se atirando despreocupadamente sobre o sofá.
–- Não tem como vocês me ajudarem. Eu estraguei tudo com o Pedro. – murmura ela, irritada consigo mesma.
Jade se agacha em sua frente, surpreendendo ainda mais a lutadora.
–- Sempre tem o que fazer. – afirma ela.
–- Não no meu caso... eu simplesmente não consigo confiar o bastante nele. – murmura a outra, teimosa, suas pernas cruzadas se mexendo inquietas.
Jade encara Cobra, como se perguntasse silenciosamente alguma coisa para ele, e então se vira de volta para Karina e engole em seco, antes de dizer, com um esforço enorme:
–- Acho que te devo uma... sempre fui uma megera com você e mesmo assim você me ajudou com o Cobra... – afirma ela, soltando um longo suspiro antes de completar: -- Por isso eu quero te oferecer a minha ajuda pra trazer o seu guitarrista de volta.
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