Correndo em Círculos

34 Capítulo 34: Você não vai me salvar?


Notas iniciais
Heyy!! Eu to tão feliz que muitos de vocês reapareceram! ♥ Muito obrigada pelo carinho! Música do capítulo: Save Me – Hanson (vídeo Perina: https://www.youtube.com/watch?v=bQFfirNeRxI) Sério, LEIAM AS NOTAS FINAIS BOA LEITURA *-*

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–- Calma filha... você entendeu errado. – diz Gael, desesperado.

A pequena garota o encara no rosto, não acreditando que ele realmente continuasse mentindo, mesmo depois de tudo o que acontecera. Ela o olha com desgosto.

–- Como você ainda tem coragem de mentir? Como você ainda tem coragem de me chamar de filha?! – murmura, elevando cada vez mais a voz.

Bianca encara os dois, arrependida, seu coração palpitando no peito enquanto assimilava o que estava acontecendo. Não. Aquilo não podia ser real. Devia ser só mais um de seus pesadelos. Mas olhar para a cena a tornava cada vez mais real e foi por isso que ela fechou os olhos, respirou fundo e os reabriu. Tudo igual.

–- Mas eu sou seu pa...

–- CALA A BOCA! – grita Karina, ódio em cada sílaba que saía de sua boca e, mais que isso, rancor. – Eu não quero ouvir mais nada que saia da sua boca.

Gael a encara, sentindo algo dentro de seu estômago remexer. Engole em seco.

–- Ka... ouve o papai. Ele... ele não tem culpa de nada que aconteceu. Ele nem sabe se é verda...

–- Para, Bianca. Eu não quero ouvir nada de você também. – diz Karina, interrompendo-a, seus olhos mais do que marejados, inundados de lágrimas. De raiva, ódio, mágoa ou tristeza... ela não sabia ao certo. – Eu não acredito que eu te dei uma nova chance. Você é uma mentirosa! Você. O Gael e até mesmo o Pedro. Dizem que me amam, mas só sabem mentir e me enganar!

Bianca arregala os olhos e põe a mão na boca, sentindo em seu peito aquela dor que ela jurara fazer de tudo para nunca mais sentir.

–- Eu odeio vocês! – cospe Karina, antes de sair correndo em direção à porta.

Gael corre atrás e antes que ela abrisse a porta, puxa seu braço.

–- Você não vai a lugar algum antes de me ouvir. – afirma ele, sério. Ela engole em seco e encara aqueles olhos com ainda mais raiva.

–- Eu não tenho nada pra ouvir!

–- Para de ser infantil, Karina! Você sabe muito bem que tem muito pra ouvir. – diz o homem, tentando não se abalar.

–- Mas eu não quero, Gael. Eu não quero ouvir mais nada que venha de vocês. Eu não vou acreditar em nada do que você me disser. – afirma a garota, em meio a sua respiração descontrolada.

O homem não cede, aperta mais seu braço e a puxa para mais perto.

–- Eu juro que não vou mais mentir.

Ela ri, irônica.

–- E desde quando algum juramento seu vale?

–- Desde sempre. A única mentira da minha vida foi essa, minha filha.

–- Não me chama assim! Nunca mais. Eu não sou sua filha, esqueceu?

–- É minha filha sim, até que se prove o contrário e mesmo que não seja de sangue, continua sendo. Fui eu que te criei. Fui eu que te ensinei tudo o que você sabe da vida.

Ela se cala, mesmo tendo uma resposta na ponta da língua para aquilo.

–- A sua mãe... ela... ela apareceu aqui em casa um dia coberta de hematomas no pescoço... no peito. Ela nunca me disse nada, mas eu desconfiava que houvesse sido Renè, o ex da Dandara.

–- Por isso que você o odeia tanto? – pergunta Karina e ele assente.

–- Entenda, filha, eu só fiz isso pra te proteger.

–- Proteger de quê? De eu pensar que minha mãe é uma put... – mas antes que ela completasse a frase, o homem lhe dá um tapa estalado no rosto.

