Correndo em Círculos
12 Capítulo 12: Todas as minhas escolhas definitivas parecem me punir
Notas iniciais
Depois de alguns minutos de espera e nada da namorada, Pedro começou a se preocupar. Até que ele ouviu um estouro e desistiu de esperar, se levantando rapidamente, colocando suas calças e correndo para a sala, onde encontrou a namorada com a cabeça escorada contra a porta de saída, as mãos caídas ao lado do corpo, fechadas fortemente em punhos.
–- Karina... – chamou ele, confuso, e a viu se virar devagar em sua direção e se sentar contra a porta.
Ele entrou em desespero ao ver seu estado, olhos molhados e rosto inchado de tanto chorar, os lábios tremendo de raiva de si mesma por querer chorar ainda mais ao vê-lo.
–- O que foi? Aconteceu alguma coisa? – perguntou ele, preocupado, se aproximando para se sentar ao seu lado. Ela negou e ele continuou em pé, encarando-a com algo entalado em sua garganta. Cheio de medo.
–- É verdade, Pedro? – perguntou ela, com a voz embargada, ignorando sua pergunta. Ela deixou algumas lágrimas mais caírem e ele sentiu vontade de chorar também, no fundo já sabia sobre o que ela falava.
–- O q-quê?
Karina respirou algumas vezes seguidas, o ar não parecendo entrar em seus pulmões.
–- Não se finja de bobo! É verdade que minha irmã teve que te pagar pra você me namorar?! – gritou ela, irada, e ao ver seu olhar piedoso e sua cabeça assentir, se levanta e atira uma almofada em cima dele, seu rosto vermelho de raiva. – Como eu fui burra... por que alguém como você ia se interessar por alguém como eu? Burra! Burra! Burra! – completou, colocando as mãos sobre a cabeça.
–- Ka... – falou ele, suavemente, as lágrimas jorrando de seus olhos sem cerimônias. – Quem foi que te disse?
–- E isso importa? – murmura ela.
Ele sente a metade de seu coração que havia dado a ela se despedaçar a cada passo que dá em sua direção. Até que ele está ali, bem na frente dela, que apenas olhava para baixo, sem sabe o que pensar.
–- Não importa. Eu já devia ter te contado á muito tempo, mas... eu fui um fraco. – diz ele, mas ela parece não estar ali, continua olhando para baixo, os olhos encharcados quase sem piscar. -- Karina... me bate, me xinga, mas não me ignora. – fala ele e consegue a atenção que queria da garota, que o encara nos olhos, os seus cheios de amargura, enquanto os dele jorravam arrependimento.
–- Eu não sei o que pensar... como você pôde fazer uma coisa dessas comigo? Eu sou tão bruta assim que você não ficaria comigo por vontade própria? – pergunta ela, em meio a lágrimas, sua voz despedaçada como seu coração, embargada por causa do tsunami de lágrimas que não acabavam nunca.
Pedro ouve sua voz como se fosse uma faca sendo cravada cada vez mais no que sobrou de seu coração. Ele se aproxima, colocando uma mão no rosto dela em busca de seu olhar. Ele precisava ver se ainda havia algum sentimento bom nele, precisava saber se realmente havia a destruído.
E ele não gostou do que viu em seus olhos, um enxame de sentimentos ruins, como um pesadelo: mágoa, raiva, ódio e rancor.
–- Eu era muito burro naquela época e não pensei nas consequências de meus atos. Pra falar a verdade nunca pensei que você ia aceitar ser minha namorada, eu só queria dinheiro pra minha demo. – responde ele, com sinceridade e sente mais lágrimas escorrerem pela face de sua amada e molharem seus dedos que seguravam seu queixo.
–- Você ia me fazer de boba até quando? – pergunta ela, sentindo seu coração na boca.
–- Eu juro, Karina... eu ia te contar amanhã com a Bianca. – responde o garoto, encarando cada uma das reações dela como se fossem as suas.
