Correndo em Círculos

32 Capítulo 32: Quando eu estiver longe


Notas iniciais
Oiiiiiii gente! Posso ter demorado um tantinho, mas não tinha falado nada de datas no capítulo passado. Enfim... obrigada a quem comentou! Os comentários demoraram a chegar, mas vieram e eu fico muito grata por cada um deles, especialmente um da Anah que me emocionou bastante. :”) Te adoro, linda! Música do capítulo: Photograph – Ed Sheeran (vídeo perina: https://www.youtube.com/watch?v=-gdDa8QuTig) Muito Cobrade nesse capítulo e talvez nem tanto Perina quanto vocês gostariam, mas é por uma boa razão... Espero que vocês aprovem!

A viagem de Pedro foi torturante. Tanto para ele, quanto para Karina. Cada segundo longe dele lhe trazia um desconforto enorme. Sua saudade quando eles estavam separados era agoniante, mas agora que eles estavam praticamente juntos era, como se fosse possível, ainda pior. Sem falar na ânsia que sentia por pensar nos dois juntos, completamente. Ela queria tanto aquilo... queria ficar com ele para sempre.

Mas toda noite, antes de dormir, ela tinha um sorriso de volta nos lábios, sempre esperava a madrugada chegar para ver as mensagens que Pedro lhe mandava, logo após um show ou outro. Mesmo longe, eles faziam de tudo para estarem perto e ansiavam por aqueles minutos de palavras trocadas pelo celular como ansiavam pelos lábios um do outro.

–- Às vezes eu penso que deveria ter batido o pé e ido junto com você nessa turnê. Não aguento mais essa distância... – diz Karina no telefone, em um desses momentos, pouco mais de uma semana depois deles se despedirem.

Pedro sorri do outro lado da linha. Estava indo do Rio Grande do Sul para Santa Catarina, onde haveria mais três shows.

–- Ia ser maravilhoso ter você aqui, Esquentadinha, mas a gente vai ter muito tempo pra viajarmos juntos, se tudo der certo e, quando ver, até sozinhos... – brinca ele, e Karina cora ao ouvir seu tom malicioso.

Mas ela sorri depois de um tempo, mesmo de corar por causa dele sentia falta. E não podia discordar: viajar sozinha com seu guitarrista era praticamente um sonho seu. Tê-lo de novo totalmente entregue, sentindo cada sensação que seus corpos compartilhavam... ela ofega no telefone por apenas pensar.

–- Ta tudo bem ai, Esquentadinha?

Ela suspira.

–- Eu só sinto sua falta. As coisas aqui em casa não estão lá um mar de rosas e ficar no telefone com você tem sido minha única alegria ultimamente.

–- Ué... pensei que você e a Bianca tivessem feito as pazes.

–- E fizemos. Mas o problema não é nós duas... o mestre e ela tem brigado todo dia e ele ainda por cima não quer me deixar lutar no Warriors de jeito nenhum. Tem muita tensão no ar. – explica a garota, baixando o tom de voz para que sua irmã não escutasse. Estava na varanda, mas mesmo assim não queria que sua irmã soubesse de suas preocupações com ela.

–- Ah... sobre sua luta eu entendo o mestre, ele só quer te proteger.

Karina revira os olhos.

–- O que eu tinha falado sobre eu deixar você seguir seu sonho e você o meu?

Ele ri.

–- Mas eu não to te proibindo de nada, linda, nem conseguiria... marrenta do jeito que você é. Mas tenta entender o mestre e pensa... quando você tiver dezoito ele não vai poder te impedir.

Ela suspira, rendida.

–- Você tem razão.

–- Eu sempre tenho razão. – diz ele, convencido. – agora sobre o negócio de Joanca... –Seu amigo lhe contara de toda sua situação e Tomtom, a rainha dos shippers, nomeou o casal como Joanca em um dia desses. O apelido pegou... – Relaxa que logo o mestre desencana. Não foi assim comigo? Ele queria torturar o Mick no início, mas agora é só mar de rosas...

–- Bem... não é exatamente um mar de rosas... – ela ri, se lembrando de todas as ameaças e xingamentos que seu pai já proferira para seu moleque. – Mas o problema é que, ao olhar das outras pessoas, a Bi e o João são irmãos.

