Corona II
27 Transição de Prioridade
Notas iniciais
McGonagall dormia com uma toquinha para cabelos e sequer tive a chance de apreciar o momento.
Do meio das escadas do quarto andar até sua sala não demorou quase nada e não fiz questão de ser silenciosa enquanto atravessava a classe e então subia as escadas até seu escritório. Eu não fazia ideia de onde os professores dormiam, se era em algum quarto acoplado, mas só tinha um jeito de descobrir. Bati com força na porta de seu escritório, esperando que a mulher tivesse algum sono leve, e não me decepcionei. Em três batidas fortes, a professora de Transfiguração e vice-diretora de Hogwarts abriu a porta de uma vez, vestida com um robe de lã escocesa pesada e verde e uma touquinha que prendia seus cabelos negros livres do coque que adotou para dar aula.
Ficava mais bonita assim, sem o rosto quase puxado pelo coque pesado e firme. Quantos anos ela devia ter?
— Espero que haja uma boa razão para isto, Lewis — a voz da professora veio dura como o chão do castelo sob meus pés descalços, seus olhos muito verdes me analisando como um felino.
— Colyn Creevey acaba de ser atacado — disparei o motivo para fora da boca, observando seu rosto descer ao menos três tons enquanto sua boca abria. — Dumbledore está com ele nas escadas que levam para a ala hospitalar.
Minerva não precisou de mais do que isso para se recuperar do choque e passar por mim, esquecendo-se até mesmo da touca no cabelo. Seguia-a pelos calcanhares, voltando o caminho que acabará de fazer e encontrando a mesma cena que havia deixado. O fã de Potter estirado no chão, duro como uma estátua, com o diretor ao seu lado. Observei os professores pararem por um momento e se olharem nos olhos, uma conversa pesada e silenciosa entre ambos, até que Alvo os seus os olhos em mim outra vez.
— Poderia ir na frente e acordar Madame Pomfrey, Mal? — Sugeriu com nada que insinuasse que me achava culpada de alguma coisa. Não. Seja o que for que o diretor havia visto em mim quando me encontrou ao lado do corpo de Creevey, me julgou inocente. — Minerva, segure os pés, eu levarei a cabeça.
Enquanto agarravam Colyn pelas extremidades, passei outra vez por eles e me adiantei para a enfermaria. Eu tinha estado ali enquanto o garoto era atacado. Talvez se não tivesse me concentrado em Harry, se tivesse vigiado o inicio do corredor... abri as portas e no mesmo instante notei que havia algo de errado. Era Potter acordado à esta hora, os olhos abertos e fixos no portal – não que eu precisasse disso para saber, sua consciência ativa e mente borbulhante lhe denunciava. Algo tinha acabado de acontecer.
Feche os olhos.
O garoto imediatamente obedeceu ao comando, fingindo-se de quase morto. Passei por sua cama ao mesmo momento em que os diretores surgiam atrás de mim e fui em direção ao escritório de Pomfrey. Ela não precisou de nem duas batidas para atendar a porta, sempre pronta para correr em direção a algum paciente que recaísse no meio da noite. Vestia um casaquinho de lã e passou direto por mim enquanto seus olhos se focaram em Dumbledore e Minerva depositando o aluno petrificado na cama. Uma grande puxada de ar foi toda reação que se permitiu ter, já se debruçando em Colyn.
— O que aconteceu? — Papoula cochichou para não acordar seu outro paciente, sem qualquer ideia de que Potter ouvia cada palavra.
— Outro ataque — o diretor respondeu, a voz brande e os olhos muito duros, examinando o garoto como havia feito com a gata do zelador. — A srta. Lewis o encontrou nas escadas.
— Mas o que...?
— Havia um cacho de uvas caído ao seu lado — murmurei enquanto levantava a mão. Eu ainda o segurava. — Devia estar tentando chegar até o Harry.
