Corona II
26 Ligação Imposta
Notas iniciais
A coisa toda girava em torno da minha total inexperiência (e relutância) em aprender as formas de uma amizade funcionava. Não informar meu aniversário e minha nova amizade visualmente privilegiada haviam queimado, mas o que fez Daphne fugir de seu estreito código de conduta foi algo muitos níveis mais pessoal e importante, por mais que estimasse minhas informações e minha vida, eu não era Astoria.
— Pode me explicar a razão de não ter sido informada sobre o recrutamento da minha irmã? — Uma sobrancelha clara se levantou e acompanhei o desenho dela, bem traçado, e me perguntei se havia alguma magia domestica para isso. Como Parkinson e suas poções de espinhas. Não que eu tivesse algo com as minhas, cumpriam sua função fisiológica, mas era curiosidade.
— Eu não recrutei ninguém, Daphy — retruquei depois de mastigar uma grande garfada de lasanha. Aos fins de semana, em especial dias de jogo, os elfos da cozinha sempre faziam comidas um pouco mais informais. Havia, por exemplo, uma pilha de cachorro quentes já pela metade. — Apenas pedi que ela prestasse atenção em Gina Weasley, conversasse um pouco, talvez a conhecesse e, se gostasse e quisesse uma amizade, poderia ser um bônus. Não é uma missão secreta, apenas um favor.
— E qual a razão deste favor? Não é como você tivesse algum problema para se aproximar da garota, é intima dos Weasley o bastante para isso — eu não disse que os sonserinos tinham perspicácia? Não que precisasse de muita para notar isso, mas ainda sim... — Por que ela precisa que alguém lhe preste atenção especial?
— Porque acredito que esteja mexendo com coisas que não entende e que, provavelmente, não possui o menor controle — eu não poderia dar mais do que isso pois sequer sabia mais. A falta da menor gota de ocultismo na minha voz fez Greengrass acreditar que eu estava sendo, ao menos daquela vez, toda sincera. — E estando em anos diferentes, não consigo vê-la por muito tempo além das refeições, de relance. Ou com sorte pelos corredores. Fiz errado?
— Não — os ombros e colunas retos da garota relaxaram, pelo menos um pouco, e certo calor subiu ao seu rosto. — Desculpe por passar essa impressão. Nunca achei que estaria puxando minha irmã para algo de ruim ou perigoso, mas Astoria é...
— A mais nova — o sorriso torceu meus lábios. Não maldoso, mas com graça. O mais próximo que tive de irmãs foram as outras garotas do orfanato. Meninas igualmente perdidas e amedrontadas, apenas um pouco menos indefesas do que eu. Eu conhecia o sentimento de proteção, e não chegava perto da profundidade de uma irmandade. — E você vai a defender de qualquer um, até mesmo de mim, se for preciso. Eu entendo isso e respeito, Greengrass, mas falo a verdade. Nunca poderia colocar sua irmã na mira de coisa alguma, ela é preciosa demais para você para isso. E nem em um milhão de anos faria algo para te ver sangrar.
Tenho certeza que Daphne não esperava por essa. Se sua boca aberta e a coloração quase Weasley de seu rosto não bastasse, eu estava perto demais para não sentir suas emoções. O carinho que percorreu cada pequena parte de seu corpo, fluindo do coração até a ponta dos pés, aquecendo-a e tentei não me encolher. Não havia mentido, e talvez fosse isso que mais fazia o sorriso iluminar os olhos verde-água muito claros da herdeira dos Greengrass. Cada palavra era mais honesta do que o perigoso, ainda mais no meio das cobras. Permaneci parada, olhando-a de canto de olho enquanto cortava mais um pedaço do meu almoço, mesmo quando senti suas mãos suaves me envolverem.
