Correndo em Círculos
18 Capítulo 18: Me diga que você abriu seus olhos
Notas iniciais
Naquele mesmo dia, Pedro se sentou em sua cama e compôs toda sua música em um só período, tirando inspiração de todas as atitudes de sua amada e se satisfazendo com o resultado.
Ele nem mesmo esperou o dia amanhecer e marcou um encontro com todos os integrantes de sua banda, que foi à loucura com a nova canção. Rapidamente eles decoraram a letra e a melodia e organizaram uma festa na Ribalta para seu lançamento. A ideia é claro, havia sido de Pedro. Ele sabia que cantar aquela música á sós com sua Esquentadinha seria muito melhor, mas também sabia que essa seria uma coisa impossível de acontecer, colocá-la sozinha no mesmo ambiente que ele já seria um milagre, quanto mais recitar toda a canção sem discutir.
Por isso ele estava agora justamente nesse lugar, analisando o ambiente como se ele fosse mordê-lo. Seu nervosismo era tanto para aquela noite que ele mal cabia em si. Respirou fundo vendo Karina chutar e massacrar um saco de box com agilidade. Ele precisava convencê-la a ir ao show naquela noite, senão todos os seus esforços seriam em vão.
Aproximou-se vagarosamente, recebendo o olhar furioso de Gael, que continuava o odiando ainda mais a cada dia.
–- Hey! Eu já não falei pra não pisar de tênis no meu tatame?! – grita o homem, irritado e estreita os olhos para o jovem, que o encara, assustado. – E o que você ta fazendo aqui?
–- Desculpa. Eu vim falar com a sua filha. – responde o jovem, puxando seus tênis para fora de seus pés.
Karina interrompe seu treino ao reparar na pessoa que estava ali, fazia dois dias que não o via, dois dias que não falava com ele, e dois dias desde sua promessa quase fazê-la enlouquecer.
–- Falar ou implorar? Eu já estou farto de você a magoando. – diz seu pai, para seu ex.
Pedro arregala os olhos e encolhe o corpo, mas ergue a cabeça, decidido.
–- Eu não vou magoá-la dessa vez, eu juro. Eu só quero conversar mesmo.
Gael abre um sorrisinho irônico.
–- Eu sei bem como vai acabar essa conversa! Eu não quero você perto da mi...
–- Deixa pai. – interrompe Karina, surpreendendo os dois homens com sua calma, ela tira suas luvas com rapidez e se aproxima do ex.
Pedro abre um pequeno sorriso ao vê-la daquele jeito. Aquele já era um começo...
–- O.K... mas eu to de olho, em?! – avisa o mestre, estreitando os olhos para o rapaz e se afastando.
Quando Pedro e Karina se encontraram sozinhos, tudo o que ele sentiu fora um grande nervosismo novamente.
–- O que você queria falar? – pergunta ela, encarando-o intensamente e o deixando ainda mais confuso.
A verdade era que ela estava desesperada, achava que ele havia desistido de uma vez de tentar reconquistá-la e a ideia de ele querer falar com ela havia trazido piruetas para seu coração.
–- E-eu... – gagueja ele, e então morde os lábios. – você vai na festa da Ribalta, não é? – pergunta, de uma vez.
Ela franze a testa com sua pergunta.
–- Não sei ainda. Não ando muito animada para festas... – responde, deixando-o ainda mais nervoso. Ele sabia o motivo de sua desanimação, ele tinha nome e sobrenome e tinha um cabelo igual ao seu.
–- Eu queria que você fosse... – admite ele, encarando-a intensamente nos olhos.
Karina treme nas estribeiras ao sentir seu olhar. Infelizmente Pedro ainda tinha essa capacidade de envolvê-la apenas com o olhar.
Ela sacode a cabeça, tentando manter o foco e é tomada por outro sentimento, raiva. Franze a testa em sinal de indignação. Odiava quando ele tomava controle dela e a fazia ter aqueles pensamentos.
–- É... felizmente você não manda em mim. – murmura, teimosa e vê o garoto abrir um sorrisinho diante de sua postura.
–- É verdade. Se eu mandasse em você... – responde ele, se aproximando até que estivesse com os lábios ao pé de seu ouvido. Karina treme e sente sua respiração descompassar. – eu ia fazer você me beijar agora. – completa em sussurro, roçando seus lábios propositalmente pela bochecha dela ao se afastar e fazendo-a morder os lábios e segurar um gemido.
Ela pigarreia, antes de responder:
–- Mas como você não manda...
