Ah, que sentimento estranho, e pensar que eu acabaria assim... A vida é mesmo uma droga, por que nascemos? Nada nesse mundo faz sentido, de que adianta aproveitar se no fim nada faz sentido. Pelo visto foi tudo em vão... Bom, pelo menos não tenho arrependimentos, posso ir em paz, o chato é ter que esperar, parece que tudo fica pior quando você sabe quando vai acontecer, você fica com medo e se desespera, isso é mesmo uma droga!

Quebra de tempo.

─ Mãe já estou de saída. ─ Nada mais fazia sentido, não sei por que ainda me forçava a ir para escola, talvez estivesse apenas procurando algo que me fizesse esquecer de tudo aquilo. Bom, não tinha certeza se a escola iria ajudar a esquecer, mas não custava nada tentar, até por que se eu ficasse muito em casa minha mãe poderia se preocupar ainda mais comigo.

Minha mãe se aproxima lentamente de mim, ela estava com os olhos cheios de lágrimas, mas não caiam sequer uma gota. Não a culpo, fazia dias que ela estava se segurando para não chorar na minha frente, um ser humano normal não aguentaria por tanto tempo. ─ Vá com cuidado minha filha. ─ Ela me abraça forte, posso sentir suas lágrimas escorrendo pelos meus ombros, logo a tristeza toma conta de mim, mas me seguro pois preciso ser forte. ─ Vou tomar mãe, não se preocupe! ─ Digo enquanto passo minha mão em sua cabeça para consola-la.

─ Você não está esquecendo de nada? ─ Ela perguntou com uma voz meio tremula enquanto enxugava suas lágrimas.

─ Não. ─ Respondi.

─ Certo, então... Vá com cuidado Alice. ─ Disse com um leve sorriso em seu rosto molhado.

─ Hm! ─ Respondi com outro sorriso.

Fechei a porta lentamente enquanto olhava minha mãe com aquele leve sorriso, isso me fez ficar triste e pensar que ela devia estar sofrendo mais que eu. Eu não ligo muito pra morte, não tenho medo, nunca tive, deve ser por que eu não tenho algo a que me abraçar nesse mundo, algo que me faça realmente ter vontade de viver.

Desde pequena eu tenho esse pensamento frio sobre a vida e isso só aumentou quando perdi meu pai, ele nos deixou muito cedo, morreu num acidente quando eu tinha apenas seis anos de idade, desde então somos só eu e minha mãe. Então, nós que antes morávamos na cidade de Gatineau no Canadá, nos mudamos para Montreal e estamos vivendo aqui até hoje.

Quebra de tempo.

Ah, a escola, já faz três semanas que não ponho meus pés aqui, chega a ser até um pouco nostálgico mesmo que por um curto espaço de tempo. O pior de ter faltado tanto são os olhares das pessoas a sua volta ao ver que você voltou isso é mesmo muito irritante, os ver cochichando um no ouvido do outro, “Cuidem de suas vidas!”.

Respiro fundo antes de entrar na sala, abro a porta a minha frente. Ah, detesto ser encarada. Ando lentamente até meu assento e logo me acomodo, posso sentir todos olhando para mim, que sensação estranha.

─ B-bem, voltando ao assunto pessoal! ─ Diz a professora enquanto se vira para explicar o que está no quadro.

Sinto alguém tocar em meu ombro, olho pro lado e vejo Vanessa, uma colega minha, não somos tão próximas, nós conversamos as vezes, provavelmente ela irá me perguntar o motivo de tanto tempo sem vir á escola. ”Devo responder?”.

─ O que foi? ─ Perguntei.

─ Você está bem? ─ Ela perguntou.

Olhei para ela, estava com cara de preocupação, talvez ela realmente se importasse comigo.

─ Sim, estou. ─ Respondei.

─ Então qual o motivo de tanta falta? Você não é de faltar muito. ─ Disse ela com um tom de preocupação.

─ Não foi nada demais, só um resfriado... ─ Por mais que ela se importasse eu não podia contar, não queria preocupar mais ninguém, aquilo era um problema meu. ─ Não precisa se preocupar.

─ Está bem, mas ainda vou ficar de olho em você. ─ Diz enquanto se afasta.

Quebra de tempo.