Muito diferente das minhas, as palmas de Daphy eram como seda. E elas deslizaram pelo meu corpo, me envolvendo, depois que a garota se levantou e se deu, com muita calma e compostura, a volta pela mesa para se sentar ao meu lado. Fiquei tão perto que senti seu coração batendo contra meus ombros, e sorri. Vindo de algo tão quente e tão suave não havia a menor possibilidade de alguma lembrança ruim. Minhas cicatrizes permanecerem esquecidas, adormecidas e inofensivas, enquanto relaxava em seus braços e sentia o perfume refinado de seu cabelo. Com certeza era resultado de produtos caros.
— Eu devo desculpas por ter lhe segurado hoje mais cedo. Sei que é algo difícil para você.
— Tudo bem — murmurei ao soltar os talhares, pois me parecia muito ridícula ainda os segurando. Mesmo assim, ainda não sabia o que fazer com as mãos, então as deixei em meu colo, onde não poderiam machucar ninguém. — Ninguém deveria se desculpar por algo tão banal.
— A última coisa que você é, Mal, é banal — fiquei feliz que ela não fosse capaz de ver o sorriso que se abria em meus lábios. — Mas não vou me desculpar pelos motivos. Você não tem sido uma amiga muito informativa.
— Eu sei — e agora o sorriso estava muito mais torcido do que aberto. — Mas estarei perdoada se Diggory aparecer mais vezes?
— Mal!
O chiado brusco me fez rir, o que atraiu atenção das pessoas mais próximas enquanto Daphne me soltava. Ainda consegui ver seu rosto vermelho, um pouco menos do que alguns momentos atrás, mas ela também estava sorrindo. Mais do que isso, ria comigo. Era particularmente especial quando o fazia, quando mostrava que ainda era uma criança, que ainda tinha apenas doze anos. Todos eles, meus companheiros de casa, agiam na maior parte do tempo como pessoas com muito mais idade, responsabilidade e deveres. Sempre uma imagem para zelar, por bem ou mal. Se eu fosse me olhar no espelho, diria que era um denominador comum.
Quando terminamos de almoçar, Greengrass verbalizou sua vontade de se aconchegar perto de uma lareira naquela tarde chuvosa e úmida e sábado e eu disse que a encontraria em nosso dormitório logo mais. Como costumava fazer desde o inicio do ano, prestei atenção na mesa da Grifinória, buscando uma garotinha sardenta em particular. Foi muito fácil acha-la: havia não mais que cinco ou seis pessoas em toda a longa mesa. Então, enquanto Daphy ia para o refugio do dormitório para iniciar um sábado debaixo das cobertas, eu me sentava ao lado de uma assustada Gina Weasley.
— Merlin, Mal! — Arrancada de bem fundo dentro de si mesma, os olhos castanhos se focaram em mim com surpresa e irritação mordendo os cantos da íris chocolate, mas ao menos era uma emoção. O rosto da garota não havia melhorado desde da última vez que estivemos cara-a-cara: pálida e com olheiras, um rosto cansado que não devia pertencer a uma criança de onze anos. — Você me assustou!
— Tem andando muito sobressaltada, Weasley — apontei, uma de minhas sobrancelhas arqueando enquanto a via se retrair, seu rosto se contorcendo para se transformar em algo mais relaxado, amigável. Não funcionou, mas o fato de tentar enganar fez meu monstro colocar a língua para fora. Era assim que ela queria fazer? — Algum motivo para tanto stress? Ainda está com dificuldades?
— Não, não, eu já consegui me ajeitar — seus lábios se apertaram outra vez, coisinhas frágeis e pálidas com a pele ressecada pelo frio. — É toda... essa história da Madame Nor-r-ra. Rony estava lá e as coisas podem complicar para ele.
— Gina, eu estava lá — cortei sua mentira, pois mesmo com sua mente fechada eu ainda podia identificar uma. — Dumbledore disse que somos inocentes até que se prove o contrário e não vão provar pois não fizemos nada àquela gata. Muito menos seu irmão. Não precisa se preocupar com isso.