Senti o mal-estar do garoto como se fosse o meu, o estomago embrulhado atingindo meu corpo fraco pela invasão de Tom Riddle e pela presença da criatura. Por estar prestando bastante atenção, notei quando Potter se moveu milímetro por milímetro com toda lentidão que possuía em seu corpo inquieto para ver por si mesmo antes de afundar novamente nas sombras, pior do que antes.
— Petrificado? — Pomfrey voltou a perguntar, erguendo-se novamente. Não havia nada que pudesse fazer. Aquilo era magia negra de alto nível e nem mesmo Dumbledore era capaz de concertar algo assim com um aceno de varinha. Precisávamos das mandrágoras, agora mais do que nunca.
— Está — Minerva respondeu, a voz pesada enquanto os olhos verdes abaixavam para seu aluno. A professora de Transfiguração também era diretora da Casa de Grifinória, o que tornava Colyn Creevey sua responsabilidade direta. Aquele pequeno e entusiasmado garotinho nascido-trouxa, cujo um pai solteiro havia confiado aos seus cuidados durante o ano letivo. Ela escreveria uma carta? Contaria o que aconteceu? O código moral, por mais que doesse, ordenava que sim: pais deviam ser alertados se algo deste nível acontecesse aos seus filhos – petrificados por uma magia negra perigosa dentro dos corredores da escola. Mas isso causaria uma possível histeria coletiva, com um senhor trouxa batendo nas portas de Hogwarts atrás de explicações. — Mas estremeço só de pensar... Se Alvo não estivesse descendo para tomar um chocolate quente...
— Mas não fui eu quem encontrou o garoto, Minerva — os olhos do diretor vieram em minha direção, o que pareceu ter feito as outras duas bruxas perceberem minha presença. Uma aluna, ali, parada no meio deles, presenciando aquela conversa cochichada no meio da noite. Retribui o olhar, esperando que ele terminasse, mas não disse mais nada. Estava por minha conta, então. A mentira. Ele deixaria que eu mentisse, ao menos em público, sobre o motivo de estar ali. Não que ele soubesse, mas duvidava que fosse contar a verdade. Um velho esperto, este Dumbledore.
— Encontrei Creevey nas cozinhas — as palavras saíram suaves na minha boca, cada silaba deslizando como cobras. — Fui pegar algo para comer no meio da noite e ele estava lá, pegando esta uva. Me disse que estava vindo para cá e eu avisei que seria perigoso, que o que quer que tenha atacado Madame Nor-r-ra ainda estava por ali. Mas ele insistiu, então o acompanhei.
— Então viu o que o atacou?! — Os olhos esperançosos de McGonagall fizeram algo dentro de mim murchar e partir quando continuou sem nem piscar.
— Não, senhora, não faço ideia. O levei até a base das escadas e estava voltando para meu dormitório quando ouvi... ouvi o baque. Quando voltei, ele estava caído e seja lá o que fez isso, desaparecido. O diretor chegou momentos depois.
Havia alguma verdade ali, pelo menos no final. Ao mesmo tempo, não tinha qualquer duvida de que aquilo não havia acabado. Os olhos faiscantes de Alvo quase chegavam a refletir minha imagem atrás dos óculos de meia-lua e eu sabia que teríamos uma conversa de portas fechadas, eu e ele. Já fazia algum tempo.
— Você acha que ele conseguiu bater uma foto do atacante? — A vice-diretora perguntou novamente após um momento em que os três adultos observaram a criança petrificada abaixo deles. Em resposta, Dumbledore permaneceu calado, mas levou suas mãos à máquina e, com um pouco de força, a tirou das mãos do rapaz. Me obriguei a não virar o rosto. Pois enquanto um jato de vapor saia silvando do aparelho e o cheiro de plástico queimado impregnada a ala, o rosto de Colyn Creevey apareceu para mim.