Ouço o barulho do sinal tocando, acho que eu deveria ficar na sala, não tenho por que sair, é, vou ficar aqui mesmo. Ponho meus fones de ouvido e começo a escutar Aurora – Murder Song (5, 4, 3, 2, 1). Logo meu momento de paz é interrompido por Vanessa.

─ Alice não vai sair? ─ Perguntou Vanessa.

─ Não, vou ficar aqui mesmo... ─ Respondi.

─ Ah não. ─ Disse ela. ─ Você não vai ficar aqui sozinha, vamos comigo até o terraço. ─ Disse enquanto segurava minha mão e me puxava da cadeira.

─ Hm, está bem, está bem, calma.

─ Hehe.

Levantei-me e fui com ela até o terraço, ela não soltava minha mão, me senti bem naquela hora, por um momento parecia que tudo estava bem, eu já havia esquecido de tudo, parece que a escola estava mesmo ajudando, mas, eu sabia que uma hora aquele sentimento de estar segura iria passar.

─ Chegamos! ─ Ela disse enquanto se virava para mim.

─ É eu sei. ─ Respondi.

Ela abriu a porta do terraço e lá estava, fazia tempo que eu não tinha essa visão, era o único lugar que conseguia me deixar calma naquele momento, a vista era linda como sempre, a brisa em meu rosto, não havia sensação melhor, olho em volta e vejo um garoto sentado, ele estava distraído e não nos percebeu, devia estar lendo. Nós ignoramos sua presença e nos sentamos em um local diferente, passamos bastante tempo conversando, nem percebemos o sinal tocar e acabamos nos atrasando na volta pra sala de aula.

Quebra de tempo.

─ Tchau Alice. ─ Vanessa se despediu.

─ Tchau...

─ Certifique-se de não faltar amanhã em.

─ Sim.

Fui pra casa, no caminho enquanto andava trombei com garoto.

─ Ah, me desculpe! ─ Disse ele. ─ Você está bem? ─ Disse enquanto estendia a mão para me ajudar a levantar.

─ S-sim. Não foi nada de mais. ─ Respondi.

Ao me levantar com sua ajuda, olhei seu rosto e lembrei, era o mesmo garoto que eu havia visto no terraço da escola.

─ Você... É o garoto que eu vi hoje de manhã no terraço da escola. ─ Não sei o porquê deu ter dito isso, até por que as chances dele me reconhecer eram poucas, nem sabia se ele havia me visto.

─ Ah sim, eu me lembro de ter te visto lá também, eu acho. ─ Ele disse.

Ele não era nada diferente, típico de qualquer cara do colegial, era alto e magro, se fosse chutar sua altura diria 1,80, tinha cabelos loiros, olhos verdes claros e aparentava ser bem simpático.

─ Ah, qual o seu nome? ─ Ele perguntou.

─ Alice, e o seu? ─ Perguntei, mas não que eu quisesse realmente saber.

─ Arthur, é um prazer te conhecer. ─ Respondeu.

─ Imagina, você vai por aqui também?

─ Sim. ─ Afirmou.

─ Vamos juntos então.

Nós conversamos bastantes no caminho e percebemos que éramos muito parecidos em questão de gostos e personalidade, logo chegamos a minha casa e me despedi dele.

─ Bom, tchau. ─ Me despedi.

─ Tchau, nos vemos amanhã. ─ Respondeu.

Entrei em casa.

─ Mãe, chegue! ─ Gritei. ─ Parece que não tem ninguém, deve ter ido fazer compras ou algo do tipo.

Fui até o meu quarto e me joguei na cama, estava muito cansada, as formulas de matemática ainda estavam claras em minha cabeça. Tirei minhas roupas e tomei um banho, minha mãe ainda não havia chegado e eu estava ficando preocupada, peguei meu celular e tentei ligar pra ela, não atendia, então resolvi pedir comida chinesa. Já passava das 8 horas e nada da minha mãe e muito menos da minha comida chinesa, estava deitada em minha cama escutando Lana Del Rey – Vídeo Games quando de repente ouço a campainha tocar.

─ JÁ VAI!!! ─ Gritei.

Desço as escadas e vou até a sala. Abri a porta para ver quem era...

─ VOCÊ?!