Ela ri, em meio às lágrimas.
–- Não me faça ainda mais de boba! – murmura, empurrando a mão dele de seu rosto e se afastando em direção a cozinha. – Logo você? Cara, eu pensei que eu tivesse encontrado a pessoa perfeita pra mim, que você ia ser o único na minha vida que nunca me decepcionaria... como eu sou burra.
–- Você não é burra! – diz ele, seguindo ela e encarando suas costas. – Eu sou perfeito pra você e você é perfeita pra mim. Nós somos perfeitos juntos.
Ela ri de novo, ainda sem se virar para ele, se sentindo horrível por não ter a capacidade de parar de chorar.
–- AH! QUE PERFEITOS, NÃO É?! PERFEITOS ATÉ VOCÊ ME COMER, ENTÃO VOCÊ IA ME LARGAR SEM EXPLICAÇÃO ALGUMA. NÃO É?! – grita ela, se virando para olhar em seus olhos, soltando toda sua fúria nas palavras.
Pedro fica sem saber o que fazer, ela nunca iria acreditar nele, ele passara por cima de todas as colunas que seguravam os sentimentos dela ao esconder aquilo por tanto tempo. E ele sabia que mesmo se as coisas tivessem acontecido como ele pretendia, não ia mudar muito, ela iria apenas indagar: por que tanto tempo? E pensaria que essa noite de amor entre eles era apenas um aproveitamento. Ele a usara e a jogara fora da pior maneira possível, assim ela pensaria.
–- Não é. – responde ele, e mesmo sabendo que não receberia o perdão dela, se aproxima e a prensa contra a mesa, suas mãos agarradas fortemente em seus pulsos. Ela não o bate ou qualquer coisa do tipo, o muay thai guardado bem lá no fundo de sua mente. Era como se ela nem mesmo pudesse se mexer -- quanto mais bater nele --, como se seu corpo inteiro tivesse se tornado chumbo ao sentir o toque dele. – Eu te amo, Karina... mesmo que você não acredite em mim. Eu te amo tanto que eu me odiei e vou me odiar pelo resto da minha vida pelo que eu fiz com você. Eu nunca mais vou olhar pra minha carreira dos sonhos com o mesmo olhar, eu nunca mais vou olhar para uma lágrima da mesma forma que eu olhava depois de te ver chorar por causa minha. – diz ele, olhando no fundo daquele mar azul e agitado naquele dia, com tanta intensidade que ela, por um mísero milésimo de segundo, empurrou o orgulho para o fundo de sua garganta e acreditou nele. Mas um milésimo de segundo dura pouco, e quando ela se lembrou dos motivos que tinha para odiá-lo, o empurrou para longe de si e caminhou até a porta.
–- Vai embora. – pediu, baixinho, olhando para seus próprios pés e apontando para a saída.
Pedro resolve não desobedecer, ela precisava de um tempo sozinha para clarear a mente, só assim ele teria alguma chance de ser perdoado.
Quando ele passa pela porta, ela a fecha quase que imediatamente, permitindo que as lágrimas que já corriam descontroladas por seu rosto, viessem com ainda mais intensidade, até ela cair, soluçante no chão e ficar lá pelo resto da noite, com a camiseta dele lembrando-a de cada sentimento que ela teve, ainda embrulhando seu corpo.
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No dia seguinte, Karina acordou ainda na sala, encolhida contra a parede, a camiseta de Pedro sendo agarrada firmemente por sua mão, como se ela tentasse achar consolo nela. Não dormira quase nada, sua noite se resumiu em cochilos de hora em hora, até que chegou às cinco horas da manhã e ela desistiu de tentar dormir, ficou ali, no chão, cheia de dor nas costas e no coração, seu rosto seco de tanto que viu suas lágrimas. Ela não chorou mais, seu surto de tristeza durou algumas horas, até que não restou mais água em seu corpo para jorrar e ela ficou ali, olhando para o nada e pensando em tudo.