–- A gente vai ficar só na vontade, néh? – interrompe ele, sorrindo convencido.
Karina estreita os olhos para o rapaz.
–- Não. Quem disse que eu tenho vontade? – rebate ela e depois de um suspiro completa: -- Não precisa me esperar amanhã. Eu não vou.
E depois disso se vira e volta para seu treino, deixando um Pedro irritado encarando-a pelas costas. Ele tinha que fazê-la mudar de ideia ou então seus esforços seriam em vão.
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Mais um dos péssimos dias de Bianca não poderia ter melhorado mais. Antes mesmo que ela saísse da Ribalta para mais uma noite na fossa, Pedro se aproximou da ex cunhada, na aula de música.
–- Bi, eu posso falar com você? – perguntou o garoto, sério e ela assentiu, mesmo relutante. Ainda não sabia de que maneira sua irmã havia descoberto toda a farsa, mas acreditava que a verdade havia saído da boca dele, e provavelmente da pior forma possível, tendo em vista o modo que a irmã fora encontrada e o modo que ela a estava tratando.
Os dois se afastaram para um ponto mais escondido do corredor.
–- Eu preciso da sua ajuda. – replicou o garoto, direto.
Bianca ergue uma sobrancelha e então estreita os olhos para o rapaz.
–- Você estraga o meu relacionamento com a Karina e ainda quer uma ajuda? – murmura ela, furiosa.
Pedro arregala os olhos diante da acusação.
–- Eu? Eu não fiz nada. Planejei tudo direitinho pra contar pra Esquentadinha no domingo, não é minha culpa se... – ele se interrompe, sem saber exatamente a quem acusar. Ainda não tinha ideia de quem contara seu segredo.
–- Se?
–- Se ela descobriu antes. – completa ele, amargurado. – Olha... isso de qualquer forma não tem importância, se ela descobriu naquele dia era porque ela precisava descobrir.
Bianca assente, mesmo desconfiada daquela história.
–- O que eu queria falar com você também é sobre a Ka, mas é sobre deixá-la feliz. – diz ele, e atrai a atenção da garota com seu último relato. – Você deve saber que vai ter uma festa aqui na Ribalta hoje à noite. Essa festa é pra Ka. Eu escrevi uma música pra ela... o único problema é que eu não consigo convencê-la a vir.
Bianca bufa e revira os olhos.
–- E você acha que eu vou te ajudar?! A Ka não fala comigo, não olha pra minha cara e não me encosta. Você acha mesmo que eu teria mais sucesso que você em convencê-la? – murmura ela, irritada.
–- Eu imaginei que você fosse dizer isso, mas você é a minha única escolha. Incomoda ela, tranca ela pra fora do quarto. Eu não sei... mas me ajuda, por favor! Não é só pro meu bem, é pro dela também, eu sei que ela também ta sofrendo com a nossa separação.
A garota solta um suspiro, resignada e então assente. Por mais difícil que pudesse ser ter o sorriso de sua irmã de volta, ela faria de tudo para que isso acontecesse, nem que fosse momentâneo.
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Mais tarde, depois que Karina chegara em casa, exausta depois de tanto treino, ela se atirou no sofá e começou a folhear os canais, mal-humorada. Desde que descobrira toda a farsa de sua irmã e seu namorado essa tinha se tornado sua rotina, chegar em casa, assistir televisão, chorar e dormir. Não tinha ânimos para sorrir, sonhar ou se divertir, principalmente quando via sua irmã, e toda sua raiva aumentava em máxima escala.
Exatamente como estava acontecendo agora, quando Bianca se sentou ao seu lado em uma das poltronas.
A loira bufa, tomada de ainda mais raiva. Ficar no mesmo ambiente que sua irmã era uma tortura para ela, fazia-a se lembrar de todo o maldito acordo e do egoísmo absurdo da pessoa com quem ela mais contara na vida. Sua irmã mais velha, quase uma mãe.
–- Ka... você vai na festa da Ribalta? Eu, o papai, o João e a Dandara vamos. Seria uma boa pra nos reaproximar. Você sabe que... – sussurra aquela mesma, com suavidade e a mais nova desliga a televisão com fúria e sai como um foguete para o seu quarto. Já estava farta de ouvir as milhares de desculpas de Bianca.
Ela se atira sobre a cama, coloca seus fones de ouvido sobre suas orelhas e ouve um rock pesado.
–- Ka... me escuta! – grita sua irmã e ela aperta ainda mais os fones sobre os ouvidos, tentando ignorá-la de todas as formas.