— Falar é mais fácil do que fazer — e senti a verdade nisso, ao menos. Na forma como seus olhos sombrearam e seus ombros se encolheram, os lábios mal se separando para soltar as palavras. Algo estava a assombrando, mas não a situação escolar do irmão.
— Ajuda se você fizer um esforço, sabe? — Fiz meus lábios subirem, desenhando um sorriso neles, mesmo que ainda torcido. Não fiz questão de tirar essa parte, queria que visse o cinismo ali. — Está acontecendo uma festa de comemoração na sua sala comunal neste exato momento. Por que não tenta se distrair e vai parabenizar seus irmãos?
— Não estou no clima para festas, Mal — o resmungo veio de forma seca, quase ríspida, mas a segunda parte foi um sussurro, quase baixo demais mesmo para mim. — Eu nem mesmo fui ao jogo...
— Você é tão fanática por Quadribol quanto seus irmãos, Gina, talvez até mais — desta vez deixei o sorriso desaparecer. — O que te manteve longe do campo na abertura do campeonato?
— Eu... fiquei ocupada. Perdi a hora.
E não adiantava perguntar com o quê. Ginevra já estava sendo incapaz de me olhar nos olhos neste ponto da conversa, os ombros baixos e a cabeça também, focada no prato remexido de fettuccine. Considerei partir sua mente ao meio bem naquele momento, tirar a força as informações que escondia, e então me lembrei de Fred. Ele não gostaria deste tipo de invasão em sua irmã. Controlei minhas vontades, afoguei meu monstro com o próprio veneno e me despedi. Não cheguei a perguntar se uma garota da Sonserina havia, de repente, demonstrado interesse nela e nem o que achava da situação. Tive, na verdade, pena de Astoria.
Gina estava um fantasma tão pálido da garota viva que havia conhecido nas férias que devia estar sendo um real esforço alcança-la, e tudo por um simples favor. Eu a agradeceria outra vez quando tivesse oportunidade.
Ao chegar na Masmorra da Sonserina, o time já havia se dispersado da concentração pós-jogo. Lembrava de ter visto boa parte almoçando no Salão Principal, mas não Draco. Malfoy não havia ido comer e também já não estava por ali, então não havia como buscar qualquer resposta – tanto para minhas perguntas, tanto para suas novas capacidades.
Passei o dia do sábado em meu dormitório. Adiantei, finalizei e revisei trabalhos e deveres, estimulando (por quase culpa) Daphne a fazer o mesmo. Em dado momento Sue Hopkins apareceu, as bochechas rosadas e um sorriso inconsciente, e logo mais, Parkinson e Bulstrode. Como não demoraria muito para os exames começarem, aceitei quando me pediram ajuda. Greengrass, Emily e Hopkins se debruçavam, concentradas e modificando seus pergaminhos enquanto Pansy fazia o mesmo, enquanto se esforçava ao máximo para fingir que era espontânea e não estava me ouvindo. Não a provoquei e deixei que se convencesse de que estava tendo sucesso – não sentia a menor necessidade de estourar sua fantasia.
O Salão Principal estava muito mais cheio na hora do jantar, agora que a mesa barulhenta dos leões estava novamente em total capacidade. A festa (e a comida) devia ter acabado em algum momento durante a tarde, pois estavam com bastante fome e ainda com energias chegando ao teto. O ânimo de celebração e o notável bom humor fez algumas caras que haviam conseguido se suavizar voltarem a se fechar na mesa da Sonserina, mas todos fizerem o melhor para fazerem seu melhor: ignorar a existência da Grifinória.
Foi isso que Draco fez. Outra vez limpo e arrumado, sem mais vestígios de lama ou chuva, havia voltado a ser um pequeno lorde com aquele cabelo ridículo penteado para trás com fio nenhum fora do lugar. Estava sentado entre Blásio (que sorriu quando me viu) e Theodore (que sorriu para Sue). Tive os olhos claros, prateados e brilhantes como estrelas, focados em mim por apenas um momento e então me sentei. Estrelas, não aço. Brilho, não metal frio. Considerei um avanço, mas não pensei no para onde, ou de qual lugar. Apenas enterrei a imagem dentro de mim, escondida e meio protegida. Salazar sabia que logo poderia precisar me lembrar dela outra vez.