O pior eram seus olhos. Eu podia lidar com a boca aberta, com as sobrancelhas erguidas e as pálpebras arregaladas. Mas os olhos... congelados no exato momento em que a criatura estava por cima dele. Era medo. Não desesperador, era a certeza de morte. O primeiranista de onze anos, naquele pequeno segundo, teve certeza de que iria morrer. Em quem havia pensado? Talvez em seu pai, seguro e longe de toda a magia, sendo um trouxa? Em sua escola comum que deixou para trás em nome de Hogwarts? Nos sonhos que ainda tinha, na carreira que gostaria de seguir? Pois Colyn não podia saber que terminaria apenas petrificado.
Naquele instante, sozinho e indefeso nas escadas com uma criatura milenar e sanguinária à sua frente, seus instintos lhe disseram que era o fim. E onze era muito cedo para contemplar a morte, para vê-la na sua frente. Eu sabia que era cedo demais para que eu a enxergasse outra vez, agora fragmentada nas írises castanhas de um garoto, uma criança, que apenas queria viver a fantasia de ir para uma escola de bruxos. Ele não merecia. Por mais inconveniente que fosse, não merecia.
— O que significa isto, Alvo? — A voz de Minerva, com uma pontada estranha de angustia em sua voz usualmente dura e controlada, me trouxa de volta a realidade. Arranquei meus olhos do rosto do garoto, me deparando com o diretor me observando por cima de seus óculos.
— Significa — Dumbledore não piscou ou desviou os olhos dos meus, intensos e carregando o peso de um júri inteiro. — Que de fato a Câmera Secreta foi reaberta.
— Mas, Alvo... — Os olhos arregalados da professora eram novidade para mim, até mesmo as mãos cobrindo a boca de Pomfrey. — Com certeza... não acha...?
— Srta. Lewis, já é tarde, devo pedir que volte para seu dormitório — o diretor declarou com calma, uma última vez seus olhos velando o aluno atacado bem debaixo de seu nariz. — Minerva, poderia leva-la? Depois gostaria que me encontrasse no meu escritório.
Em nome da minha dignidade, permaneci de ombros retos quando os olhos verdes de McGonagall pousaram em mim. Sempre achei que a mulher gostava da minha pessoa, mas começava a vacilar nesta certeza. Eu sentia suas emoções escapando – receio, duvida. Seja qual for a inocência que Dumbledore me punha, não havia aquietado completamente a professora de Transfiguração.
Foi um esforço deixar Potter e sua mente inquieta para trás, mas não era como se eu tivesse escolha. No momento seguinte meus pés me guiaram para fora da ala hospitalar com Minerva nos meus calcanhares, garantindo que a rota não sofresse qualquer alteração. A professora me acompanhou em silêncio, as mãos juntas na frente do corpo e os passos rápidos – tinha pressa em voltar para o diretor. Apenas quando chegamos na parede de pedra lisa que escondia a porta para minha sala comunal, foi que senti seu olhar impaciente.
— Você acha que fui eu, professora McGonagall? — A pergunta conseguiu deixa-la muda. Virei meu corpo para poder enxergar seu rosto e o vi surpreso, a boca aberta, quase em choque. Definitivamente não havia visto isso chegando.
— O que eu penso não importa, Lewis — conseguiu responder, recuperando alguma parte de sua usual postura. Balancei a cabeça, enfiando minhas mãos dentro dos bolsos da calça de dormir gasta.
— Eu acho que importa muito — encolhi os ombros e busquei seus olhos. Verdes e vivos, quase tanto como os de Harry. A maior diferença entre os dois era que os da vice-diretora tinham algo de caçador-observador, algo de felino. Os do garoto eram sempre gentis demais para passar a impressão de observar o jantar. — Eu entendo sua situação delicada. Foi um dos seus alunos que foi atacado, é natural que esteja buscando um culpado para toda a situação, mas achei que me conhecesse um pouco melhor do que isso.
— E eu espero conhecer, srta. Lewis — seus olhos, seu rosto, até mesmo o ar em volta dela se tornou pesado. Levou uma mão até meu ombro e se permitiu apertá-lo com o que achei que seria o máximo de conforto e voto de confiança que poderia me conceder. — Realmente espero. Agora já para cama e não tenho que pedir que não diga nada a seus colegas. Não precisamos que a noticia se espalhe ainda mais rápido.