–- Bobagem. Eles nem mesmo foram criados juntos. – Karina concorda com a cabeça, mesmo sabendo que ele não poderia ver seu gesto.

–- Eu só espero que esses dois se resolvam logo com o pai.

Pedro sorri do outro lado da linha ao dizer:

–- Eles vão... o amor sempre resolve as coisas, por mais difíceis que elas sejam. Olha só pra gente... conversando pacificamente de novo.

Karina ri.

–- Por isso que eu te amo.

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Desde que Cobra e Jade terminaram seu relacionamento, eles não se reaproximaram. Nenhum dos dois havia tentado retomar o que tinham, orgulhos demais ou simplesmente desacreditados do amor. Jade, sempre que passava em frente ao QG tentava usar de todas suas forças para não olhar lá para dentro, mas sempre acabava por fazê-lo, com uma esperança quase insuficiente de que ele também sentia saudades. Mas seus olhares nunca se encontravam, ele também à via, mas era antes ou depois dos olhos dela deslizarem sobre ele e também sentia aquela necessidade de saber se ela tinha os meus sentimentos e desejos.

O único problema era que o que ambos falaram não tinha volta, as acusações, as afirmações; elas foram muito profundas e feriram até os seus últimos fios de cabelo. Para Jade, era literalmente, ela se via arrancando o dobro de fios a cada dia. Nervosa pela cirurgia de sua mãe que estava para chegar, ou por relembrar de seu vagabundo. Ela sabia que precisava de tratamento para acabar com essa sua mania, mas nunca investia nisso, com vergonha de mostrar que era um ser humano normal e tinha defeitos. Vivera sua vida inteira negando que os tivesse, para sua mãe, pela sua mãe e mesmo agora estando tentando mudar, não conseguia tirar esse pensamento de sua mente. Ela tinha que ser perfeita.

Mas ela não era. Pelo menos quando estava com Cobra. E fora assim naquele dia, a estrada deu uma folga e deixou de ser tortuosa, com uma passagem reta e iluminada. Ela esbarrou nele no meio da rua. Estava desesperada para pegar um táxi, pois sua mãe havia ido para cirurgia naquela manhã, sem lhe dizer nada, apenas deixando uma mensagem qualquer debaixo da porta.

–- Ta tudo bem? – indaga o lutador, preocupado, se levantando do chão e oferecendo uma mão para que ela se levantasse. Ele não havia percebido quem fora a pessoa que dera um encontrão, até agora. Deixa sua mão cair do lado do corpo, atordoado. – V-você?

Ela faz uma careta e se levanta sozinha, se apressando em se afastar dele, fingindo que aquilo não havia acontecido. Mas Cobra, vendo os olhos molhados e o desespero da garota, seguiu-a e puxou seu braço.

–- O que você quer?! – murmura ela, furiosa, se afastando novamente e o olhando com repulsa.

Ele respira fundo e não se deixa abater, estava acostumado com sua dama, ela também tinha seu lado esquentadinho, quando estava nervosa e seu lado orgulhoso, quando precisava de ajuda.

–- Eu quero te ajudar. Me diz... o que ta te incomodando? – pergunta calmamente o lutador.

Ela engole em seco e olha no fundo de seus olhos, prendendo a respiração por um segundo.

–- Minha mãe foi fazer a cirurgia e não me avisou... eu preciso ir lá. Eu não posso deixar que ela entre na sala de cirurgia sem antes vê-la. – admite de uma vez, a respiração ofegante e o coração retumbando no peito de nervosismo.

Cobra coça a cabeça e solta um suspiro.

–- Eu te levo. – afirma e ela não se opõe, o segue até o QG.

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–- Obrigada pela força, Cobra, ta sendo muito difícil pra mim essa situação toda... – murmura a jovem, na sala de espera, logo depois de visitar sua mãe que agora se encaminhava para a sala de cirurgia.

O lutador arruma sua postura no sofá para encará-la mais de perto, coloca uma mão em seu queixo e puxa seu rosto em sua direção.

A respiração dela falha, seus olhos vagando por cada pedacinho de seu rosto enquanto sua mente se esquecia de todos os seus problemas e focava apenas ali, nele, tão perto e tão longe ao mesmo tempo. Engole em seco e desvia o olhar.

–- Por que isso ta acontecendo, Jade? Por que a gente não ta junto? Eu fico tentando entender... tentando me lembrar, mas nada me vem em mente.