–- NÃO FALA ASSIM DA SUA MÃE! – grita ele e quando percebe o que fizera já é tarde demais. Karina o encara, com ainda mais raiva. – Desculpa... – ela se afasta para mais perto da porta, furiosa, a mão cobrindo o lado da face que fora atingido. – Mas a sua mãe... ela não merece que você pense assim dela.

Ele agarra seu braço novamente e Karina morde tão profundamente os lábios que os sente cortar e o sangue se misturar com sua saliva.

–- Eu não tenho raiva da minha mãe. Eu tenho raiva de você. Você me privou da vida: me proibiu de namorar, de lutar, de fazer tudo o que eu gosto. – diz e por incrível que pareça, calmamente, mas se interrompe devido às lágrimas que vem como um tsunami por seu rosto, tudo por apenas ver a expressão desoladora daquele homem. Era reconfortante falar tudo o que estava guardado dentro de seu peito, mas também era aflitivo vê-lo encolher tanto ao ponto de se tornar uma casca. Ela engole em seco. Não podia se sensibilizar. – Você usa o lema “Força e honra.” como se tivesse essas duas coisas, mas você na verdade é um covarde, desonesto e degradante. – e, pra completar seu trabalho em detoná-lo: -- Eu queria que o Lobão tivesse me criado. Eu tenho certeza que ele seria um pai muito melhor do que você!

Gael imediatamente afrouxa o aperto em seu braço, respirando ofegante, mas em vão, parecia que o ar não entrava em seus pulmões. Aquele pesadelo só piorava. Ele a encara com dor no coração, mas fora nocauteado, deixa que sua mão recaia do lado de seu corpo e vê sua filha correr para fora dali, destruída.

Bianca corre para apaziguá-lo, preocupada.

–- Pai... – ele fecha os olhos fortemente e se senta no chão mesmo, olhando hipnotizado para o nada, sentindo os braços finos de sua filha mais velha o envolverem. Não fala nada. Não briga, não abraça de volta, apenas fecha os olhos e sente as lágrimas caírem por ele. Grato. Ele estava grato por ao menos ter aquele abraço de uma de suas filhas, afinal, nem tudo estava perdido. – Você não pode ficar assim pra sempre, pai. A Karina pode fazer alguma besteira.

Ele assente e se levanta, secando o rosto com o punho de sua camisa e se recompondo. Se ele realmente queria recuperar tudo o que perdera, não podia ficar ali se lamuriando.

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Já fazia um dia que Pedro voltara de viagem e nada de Karina. Ele não havia parado de pensar nela um segundo sequer desde que voltara, sua angústia e saudade demais para suportar. Mas ele não a vira em nenhum momento, nem mesmo soubera notícias suas e sempre quando tentava descobrir alguma coisa era interrompido pelas saudações das pessoas. Não quisera ser chato e os dispensá-los, mas ver Karina era muito mais importante do que qualquer um dos elogios que recebia por estar crescendo em sua carreira.

Mandara um milhão de mensagens e ligara o mesmo número de vezes, mas a cada segundo sua raiva crescia. Era muita infantilidade da parte dela ignorá-lo por causa do que aconteceu. Pensara que ela havia amadurecido e que estivesse realmente disposta a tudo por sua relação, mas pelo visto se enganara.

Jogou o celular longe em um de seus surtos de fúria, os olhos cobertos de lágrimas de raiva e medo. Medo de perdê-la. Esse se tornara praticamente o seu único medo. As pessoas podiam matá-lo, torturá-lo ou sequestrá-lo que ainda seria melhor do que perdê-la. Irônico. Antes ele era chamado de frouxo e medroso, mas parecia que o amor destruíra aquelas suas características. Agora ele era apenas um maluco apaixonado.

Alguém bate na porta de seu quarto e ele se levanta rapidamente da cama. Tomtom não estava mais no quarto, devia ter ido ajudar sua mãe com o restaurante, então havia uma mínima possibilidade de ser ela, pronta para se jogar em seus braços e se esquecer de tudo, exatamente como ele queria. Mas ele desmancha o sorriso ao ver seu pai entrar, com uma cara de poucos amigos.

–- Ah... é você. – murmura, decepcionado e se joga de novo na cama.

Marcelo se senta na borda dela, sério.