Foi só quando já estava deitada outra vez que percebi que escapei da noite sem ter perdido ponto nenhum por estar fora da cama e ainda por cima ter "ido na cozinha", o que era proibido aos alunos. Era este, então, o nível de calamidade que tinha de se chegar para fazer com que Minerva se esquecesse do regulamento – decidi que preferia quando se lembrava.
A dor no meu corpo e a exaustão impregnada em meus ossos foi o bastante para me garantir uma longa noite de sono. Nem mesmo Lagrum me buscou na inconsciência, permitindo que descansasse corpo e mente. O dia seguinte era domingo e eu não teria aula com Severo, mas precisaria o procurar... se encontrasse tempo. A noticia fora atacado e agora estava duro feito um cadáver na ala hospitalar não precisou de mim para se espalhar. Quando acordei, já perto do almoço, a escola inteira estava carregada de boatos e teorias de conspiração, cada grupo elegendo um suspeito e apontando os dedos.
Os piores eram os primeiranistas. Até entre os Sonserinos a tensão era visível. Mesmo com a maior parte dos alunos sendo sangue-puro, havia sim uma parcela de mestiços e até mesmo um ou outro nascido-trouxa. Eles, assim como o resto do seu ano pelo castelo, andavam por aí em grupos próximos e olhando por cima dos ombros, como se a criatura estivesse apenas esperando um deles se desgarrar para o ataque.
Não estavam completamente errados.
Ninguém estava no dormitório quando acordei, o que me permitiu um momento para pensar. Na criatura, em Colyn Creevey, no julgamento silencioso de Dumbledore, na apreensão pesada de McGonagall. E em Tom Riddle. O único sinal de que não havia entrado com toda a facilidade era a dor pontuada que subia pela minha nuca, partindo minha cabeça ao meio. Ele quebrou minha defesa de oclumência, esmaecida pelo sono, e organizou minha mente como um palco para si mesmo, o que não era uma experiencia que eu gostaria de passar outra vez.
Não havia nem com o que lutar. Enquanto conversamos não consegui identificar de onde ele estava vindo, não pude bloquear ou contra-atacar. Era como se a mente de Riddle e a minha fossem uma só, embrenhadas uma na outra até não fazer mais diferença e isso me deixava quase doente. Mais uma presença do que uma fonte, mais uma sintonia do que algo físico, como ondas de rádio no ar. No ano anterior, havia conseguido expulsar Lorde Voldemort da minha cabeça, mas ele estava na minha frente. Ou o que restava dele, mesmo que sua mente ainda estivesse forte o bastante para quase destruir a minha. Como eu expulsaria algo que não vinha de lugar nenhum além de mim mesma?
Expulsão, inclusive, era a palavra-chave: quanto tempo levaria até eu ser chamada para uma conversa com Dumbledore? Acreditando cegamente, ou não, em mim no primeiro momento eu sabia que não escaparia de algo mais profundo do que sua busca pessoal. Eu seria interrogada pela sua voz branda e gentileza suaves – ambas formas muito eficientes de deixar terceiros relaxados e confiantes. Ninguém tem medo do velhinho de voz baixa, ninguém acha que o senhor de barba branca e fala bem-humorada possa ser uma ameaça. Mas eu já havia visto Alvo Dumbledore com a varinha em punho, com os olhos azuis claríssimos exalando toda sua energia e poder.
Eu não gostaria nunca de estar do outro lado da varinha. Não havia nada de Papai Noel no velho diretor de Hogwarts quando deixava de lado sua postura habitual.
Ele e Minerva deviam ter conversado a noite inteira sobre aluno atacado, ou eu chutava por uma boa parte delas. Chamaram os outros professores ou deixaram que dormissem com tranquilidade uma última vez antes de saberem que a besta havia se cansado de esperar e agora estava atrás de alunos? Outra vez. Alvo disse que a Câmera Secreta havia sido, de fato, reaberta. Isto com certeza não estava em Hogwarts: Uma História. Quando foi e por que ninguém sabia disso?