Ela o encara novamente, de testa franzida de irritação.

–- Por quê? Você sabe muito bem o porquê. Porque a gente não dá certo, não temos nada haver.

–- A Karina e o Pedro também não tem nada haver e estão juntos. – afirma ele e ela morde o lábio inferior e ilumina os olhos, surpresa com a notícia.

–- Mesmo assim, Cobra... o que a gente falou...

–- A gente falou de cabeça quente. Nada do que eu disse pelo menos é real. Você é a pessoa mais perfeita que poderia existir, mesmo com todas as suas imperfeições. – interrompe ele e resgata seu olhar, como queria.

Acaricia seu rosto, seus lábios erguidos em um sorriso enquanto os deslizava por toda a sua face, seus lábios cheios, seus cílios espessos, até mesmo seu nariz arrebitado tinha um charme. Aquele seu olhar de superioridade e arrogância quase lhe fazendo ajoelhar-se em sua frente e beijar seus pés. Jade, Jade... o que ela fazia com ele era digno de pena.

Ela desvia o olhar, de seus lábios para seus olhos, nervosa e antes que possa dizer qualquer coisa para apartar o desejo de ambos, ele lhe toma nos braços e rouba sua boca para ele em desespero. Ela não reage no início, mas logo seu fogo se torna irresistível e ela decide se queimar junto, correspondendo à altura, sua paixão igualada á dele. Ele sorri contra sua boca, sabendo que ela não resistiria e logo puxa suas pernas mais para perto, colocando-as sobre seu colo enquanto acariciava suas costas. Tinha que agradecer a certos estilistas por inventarem as blusas mais curtas... facilitava absurdamente em aumentar seu desejo.

–- Com licença... – chama uma voz e como não é respondida, pigarreia.

Jade empurra Cobra, á contragosto e encara a enfermeira, vermelha de vergonha.

–- Eu vou ter que pedir que os dois se retirem se quiserem continuar... – diz a mulher, de cara fechada.

Jade arregala os olhos.

–- A gente vai parar. – afirma ela, vendo a mulher tirar os olhos de Cobra e dirigi-los para ela, mudando a expressão para irritada e saindo imediatamente dali.

Jade franze a testa e encara o lutador, que ria da situação.

–- Acho que ela ficou com inveja de você. – diz ele, brincalhão.

Ela ri baixinho enquanto ele volta a acariciar seu rosto.

–- Eu senti tanta falta da gente assim... juntinhos. – fala o garoto, olhando-a apaixonadamente.

A dançarina desmancha o sorriso e o encara de volta com mágoa no olhar.

–- O que foi? – indaga ele, preocupado.

Ela suspira e se vira para ele novamente.

–- Eu não acho que seja a hora da gente voltar. – diz ela e ele coça a cabeça nervosamente enquanto sente seu coração despedaçar novamente. -- As feridas ainda estão muito abertas e eu não consigo olhar pra você sem me lembrar das coisas horríveis que você me disse.

–- Jade... eu já disse que nada daquilo é verdade. É de você que eu gosto, não da Karina.

–- Querendo ou não, um pouco daquilo é verdade sim, tudo sempre tem um fundo de verdade, Cobra. – afirma ela, séria. – O que eu disse mesmo... eu realmente acho que você não se esforça o bastante pra estar comigo. – diz, encarando-o fundo nos olhos.

Ele fecha a cara e a encara cheio de raiva, se levantando para ir embora, mas se interrompendo um segundo antes:

–- A gente ainda vai voltar a ficar junto. A gente sempre volta, dama, e agora não vai ser diferente. – afirma, vendo-a sorrir em meio às lágrimas.

–- Eu realmente queria que isso fosse verdade, mas eu não acredito mais em nós dois. Você me faz mal, Cobra. Nunca vai ser o homem bom que eu mereço.

O lutador assente, rindo ironicamente.

–- Vamos ver... – e sai furioso do hospital, esbarrando com Edgard no caminho.

–- O que houve com el... – mas antes que o professor completasse sua fala, vê o estado em que estava sua filha postiça e corre para acolhê-la em seus braços.

Ela não fala nada, apenas se aconchega em seu pescoço e chora como um bebê.