Pegou no sono novamente, e acordou alguns minutos mais tarde, com o som de uma risada e o baque de uma porta.
–- O que você ta fazendo ai, maluca? – pergunta Bianca, entrando sonolenta e sorridente dentro de casa. Ao contrário de Karina, Bianca tivera uma noite maravilhosa ao lado de seu namorado.
Karina encarou a irmã, lágrimas que ela não sabia que ainda tinha em seu corpo enchendo seus olhos, mas Bianca não percebeu isso, apenas o figurino da lutadora, que a deixou com alegria.
–- A noite foi boa em, Ka?! – murmura a atriz e vê Karina se levantar, ainda de cara fechada.
–- É... a noite foi maravilhosa. – ironiza. – E sabe por quê? Porque eu finalmente deixei de ser a babaca que você e o Pedro acreditavam que eu era.
Bianca desmancha o sorriso na hora, sentindo seu coração bater mais rápido de repente.
–- É isso mesmo, Bianquinha... eu sei de tudo. – completa a lutadora, sentindo enfim as lágrimas descerem por seu rosto e o aquecerem.
Bianca não fala nada, apenas vê sua irmã correr para o quarto e bater a porta com força e fecha seus olhos, sentindo tudo dentro dela desandar. Como Pedro pôde fazer isso? Ele não podia ter esperado pelo menos por ela? Ela sabia que aquela história de contar para sua irmã acabaria mal. Algumas mentiras são melhores que a verdade.
Mas o que estava feito, estava feito e ela não podia permitir que sua irmã a odiasse sem que desse uma explicação para seus erros antes, por isso ela correu até seu quarto atrás de Karina e bateu suavemente na porta, antes de abri-la, agradecida por ela não estar trancada.
Encontrou sua irmã sentada encolhida sobre a cama, olhando para o vazio. Karina sabia que Bianca passaria por aquela porta a qualquer momento, mas não trancou a porta, ela já havia tido experiências o suficiente com esse tipo de atitude e já havia aprendido sua lição, ela teria que ter essa conversa com Bianca, seja mais cedo, ou mais tarde.
–- Eu sinto muito, Ka... – foi a primeira coisa que Bianca dissera, em meio ás lágrimas que cobriam sua visão.
Karina não move um músculo, permanece na mesma posição, apenas sentindo toda dor que poderia sentir.
–- Eu sei que foi errado... mas eu só queria te ver feli...
–- NÃO! VOCÊ QUERIA ERA ME VER LONGE DO DUCA E DO NAMORO DE VOCÊS! – interrompe Karina, aos gritos, sua voz coberta de raiva.
–- Isso não é verdade. Eu sabia que você gostava do Pedro e só queria te ver feliz com ele.
Karina solta uma risada irônica.
–- Ah claro, e eu não conseguiria conquistá-lo porque eu sou uma bruta, grossa e com cara de sapatão!
–- Não. Muito pelo contrário... você é linda, sensível e está muito ferida agora. Eu entendo o que você está passando, mas você também tem que tentar me entender.
–- Não precisa mais mentir... ah, esqueci! A perfeitinha da Bianca só sabe fazer isso: mentir.
–- Para com isso, Karina! Você sabe que não é verdade. Eu só quero o seu bem. – diz a atriz, tentando se aproximar, mas sendo barrada por Karina, que só se afastou mais.
–- E é exatamente isso que você ta conseguindo, não é? O meu bem. Não ta vendo o quão feliz eu to? – rebate Karina, baixinho, se desmanchando novamente em lágrimas.
Aquilo destruiu o coração de sua irmã que novamente tentou se aproximar. Mas conseguiu abraçar sua irmã por apenas dois segundos antes de ser empurrada contra o chão.
–- EU NÃO QUERO O ABRAÇO DE UMA MENTIROSA. – grita Karina e vê sua irmã se debulhar em lágrimas.