–- Então meu filho viaja em turnê e nem se despede do pai? – diz ele, magoado.

Pedro se levanta, engolindo em seco.

–- Er... é que foi meio de última hora, pai. – Marcelo assente e isso surpreende o garoto, que esperava que ele não engolisse aquela história.

–- Eu entendo de quem foi a culpa. – diz o homem, deixando o garoto confuso. – Da Karina, é claro. Sua mãe me contou que vocês voltaram, que você passou os dois dias antes de viajar, com ela. Eu entendo que não tenha sobrado tempo nem pra avisar o velho aqui de que o filho ia sumir por um mês.

Pedro arregala os olhos e abre a boca para tentar dizer alguma coisa que apartasse aquele amargor na boca de seu estômago, mas Marcelo o intercepta, e diz, antes dele:

–- Eu e a Tomtom nos reaproximamos nesse tempo. – Pedro assente, pensando no que deveria dizer. – Eu to morando com a Roberta agora, graças a Deus sai daquele carro. – ele ri, mas Pedro não faz o mesmo, o encara, cheio de raiva.

Como seu pai podia dizer aquilo com tanta naturalidade? Ele estava morando com a inimiga, a mulher que destruíra a sua vida e a de sua família. E ele nem mesmo sabia o que mais aquela mulher havia feito... ela havia destruído também seu relacionamento com o amor de sua vida, talvez para sempre.

–- Eu sei o que você pensa, Pedro, mas não pense. A Roberta mudou, ela realmente quer fazer as coisas certas dessa vez.

–- Isso é o que ela fala pra você. – diz Pedro, entre dentes.

–- Não. Nem começa, Pedro... – o homem se levanta, mordendo os lábios com expectativa. – Mas eu só entrei nesse assunto porque eu quero me reaproximar dos meus filhos, a Tomtom ta começando a se acostumar com a nova vida e eu quero que você também se acostume, por isso vim chamá-lo pra dormir lá em casa essa noite. – o mais novo abre a boca para dizer que aquilo era uma sacanagem, mas é interrompido antes que falasse: -- E isso é uma ordem. Você me deve uma, não é?

Pedro engole em seco e assente, a contragosto.

–- Só não me peça para aceitá-la ou falar com ela. Ainda é muito cedo pra isso...

Marcelo assente de volta, alegre pelo filho estar lhe dando uma chance e emocionado por reparar no quão distante eles estavam.

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Um pouco mais tarde, Pedro desceu para almoçar e se deparou com mais uma pessoa que não desejava ver nenhum pouquinho. Vicki. Encara a garota com a cara fechada e tenta dar meia volta, mas ela o vê antes disso, corre até ele e agarra seu braço.

–- Não faz assim, Cabeludinho. – pede ela, desesperada. Pedro bufa.

–- O que você quer, garota?! Já não basta os problemas que você me trouxe? –murmura ele, furioso.

A cantora arregala os olhos diante de sua grosseria.

–- Esquece esses problemas, o assunto que eu quero falar não tem nada haver com a sua vida pessoal. – o guitarrista franze as sobrancelhas, curioso. – Eu quero entrar pra banda.

Ele ri, irônico. Ela só podia estar brincando! Eles já tinham uma cantora e uma muito boa, diga-se de passagem, e mesmo se não tivessem, Vicki seria sua última opção. Mas aquilo não o surpreendera tanto quanto ela imaginara que surpreenderia, ele já estava ciente de que várias pessoas iriam querer se aproveitar do sucesso da Galera da Ribalta. Não é tão normal assim uma banda caloura abrir shows como os de Onze:20.

–- Eu sei que eu errei com você, mas esquece tudo aquilo... agora eu quero me envolver somente no trabalho e eu não encontrei banda melhor do que a sua pra me aceitar.

Pedro estreita os olhos, raivoso.

–- Não dá pra esquecer tudo o que você fez. Se for por mim, você não entra na nossa banda nunca.

Vicki engole em seco, começando a perder a paciência, nunca imaginou que seria tão difícil convencer alguém a dar o que ela queria.

–- Mas...

–- Me erra garota! – murmura ele com grosseria e corre para fora do restaurante, tentando fugir dela.