Mais tarde, tomei cuidado para não tirar sequer meus coturnos no dormitório na hora de me trocar. Fiz bem, pois não queria ser arrastada para a enfermaria, ou perguntas, ou sermões por não dizer nada. E o tamanho do meu tornozelo (cerca de um punho fechado) e sua aparência roxa com veias saltadas não renderia nenhuma paz de espirito, nem para mim e nem para ninguém (estou me referindo a você, Greengrass).
Mas já era hora de dormir e eu havia passado o dia inteiro de castigo, penalizando meu tornozelo, então considerei minha detenção paga. Com um aceno de varinha, o ruído do osso voltando ao seu lugar se misturou a água enchendo a banheira. Nada mais torcido, mas ainda visivelmente maltratado, demorei de proposito para aproveitar o relaxamento muscular que a temperatura podia me oferecer e deu certo: quase uma hora depois, já estava na metade do tamanho.
Ao me deitar, como qualquer garota normal, contemplei a noite de sono tranquila que estava para ter. A chuva tinha mesmo continuado durante todo o dia, e provavelmente ainda duraria boa parte da noite, o que faziam as águas do Lago Negro se turvarem e as paredes de pedra fria das masmorras exalarem a temperatura hostil. Não que qualquer um a sentisse: além da grande lareira acesa, haviam cobertores de variadas grossuras e em cima de cada garota. A que sentia mais frio era Parkinson, que dormia com cinco grossos. Eu conseguia me sentir bastante confortável com apenas dois.
Cansada pelas poucas horas de sono depois de virar a noite treinando com Lagrum, aquecida e confortável, eu estava feliz com a ideia de até mesmo perder o café da manhã no dia seguinte. A noite poderia durar para sempre, eu queria que durasse naquele momento. Mas as coisas mudam e mudam com rapidez. Não precisei de muito para dormir, e precisei de ainda menos para perceber o que estava acontecendo.
Apesar do que seria considerado normal, nunca tive pesadelos. Não que meu monstro ou minha própria mente não me arrastassem, vez ou outra, para reviver aqueles anos. Sonhava com os olhos azuis. Mas não era um pesadelo, pois para isso eu precisaria sentir medo. E nunca senti medo de Greta. Nem uma vez. Então quando me via outra vez naquela sala escura atrás de seu escritório para onde adorava nos arrastar e o cheiro de sangue se misturava com o suor e excrementos, eu a enfrentava outra vez. De novo e outra vez até acordar. Quando o fazia cada cicatriz em meu corpo latejava e repuxava como se as feridas estivessem abertas. Mas vencia.
Então devem entender como fiquei confusa ao me ver parada em plena sala comunal, mesmo que diferente em alguns detalhes. Ou Greta, ou Lagrum ou o nada. Era os três cenários da minha inconsciência. O último podendo ser o vazio puro, ou a caixa sem fundo onde meu monstro me esperava com veneno pinando das presas. Algumas pessoas crianças histórias de uma vida inteira durante a noite, mas não eu. Havia um motivo para estar ali, e conseguia me alcançar do mundo físico.
Eu podia senti-la ao mesmo tempo em que sabia que estava longe, muito longe. Sua presença me perseguiu, liberto mais uma vez, deslizando pelas pedras do castelo. Aqui e lá, ele estava aqui. Eu sentia a pedra raspando em meus ossos, o caminho de fogo em minha marca, mas não havia como despertar, pois desapareceu. Dei alguns passos para dentro da sala, saindo da entrada dos dormitórios, me afastando mais e mais até a sensação não conseguir me tocar, então notei o garoto.
