Correndo em Círculos
33 Capítulo 33: Longe de você eu enlouqueço muito mais
Notas iniciais
Era certo que a viagem em “turnê” da Galera da Ribalta havia sido um grande salto para a banda. Trouxera reconhecimento, novos fãs e novas oportunidades, mas, para Pedro, trouxera acima de tudo, a certeza de que não conseguiria ficar longe de sua Esquentadinha, nunca mais. Mas aquele tempo longe fora bom para isso também, de certa forma, pois só assim ele percebeu o quanto sua vida girava em torno dela. Quando estava entediado, esperando o ônibus chegar a mais um de seus destinos, sempre lhe vinha em mente a expressão esquentada de sua esquentadinha, seu sorriso de lado e seus olhos puxados ao fazê-lo. Essas lembranças só eram ainda mais intensas em seus shows, onde ele fechava os olhos e se lembrava dela, cada detalhe, cada sensação e tocava com louvor.
Além disso, aquela distância clareara sua mente. Era difícil admitir, mas provavelmente as coisas não sairiam como ele queria se eles ficassem juntos daquela forma, com ela desconfiando sempre e totalmente insegura sobre si. Ainda mais agora, que várias e várias garotas se tornaram suas fãs e sempre que podiam o abraçavam ou beijavam. E ele sabia que aquilo se tornaria cada vez mais intenso com seu sonho sendo alcançado. Mas ao mesmo tempo ele sabia que seu sentimento nunca acabaria e que, de certa forma, ele conseguiria curá-la daquele problema. O amor cura tudo. Pensava, com seus botões.
E era por isso que ele continuava, a cada dia mais, demonstrando cada vez mais seu amor. Pela internet, ou telefone, ele só precisava dizer que a amava todos os dias.
–- Ka... ta tudo bem? – pergunta ele ao telefone, preocupado, depois de dizer que a amava e receber um seco e curto “também”.
Ela seca os olhos e tenta se recompor.
–- Desculpa, Pê, é que hoje não foi exatamente um bom dia... – murmura ela.
–- Relaxa, linda, eu logo to ai. – diz ele, tentando tranquilizá-la. Ela ri.
–- Que namorado convencido que eu fui arrumar!
–- Namorado? – indaga ele, mais surpreso do que qualquer outra coisa.
Ela se apressa em se corrigir:
–- Quase isso...
Ele sorri contra o telefone celular.
–- Mas falando sério, o problema dessa vez não é só a saudade, Pê.
–- É o seu pai, não é? Ele não te deixa lutar no campeonato...
–- Não. Quer dizer... – ela se enrola na fala, mas decide por começar do começo: -- Sabe o mestre da Khan? O Lobão?
Pedro franze a testa.
–- O mestre do Cobra?
–- É... ele foi na academia do meu pai hoje. – desabafa ela e engole em seco em seguida. – ele me mostrou um exame de DNA, Pê, que dizia que eu era filha dele.
O garoto fica quieto, sem saber o que dizer e apenas desejando estar ao lado de sua amada em um momento como esse.
–- Eu falei com Gael. Perguntei se tinha alguma chance daquilo ser real... ele disse que não, que Lobão é do mal e provavelmente forjou um exame.
–- Então ta tudo certo, não é? Esse Lobão só queria incomodar seu pai. – afirma o garoto e ela engole em seco.
–- Não sei... eu ainda to com uma pulga atrás da orelha. Tenho tanto medo de estar sendo enganada novamente...
Pedro trava, arrependido e os dois ficam em silêncio por alguns segundos.
–– Ka... o mestre é todo cheio de força e honra, ele não vai fazer isso com você. Ele não é burro como eu e sabe muito bem que a Esquentadinha ai odeia mentira.
Ela sorri.
–- Você sempre sabe o que dizer.
–- E é por isso que você me ama. – completa ele, sorrindo contra o telefone.
Ela revira os olhos.
–- Sempre exibido...
Ele ri, e depois de um tempo ela muda de assunto:
–- Eu fui ao ginecologista semana passada... claro, sem meu pai saber. – diz, coçando nervosamente a cabeça. – Achei que você precisasse saber... eu fiz alguns exames pra saber o motivo de meu atraso menstrual e ele saiu hoje. – Pedro se remexe na cadeira, desconfortável e preocupado por seu tom ser tão sério. – Eu to com uma doença chamada ovário policístico.
Ele arregala os olhos.
–- E isso é sério? – indaga, preocupado.
