Corpo
1 Capítulo 1 - A beleza de cada traço
Era verão, fim de tarde, por quilômetros à fim só se podia ouvir o canto chato das cigarras e a Yu-topia estava completamente vazia.
Yuuri vestia apenas uma bermuda preta. Seus pés inquietos balançavam no ar de um lado para o outro enquanto os dedos impacientes das mãos batiam contra o chão.
Além do calor infernal, o motivo de sua ansiedade era seu noivo, Viktor, que havia viajado para São Petersburgo há algumas semanas para resolver os toques finais da papelada da venda de seu apartamento para enfim ir morar com Yuuri.
Apesar do japonês insistir para que não o fizesse, o russo dizia que não via mais necessidade em manter seu apartamento já que viajava sempre e, quando passava muito tempo em algum lugar, sempre era no Japão ao lado do noivo. O russo disse ainda que compraria um chalé para que pudessem passar as férias, e então não sentiria tanta falta de sua cidade natal, portanto não tinha com que o outro se preocupar. Yuuri sabia bem que a distância era um incômodo para ambos e que se morassem juntos seria bastante agradável, mas ao mesmo tempo, sempre que pensava no assunto, o jovem era tomado por uma onda de horror e calafrios que arrepiavam-lhe até a sola dos pés.
Viktor nunca havia lhe tocado, exceto pelos beijos carinhosos e alguns abraços fora de hora, o mais velho nunca insistiu em ir mais fundo. Apesar de sentir certa insegurança, Yuuri sentia-se aliviado pelo russo não forçar esse tipo de aproximação.
Sentia vontade, claro. Quantas vezes não se masturbou olhando para os posters nas paredes de seu quarto, imaginando aquelas mãos tocando-lhe o corpo e a voz suave pairando sobre si?
O mais novo se garantia no quesito sexo, apesar de não ser a voz da experiência. Mas sempre havia algo que o travava na hora de dar um passo à diante: seu corpo.
Gordura localizada e estrias devido ao constante "efeito sanfona" que sofre. Seu quadril era cheio delas: brancas, cicatrizadas, eram sua maior vergonha.
Naquele momento mesmo ele estava acima do peso, apesar de ter prometido a Viktor que não exageraria com a comida da mãe. Sentia-se culpado por isso, porque provavelmente decepcionaria o noivo, porque provavelmente seria chamado de porquinho novamente. Ao menos Yurio não estava ali para caçoar de sua pessoa.
Yuuri não sabia exatamente em que parte de seu monólogo começou a chorar, mas as lágrimas escorriam ao pensar em Viktor repugnado seu corpo, deixando-lhe por isso. Esses pensamentos simples faziam Yuuri sentir-se sufocado, quase como se estivesse se afogando em sua tristeza.
Ouviu batidas na porta e enxugou rapidamente as lágrimas dos olhos. Observou pela janela que já estava escuro e provavelmente já passava das sete da noite.
Se levantou e cambaleou até a porta, ainda fungando um pouco, imaginando que provavelmente era sua mãe que viera lhe pedir para que ajudasse a arrumar algo ou coisa assim. Já pensava até mesmo na desculpa que daria por estar chorando.
Porém, para sua surpresa, a figura de Viktor apareceu assim que a porta fora aberta, com um sorriso radiante que desapareceu assim que notou a expressão do noivo.
— Você estava chorando, Yuuri? — Viktor largou no chão as malas que trazia e adentrou ao quarto do japonês para abraça-lo. — O que houve, meu amor?
Yuuri estava paralisado, só conseguia pensar que todos os posters estavam na parede, que ele estava mais desarrumado que o normal e que seu noivo, no qual ele esteve pensando durante a tarde inteira e que deveria estar na Rússia, estava lhe abraçando e acariciando gentilmente os fios de cabelo.
O japonês delicadamente se separou do abraço e, em silêncio, sob o olhar curioso do noivo, caminhou até o armário e retirou o futon, estendendo-o no chão, sinalizando para que o russo se sentasse.
Ainda sem entender bem, Viktor se sentou e lentamente Yuuri se abaixou à sua frente, tocando-lhe a bochecha esquerda e puxando-o para um beijo. Yuuri começou a puxar a camiseta do noivo, surpreendendo-o. Viktor o ajudou a tirar a peça de roupa, em seguida se livrou da calça jeans que também usava, até trajar apenas uma cueca branca que pouco contrastava com sua pele.
— Você é tão lindo. — Yuuri disse, passando a mão direita por uma das coxas de Viktor.
O japonês se levantou, e então timidamente começou a despir-se da bermuda que usava.
— Eu não tenho um corpo como o seu, Vitya. — pronunciou, deslizando as mãos pela barriga, agarrando uma dobrinha. — Meu corpo é horrível, todo marcado... — ele se virou, abaixando um pouco a boxer preta, revelando as marcas que iam de seu quadril até a bunda. — Não é nem um pouco bonito, não é? — ele perguntou, ainda de costas, com a cabeça baixa e os olhos marejados.
— Do que você está falando, Yuuri? — Viktor ficou sobre os joelhos, abraçando a cintura de Yuuri por trás, encostando sua testa na costa do noivo e beijando seu quadril, fazendo o mais novo estremecer. — Você é lindo, tudo em você é lindo. Da ponta do seu mindinho até o topo da sua cabeça, cada parte sua é linda.
Yuuri se soltou e virou-se para Viktor, recebendo o olhar mais sincero que já vira do outro. Empurrou-o para cima do futon e sentou-se sobre ele, com uma perna de cada lado, abaixando-se até colar seu peito ao dele.
— Te amo, Vitya. — sussurrou em russo, beijando Viktor em seguida. O mais velho o agarrou num abraço apertado e beijou o topo da cabeça do noivo.
— Também te amo, Yuuri. Não se atreva a falar besteiras sobre seu corpo de novo. Você é perfeito.
Apesar do calor do verão e dos seus corpos juntos, acharam uma posição confortável e puderam relaxar na companhia um do outro.
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