Corpos Ébrios
2 2. Mire na Cabeça
Nádja gritou, mas não ouviu o som da própria voz. O caos era contagiante, dobrando cada rua e canto da pequena cidade.
— Você está bem? — Ela conseguiu distinguir a pergunta dos lábios do irmão.
Concordou rapidamente com a cabeça antes de continuar.
Os Moon atravessaram o córrego e apenas seguiram seu caminho em direção à casa de Lúcio, tentando não pensar no que quer que tenha acontecido segundos atrás.
Nádja mal percebeu quando tomou a frente do irmão, seguindo o tão conhecido caminho para a casa de Lúcio Valmir. Quando alcançou a cerca de madeira quebrada, atravessou pela rachadura que já estava ficando pequena para ela e o irmão. Eles estavam no terreno baldio. Bastava atravessar a rua para chegar ao prédio do homem.
Nádja deu um passo à frente, mas Caubi a puxou, fazendo-a se abaixar ao lado dele.
— Está maluca?!
— O que foi?
— Não sabemos o que tem lá fora.
— E acha que estamos seguros aqui? — Nádja podia ser mais nova, mas sempre fora corajosa. Corajosa demais. Caubi se perguntava se não beirava à estupidez. — Vamos encontrar Lúcio e Luana. Vamos voltar pro nosso pai e vamos dar o fora daqui. Se não estiver de acordo, é melhor me dar a arma.
Caubi viu seu queixo cair. Não sabia se estava ofendido, com medo, ou inspirado. Não esperou nem mais um segundo para atravessar o terreno em direção à rua, seguido pela irmã.
Estavam ambos próximos demais do prédio de Lúcio.
Foi quando Caubi viu.
Incontáveis foram as noites em que Caubi acordou com a imagem na cabeça.
No fim daquela rua, há menos de trinta metros dele e da irmã, um beco escuro escondia uma figura comprida, de pele tão pálida que parecia transparente. Tinha o corpo de um humano, mas definitivamente não era parecido com ninguém que ele já tenha visto. Com seus pelo menos dois metros de altura, os dedos longilíneos destacavam-se na escuridão. Estava nu.
Caubi sentiu os pelos da nuca se eriçarem. Petrificado de medo, tentava se mexer, mas não conseguia. Algo não o deixava se mexer, ele lembra. Ele lembra de como o maxilar tremia, se lembra de como sentiu as lágrimas brotarem nos olhos com o medo, se lembra de querer correr, gritar, atirar, e se lembra principalmente da sensação de seu corpo não lhe responder.
Durante aquele segundo que se pareceu uma eternidade, Caubi parou de respirar. Ele procurou o rosto da criatura e sentiu os pés perderem o chão — uma boca com dentes putrefatos e deformados parecia desenhar um sorriso maldoso, mas ele não viu um nariz e muito menos olho algum e, ainda assim, sabia que, o que quer que fosse, estava olhando para ele.
Nádja puxou o irmão, tirando-o do transe. Mal pôde fazer pergunta alguma quando Caubi correu para dentro do saguão do prédio.
Assim que passou, subiu as escadas chorando como uma criança e a irmã o seguiu sem questionar, adentrando o prédio sem luz.
Ela fez uma curva onde sabia que era o andar de Lúcio.
Tudo parecia estranhamente quieto, como se o som do lado de fora estivesse abafado pelas densas paredes dos corredores escuros.
— Tem uma lanterna? — Nádja perguntou. Como resposta, apenas ouviu a respiração entrecortada do irmão.
Ele chegou a abrir a boca para respondê-la, mas um som nos andares de baixo fez com que um grito de pavor saísse ao invés disso.
Ambos ouviram um som inumano, como se um animal tentasse se comunicar. Era agudo e cortante e Nádja, mesmo sem ter visto o que Caubi viu, sentiu vontade de vomitar.
Distinguindo apenas a silhueta do irmão em meio à escuridão, puxou-o corredor adentro. Arriscando a própria pele, fez o que seus instintos mandaram — gritou.
— Lúcio! — Sua voz saiu esganiçada e percebeu o medo que sentia do desconhecido.
— Cale a boca! — Ela ouviu o embargo na voz de Caubi, mas nem um dos dois deixou de correr.
— Lúcio! — Ela insistiu, batendo de porta em porta.
Caubi sentiu como se pudesse bater na própria irmã para mantê-la em silêncio, mas novamente ouviram o som, dessa vez mais ameno, porém perto, acompanhados de passos pesados nas escadas atrás deles.
Agora os soluços de Nádja eram ouvidos.
Caubi engatilhou a arma, mas não tinha certeza de que teria coragem de dispará-la.
Para sorte de ambos, não foi necessário. A porta ao lado se abriu, deixando uma fraca luz entrar no corredor. Foi quando viram o rosto de Lúcio Valmir, ex-militar e companheiro de guerra do pai dos Moon, crescido como tio das crianças. Vê-lo nunca parecera tão bom.