–- Mais ou menos... parece que isso acontece quando há muito hormônio masculino na mulher e pode atrapalhar na hora de engravidar, mas a médica disse que em pessoas jovens é bem mais fácil e tem vários tratamentos.
Ele assente, mas não deixa de ficar mexido.
–- E você ta bem? Não sente nenhuma dor?
Ela ri de seu jeito preocupado.
–- Não, Pê. Ta tudo bem comigo. É levemente amedrontador, mas é só tomar as pílulas anticoncepcionais que meu ciclo regula e com o tempo os cistos somem.
Ele suspira, aliviado.
–- Graças às forças superiores do Universo! Eu não ia aguentar se você tivesse mal, minha Esquentadinha.
Ela sorri torto. Como era adorável o jeito de seu moleque.
–- Nada nunca ia ser tão mal quanto ficar longe de você desse jeito. – diz ela, triste.
–- Relaxa, linda, logo, logo o seu guitarrista frouxo ta de volta. E dessa vez ele não vai te largar nunca.
Ela assente, realmente desejando que o que ele dissera fosse verdade.
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Joanca. Ainda era estranho ouvir aquela palavra nova. A junção de seus nomes saindo sem parar da boca das outras pessoas. Cochichando, indagando... era fato que todos sabiam do rolo entre o viciadinho e uma das atrizes mais belas da Ribalta. Onde quer que os dois fossem, recebiam milhares de perguntas sobre seu relacionamento. Afinal, Joanca era real ou não?
A resposta estava ali, logo após mais uma das aulas dinâmicas de Edgard, onde o foco era as maquiagens usadas em cada época para o figurino da próxima peça, Bianca correu para o camarim feminino, e João foi atrás, logo depois que viu que todas as alunas já haviam saído dali. Abriu sorrateiramente a cortina e sorriu ao ver sua bela encarar sua face no espelho enquanto retirava a maquiagem do ensaio com um demaquilante. Ela se vestira de egípcia, os olhos puxados e os lábios rosados marcando ainda mais sua beleza.
Ele se aproxima e ela, distraída, só nota sua presença quando sente seus braços magros envolverem sua silhueta. Ela dá um pulo diante do susto, mas quando vê quem é, abre o maior de seus sorrisos.
Ele beija sua bochecha e gira sua cadeira para buscar seus lábios.
Ela o afasta com o braço, corando firmemente e cobrindo o rosto.
–- O que houve, linda? – pergunta o garoto, preocupado.
Ela solta um suspiro. Estava insegura, ninguém nunca a via desarrumada, sem ao menos um pó cobrindo as imperfeições do rosto, muito menos assim, de olhos borrados de rímel e lábios marcados levemente de batom. O resquício do que fora sua maquiagem do figurino da peça. Nem mesmo Duca a vira assim... e especialmente ele, quando o namorava sempre se arrumava o melhor possível. Ela era vaidosa e odiava ser pega em desleixo.
–- Linda? Eu to toda horrível assim, sem maquiagem, ou melhor, com ela toda borrada. – responde a garota, com os olhos arregalados para acentuar sua fala.
João ergue uma sobrancelha.
–- Pra mim você é linda de qualquer jeito, Bianquinha. Não precisa se envergonhar. Quer dizer... você é linda especialmente assim, sem nada cobrindo seu rostinho perfeito. E olha... não tinha nada mais sexy do que ver a minha Bianquinha de egípcia. Quase não aguentei ter que esperar todas garotas saírem daqui... – e com isso, toma novamente os lábios dela para si, iniciando um beijo intenso. Ela se agarra em seu pescoço e logo se vê em pé. A paixão e o amor por ele aumentando ainda mais depois de sua declaração.
Nenhum garoto nunca fora assim com ela, nunca lhe dera tanto valor e era incrível sentir isso logo com a pessoa pela qual ela sempre considerou sua última opção. João conseguia ser cada vez mais fofo em sua relação e, até agora, o único empecilho dela fora Gael. O famoso mestre cruel. Ela temia por nunca ser completamente livre, tendo o pai que tinha, mas afasta essas dúvidas para o fundo de sua mente e se concentra, sem nenhum esforço, apenas ali, naquela sensação mágica que era estar nos braços de seu viciadinho magricela. Ela sorri contra a boca dele. Era adorável aquele seu jeito nervoso, engraçado e atrapalhado e ainda mais aquele seu corpo magro. Ela sabia de suas inseguranças quanto á isso, mas não via problema algum. Ele era lindo e perfeito daquele jeito porque ele era ele mesmo e isso bastava.