Mas Bianca estava realmente disposta a atormentá-la naquele dia, e puxou os fones para fora de seu rosto rapidamente.
–- Você vai ter que me ouvir! – grita a garota e Karina a encara, vermelha de raiva.
–- Fala! Eu queria o teu bem. Queria que você fosse tão feliz quanto eu... – debocha ela, enfurecida.
Bianca morde o próprio lábio e revira os olhos.
–- Para de infantilidade, Karina! – ralha ela, e isso é o que basta para sua irmã se levantar e correr contra a porta, chutando-a enfurecida ao constatar que estava trancada.
–- Abre essa porra! – ordena ela aos gritos e vê Bianca negar com a cabeça.
–- Não até você me ouvir! – responde a outra e então completa: -- Eu sei que você ainda gosta do Pedro. Eu ouço você chorando por ele toda noite. Eu ouço você sussurrar o nome dele enquanto dorme e encarar suas fotos com ele, cheia de raiva por ainda sentir alguma coisa por alguém que te machucou tanto.
Karina estanca ao ouvi-la falar aquilo, sua raiva dando um pouco de lugar para a dor. Ela fecha a cara para a irmã e murmura, repugnada:
–- É temporário. Logo, logo eu esqueço ele.
Bianca nega devagar com a cabeça.
–- Não é. Amores assim duram anos. – diz ela, sinceramente. Queria não dizer aquilo, mas sabia que era verdade, fora assim com Duca e talvez ainda fosse ser.
–- Que durem! Eu não posso perdoá-lo. O que ele fez não tem perdão. – admite Karina, baixinho, e deixa que uma lágrima escorra por sua face.
–- Não seja tão dura com ele, Ka. Ele gosta de você, de verdade.
Karina ri, irritada e então encara sua irmã, enquanto limpava suas lágrimas com ferocidade.
–- Cala a boca! Eu não devia nem mesmo estar falando com você... no mínimo pagou ele novamente, pra me reconquistar dessa vez. -- diz ela, em meio a sua fúria.
–- Para com isso, Ka! Você sabe que é verdade, só não quer admitir. O Pedro te ama!
E isso é o que basta para Karina estreitar os olhos e se aproximar da irmã.
–- CHEGA! Me dá essa chave! – e então parte para cima de Bianca e arranca a chave à força de sua mão.
Bianca a encara virar a maçaneta com um olhar dolorido no rosto.
–- Ele te ama, Ka! Ele me devolveu todo o dinheiro da demo porque não queria viver com aquela culpa. – grita ela, e vê Karina se interromper e encarar a maçaneta. – Ele queria fazer tudo direitinho. Trabalhou feito louco pra arrumar esse dinheiro e agora ele é seu. – completa, estendendo uma mão cheia de notas de cem. – Toma.
Karina ri, se virando devagar para a irmã.
–- Eu não ligo pra esse garoto, nem pro que ele fez! E não quero esse dinheiro sujo! Enfia no seu rabo. – murmura ela, furiosa e vê sua irmã atirar as notas sobre a cama e se aproximar.
–- O.K., só não fica chorando depois porque perdeu o amor da sua vida. Porque vai ter uma hora em que o Pedro vai cansar e você vai se tocar da burrice que fez ao não dá-lo uma chance.
E então sai dali, fechando a porta atrás de si e deixando uma Karina perplexa ainda a encarar o chão.
Ela vagarosamente ergue o olhar até que vê seu próprio reflexo, contra o espelho. Suspira, antes de admitir para si mesma e começar a se arrumar. Mesmo que ela não fosse perdoá-lo, ela precisava entendê-lo e sabia que a única forma de isso acontecer, seria deixando-o se reaproximar.
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A noite chegou e mesmo já sendo quase onze horas, Karina chegou à festa, se envergonhando ao constatar que todos os olhares da Ribalta se jogaram sobre ela. Ela não estava usando nem de longe alguma roupa diferente das que ela usava desde o término do namoro, mas ver Karina Duarte vestindo saia e salto alto ainda era impressionando para o povo que se acostumou com seu estilo jogado.
–- Filha, eu vou ali cuidar das bebidas com a Dandara. Se cuida, ta? – diz seu pai, interrompendo seus devaneios. Ela assente e o vê se afastar com a namorada, logo depois de lhe dar um beijo na testa.
