Correndo em Círculos
35 Capítulo 35: Ela é mulher de verdade
Notas iniciais
Depois que Karina vira Victória beijar Pedro ela não soube como agir, um milhão de pensamentos borbulhando em sua mente. Ficou ali, perplexa e então saiu correndo para o QG. Ela era uma covarde mesmo, só sabia fugir e nada mais.
Esperou que Pedro viesse atrás dela, com mil farpas na mão, mas quem veio foi Cobra, com o guarda-chuva encharcado que ela jogara no chão agora em suas mãos. Ele o atira em qualquer canto do lugar e se agacha para sentar ao seu lado, mas antes que ele o fizesse ela se levanta, secando os olhos, decidida.
–- Eu quero lutar. – afirma e o rapaz a encara, surpreso, antes de assentir e pegar as luvas para que treinassem.
Eles passaram a tarde inteira assim, sem diálogos ou lamurias, apenas os socos entre eles e quando já não tinham fôlego, se sentaram no colchão, exaustos.
–- V-você é pequena, mas é ágil, em?! – diz ele, ofegante, sorrindo torto para ela enquanto bebia um gole de água.
Ela sorri de volta e rouba sua garrafa, esperando que ele começasse com as perguntas agora.
–- Eu fico assim quando to com raiva. – afirma ela e ele assente, completamente ciente disso.
–- É. Que nem eu... – murmura, encarando-a seriamente nos olhos.
Ela se arrepia diante de seu olhar, era extremamente constrangedor quando aquilo acontecia entre eles, como se houvesse algum sentimento turvo, não resolvido, palpitando em seus corações. Ela tinha medo daquele sentimento ser o que ela pensava. Amava Pedro mais que tudo e não queria outro relacionamento senão o deles juntos, mas sempre houvera aquela dúvida flutuando por entre ela e Cobra. E se... e se eles funcionassem juntos? E se Jade e Pedro estivessem certos e um relacionamento entre eles fosse bem mais simples e descomplicado? Afinal de contas, eles tinham muitas coisas em comum.
Já Cobra, ele realmente queria que as coisas entre ela e Pedro dessem certo, mas cada vez mais achava que isso não fosse acontecer. Sempre havia algo para separá-los, assim como sempre havia algo para separar ele e Jade. Com ele e Karina nunca houvera nenhuma barreira, a não ser eles mesmos. Passa um dedo por seu rosto, o contornando e quando chega próximo a sua orelha, coloca uma mecha teimosa de cabelo atrás dela. Os cabelos dela estavam crescendo cada vez mais e agora caiam rebeldes por seu rosto.
Ele a encara, sabendo que ela pensava o mesmo que ele. E se... e se ele a beijasse naquele momento? Será que aquilo seria o bastante para que esquecessem de todas suas dores? E ele se aproxima para fazê-lo, seus lábios roçando nos dela delicadamente, seu corpo praticamente não tocando no dela, apenas os seus hálitos a se mesclar. Ela franze a testa, encarando a proximidade de sua boca e sente um baque no fundo de seu peito, sua garganta se envolvendo em um nó. Cobra era lindo, era verdade, mas pensar em beijá-lo, apenas pensar lhe trazia uma ânsia no estômago. Ela não podia fazer isso. E parece que ele sente a mesma sensação, pois se afasta antes que iniciasse o tal beijo, a mão coçando nervosamente sua própria cabeça.
–- Desculpa, Ka... – diz o rapaz, envergonhado. – É que eu achei que você quisesse... mas eu não consigo.
Ela se vira para ele, tão corada quanto um tomate.
–- Isso... isso não devia...
–- Eu sei. – interrompe ele e se levanta também, se aproximando. Abre um sorriso. – Nós não servimos pra isso, néh? – indaga, fazendo-a se virar para ele, pensativa. – Foi muito estranha a sensação... parecia que eu tava fazendo algo muito errado.
–- Eu só consigo pensar no Pedro. É como se eu estivesse o traindo.
Cobra se escora na bancada.
–- Pensei que você estivesse brava com ele.
–- Não. Eu fico o tempo todo tentando ver só o lado ruim, mas dessa vez não foi assim... eu percebi que não posso mais ficar botando caraminholas na minha própria cabeça. Eu sei o que eu vi. Foi ela quem o beijou, ele apenas a afastou. Ele me ama.
Cobra assente, sorridente por sua amiga finalmente estar despertando.
–- Então o que você está esperando? – pergunta ele, curioso.