Logo ela se viu por baixo daquele corpo em que recém pensara, em cima de um divã que havia no camarim, as mãos dele roçando por suas pernas e trazendo-lhe arrepios imediatos. Ele nota seu prazer e intensifica as carícias, seus dedos vagando por baixo de seu vestido e acariciando suas nádegas. Ela ofega contra sua boca e ele se afasta levemente, apenas para dirigir sua boca para seu pescoço e prensar seu corpo ainda mais contra o dela.
Ela puxa os cabelos de sua nuca com vontade e trás sua cabeça para mais próxima, mordendo suavemente seus lábios para então senti-los sobre os seus; cruza as pernas em sua cintura, trazendo o corpo dele para mais perto e sentindo-o cada vez mais excitado.
–- S-se a gente continuar assim... e-eu não vou conseguir me segurar. – diz ele, completamente ofegante.
Ela concorda com a cabeça e ataca de novo sua boca.
–- Q-quem disse que eu quero que você se segure? – diz ela, depois que os dois se separam para retomar a respiração, e o beija novamente, se interrompendo apenas quando ele ergue seu vestido para cima, para ajudá-lo a se livrar da peça e se ver seminua em sua frente.
Os olhos dele ficam negros ao vê-la novamente e ele fica um tempo, atordoado, apenas encarando seu corpo, a boca aberta bobamente. Ela revira os olhos e se joga sobre ele, ficando por cima dessa vez, uma perna de cada lado de seu corpo. Estava tão tomada de paixão que nem pensara no perigo que seria eles serem pegos transando ali. Mas fazia tanto tempo que eles não conseguiam ficar juntos que ela não ligava, queria apenas conectar seus corpos de uma vez e acabar com aquele desejo.
Lhe toma sua camiseta, atirando-a em qualquer canto do camarim para então olhar para seu abdômen magro. Ele fica constrangido e tenta de alguma forma se cobrir. Às vezes se sentia a fêmea da relação, com todas suas travas e inseguranças.
–- O que foi? Não me diz que você broxou ao ver meu corpo. – diz ele, com seu famoso senso de humor ao estar nervoso.
Ela ri.
–- Para de bobagem, garoto... eu to é mexida com esse seu jeito. Essa calça caindo da sua cintura... – ela se interrompe, olhando mais abaixo, para o volume debaixo delas.
Ele ergue uma sobrancelha e não deixa que ela diga mais nada, a puxa para mais um beijo, suas mãos brincando quase que livremente por sua pele, aquelas nádegas macias... ele podia respeitá-la e ser um romântico incorrigível ás vezes, mas também tinha seu lado tarado. Ah se tinha... desce suas mãos cada vez mais para baixo.
–- BIANCA! – grita uma voz, despertando o casal que, no susto, se separa rapidamente. Os olhos arregalados ao finalmente perceberem a situação em que se encontravam.
Bianca se cobre rapidamente com a primeira coisa que encontra, a camiseta de João e se levanta para encarar seu pai de frente.
Gael encara suas vestes com puro ódio no olhar desaprovador, as narinas praticamente dilatando, como as de um touro.
–- Se. Veste. Agora. – fala ele, calmamente, os punhos fechados fortemente enquanto as unhas cravavam na própria carne.
Bianca não se opõe, pega seu vestido do chão e rapidamente retira a camiseta de João, substituindo-a pela peça. O garoto fica encarando a cena à distância, os olhos arregalados de medo a cada olhar que o mestre lhe mandava.
Depois de ver Bianca vestida, ele dirige esse olhar para ela, e bruscamente a puxa pelo braço. Ela arregala os olhos pelo susto e encara o pai, amedrontada.
–- Pra casa, agora! – diz ele, encarando-a de volta e a puxa agressivamente consigo, mas ela sente raiva e interrompe seu surto, puxando seu braço de volta.
–- E por que eu deveria obedecê-lo? Já sou maior de idade. – diz, tentando mascarar seu medo com o nariz empinado e a postura decidida, mas tendo seus olhos como traidores, ao se encherem de água a cada olhar furioso do pai.
–- Você é minha filha. Mora na minha casa. Agora, OBEDEÇA. Vem. – ordena o homem, puxando novamente seu braço.
A atriz esperneia enquanto chora de raiva.