Encara o ambiente e se encanta com a decoração do lugar, luzes piscando no teto e pessoas bem vestidas. Ela tinha que admitir que as festas da Ribalta sempre eram muito bem organizadas.
–- Olá pessoal! – gritou uma voz ampliada pelo microfone. – Karina ergue o olhar e encara Pedro sobre o palco, olhando exatamente para onde ela estava.
A plateia segue o olhar dele, desnorteada e a garota enrubesce diante de tanta atenção.
–- Finalmente chegou quem a gente estava esperando! – continua o garoto, fazendo-a erguer as sobrancelhas, confusa. Como assim quem eles estavam esperando? – Essa noite, essas músicas e esse show inteiro são dedicados a você, Karina. Espero que você aprove.
As pessoas recitam um grande e alto “own” e então a banda começa a tocar Quase Sem Querer e Karina sente seu coração acelerar. Aquela música, aquela maldita música... se lembrou do dia em que eles se conheceram, quando essa música tocava no rádio e Pedro a chamava de Esquentadinha pela primeira vez, aquele momento pelo menos não havia sido forjado, aquela troca de olhares, as palavras irônicas e o sentimento mascarado de ódio realmente existiram naquele momento. Ela sentiu seus lábios se erguerem em um sorriso involuntário e então se lembrou da noite em que Roberta aparecera em sua casa e acabara com toda sua alegria. Quando ela decorou seu quarto e colocou aquela mesma música para tocar enquanto ela e Pedro se amassem.
Olhou para baixo, envergonhada com sua estupidez. Ela estava tão preocupada em deixar de ser virgem que foi feita ainda mais de tola. Deixou que uma lágrima escorresse por seu rosto, mas não se abateu, continuou encarando o ex sobre o palco, retribuindo o olhar que ele lhe mandava com astúcia.
Depois que a música acabou eles tocaram mais quatro: Fogo, Proibida Pra Mim, Romance Ideal e Esse Seu Jeito. Parecia que Pedro estava realmente se esforçando naquela noite, pois cada letra, cada melodia e cada olhar eram direcionados a ela, à história forjada que eles viveram. Karina respirou fundo ao final de Esse Seu Jeito, seu coração completamente tomado de sentimentos, ela não deveria ter ido naquele show. A ideia imposta naquele momento em sua cabeça de perdoá-lo a assustava, o que ele havia feito não era digno de perdão, ela não podia simplesmente querê-lo tanto assim, mesmo depois de tudo o que ele fizera com ela.
Mas ali estava ela, desejando subir naquele palco e esquecer-se do passado, mesmo que o passado sempre fosse estar ali, como uma sombra atrás dela, lembrando-a á todo momento que não podia confiar nele.
Encarou-o de volta novamente e quando viu o olhar de satisfação em seu rosto desviou, negando com a cabeça. Ela não podia ser tão fácil assim. Se virou para sair o mais rápido possível daquele ambiente.
–- Segurem essa loirinha linda, porque ainda tem mais uma música que eu preciso apresentar para ela. – disse Pedro, e a plateia exclamou em resposta, fazendo Karina estancar no lugar onde se encontrava, ainda de costas para o palco. – A próxima música que a gente vai tocar foi escrita por mim numa noite de desespero, se chama Olhos Azuis e é cem por cento Perina.
O público foi à loucura com a declaração, enquanto Karina tentava sair dali de todas as formas, seus olhos pingando lágrimas sem parar, estava morrendo de raiva de Pedro, desacreditando que ele fosse mesmo fazer aquilo com ela, tentar convencê-la a voltar para ele daquela forma, através de uma letra comprada. Mas, quando ela ouviu os primeiros acordes da canção, tudo o que ela fez foi se virar e encontrar o olhar dolorido de Pedro, que recitava baixinho a letra da música, junto de Sol:
Seus olhos azuis como o céu e o mar
Me fazem te amar
Essa boquinha
De bonequinha
Você vai ser minha
Eu vou ser teu
Esse tempo longe já deu
Esses olhos azuis estreitos como o horizonte
Me fazem te amar um monte
Esses teus surtos de ciúmes
Já viraram costumes
E eu sei que não estamos incólumes
Dessa faca de dois gumes
Esses teus olhos azuis me fazem pensar nos céus que nunca vi
Nos livros que nunca li
Nas piadas que nunca ri
Esse seu jeito
Faz o meu coração pra você feito
Me faz querer deitar no seu leito
E sentir o som de seu peito
Esses teus olhos azuis...