–- Eu não sei. Eu ainda tenho um pé atrás com Perina. A gente passou por tanta coisa que não consigo acreditar que possa realmente dar certo. Que a gente possa voltar a ficar juntos assim.
– Talvez voltar com o Pedro só dependa de você.
–- E voltar com a Jade dependa só de você. – devolve ela, fazendo-o rir.
–- É verdade... acho que a gente tem que parar de complicar as coisas.
Ela o encara, de testa franzida.
–- A nossa situação não vai ficar desconfortável agora que...?
O lutador acha graça.
–- Nenhum pouquinho. Você é minha irmãzinha, Karina. E também tem a Jade. Eu gosto dela, de verdade. É só que sempre existiu essa dúvida entre a gente, não é? As pessoas nunca acreditaram na nossa amizade e acho que foi por isso que eu também não estava acreditando, mas agora ta tudo claro. Eu sou seu amigo, seu irmão, assim como você é a minha.
A garota assente, mas antes que dissesse qualquer coisa escuta o som de um trovão e se vira em direção a porta, vendo, sob a luz dos raios, uma figura sentada no cordão da calçada, o corpo inteiro ensopado pela chuva. Ela se aproxima vagarosamente da porta, as sobrancelhas franzidas de curiosidade, e quando vê a figura se levantar para sair apressadamente dali, arregala os olhos.
Abre a porta com a maior rapidez que pôde e não se importa nenhum pouquinho com a água que não demora a encharcar seu corpo, corre para mais próximo da figura.
–- Pedro! – grita, desesperada, o som da chuva abafando levemente sua fala.
O garoto hesita em se virar, mas acaba por fazê-lo, com uma expressão furiosa no rosto molhado.
Ela se aproxima correndo.
–- O que você viu? – pergunta ela, em meio ao seu desespero, naquela distância ele poderia ter entendido tudo errado.
Pedro a encara, de cara fechada, os olhos magoados sobre aqueles que o destruíra. Sorri, irônico.
–- O quê? Dependendo do que eu vi, você não precisa inventar uma história tão longa, não é?
Ela engole em seco, sentindo cada palavra dele como um tapa em seu rosto.
–- Olha... eu e o Cobra... – diz, mais perto dele, a pouco mais de um metro, então sua voz se encontrava completamente clara.
–- Vocês estão juntos. Eu já sei. – afirma o garoto, a voz dolorida soltando aquelas palavras que envenenavam sua própria alma.
–- Não. Você não ta entenden...
–- Chega, Karina. Chega! – interrompe ele em meio a sua fúria. Ela se cala, mesmo sabendo que o que tinha pra falar era consideravelmente importante para que ele mudasse de sentimento. – Eu to cansado disso. Eu corro atrás de você, você me esnoba. Você corre atrás de mim, eu te esnobo. A gente nunca vai dar certo mesmo. Você ta certa em tentar algo novo com o Cobra. Vocês são perfeitos um pro outro, iguaizinhos, nunca vão ter problemas.
Ela sente seus lábios tremerem, seus olhos ficando vermelho de lágrimas, se aproxima um tanto, mas ele a barra com uma de suas mãos.
–- Eu ainda prefiro você. Totalmente o oposto de mim: exibido, cabeludo e romântico. – ela sorri tristemente.
–- O que você quer, em? Por que você continua investindo em mim? Na minha frente você diz uma coisa, se entrega, mas quando acha que eu não to olhando me apunhala pelas costas.
–- Não é bem assim, Pedro.
–- Então como é? – pergunta ele, curioso, enquanto a encara. Ela sustenta seu olhar, destemida.
–- Eu não beijei o Cobra! – ele ri.
–- Ahan... e meu nome não é Pedro! – diz, irônico, os olhos marejados de raiva.
–- É sério! Eu gosto de você. Será que é tão difícil assim entender?
–- É sim... você me deixa confuso. Mas eu acho que nunca vamos nos entender mesmo, somos muito diferentes.
–- Não se completa um quebra-cabeças com peças iguais. – diz ela, a frase que já se tornara deles.
Ele vacila diante de sua fala, seus olhos procurando algum vestígio de mentira nela.
–- Essa é só uma frase. Não é real.
–- É real sim. Nosso sentimento é real. Não desiste da gente, por favor. – pede ela, em meio ao seu desespero. Ele hesita ao olhar em seus olhos azuis, mas desvia deles e nega com a cabeça.