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Karina estava treinando incansavelmente. Desde a viagem de Pedro, lutar se tornara ainda mais seu refúgio, fazia-a esquecer de seus problemas, seus arrependimentos ou suas saudades e focar apenas naquilo, os golpes, os movimentos. Continuava chateada com seu pai. O machismo dele às vezes a levava a loucura. Queria tanto ser homem e não ter esses problemas... poder lutar, cortar o cabelo curto e usar calça sempre sem se preocupar com a opinião alheia.

Estava treinando desde de manhã sem folgas, e agora não havia mais ninguém na academia a não ser ela. Chuta o saco de box com força. Naquele dia nem o muay thai estava ajudando.

–- Droga. – amaldiçoa, parando para recuperar o fôlego. Não vira o movimento em suas costas, o olhar felino de talvez a pessoa mais perigosa que já conhecera sobre ela e um sorriso arrogante naqueles mesmos lábios.

Lobão. Ele já estava planejando aparecer ali há muito tempo. Queria aquele potencial para sua academia e se arrependia profundamente de não ter feito o que estava indo fazer agora antes. Mas nada nunca é tarde demais para acontecer.

Ele sorri e puxa o corpo da pequena garotinha para perto, assustando-a.

–- Q-Quem é? – indaga ela, tremendo; seu corpo estava encurralado, com as pernas dele segurando as suas, seus dedos firmes sobre seus pulsos, os segurando contra suas costas, e seu hálito quente batendo contra sua orelha.

Ela sente seus olhos marejarem de tensão, seus lábios tremerem e sua respiração travar. Aparentemente a pessoa sabia lutar, pois soubera exatamente como encurralá-la completamente, e ela sentia em seu coração, era perigosa.

–- Olá... filhinha. – diz o mestre da Khan, para então virá-la de frente para ele.

Ela arregala os olhos e franze a testa, sentindo seu corpo inteiro gelar de dentro para fora. O que quer que ele fora fazer ali, não era boa coisa.

–- O que você ta fazendo aqui? – indaga, sem prestar atenção ao modo que ele lhe chamara.

Lobão sorri ainda mais.

–- Eu vim buscar você, minha filha. Pode ser meio tarde, mas... – e estende a mão, lhe oferecendo um pedaço de papel.

Ela o encara, confusa, mas acaba por pegar o papel. Era um envelope ainda lacrado de um laboratório, as letras digitadas meticulosamente sobre ele demonstrando isso. Ela o abre, tremendo ainda mais, mas sendo vencida pela curiosidade humana. Seus olhos deslizam pela folha e recaem em sua última frase, desesperados:

RESULTADO: O suposto pai tem, no mínimo, 98% de chance de ser o pai biológico do(a) filho(a).

Ela encara seu rosto, ainda absorta, os olhos cobertos de água.

–- Isso aqui é...

–- Um teste de DNA. E sim, eu sou seu pai, filha. – afirma Lobão.

Karina engole em seco, sentindo uma amargor na boca de seu estômago, uma dor nunca sentida antes. As proibições, os castigos... tudo maior e pior do que os de Bianca. Eles tinham um motivo. Ela fecha os olhos fortemente, derramando uma porção de lágrimas por todo seu rosto. Ela fora enganada? Será mesmo? Abre os olhos novamente e encara o sorriso malvado de Lobão. Não. Ela não era burra. Era ele que queria enganá-la. Gael nunca esconderia uma coisa dessas dela... mesmo sendo o seu pior inimigo, aquela era sua história. Sua.

–- Mentira. Isso aqui... isso aqui é uma farsa! – grita ela, mais para si do que para ele.

–- Se você quiser... faça você mesma o teste. Eu sei qual vai ser o resultado. Eu e a sua mãe éramos amantes, ela não aguentava mais o jeito machista de seu pai e queria ficar comigo... pena que morreu no seu parto.

Karina se vira repentinamente e dá o maior de seus socos no saco de box, que voa pelos ares.

–- Mentiroso! Minha mãe nunca ia ficar com alguém asqueroso feito você!

Lobão desmancha o sorriso e a empurra, segura os dois pulsos dela com força no alto de sua cabeça e prensando-a contra a parede. Ela treme ao olhar em seus olhos, duas fendas malévolas como as de uma cobra. E impressionantemente, iguais aos seus. O mesmo formato... a mesma rebeldia.

Ela fecha os olhos e nega com a cabeça.