Mas talvez não fosse assim. Alguns alunos poderiam saber. Os que tiveram pais que estudaram em Hogwarts, talvez até seus avós. Uma linhagem tão antiga poderia saber, um sussurro passado pela família de alguém que esteve bem aqui quando a Câmera foi aberta pela primeira vez, sabe-se lá a quanto tempo. Felizmente, eu possuía uma grande lista de possíveis fontes para perguntar: todos do meu ano, na minha Casa, eram puro-sangue, crianças que os pais e avós, dos dois lados, eram bruxos. Tradição era uma coisa tão importante para cada um deles que algo assim devia ter sobrevivido através do tempo, tinha que ter.
Me levantei da cama enquanto passava as mãos pelo rosto, a sensação fantasma de outras ainda ali. Não podia sequer imaginar a razão de Tom Riddle parecer tão realizado na minha presença, tão confiante e orgulhoso. Mas eu não era incapaz de ignorar, ao menos não isto, a sensação que suas mãos causaram em mim. Uma lembrança tão mais antiga e tão preciosa, recuperada a pouco tempo pela dor de uma invasão. Um homem que me protegeria do mundo inteiro, que dançava pelo quarto luxuoso com um pequeno bebê em seus braços. Meu estômago se torceu com a imagem viva do rapaz: a pele tão pálida, as maçãs do rosto que quase cortavam, a elegância de um rei e os olhos de um predador: escuros e cruéis, e ainda sim... brilhavam para mim.
Ajoelhei ao lado da minha cama e deixei que minha mão alcançasse o malão embaixo dela. Estava praticamente vazio: todas minhas cinco mudas de roupas trouxa estavam no malão, junto ao meu uniforme limpo e pronto para o dia seguinte. Meus livros estavam arrumados no criado mudo ao lado da cama, como a maioria dos presentes que já havia ganhado: o espelho de Blás, a cobra de Daphne. As fotos que havia tirado e eram a razão de não ter perdido completamente a razão durante as férias eram tudo que restava no malão, junto a sua máquina... e o embrulho que Joan havia escondido por uma década.
Meus dedos ficaram frios quando se firmaram envolta do pacote de tecido, ou talvez tenha sido apenas minha impressão. Pesquei-o para fora e segurei pela primeira vez desde que o havia resgatado da base da estatua no antigo quarto da abadessa, sentindo mais uma vez a maciez e observando como quase brilhava, mais macio do que seda. Seja o que for que estava lá dentro era chato e pesado e esquentava cada vez mais nas minhas mãos – desta vez, não era impressão minha. Diferente de quando o tive no orfanato, ele parecia reagir ao toque desta vez, estimulado pelo ambiente mágico mesmo através do tecido.
— Mal! — Sue Hopkins entrou no dormitório aos tropeços e virei o rosto com rapidez o suficiente para enxergar sua guarda baixa: os olhos inchados e vermelhos, os lábios tremendo e o soluço interrompido, ela obviamente não esperava que eu ainda estivesse por aqui e, se sim, não contava com que estivesse acordada. — Eu... pensei que já tinha saído...
— Acabei de acordar — respondi devagar, deixando o embrulho cair dentro do malão outra vez e o empurrando para baixo da cama. Depois, eu o veria depois. Em algum momento em que uma das minhas colegas de quarto não estivesse tão desolada. Hopkins era pequena, a menor do nosso ano. O oposto de mim, que chegava a ser maior do que alguns garotos. Mas nunca tinha reparado o quanto até vê-la se encolhendo. — Sue, o que aconteceu?