–- Não ia dar certo de qualquer maneira. Aquele beijo da Vicki só provou isso. Você não confia em mim...
Ela nega firmemente com a cabeça e dessa vez consegue se aproximar, segura o rosto dele entre suas mãos, a água que escorria dos cabelos dele, molhando os seus dedos.
–- Se o problema é confiança... eu to trabalhando nis...
–- Mas o problema não é só esse, Ka. – ele passa as mãos pelos seus cabelos, nervoso. – Você não me perdoou, se o tivesse não teria beijado Cobra. Você fez isso pra se vingar, não foi? – ela nega desesperadamente, mas ele ignora seu gesto. -- Não dá pra viver um romance com essa barreira entre nós dois.
Ela suspira.
–- Eu posso te perdoar! – diz, desesperada, e deixa uma lágrima escorrer por seu rosto. – Eu te perdoou.
–- Eu não quero que as coisas sejam assim. Você se forçando a fazer isso só pro meu bem.
–- Mas eu te perdoei, Pê. E eu confio em você. Eu confio, Pê. – ele a encara, ansioso para saber o que ela diria, para ouvir ela provar que eles valiam a pena. – Eu sei que foi ela que te agarrou. Que você me ama e que se arrepende de ter mentido pra mim.
–- Então por que você fugiu?
–- Eu tava cheia de raiva. Raiva porque tudo na minha vida dá errado e eu tava com medo de nós darmos errado também. Eu achei que aquele beijo fosse mudar tudo, mas não... eu sei que você me ama e mesmo se não soubesse, te ver beijar outra é bem melhor do que saber que não posso te ter, do que viver a vida sabendo que eu poderia fazer alguma coisa pra te resgatar. – ele relaxa um pouco nos braços dela e encara firmemente seus olhos. – Eu só precisava de um tempo para perceber isso.
–- Eu não tenho vontade de beijar mais ninguém a não ser você.
Ela sorri diante de sua declaração, um sorriso emocionado, choroso.
–- É muito bom ouvir isso, porque comigo é a mesma coisa. – declara ela, vendo ele desviar o olhar, uma mistura de sentimentos em sua expressão: ciúmes, raiva, mágoa e dor. Ele tentava não se lembrar da cena que vira à apenas alguns minutos atrás, mas ela vinha feito uma avalanche em sua mente, inundando qualquer crença que poderia ter em sua declaração.
–- Eu fiquei lutando a tarde inteira com o Cobra, sem dizer nada. Ele queria me consolar e acabou se aproximando demais. A gente não se beijou, mesmo que tenha parecido isso. Eu não vou negar que tinha curiosidade, o único amigo homem que tive, eu já pensei ser o amor da minha vida. Estava tudo muito confuso na minha cabeça, mas quando eu o vi ali, perto tudo o que eu conseguia pensar era em como eu queria que aqueles lábios fossem os seus, que eu tava traindo a você e, principalmente, a mim mesma. A gente confundiu tudo, eu e o Cobra, nós somos só amigos mesmo e isso ta bem claro agora. – ele não fala nada, apenas continua a encarar intensamente os seus olhos, a procura de alguma mentira. – Eu te amo, Pê. Só você.
Ele vacila diante da declaração. Ainda estava inseguro, mas aquele olhar dela... aquele olhar o fazia se esquecer do porquê de tantas dúvidas. Ele a amava e aquilo era tão simples. Não havia nada nem ninguém no mundo que conseguisse os separar. Ele sabia disso. E no fundo de seu coração, também sabia que tudo o que ela falara era verdade. Ela não beijaria Cobra e, principalmente, não o beijaria por vingança. Karina não era mais assim. Ela havia mudado; amadurecido.
–- Eu quero te pedir só uma chance. Uma mais. Pra mim e pra você. Se tudo der errado novamente... eu não sei. Mas eu quero essa chance. Não aguento mais essa distância e vou fazer de tudo pra que nada dê errado dessa vez. – diz ela, determinada.
–- Você tem certeza, Ka, que quer recomeçar? – pergunta ele, temeroso, olhando firmemente para aquele olhar que fazia suas pernas fraquejarem.
Ela assente, sem desviar de seu olhar.
–- É tudo o que eu mais quero agora, Pê.