–- Calma, Gael. A-a gente não tava fazendo nada de mais... – diz João, tentando ajudá-la de alguma forma, o medo explícito em sua voz rouca.
O mestre o encara, de testa franzida de fúria.
–- NADA DE MAIS?! – exclama alto, e todos ali tem certeza que sua voz fora ouvida por toda a indústria.
João se encolhe contra o divã e decide por se calar quando vê o mestre puxar sua filha pelo braço para bem longe dali. Coça a cabeça, culpa encrustada em cada parte sua. Mas ele não podia fazer nada.
–- Com você eu converso mais tarde, mocinho. – diz Gael, antes que sumisse pela cortina, com Bianca sendo arrastada logo atrás.
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Bianca nunca havia sido tão humilhada em toda a sua vida. Gael era um verdadeiro monstro quando estava com raiva e não fora diferente naquele dia, mesmo que ela gritasse, chorasse e esperneasse, não podia fazer nada enquanto era arrastada até sua casa, recebendo vários e vários olhares estarrecidos, complacentes e amedrontados com a cena. E ele nem mesmo havia lhe dado tempo para calçar suas botas...
Logo que chegaram em casa, Gael largou seu braço sem nenhuma delicadeza e correu a trancar a porta se virando, em seguida, para a filha amedrontada que estava atirada no chão, os olhos a enxergar tudo embaçado devido a grande quantidade de lágrimas contidas neles, enquanto acariciava o braço levemente vermelho devido a força que o homem usara.
–- Você é um monstro! – acusa ela, furiosa e mesmo com medo, ainda havia coragem em si. Coragem essa herdada pela própria pessoa a quem odiava no momento.
Gael bufa.
–- O que você queria que eu fizesse? Deixasse você transando com aquele esquisito?! – diz ele, andando nervosamente pela sala.
A garota estreita os olhos.
–- Eu queria que você fosse um pai normal. Não um de dez séculos atrás. Ou você achava que eu fosse virgem? – solta ela, sentindo o sangue subir pela cabeça e raiva tomar conta de seu corpo.
–- Eu não sou tão idiota assim! Mas eu esperava, no mínimo, que a minha filha não agisse feito uma... – ele trava.
–- Uma o quê, em? Uma vadia, é isso? Uma putinha? – completa ela, enquanto se levantava furiosa do chão e encarava seu rosto de frente. – Ah, é claro, eu transar antes do casamento com alguém que eu gosto muito deve ser um pecado, não? Deve ser digno de prisão. – ironiza, enquanto o mestre engole em seco.
–- Filha... eu só to tentando te ajudar.
–- Ajudar como? – indaga ela de testa franzida. – Me machucando? Me envergonhando na frente de todos os meus amigos? – ela bate palmas. – Parabéns Gael, você conseguiu me ajudar, então. O Pedro tem razão, você é mesmo um mestre cruel!
–- Filha, você sabe muito bem porque eu to agindo assim. Porque você escondeu isso de mim, começou a namorar aquele garoto pelas minhas costas.
Ela ri, irônica.
–- Eu escondi meu namoro de você porque você é um bruto!
–- Eu só quero o melhor pra você! – afirma ele, desesperado, os olhos arregalados e levemente molhados.
–- E o que seria o melhor pra mim? Ficar com o Duca? – indaga ela e diante do silêncio do homem entende aquilo como um sim. – Você quer isso porque não sabe o que fez a gente terminar. Que quando eu tava mal por causa da Karina ele não me apoiou, só apontou o dedo pra minha cara e tentou se aproveitar de mim. Que nesse momento, quem ficou do meu lado foi o João.
Gael arregala os olhos.
–- Ele não tentou...
–- Não. Isso ele não faria, mas ele não foi complacente com meus sentimentos, queria que eu estivesse totalmente entregue mesmo depois de tudo o que aconteceu.
–- Mas isso não significa que o João seja o cara certo pra você. O Duca é jovem... é normal que não entenda.
–- E o João é ainda mais jovem... e mesmo assim entendeu. A diferença, pai, é que o João gosta de mim de verdade; ele me dá valor. – ela faz uma pausa para secar o rosto coberto de lágrimas, mas quando retoma, retoma com ainda mais raiva: -- Mas eu sabia que você não ia aprovar o meu namoro com o João e sabe como eu sabia disso? Porque você quer mandar na minha vida. Quer que eu namore o Duca, faça faculdade de administração e desista do meu sonho de ser atriz. Mas advinha, mestre Gael... sou eu que mando na minha vida!