Vicki bufa, mas não cede. Tudo o que dissera era verdade, ela queria se concentrar apenas no trabalho agora, o único problema era essa raiva, esse sentimento explodindo em seu peito que queria correr para aquele guitarrista e implorar por seu amor. Corre atrás dele, desesperada.

–- Por favor, Pedro. Me des... – mas ele não estava prestando atenção nela, nenhum pouquinho, olhava firmemente para a frente, onde uma chuva tórrida banhava a praça, as pupilas dilatadas brilhando de amor ao ver uma figura loira, baixinha e cabisbaixa sair do QG junto de um rapaz moreno e bonito. Vicki nunca vira aquele rapaz, mas sentia que devia confiar nele. Nunca é bom ver o amor de sua vida com alguém tão bonito. Ela sorri e encara Pedro.

–- Parece que a sua Esquentadinha achou alguém melhor que você. – cospe junto de seu veneno.

Pedro parece despertar, franze a testa e fecha as mãos em punhos, cheio de raiva. Mas quando Vicki acha que seu plano está funcionando e ele finalmente está acordando para a vida, ele se vira para ela, furioso.

–- Ta ai! Ta ai a verdadeira Vicki. Uma bruxa que só quer envenenar as outras pessoas. Eu confio na Karina. Aquele ali é um amigo dela.

–- Amigo?–- Vicki ri. – Desculpa, Cabeludinho, mas eu não acho que sua namoradinha seria tão tonta ao ponto de ser apenas amiga daquele gostoso ali. Ele tem tudo: corpo, presença e... se ele é amigo dela, personalidade. Deixa eu adivinhar... lutador? Típico. Por isso que eu digo que temos encontrar alguém que seja igual a gente. Pessoas diferentes nunca dão certo juntas.

Pedro se vira para a garota e respira fundo para se manter calmo. Ela estava tocando em sua ferida e ela estava se abrindo e jorrando cada vez mais sangue. Fecha os olhos firmemente. Não ia deixar-se levar pelo falso roteiro daquela zinha. Karina não merecia sua desconfiança, não depois de tudo o que os dois passaram.

Abre os olhos e vê os curiosos de Vicki sobre ele. Ignora-os e corre pela rua, sem se importar com a chuva. Apenas querendo agarrar sua Esquentadinha e provar para o mundo o seu amor.

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O dia amanhecera chuvoso, exatamente igual ao estado de espírito de Karina. Depois que saíra de casa, andara a esmo pelas ruas, até que Cobra a viu na praça e a acolheu em sua “casa” depois de ouvir sua história. Passara o dia anterior inteiro naquele colchão, chorando sem parar e dormindo em alguns intervalos, sempre tentando encontrar alguma saída do caos em que sua vida se encontrava. Dormira muito mal naquela noite também, quando dormira, pois passara a maior parte do tempo preocupada com o rumo que ela tomaria a partir daquele dia. O que ela faria? Onde ela moraria? Era fato que não aguentava mais ser enganada e que seria insuportável viver na mesma casa das pessoas que fizeram exatamente isso, mas aquele era o seu único lar. Não conhecia outro.

E ainda tinha Pedro... ela havia visto o desespero dele para falar com ela, mas ignorara. Sua cabeça estava muito confusa no momento para que decidisse e mesmo que em todos os segundos daquele mês tivesse a certeza de que queria voltar a ficar com ele, agora ela já não a tinha mais. Sua vida estava muito triste para que visse as coisas boas que aquela relação podia trazer e, por isso, ela só via as coisas ruins que sofrera por causa dele. A dor e todo o sofrimento que fora quando ele a traiu. Ela não queria sentir aquilo novamente, por isso hesitava em retomar.

–- Ta acordada? – indaga uma voz, baixinho. Karina assente e ergue sua cabeça do colchão que Cobra montara com cuidado no chão da noite retrasada.