Ele sobe vagarosamente uma mão pelo rosto dela, fazendo-a fechar os olhos e apreciar o carinho, e quando chega em sua nuca pode escutar um leve burburinho sair dos lábios dela. Sorri. Aquele ainda era o ponto fraco dela... e quando ela abre os olhos novamente ele tem certeza, aquele ainda era o ponto fraco dele. Desmancha o sorriso, encarando seriamente aqueles olhos, aqueles lábios, aquelas sobrancelhas arqueadas...
–- Você promete que vai ser mais fácil a partir de agora? – pergunta, sério.
Ela desvia seus olhos que estavam nos lábios dele de volta para os seus: marrons chocolate e assente devagar.
–- E você promete que nunca mais vai mentir pra mim? Mesmo que a verdade doa?
Ele assente.
–- Se depender de mim você nunca mais vai ter o coração quebrado. Somente olhinhos bem fechados – ela sorri. – e sorrisos assim de lado.
–- Eu te amo, meu guitarrista. – declara, fazendo-o sorrir ainda mais, os olhos de ambos molhados agora não de mágoa ou apenas da chuva, mas de alegria. A emoção de estarem finalmente se entendendo, cem por cento; seus corações retumbando sem parar, suas peles se arrepiando pelo desejo por contato e a boca de seus estômagos borbulhando para que as borboletas se libertassem.
–- Eu também te a... – começa a dizer ele, mas antes que completasse sua fala, um trovão retumba nos céus e Karina pula, assustada, graças a Deus em seu colo, suas pernas agarradas nas dele enquanto seus pés se erguiam nas pontas para que ela alcançasse seu pescoço com os braços. Ele ri e a agarra mais firmemente pela cintura. O medo dela cessa imediatamente, encara aqueles lábios rosados com desejo, suas pupilas dilatadas quase cobrindo por completo o azul de seus olhos. – Não sabia que você tinha medo de trovões. – sussurra ele em seu ouvido, a voz rouca e brincalhona trazendo arrepios para sua pele.
Ela afasta levemente o rosto do dele para que conseguisse falar tudo direitinho, sem desconcentrações.
–- Tem muitas coisas sobre mim que você ainda não sabe. – diz, misteriosa.
Ele ri e passa uma mão pelo rosto dela.
–- Ah é... então eu quero descobrir. – ela abre ainda mais os olhos, tremendo por imediações. – Eu te amo, Esquentadinha. – e essa é a deixa para que ela suba uma mão pelo pescoço dele e puxe sua cabeça agressivamente contra a dela, roubando finalmente seus lábios para si.
Ele a puxa para ainda mais perto e ela sorri contra sua boca. Quem nunca sonhou com um beijo apaixonado debaixo da chuva? Enrosca seus dedos entre seus cabelos e se ergue ainda mais nas pontas dos pés, sentindo as mãos deles apertarem sua cintura com vontade e afundarem em sua pele. Os dois no fundo sabiam que aquela sempre seria uma sensação única, sem igual, estar nos braços um do outro trazia um sentimento só deles e eles nunca o compartilhariam com mais ninguém. Ela se afasta levemente de seus lábios, sua boca agora apenas roçando na dele, seus olhos ainda inebriados pela sensação, fechados suavemente. Ele estava da mesma forma, mas abriu os seus olhos antes dela e sorriu ao vê-la daquele jeito, antes de escorregar seus dedos até debaixo de suas axilas e rodá-la no ar.
Ela solta um gritinho de surpresa, mas logo ri junto dele. A chuva, suas mãos, seus lábios, seu toque... aquilo parecia um sonho. Atira sua cabeça para trás e sente a chuva cair com mais intensidade sobre ela, abre a boca e sente a água deslizar por sua língua enquanto ouvia a risada rouca de Pedro perto dela. Ele a abraça por trás e beija seu pescoço, fazendo-a, surpresa, se virar para ele e resgatar seus lábios com aquele mesmo fogo de sempre.
Quando eles terminam mais aquele beijo, saem correndo pela praça igual duas crianças, perseguindo um ao outro, até que cansassem tanto ao ponto de se deitarem naquele mesmo banco onde já trocaram inúmeros beijos, as cabeças em contato uma com a outra, olhando para o céu que agora estava limpo de água e sustentava uma trilha de estrelas brilhantes que acompanhavam uma lua clara e cheia.
–- A nossa lua. – sussurra Pedro, simplesmente e ela não precisa dizer nada, apenas assente e repete, como um eco:
–- A nossa lua.