–- Não enquanto você morar sob o mesmo teto que eu! – diz o homem, sem pensar, a raiva anuviando qualquer pensamento racional.
A garota o encara fundo nos olhos, quase como se o desafiasse e era exatamente isso que ela pretendia. Solta a respiração em um resfôlego só e diz, antes de sair feito um furacão em direção ao seu quarto:
–- Se esse é o problema, eu resolvo!
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Faltava apenas um dia para Pedro voltar de viagem e Karina ficava cada vez mais em êxtase para sua volta. Uma pessoa normal, durante as férias, diria que um mês passa voando, mas para Karina aquele mês em especial, demorara quase um século.
Eles não voltaram a falar daqueles assuntos em especial, nenhum para ser mais exata. Preferiram curtir os momentos em que podiam se falar com coisas mais leves, como as declarações, os votos de saudade e o dia-a-dia normal de cada um. Lobão – e por isso Karina agradecera profundamente --, não voltou a procurar a lutadora, mas suas dúvidas continuavam lá, flutuando em sua mente, mas sempre sendo ignoradas. Precisava confiar mais nas pessoas. E seu pai, logo o seu pai, merecia confiança acima de tudo.
Agora ela estava em seu quarto, conversando com Pedro pelo Skype do computador enquanto ouvia apenas os gritos de seu pai e irmã brigando na sala. Revira os olhos. Ouvir as brigas dos dois já havia se tornado uma rotina.
–- Eu não sou tão idiota assim...! – gritou seu pai na sala e dessa vez foi Pedro quem arregalou os olhos.
–- Esses dois vão acabar se matando desse jeito.
Ela ri, sem graça.
–- Deixa que se matem... porque se eu for lá vai ser muito pior.
Pedro arregala os olhos, não duvidando. Sempre esquentadinha...
–- Mas falando sério, Esquentadinha, eu mal posso esperar pra te ver de novo. To morrendo de saudade desse teu rostinho. – diz ele, sinceramente, acariciando a imagem dela pelo computador. Era duro aquilo ser o máximo que ele conseguia fazer, assim, à distância.
–- Bem... o meu rostinho você já ta vendo. – brinca ela.
–- Mas não é só de ver que eu tenho saudade... e também não é só dele. – ela morde os lábios e cora.
–- Ai. Meu. Deus. PEDRO RAMOS??! – grita uma voz feminina atrás do garoto, interrompendo o contato visual entre os dois pela Webcam. Karina franze a testa e aproxima o rosto da tela do computador para enxergar melhor quem era.
Pedro se vira para trás e sorri, constrangido.
–- Você é ainda mais gostoso na vida real! – grita a jovem que Karina agora conseguia visualizar devido ao fato de Pedro ter se levantado.
Ela crispa os lábios e fecha a cara vendo seu guitarrista abraçar a jovem. Respira fundo. Não era hora de dar chilique... aquela devia ser uma simples fã que vira o clipe de Esse Seu Jeito. Mas sua paciência vai para os ares ao ver a garota descer a mão que estava na cintura de Pedro para seu bumbum e apalpá-lo. Pedro se afasta, surpreso, mas quando o faz a garota prensa seu corpo contra ele novamente e busca seus lábios.
Karina crava as unhas no fundo de suas próprias mãos, cega de raiva, mas ainda em silêncio. Queria ver qual seria a reação de Pedro. E fica feliz com o que vê, quando ele a empurra com força e diz:
–- Er... aquela ali na Webcam é...
A garota parece despertar, encara a figura de Karina no computador, com a testa franzida, para depois encarar novamente o guitarrista e rir.
–- Você quis dizer aquele ali, não é? – e ri ainda mais. – Você podia ter me avisado antes... que era gay.
Pedro fica boquiaberto.
–- Desculpa ai, o casal... – diz a garota, se apressando em sair dali. – Ah... de qualquer maneira eu quero um autógrafo. Quando a sua banda ficar bem famosa eu vou poder dizer que fui uma das primeiras fãs.
Pedro assente e depois de pegar uma caneta, assina rapidamente seu nome em uma folha de papel qualquer. A garota vai embora e ele volta sua atenção para o computador.
–- Aonde a gente tava, linda...
–- Linda? Eu acho que você quis dizer lindo. – diz Karina, ácida, os olhos marejados de raiva.
Pedro desmancha o sorriso na hora.