Estava sentado nas poltronas perto da lareira, o corpo virado de forma que eu conseguia apenas enxergar seu perfil: era alto pelo cumprimento de suas pernas dobradas, e os cabelos negros, escuros como tinta eram perfeitamente penteados – faziam ondas perfeitas sem um fio sequer fora do lugar. Seu nariz fino e reto compartilhava o rosto com maçãs altas, tão ressaltadas que talvez pudessem cortar a pele.
Sonhos nada mais eram que gravações. Lugares e pessoas já memorizados sendo postas em situações realísticas ou não. Eu estava em um ambiente familiar, mas nunca tinha visto aquele rapaz na vida. E, mesmo assim, havia alguma coisa nele... na postura segura e elegante, na pele pálida, no cabelo muito escuro e nas maças ressaltadas que me fez continuar andando. Por ainda ter sido criado por uma cobra, me aproximei devagar e em silêncio, mas o não-tão-estranho não fez qualquer movimento brusco. Ele sabia que eu estava ali, podia sentir, e mesmo assim permaneceu quieto, esperando que eu chegasse à sua frente.
— Devo pedir desculpas se há algo de diferente — sua voz me alcançou assim que parei. Mesmo ainda pertencendo a um adolescente, não havia dúvidas de que um dia perderia qualquer imaturidade. O garoto não devia ter mais de quinze ou dezesseis anos e já era dono de algo potente e firme, mas ainda suave. Como Lagrum arrastando seu corpo enorme pela floresta sem quebrar nenhuma folha. — Mas já faz muito tempo que não vejo a Masmorra. Alguma reclamação?
— Nada que valha a pena reparar — respondi devagar, buscando o rosto daquele estranho em algum lugar. Se era um sonho, eu tinha que me lembrar dele. Devia ser alguém que eu conheci, mesmo que brevemente..., mas eu me lembraria, em um instante, desses olhos escuros. Eu só havia visto este tom antes, sem qualquer sinal de íris mesmo com a lareira os refletindo, na frente do espelho.
— Meu nome é Tom Riddle — ele se apresentou em um sorriso. Tinha um sorriso bonito. Dentes bem retos e lábios finos, um maxilar forte e sobrancelhas escuras bem-feitas, ele era bonito. Mas havia algo em seus olhos, bem no fundo deles, algo muito menos convidativo do que toda a graça que exalava. — E o seu é?
— Eu acho que você sabe qual é, Tom Riddle — ronronei para seus olhos escuros, fixos, olhos de predador. — Porque isso não é um sonho e você não está aqui por coincidência.
Seu sorriso foi mais verdadeiro, então. Menos charmoso, mais brutal. Uma linha turva e rasgada que conseguia chegar aos olhos cruéis. Eles se acenderam e havia diversão genuína ali, curiosidade pura, como uma criança que encontra algo novo e iria cutucar e mexer até se cansar. Observei quando suas mãos se cruzaram em seu colo em um movimento que já havia visto várias vezes entre meus colegas. Riddle seguia cada norma de etiqueta a risca – sua postura reta, seu cabelo arrumado, suas roupas impecáveis. Ele com certeza fazia esforço para parecer alguém que veio de uma educação prestigiada, com berço de ouro.
Até demais. Grande parte das pessoas não olharia para além disso, cegadas pelos seus modos de lorde inglês, pela sua aparência de galã de cinema, pelo caimento certeiro de suas roupas no corpo esguio. Mas Lagrum havia me ensinado bem e eu sabia que a visão era o sentido menos digno de confiança. Estava no seu cheiro do sabonete padrão dos banheiros de Hogwarts, estava nas remendas quase invisíveis em seu uniforme da Sonserina que brilhava com o brasão de monitor, estava na magreza de seu corpo – algo enraizado da infância e que nenhuma boa alimentação durante o ano escolar poderia repor.