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Eles ficaram daquele jeito, despreocupados por uns bons minutos, apenas encarando a lua; e depois que o brilho dela já quase os cegava se levantaram, sentaram-se lado a lado e em meio a brincadeiras começaram a se beijar. Se interromperam depois de quase perderem totalmente o fôlego e ficaram rindo enquanto encaravam os olhos um do outro.
–- Eu nem acredito que estamos assim novamente. Que não haja mais nada entre a gente. – sussurra ele contra a mão dela que brincava pelas pintas que havia em seu rosto, contando-as. Ela ri e olha em seus olhos.
–- E eu nem acredito que você esteja aqui novamente. Eu senti tanto a sua falta, Pê. Tudo o que eu queria era te ver novamente, sentir esse abraço quentinho, esse carinho na nuca e esses beijos de tirar o fôlego.
Ele sorri.
–- Eu também, minha linda. E não só porque eu estava em algum estado bem distante daqui, mas por causa do tempo que a gente passou longe, mesmo estando tão perto. Eu não quero nunca mais me separar de você.
Em resposta ela se senta em seu colo, de lado, e o beija com volúpia.
–- Eu também, meu lindo, mas a gente vai ter que se separar essa noite ainda. – diz ela, depois do beijo, entristecendo a face.
–- É... seu pai deve ta louco por você não estar em casa a essa hora, ainda mais chovendo desse jeito.
Ela olha para baixo, se lembrando de tudo o que acontecera na noite anterior a volta dele. Ele a encara, preocupado, e lentamente ergue seu rosto para cima, puxando seu queixo para que encontrasse seus olhos. Ele vê os azuis e belos dela se encherem de água e entende imediatamente que havia alguma coisa errada.
–- Você se lembra do que eu falei sobre o Lobão me mostrar um exame de DNA...?
Ele assente, devagar, encarando-a intensamente, quase sem piscar.
–- Eu descobri que aquele exame estava certo, ou quase isso... Gael mentiu pra mim, ele não é meu pai.
Pedro franze a testa, apavorado, quando vê sua amada se debulhar em lágrimas e o abraçar pelo pescoço, tentando encontrar algum conforto em seu abraço. Ele a segura mais forte com as mãos, ainda perplexo, mas mais ainda, complacente com sua dor. Não se imaginava sendo filho de outras pessoas senão Delma e Marcelo, mesmo com seus defeitos, mesmo seu pai andando por um caminho que ele não aprovava.
Depois que ela se acalma um pouco, ela diz:
–- Eu não to morando mais com ele. Não o vejo desde a noite antes de você voltar. – ele ergue as sobrancelhas, percebendo o motivo de ela ter sumido, de não ter o procurado desde que ele chegara. Ela estava em transe, entrando cada vez mais em sua própria ruína.
–- E aonde você está dormindo, então? – indaga ele, fazendo-a desviar o olhar e engolir em seco.
Ela não precisa responder, apenas aponta com o olhar para o QG e ele sente suas vísceras queimarem. Podia confiar nela e entender sua história com o lutador, mas ainda não confiava nele, nenhum pouquinho. Fora ele que se aproximara para começo de conversa e pensar nisso fazia seu sangue ferver. Fecha as mãos em punhos, as unhas cravando na própria carne.
–- Você não vai mais dormir ali. – afirma ele, com convicção e ela se vira de volta para seu rosto, a testa franzida de irritação. Quem ele pensava que era para mandar nela? Mas ao ver seus punhos e seu olhar para com sua mais nova moradia, ela acaba por sorrir. Ele estava com ciúmes e isso era adorável.
Ele parece pensar e por isso ela o encara, tentando raciocinar qual a nova ideia maluca na cabeça de seu guitarrista apaixonado.
–- Você sabia que meu pai ta de casa nova? – pergunta ele. – Eu tava indo justamente pra lá quando vi... – ele engole em seco e ela ri com ainda mais intensidade.
–- Ta e o que tem?
–- Meu pai não ia se importar de receber mais uma hospede. Principalmente sendo a nora gata dele. – ela ri mais um pouco e ele acaricia a bochecha para a qual seu lábio puxava em seu sorriso de lado. – A Tomtom e minha mãe também não iam se importar nenhum pouquinho. – afirma. – Fica comigo. Pelo menos por enquanto... até sua cabeça se organizar.
Ela encara aqueles olhos da cor de um chocolate e tem a certeza de que aquela fora a melhor ideia que ele já tivera. Assente. Não seria nenhum problema ficar ainda mais perto de seu guitarrista favorito.
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