–- Se isso é verdade... por que você só apareceu agora? – indaga, cheia de raiva.

O mestre larga seus pulsos e se afasta.

–- Eu nunca fui a pessoa mais recomendada para ser pai e o Gael, mesmo sendo um bocó, sempre foi melhor nisso do que eu... mas depois de ver você treinando e não podendo, coitada, lutar por causa do babaca do Gael eu não podia mais ficar nas sombras. Eu sou seu pai, Karina.

A garota trinca os dentes, sem se importar com o rosto coberto de lágrimas. Aquilo não podia ser verdade. Ela encara os olhos peçonhentos do mestre, tentando encontrar alguma coisa concreta ali, que admitisse que aquilo tudo era uma mentira. Prende a respiração. Aqueles olhos podiam parecer traiçoeiros, mas ela sentia... havia alguma verdade ali.

–- Eu sei que vai ser difícil pra você aceitar isso... depois de tanto tempo. Mas eu quero que você pense com carinho. – ela franze a testa, confusa. – Vem morar comigo ou, ao menos, treinar na Khan. Eu com certeza te deixaria lutar no Warriors.

Ela vacila diante de seu olhar, mas ele não deixa que ela ao menos pense no assunto, e se vira para ir embora.

–- Acho que você vai querer falar com o Gael antes de tudo, não é?

Ela assente e depois de vê-lo sair, desaba sobre o chão, os olhos arregalados olhando para o nada enquanto derramavam lágrimas e mais lágrimas. Precisava tirar aquela história á limpo com seu pai, ou melhor, o que ele era agora?, e mesmo que sua resposta fosse feri-la, precisava da verdade mais do que tudo. A mentira de Pedro e Bianca já fora dolorosa demais para que suportasse e não imaginava qual seria sua dor se não fosse filha de Gael.

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Quando Karina chegou em casa naquele dia, a primeira coisa que fez foi procurar por seu pai. Ele estava envolta de uma panela de comida, rindo descontraidamente enquanto fazia a janta com Bete. Bianca estava atirada sobre o sofá, rindo de alguma mensagem que recebera de João pelo celular. Parecia que ele havia conseguido algum aparelho celular com alguém... é claro, por Bianca ele faria tudo. Karina sorri, mas depois morde os lábios e vê sua expressão recair. Sentia tanta inveja de sua irmã por nunca duvidar de suas origens.

Fecha os olhos para segurar as lágrimas que insistiam em vir. Droga. Ela havia ficado quase uma hora no chão da academia, tentando acalmar aquelas lágrimas para agora elas simplesmente teimarem em desabar. Seca os olhos com as costas da mão.

–- Finalmente, em filha?! Já tava ficando preocupado... – murmura o mestre, ainda com o sorriso nos lábios.

Bete revira os olhos.

–- Deixa de ser chato, Gael, sua filha devia ta treinando... sabe como é essa garota, marrenta que dói! – diz ela.

Gael se vira para a filha, ainda com a risada nos lábios, mas ao ver sua expressão melancólica, desmancha o sorriso na hora.

–- O que houve, Karina? – pergunta preocupado, e a garota seca mais algumas lágrimas que caem ao ver seus olhos.

Ele se aproxima.

–- Você promete ser sincero? – pergunta a garota, se sentando diante da mesa. O mestre a encara, pasmo, mas assente.

–- Eu sempre sou sincero com você, minha filha.

Bete para o que está fazendo, desliga o fogo e se vira para os dois.

–- Ta tudo bem, querida? – pergunta ela e vê a garota negar com a cabeça.

–- Eu queria falar com meu pai á sós, Bete. – pede ela e a mulher assente.

–- O.k... eu vou dobrar as roupas então. – e sai do aposento.

Bianca ergue o olhar e só agora repara no clima tenso que estava no ar. Ela se levanta.

–- O que houve?

–- Você pode ficar, Bi... mas o que eu tenho pra falar com o papai é muito importante.

A atriz assente e acaba por se sentar ao lado da irmã, que apenas encarava aquele homem que ela não fazia a mínima ideia se devia confiar.

–- O Lobão esteve na academia hoje. – diz ela, de uma vez, mas antes que Gael dissesse qualquer coisa para demonstrar sua inquietação, completa: -- Ele me disse algumas coisas, Gael e... eu não sei no que acreditar.