Que cobertos pela sua dureza
Me fazem ver ainda mais sua beleza
Me fazem te amar com leveza
Venha minha alteza,
Vamos acabar com essa tristeza.
Ao final da canção, em meio às palmas do público, Karina chorou. Não por mágoa, raiva ou dor, mas sim de emoção. Chorou de amor e orgulho. Não importava que ele não tivesse a amado no começo, não importava se Esse Seu Jeito não tivesse sido escrita por ele, só o que importava é que aquelas palavras eram reais, ela sabia disso. Ela acreditava em Pedro naquela noite e isso bastava, não para perdoá-lo, mas para lhe dar uma chance.
Quando ela se tocou estava sorrindo emocionada enquanto encarava os olhos de seu amado. Pedro sentiu uma alegria que ele não sentia a muito tempo e quando ele e a banda se despediram e saíram do palco, tudo o que ele podia pensar era que ele tinha que encontrar Karina, largou sua guitarra em qualquer lugar atrás das cortinas e correu pelos corredores da Ribalta, até que ele ouviu um lamúrio baixinho vindo de uma das salas da fábrica e se interrompeu.
Abriu a porta devargazinho, e se viu na sala de dança. Vazia e escura, apenas o som agonizante de alguém chorando. Ele ligou a luz e pôde visualizar uma figura encolhida contra o chão, os cabelos cobrindo o rosto por inteiro.
–- Vicki? – chamou ele, confuso. E a garota afasta os cabelos do rosto e o encara, em meio às lágrimas.
–- O que você ta fazendo aqui? – pergunta ela, com a voz embargada.
Pedro se aproxima, sem saber exatamente o que fazer. Encontrar alguém chorando nunca é uma boa experiência. Como todo ser humano, ele evitava a tristeza de todas as formas, mas ver alguém chorando daquela forma sem fazer nada seria desumano.
–- Eu ouvi seu choro. – responde, se aproximando e se sentando ao seu lado, no chão.
–- Não era minha intenção... – sussurra ela, irônica, enquanto limpava algumas lágrimas com as costas da mão.
–- O que houve? – pergunta o garoto, e a vê olhar para baixo, envergonhada.
–- Não se finja de bobo. – responde Vicki. – Você sabe muito bem o que houve!
Pedro franze a testa, confuso e então suaviza sua expressão.
–- Foi você, não foi? Foi você que contou pra Karina. – afirma, e deixa a garota boquiaberta.
Vicki bufa, completamente fora de si, e então faz algo anormal para si, dá um tapa estalado no rosto dele.
–- Como você ousa me acusar?! Eu não fiz coisa alguma. Assim como os outros idiotas, não faço a mínima ideia do que você fez pra afastar aquela moleque! Mas deve ter sido algo muito ruim mesmo, pra ela te odiar tanto.
Pedro suspira, irritado.
–- Admite! Se não foi você, quem foi?
–- E eu é que sei?! – diz ela, e então deixa mais algumas lágrimas – agora também de ódio – escorrerem por sua face. Pedro encara aquelas lágrimas e franze a testa novamente confuso.
–- É por causa da banda? Porque você não é a nossa cantora definitiva?
A garota ri de sua inocência, raiva brotando de todos seus poros.
–- Foda-se a banda.
–- Mas...
–- Você é muito burro, néh?! – interrompe ela, se levantando. – Você não percebe?
Pedro se levanta também, em seu rosto uma expressão que não poderia estar mais confusa.
–- Depois dá forma que ela te odiou, depois que vocês terminaram eu achei que você fosse desistir e procurar outra pessoa. – afirma ela, encarando-o intensamente nos olhos. – Mas mesmo com ela te fazendo de palhaço você continua tentando, você continua a amando.
–- Eu acho que nunca vou deixar de amá-la. – afirma ele, encarando-a de volta.
Vicki suspira.
– Esse é o problema... – sussurra ela e ele compreende, sem precisar de palavras, o pedido implícito em seu olhar. Ela gostava dele. De verdade. Não era como a paixão passageira que ele achou que fosse.
–- Desculpa, Vicki. Mas...
–- Eu sei. Você gosta dela. – interrompe a garota e então se aproxima dele e passa seus braços em volta de seu pescoço em um abraço um tanto torto.
No início Pedro fica sem reação, mas então ele a abraça de volta, sabendo que ela apreciaria o gesto sendo que era o máximo que ele poderia dar.
Então, vagarosamente se é ouvido o rangido da porta sendo aberta e uma figura loira entra na sala, decepção em seus olhos e ódio em seus lábios.
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