O lutador sente um calafrio passar por sua espinha, nunca vira tanta escuridão no rosto da jovem, nem mesmo quando ela descobrira o segredo de Pedro. Ela tinha olheiras profundas debaixo dos olhos, rachaduras enormes nos lábios e inchaço em todo o rosto pelo tanto que chorara. Ele imaginava sua dor apenas por sua aparência e a sentia junto dela. Nunca ia querer aquilo nem mesmo para o seu pior inimigo. Acordar em uma manhã e perceber que perdera tudo devia ser o fim, ainda mais quando esse tudo que perdera ainda estava ali, vivo, mas distante.

–- Eu espero que você não fique brava comigo, mas o Gael esteve aqui ontem de tarde e eu contei onde você estava dormindo. Ele queria te levar embora, mas acabou cedendo.

Karina assente devagar, ainda sem olhar para o lutador, apenas para frente, o rosto emitindo uma expressão indecifrável.

–- Não faz mal. Ele ia me achar de qualquer maneira... e eu fico até aliviada. Se ele não soubesse que eu to viva, poderia fazer alguma burrada.

Cobra assente e devagar, se senta ao lado dela e segura sua mão. Ela ergue o olhar, surpresa com o gesto.

–- E o que você vai fazer agora que descobriu a verdade? – pergunta ele. Ela olha para baixo e suspira, antes de secar um de seus olhos que ameaçavam se aguar novamente.

–- Eu não sei. – engole em seco. – Talvez ir morar com o Lobão seja realmente o melhor.

Cobra arregala os olhos e nega.

–- Não. Não se envolve com aquele cara, Karina. Ele... ele não é uma boa pessoa.

Karina não se surpreende com o que o amigo falara. Estava ciente de algumas das maldades que Lobão já cometera graças ao cuidado que Gael sempre tivera quando suas filhas estavam próximas daquele homem, ele sempre contara histórias sobre sua ganancia e ódio de Gael, e não só dele, de todos os Duarte, para que nunca houvesse o perigo dela ou Bianca se aproximarem e se queimarem, exatamente como ele havia se queimado.

–- Talvez ele seja a melhor pessoa agora. – afirma ela com amargor. Pelo menos ele não mentira, pelo menos ele não havia a enganado.

–- Ele não é, Karina. – afirma Cobra com desespero, puxando o rosto da jovem para sua direção. – Mesmo se Gael já tivesse matado alguém á sangue frio, ele ainda seria melhor que Lobão. Aquele homem é... perigoso.

Karina hesita diante de seu olhar, seus olhos azuis arregalados sobre os dele antes de recaírem em seu colo novamente.

–- Ótimo. Minhas opções não são lá muito boas pelo visto... – e ri, irônica, praticamente um suspiro pelo nariz. – A vida ta me ensinando, Cobra... ela ta me mostrando cada dia mais que não podemos confiar. – ela fecha os olhos fortemente para que segurasse as lágrimas, mas elas, teimosas, são mais fortes e escorrem por seu rosto. – Eu sei que agora depois de toda noite feliz, eu vou acordar cheia de medo. Medo de perder tudo em um piscar de olhos. Porque é exatamente assim que acontece, a gente não pode confiar porque em uma manhã essa confiança pode escorregar pro ralo.

O lutador acaricia sua cabeça com carinho e aconchega seu rosto em seu peito.

–- É assim com o Pedro também? – indaga ele em um sussurro.

Karina sorve um pouco de ar antes de respondê-lo:

–- Eu tenho medo de perder o Pedro, mas sei que se isso acontecer não vai mais ser por culpa dele. Ele já provou que me ama de verdade. O que eu tenho medo é de eu fazer alguma coisa que o afaste. De eu não ser boa o bastante.

Cobra assente com firmeza. Ele a entendia nesse quesito, passara a vida inteira se diminuindo diante das outras pessoas e quando Jade apareceu na sua vida não foi diferente, até que ela o mostrou seu valor com todo o seu amor, mas mesmo assim ele conseguira a afastar, com seu gênio forte e sua incapacidade de se entregar.

–- Ele já chegou, sabia?

Ela assente.

–- Você não vai falar com ele?

–- Eu acho que eu não to preparada ainda...