–- O que é que ta acontecendo aqui?! – pergunta uma voz e então Gael aparece ali, totalmente pasmo com a cena em sua frente.
Karina ri.
–- O quê? Só mais uma das peças de sua filha. – fala ela, olhando para Bianca com um sorriso amargo. – E dessa vez ela é a vilã e eu sou a mocinha. – e com isso sai do quarto, batendo a porta.
–- Você pode me explicar o que foi essa palhaçada?! – pergunta Gael, irritado, se agachando e ajudando a filha mais velha a se levantar.
Bianca olha para baixo, envergonhada, mas o responde:
–- Eu cometi um erro.
–- Isso eu percebi... e pelo visto foi dos ruins. O que você fez pra sua irmã ficar assim novamente? – pergunta Gael, firmemente, olhando para a filha em busca de informações.
Bianca respira fundo, antes de respondê-lo, em um fôlego só:
–- Eu paguei Pedro pra namorar ela.
Gael nega com a cabeça, desacreditando.
–- Não. Você não fez isso... – fala ele e então se afasta alguns passos em direção à porta e para, antes de sair do quarto. – Você sabe que ela pode nunca te perdoar, não é? – pergunta, amargurado, e vê sua filha assentir. – Esse não é o tipo de coisa que uma irmã faz. – e com isso saiu do quarto, deixando sua filha se debulhando sozinha em culpa.
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Depois que Karina saiu do quarto ela não teve escolha senão ficar na sala. Não queria falar com seu pai, admitir que sua irmã fizera mais uma vez algo de tamanho descaso com ela era muito torturante, mas ela não estava devidamente vestida para fugir para a academia ou qualquer outro lugar público, então se sentou no sofá, emburrada. Prometendo a si mesma que não ia chorar nem que fosse mais uma lágrima.
Gael apareceu ali poucos minutos depois dela, com uma expressão decepcionada no rosto. Ele silenciosamente se sentou em sua frente e colocou uma mão em seu queixo, erguendo seu rosto para a altura do dele.
E assim Karina quebrou sua promessa e desandou novamente, sendo acolhida no abraço do pai.
–- Shh... não pensa nada agora, nem faça nada estúpido, só o tempo pode curar esse tipo de ferida. – fala ele, beijando o topo de sua cabeça enquanto a sentia molhar sua camiseta com seu choro.
Ele havia reparado em sua roupa e pensar no motivo dela estar vestida assim só o deixava com ainda mais raiva de Pedro. Não porque ela estava vestida daquele jeito e sim porque Pedro havia feito o que um pai mais teme, usado os sentimentos de sua filha para o bem próprio. Ele tinha que ter uma conversa muito séria com esse garoto. Mas agora, tudo que ele poderia fazer, era acolher sua filha em seus braços.
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Depois que Pedro saíra da casa de Karina, tudo o que ele pôde pensar era que não podia deixá-la sozinha, mas mesmo se quisesse, ela não iria deixá-lo se aproximar, então ele foi embora, de cabeça baixa e vergonha de si.
Ele não poderia se odiar mais. Havia feito exatamente o que não queria, enganado ainda mais sua Esquentadinha e a afastado definitivamente. Definitivamente. Pensar nisso era como arrancar seu coração enquanto ele estava vivo. Ela não podia se afastar dele. Ele era egoísta e faria de tudo para tê-la de volta, mesmo que não a merecesse. Pensar em ficar sem seu abraço, seus olhos e seus beijos era muito mais doloroso do que algum dia ele já sonhara que poderia ser.
Por isso ele prometeu a si mesmo, iria reconquistá-la, nem que precisasse mover os seus e a Terra para isso, não importava se ela gritasse e esperneasse, ela ia ser dele, assim como ele já era dela.
E assim ele percebeu, mesmo que ele já tivesse percebido que a amava, que nunca havia medido o quão importante ela era para ele, o quanto ele necessitava dela para viver e o quanto ele daria para tê-la de volta. Até agora.
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