Ela chorou para minha pergunta. O soluço que escapou de sua garganta pareceu a balançar por inteiro, seu pequeno corpo magro, e então eu já estava ao seu lado. Minha experiencia com choros era larga, porém limitada. Estava acostumada a lágrimas de desespero, de medo, não isto. A dor que exalava de minha colega de dormitório era mais profunda do que o medo do escuro e de pesadelos, era mais intima. Era um coração partido que fez o meu rachar enquanto a sentava em sua própria cama. Passei meus braços por ela e deixei que chorasse, rangendo os dentes para manter sua tristeza longe de mim – sentimentos tão fortes, sejam bons ou ruins, sempre me mordiam.
— Me desculpe...
— Não peça desculpas por algo assim — usei o tom de voz mais suave que tinha ao cortar sua fala. Sem fôlego e vermelha, demorou muito tempo para que Sue se acalmasse o bastante para formular frases. — Mas eu quero saber o que, em nome de Salazar, aconteceu para te deixar neste estado.
— Colyn Creevey foi atacado, Mal — choramingou ao levar as mãos para o rosto, limpando o caminho das lágrimas. — Era um... um primeiranista grifinório. Foi atacado ontem a noite e está na ala hospitalar, tão duro quanto a gata do Filch. Parkinson disse...
— Eu vou quebrar cada dente da boca daquela infeliz do caralho...
— Mal, pare — uma mão muito fraca se agarrou a base da minha blusa enquanto me levantava, meu temperamento explodindo em meus ouvidos. Meu monstro se agitou, acordado e sedento por vingança. Sue era tão pequena e nunca havia feito nada contra ninguém. Principalmente contra Pansy Parkinson. Havia sido ela quem me dera cachecóis e luvas novos no Natal passado pois viu que eu não tinha quase nenhum agasalho para passar o inverno. Foi graças a isto que fui capaz de usar as luvas de segunda mão que comprei no Beco como acessório cotidiano. — Ela nem falou para mim. Foi para qualquer um que escutasse na mesa do almoço. Disse que já estava na hora do Herdeiro cumprir sua promessa e começar a limpar a escola.
— Isso foi tão baixo e nojento como eu esperaria dela, Sue, mas o que tem a ver com você? — Levantei uma sobrancelha, analisando seu rosto sofrido. Eu não me lembrava de amizades mantidas pela garota fora do circulo de nossa Casa, então tanta emoção por essa frase era desproporcional. Eu tinha uma grande amiga nascida trouxa e não estava em frangalhos. Aquilo era pessoal e confirmei quando o silêncio foi minha resposta. Os olhos da garota, usualmente castanhos, estavam quase verdes de tanto chorar e voltavam a se encher. Quando voltei a falar, fiz veludo da minha voz. — Você não é puro-sangue, não é, Sue?
— Não conte para ninguém, por favor, Mal, prometa — suas mãos dispararam para as minhas e fiz força para não ser rude e me afastar em um puxão, mesmo que meu próprio coração tenha disparado e minha pele queimado. Eu não estava de luvas, o que significava que a pele suave e intocada de Hopkins estava em contato direto com a minha mutilada. Minha sorte era que, talvez, ela estivesse concentrada demais em si mesma para notar esse contato físico.
— Se acha tão importante, Sue, eu não vou dizer nada — murmurei para seu rosto abalado, para sua voz de suplicia. — Mas não consigo... Espere, é por isso que você e Nott não se acertam?
Em cheio. A dor atravessou seu rosto mais uma vez, o contorcendo e tornando-o vermelho justo quando começava a recuperar o tom normal. Novas lágrimas desceram por suas bochechas rasas e aproveitei a chance para livrar minhas mãos. Interrompi o caminho que formavam e olhei em seus olhos, lhe dando algo para se focar além dos pedaços quebrados dentro de si. Funcionou e em três longas puxadas de ar, ela voltou a falar.