Os irmãos Moon mergulharam dentro do apartamento do homem sem pestanejar. Lúcio fechou a porta no exato segundo em que a criatura pisou em seu andar.
Nádja correu para abraçar o tio, abafando os soluços na blusa amassada e com cheiro familiar de amaciante.
Lúcio retribuiu o abraço da menina com fervor, agradecendo aos céus por estarem vivos. Ele se afastou da porta e olhou para as visitas, fazendo um sinal com o dedo para que não fizessem barulho.
Lúcio Valmir era um homem alto, negro e forte, com cabelos crespos e beirando seus quarenta e três anos de idade. Com a arma empunhada em mãos, pôs-se a ouvir o silêncio.
Do outro lado da porta, no corredor escuro, ouviu o que se parecia com passos pesados e intervalados, como se o que quer que estivesse do outro lado procurasse por eles. O som dos passos aumentou gradativamente. E, por fim, parou em frente à porta de Lúcio.
O homem apertou a arma em mãos, sentindo o suor escorregar por elas.
Nádja estava com os olhos tão arregalados que pareciam saltar das órbitas.
Caubi sentou-se no chão, tremendo o corpo inteiro ao segurar as lágrimas. Ao seu lado, no fim do corredor da casa de Lúcio, a pequena Luana estava encolhida com as mãos tapando os ouvidos.
O silêncio parecia ferir os presentes naquele apartamento. O único som que fez com que todos voltassem a respirar foi o dos passos se distanciando.
Por pelo menos um minuto, ninguém se moveu. O primeiro a mostrar algum sinal de vida foi Caubi. Encolhido no canto da sala, chorou de soluçar, abafando o medo na manga do pijama encharcado. Deixou a arma cair ao seu lado.
Lúcio correu para pegar a filha nos braços, ao passo que Nádja abaixou-se cautelosamente ao lado do irmão. Ela ligou os pontos.
— O que viu lá embaixo? — Ela perguntou, com a voz delicada e calculada. Sem saber se era o certo, apertou o ombro do irmão.
Não esperava mais uma resposta depois de um tempo, surpreendendo-se ao ver Caubi levantar os olhos para eles. Lúcio estava parado ao lado dos dois.
— Eu não sei o que eu vi. — Ele limpou as lágrimas, sentindo-se envergonhado com o surto. — Mas não era humano.
— Onde estão seus pais? — Lúcio perguntou, ainda segurando a filha de cinco anos nos braços.
Nádja balançou a cabeça e tentou controlar seus sentimentos.
— Não sei onde está a minha mãe e meu pai... meu pai surtou... — Ela puxou os cabelos.
— Surtou?
— Disse que ia esperá-la. — Caubi respondeu, já mais recomposto. — Ele nos mandou pra cá e eu não entendo o porquê. Não entendo porquê não nos deixar em casa ou vir com a gente. Eu... temos que voltar por ele, Lúcio.
Lúcio balançava Luana nos braços, a garota quieta pela primeira vez na presença dos Moon.
— O pai de vocês é um cara inteligente. — Mesmo com tais palavras, balançava a cabeça em negação. — O que ele disse?
— Disse pra procurarmos você. — Nádja respondeu.
— Só?
— Só.
— E deu a arma na mão de vocês?
Caubi concordou com a cabeça, olhando para o instrumento largado ao seu lado.
— Sabe usar esse negócio, garoto? — Lúcio perguntou, com medo da resposta.
— Meu pai me ensinou verão passado quando fomos acampar. — Caubi girou a arma nos dedos. Imergido na sensação do metal gelada entre os dedos, falou sem pensar. — Disse pra atirar na cabeça.
Lúcio respirou fundo, seus pensamentos a mil. Olhou para a pequena encolhida em seus braços e para os dois adolescentes que o miravam com olhares desolados.
— É o seguinte: não estamos seguros aqui.
— Como sabe? — Caubi questionou. — Aquela coisa não abriu a porta. Estamos muito mais seguros aqui dentro do que lá fora.
— Confie em mim, Caubi, se isso for o que estou pensando, não vamos durar aqui por mais de uma hora. Mais virão e não teremos pra onde ir.
Nádja engoliu em seco, levando a mão à boca.
— E o que está pensando que é? — O garoto insistiu, com medo da resposta.
— Papo pra outra hora. Anda, levanta.
Caubi obedeceu, apoiando-se na parede ao se levantar.
— Toma. — Lúcio entregou Luana nos braços de Nádja. Em choque, a pequena não protestou. — Eu vou seguir na frente, as duas atrás de mim e o garoto na retaguarda, estão entendendo?
Os irmãos se entreolharam. Só de pensar em abrir aquela porta, sentiram pontadas no estômago.
— Só vão me seguir e não olhar pra trás, tudo bem? — Lúcio não esperou uma resposta. Beijou a testa de Luana e posicionou-se no batente da porta. Destrancou-a e girou a maçaneta com cuidado. Voltou-se para Caubi um último instante. — Mire na cabeça.
Nunca admitiu ou deixou transpassar para as crianças, mas fora a primeira vez na vida que sentiu tanto medo.
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