Ela para por alguns segundos, tentando recuperar o fôlego em meio às lágrimas.

–- E-ele... ele me disse... – a voz dela falha novamente, mas ela respira fundo e recomeça: -- ele me mostrou isso. – e estende sua mão com o envelope.

Gael franze a testa, encarando o papel, mas acaba por pegá-lo dos dedos tremidos de Karina e abre o envelope, ansioso. Seus olhos recaem sobre as letras e se aceleram por elas ao compreenderem o que estava ali. Bianca encara a cena com as sobrancelhas quase juntas de inquietação e confusão.

–- Isso... – a voz dele vacila, seus olhos firmes e fortes amolecendo e marejando sem parar ao ler as últimas palavras daquela folha. – isso não pode ser...

–- É. Isso é um exame de DNA. – confirma Karina e se ajeita sobre a cadeira, colocando os cotovelos sobre a mesa para se aproximar mais do homem. – Feito pelo Lobão, com os meus cabelos...

Gael ergue o olhar e encara os olhos felinos da filha com medo. Bianca se sente na beira do precipício, compreensão surgindo em sua face e uma pontada de culpa.

–- Ele disse que é meu pai. Nesse exame diz isso. – afirma Karina, antes de secar nervosamente mais algumas das lágrimas que escorriam por sua face.

–- Karina... isso não pode ser verdade...

–- Eu só quero que você me diga uma coisa, mestre Gael. – interrompe Karina, firmemente. – Tem alguma possibilidade de você não ser meu pai? – pergunta, amolecendo a voz no final da fala para então tremer os lábios. – Tem alguma possibilidade de esse exame estar certo?

Gael sente seu corpo inteiro arrepiar. Ele encara sua filha mais velha em busca de ajuda, mas só consegue vê-la chorar baixinho contra as mãos. Estava encurralado.

–- Por favor, não mente pra mim. – implora a pequena, com a voz fanhosa de tanto chorar.

Ele encara aqueles olhos, aqueles que ele sempre tentava fugir. Os rebeldes e finos olhos azuis de sua filha. Sua filha. Ele nem sabia mais se tinha esse direito de chamá-la assim. Engole em seco.

A mentira não levava a nada. Era desonrosa e desleal. Mas em situações como essa, em que o mundo desaba sobre nós e há essa pequena, pequenininha, possibilidade de perder alguém amado, ele não via outra opção. Estende os braços para ela, até que alcança suas mãos pequenas e delicadas. Sorri. Ela tinha os dedos de sua mãe, mesmo que não tivesse nada dele.

Desmancha o sorriso e encara firmemente aqueles olhos que sempre evitava.

–- Não. Não existe nenhuma possibilidade de você não ser minha filha.

Ela solta a respiração, apenas agora reparando que havia ficado alguns segundos sem respirar. E se desmancha em lágrimas em meio ao seu sorriso. Se levanta e corre para os braços dele, se aconchegando naquele abraço que só lhe fazia bem. Ele a abraça forte e deixa que seus olhos se cubram de água junto dela. Eles não estavam molhados apenas de emoção, mas de arrependimento e culpa.

–- O Lobão deve ter forjado um exame ou algo assim... – disse ele, com a voz tremida. Ela apenas assente, abafando seu rosto ainda mais contra seu pescoço e deixando que os soluços tomassem conta de seu corpo.

–- E-eu f-fiquei com tanto medo... de isso ser v-verdade. – diz ela baixinho, sua voz quase não sendo ouvida. Gael assente e a aperta mais contra si, não suportando a simples ideia de perdê-la.

Bianca encara a cena com a testa franzida de indignação, os olhos raivosos sobre o pai. Ele tivera a chance e a jogara pelos ares. Havia escolhido a mentira e ela sabia, sua escolha não traria nada de bom.

Notas finais
Entãão??????? Gael fazendo coisa que não devia... será que ele vai se queimar com isso?? Sei que esse assunto da paternidade da Ka já foi revirado até demais na novela, mas é uma parte crucial da fic e vai ser bem passageira... o foco vai continuar sendo Perina, não se preocupem! O próximo já ta escrito e eu adorei escrevê-lo, tem muito drama, Perina e Joanca pra dar e vender! Quero postar ainda essa semana se os comentários virem rapidinho e bem animados... ;) Enfim, beijão!