— Meus pais são bruxos, Mal, eu juro que são — passou a se explicar para mim e a pressa, quase o desespero que fazia isso, fez meu monstro mostrar as presas. Era um absurdo que ela achasse isso necessário. — Como os pais da minha mãe e o pai do meu pai, mas..., mas minha avó por parte de pai é nascida-trouxa. O que me torna, na melhor das hipóteses, uma mestiça. Theo diz... — a voz lhe falhou por um momento, os lábios tremeram. — Ele diz que não se importa, que os pais dele não precisam saber. Consegue acreditar nessa besteira, Mal?! Ele é o herdeiro de uma das Sagradas Vinte e Oito e eu sou só a filha de dois escritores, uma mestiça com nada de luxo para mostrar. Assim que os pais souberem de mim, e não duvido que farão de tudo para descobrir e garantir o sangue-puro, vou ser afastada mais rápido do que Snape tira pontos do Potter.
— Hopkins, eu quero que me escute com muita atenção — movi minhas mãos de seu rosto para seus ombros, estabilizando-a no lugar. — Eu não dou a mínima para o sangue da sua avó por parte de pai. Mas eu conheço você. Gosta dela?
— Ela é a melhor pessoa do mundo — a resposta veio sincera e rápida, uma pontada de alegria genuína em seu coração tumultuado por coisas tão ruins. — Vovó Odette é incrível. Foi ela quem me ensinou a andar de bicicleta.
— Bom — sorri para sua lembrança trouxa, a pequena criança lutando para manter a bicicleta infantil em pé através dos campos sob as vistas e o encorajamento de uma senhora vivaz. — Então por que você está com vergonha dela?
— Mas eu não...
— Não esconda sua avó, Hopkins — Interrompi sua desculpa apressada, envergonhada. Talvez ela não tivesse se dado conta disso até o momento, mas era a verdade e vi seu rosto se avermelhar por um motivo diferente agora. — Se a ama tanto não existe qualquer motivo para ela ser apagada desta forma. Sei que pode ter parecido uma mentira inocente, mas nascida-trouxa é o que ela é e tenho certeza de que tem muito orgulho de onde veio, de suas bisavós e de suas origens. Não é um detalhe sem importância, pois se fosse desta forma você não estaria chorando tanto agora. Sangue importa, mas não do jeito que pessoas como Pansy acreditam. Não vale o nome ou a se tem magia ou não, e sim a pessoa que o carrega. E sua avó, por quem você diz ter tanto carinho, ficaria decepcionada se soubesse que não pensa desta forma.
Sue Hopkins ficou em silencio para mim, envergonhada e triste, antes de afundar o rosto em meu ombro. Ficou ali, chorando um pouco mais: pela sua atitude impensada e pelo seu coração maltratado por si mesma. O fez em silêncio, desta vez, e não me mexi para interromper. A garota, a pequena Sue, já estava com isso dentro de si por tempo demais. Afastando o garoto que devia ser sua primeira paixão, andando em terreno explosivo ao mentir suas origens. O ataca de Creevey havia sido a última gota.
— Mas, Mal... — Respirou fundo, tornando a levantar a cabeça. — Ainda há os ataques. Eu posso estar na lista do Herdeiro...
— Eu lhe garanto, Hopkins, que nada vai acontecer com você — retruquei com a voz baixa. — Eu não vou deixar.
Não olhava para ela enquanto falava isso, olhava para o outro lado. Para baixo da minha cama, para dentro do malão que continha algo que fugi por tanto tempo. Tempo demais. Não se tratava mais de mim. Meus amigos estavam com medo e gente inocente sendo atacada, não tinha mais o menor direito de permanecer com medo.
Eu estava começando achando que a humana irritante e desafora que criei havia sido substituída.
A voz de Lagrum me fez sorrir. Eu podia fazer isso. Podia chutar e bater e rosnar até as sombras se afastarem. Podia lutar. Era a única coisa que aprendi a fazer e eu iria. Se não por mim, pela pequena Sue Hopkins, pelo entusiasta Colyn Creevey, pela ameaça acima de minha amiga Hermione Granger, por Fred Weasley que via sua irmã virar uma sombra, por Harry Potter e os dedos apontados para alguém não incapaz de fazer mal a outro ser humano, por Alvo Dumbledore e sua confiança em mim, por Minerva McGonagall e sua esperança.
Por eles, eu lutaria contra o que estivesse ali.
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