–- Ka... você sabe que ela não fez por mal. A imagem do Skype não é das melhores e seu cabelo curto engana.
Ela seca uma lágrima, furiosa.
–- Isso eu sei. O que eu não sei é porque você se diz meu namorado e deixa as pessoas falarem assim de mim! Você tem vergonha, é? É melhor fingir ser gay do que dizer que a namorada parece um homem, não? Ah... eu tinha me esquecido! Nem namorados nós somos. – afirma, chateada.
–- Esquentadinha... eu só não falei nada porque dessa forma ela poderia continuar investindo em mim. Fingindo ser gay ela não insistiu.
–- E você não poderia ter simplesmente a empurrado novamente?! Ou chamado um segurança... tenho certeza que a banda Onze:20 tem seguranças de montão pra cuidar das bandas que abrem seus shows! – murmura ela e ele se cala. – Como eu fui burra em pensar que realmente ainda fosse tempo... é tarde demais pra nós dois. – completa, baixinho.
Pedro se aproxima da tela do computador, desesperado.
–- Você ta de cabeça quente... se acalma um pouco. – pede ele.
Ela pensa um pouco, mas acaba por assentir. – Você tem razão. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo... quando a gente se ver de novo a gente resolve tudo isso.
Ele concorda, sorrindo levemente. Aquele já era um começo... conseguira gelar um pouco sua Esquentadinha.
–- A gente se vê amanhã e então a gente resolve tudo. – diz ele, decidido e vê ela suspirar, antes de assentir novamente e desligar a Webcam, cabisbaixa.
Ela suspira depois de desligar o computador e seca suas lágrimas. Desde que descobrira do segredo de sua irmã e de Pedro não parava de chorar nunca e isso era uma droga. Odiava estar tão sensível, mas qualquer ameaça ao seu relacionamento já lhe trazia uma porção de fios brancos.
Se levantou da cadeira, pronta para se atirar na cama e ter mais uma longa noite sem dormir, mas antes que fizesse isso, a porta se abriu com agressividade e Bianca entrou às pressas, abriu o guarda-roupa e começou a tirar peças e mais peças suas dali. Gael veio logo atrás, sua cara não muito melhor do que a dela.
–- O que você pensa que ta fazendo?! – pergunta ele, tentando parecer firme, mas falhando nesse quesito.
–- Indo embora! Você não disse que tinha que seguir suas regras porque moro aqui? PRONTO! Resolvido o problema! – murmura a irmã mais velha e começa a atirar as roupas dentro de uma mala, sem se preocupar em dobrar. Karina arregala os olhos e se aproxima dos dois.
–- PARA COM ISSO, AGORA! – grita o homem, segurando firmemente o braço da filha, Bianca o empurra com força e se agacha para fechar a mala.
–- Bianca... o pai ta certo. Você não pode sair daqui desse jeito. – diz Karina, olhando-a preocupada.
A morena hesita, encara o rosto apavorado da irmã e engole em seco, deixando uma lágrima cair furtivamente por seu rosto. Mais um motivo. Olhá-la, olhar para aqueles olhos felinos e esconder mais uma vez uma mentira era destruidor para sua alma.
–- Posso, Karina. Eu posso sim. E você, acima de tudo, pode ainda mais. Não seja uma vítima desse ogro. – pede, baixinho, antes de correr para sala com a mala de rodinha rugindo pelo chão.
Karina franze a testa, sem entender o que ela quisera dizer, mas vai atrás da irmã, logo atrás de seu pai, que corria desesperadamente enquanto lágrimas e mais lágrimas caiam de seus olhos.
–- Não faz isso, por favor, Bianca! – implora e vê a garota se virar novamente. – Me desculpa filha eu só...
–- CHEGA DE DESCULPAS! CHEGA DE MENTIRAS! – grita ela, furiosa, a voz fanhosa de tanto chorar. – Eu queria tanto ser a Karina... só pra ter a possibilidade de não ter você como pai. – completa, praticamente sussurrando, sua mente não raciocinando o que acabara de fazer até que as palavras tivessem saído de sua boca.
Karina sente seu mundo desabar, seus olhos se cobrindo novamente de lágrimas. Ela podia estar tentando ser forte, mas nada a preparara para aquela notícia.
Gael se vira para a caçula, as mãos sobre a cabeça em desespero enquanto recebia o pior olhar de desgosto que poderia receber.
–- Você não é meu pai. – não era uma pergunta, era uma afirmação.
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