–- Ah para Karina! Mais complicados que vocês dois, só eu e a Jade mesmo! – ela ri, agora de verdade. – Você ama ele, não ama? – ela assente com firmeza, os olhos brilhantes sobre o amigo. – Então o que você ta esperando? Se tem uma coisa que eu aprendi com a Jade é que não adianta fugir ou negar, quando o amor bate na sua porta...

Ela morde os lábios.

–- Acho que você tem razão.

–- Você merece ser feliz, Karina e se aquele guitarrista pirado te deixa feliz, vá em frente!

Ela sorri.

–- Nunca pensei que fosse ver meu amigo tão filosófico. – os dois riem e depois que as risadas cessam se levantam.

Cobra a leva até a porta, mas quando percebe que a chuva continuava firme e forte volta para pegar um guarda-chuva, entrega-o para ela, mas antes que ela saísse dali vê um vulto correr em sua direção. Ela abre um imenso sorriso, os olhos emocionados e o coração batendo forte dentro do peito ao ver Pedro se aproximar com um igual sorriso no rosto, mas antes que ele a alcançasse, ela vê um outro vulto puxar seu braço e então seus lábios. Vicki. Ela estava o beijando com tanta intensidade que os olhos de Karina quase pulam das orbes de tanta raiva. Deixa o guarda-chuva cair no chão com um baque, sem se importar com a chuva que encharcava seu corpo.

Pedro empurra o corpo da jovem para longe com tanta força que ela cai dentro de uma poça d’água, o baque de seu corpo contra o chão molhado produzindo um “ploc”. Ele fala alguma coisa que é abafado pelo som da água e então se volta para Karina.

A lutadora olhava para ele com um olhar vazio, a expressão indecifrável em seu rosto novamente e ele tenta entendê-la de alguma forma antes de vê-la correr para dentro do QG novamente. Desperta e corre atrás dela, mas um corpo alto o barra.

–- Acho melhor vocês conversarem mais tarde. – diz Cobra, firme, barrando o corpo do guitarrista com suas mãos.

Pedro acaba por assentir, perplexo e chateado que aquilo realmente estivesse acontecendo novamente. Ele não podia perdê-la.

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Mais tarde, perto do anoitecer, Pedro se despediu de sua mãe e irmã, pegou sua mochila e foi para a nova casa de seu pai e de Roberta, como combinado. Não voltara a falar com Karina depois daquele mal-entendido, havia prometido para si mesmo que não a procuraria, deixaria que ela viesse até ele e dissesse o que tivesse que ser dito. Sentia um amargor em sua boca por pensar no momento em que ela faria isso e o que ela diria, mas tentava se manter firme. O que for pra ser, será.

Apressou o passo diante da chuva que ainda não dera uma trégua e, curioso, deslizou os pés até o QG. O vidro estava encharcado, mas ele podia ver com clareza sua amada sentada no chão enquanto Cobra conversava alguma coisa com ela, ao seu lado. Aproximou seu rosto do vidro e passou a mão sobre ele para que secasse. Mas quando a visão ficou mais clara, ele desejou não tê-lo feito. Cobra havia se aproximado e neste momento, não havia distância entre ele e Karina.

Afasta seu rosto do vidro, perplexo, o rosto molhado agora não só de chuva, mas também de suas próprias lágrimas. Eles estavam juntos... Cobra e Karina. Eles estavam se beijando.

Notas finais
CALMEMMMMMMMMMMMM! E NÃO ME MATEM, PFVR! No próximo vocês vão entender tudo direitinho... Essa foi a visão do PEDRO da cena, então não quer dizer que seja o que ele realmente viu. Posto assim que tiver uns 10 comentários. Prévia (só pra vocês se acalmarem um pouco): “-- Desculpa, Ka... – diz o rapaz, envergonhado. – É que eu achei que você quisesse... (...) -- Eu só consigo pensar no Pedro. É como se eu estivesse o traindo. Cobra se escora na bancada. -- Pensei que você estivesse brava com ele.” “Ela se aproxima correndo. -- O que você viu? (...) -- Vocês estão juntos. Eu já sei. – afirma o garoto.” “-- Eu quero te pedir só uma chance. Uma mais. Pra mim e pra você. (...) -- Você tem certeza, Ka, que quer recomeçar?” BEIJOO!