Tom não era nenhum lorde e também não era um garoto comum. Me parecia pobre, tanto quanto eu, com vestes de segunda mão e sem dinheiro o bastante para sequer trazer seus próprios produtos de higiene de casa, usando os do castelo. E mesmo assim lá estava ele, sentado em uma das poltronas da Masmorra, seguro e confiante como se fosse o rei da Sonserina. Por mim, ele poderia achar o que quisesse contanto que não o fizesse na minha cabeça.
— Ela me disse que você era inteligente, Mal — sua língua se enrolou em meu nome, pesada e mortal como uma cobra, os olhos escuros com um brilho perverso. — E eu não aguentei, tinha que descobrir o quanto. Você não me decepcionou.
— Você fala como se eu quisesse provar algo para você — arqueei uma sobrancelha para seu rosto. — Não há uma maneira educada de dizer que não dou a mínima.
— Sim, ela também contou sobre isso — seu sorriso de cobra se alargou, mostrando mais de seus dentes bonitos enquanto o rapaz se reclinava na poltrona, muito confortável no cenário criado dentro de mim. — Na verdade, contou bastante de você. Seu temperamento explosivo, sua inclinação para a violência, a forma que parece que pode ler as coisas nos outros... e eu fiquei cada vez mais curioso.
— Foi por isso que ocultou a mente dela? Para garantir que eu não lesse nada?
— Tantas perguntas e tão pouco tempo — sua voz doeu como se realmente estivesse triste com o relógio. — Não posso conversar agora, Mal, sinto muito. Mas logo estarei forte o suficiente e teremos nosso momento, eu lhe prometo. Eu só precisava lhe ver, precisava ter certeza... — então a tristeza foi embora de seu rosto e ele se levantou. Riddle era realmente alto, ao menos duas cabeças mais do que eu, e o sorriso chegou aos seus olhos quando seus lábios se abriram desta vez. — Você não me desapontou. Eu sabia que não iria.
— Por que isso é tão importante? — As palavras saíram baixas enquanto sentia meus ossos doerem, minha marca fazer um caminho de fogo pelo corpo. Quando suas mãos, pálidas e compridas, encostaram em meu rosto, foi quase... eu me lembrava deste toque. De mãos maiores, mas me lembrava.
— Você é quem é — e a crueldade de seus olhos despontou, a diversão sádica que estava ali a alguns minutos. E, ao mesmo tempo, confiança em mim. Riddle não tinha dúvidas sobre minha capacidade, não mais. Tinha orgulho nisso. — Vai descobrir.
Acordei com meu corpo doendo como poucas vezes na vida. Não era bem o corpo, era um caminho especifico, um que eu conhecia bem, que começava no meu coração e rodava pelo meu corpo, crescendo cada vez que eu o alimentava – voluntariamente ou não. Ardia tanto que me esqueci como se respirava e bem quando voltei a aprender, puxando grandes golfadas de ar para dentro dos meus pulmões e cambaleando em direção ao meu banheiro, a dor desceu pelos meus nervos, se infiltrando nos meus músculos e roendo meus ossos.
Não havia voz desta vez e enquanto abria a torneira para jogar água em mim – no meu rosto e debaixo da minha blusa, buscando algo que aliviasse a sensação de ser marcada à ferro – tudo que eu conseguia sentir eram as pedras antigas raspando contra seu peso imenso. Ele estava lá, estava caçando agora! Em silêncio como o predador que era, sem necessidade de alardear sua presença. Era ruim que o fizesse: cobras eram caçadoras silenciosas. Aguardavam protegidas pela camuflagem e atacavam das sombras, debaixo de seus pés, acima de sua cabeça. Rápido e certeiro, mortal.
Eu não havia acendido as luzes e feito pouquíssimo barulho, então quando disparei pelas escadas que subiam até a sala comunal ainda com minha pele quente e minha visão turva, nenhuma de minhas colegas havia se mexido. Não que eu tenha ficado muito tempo para olhar, mas reparei se havia alguém na sala – não havia. Já devia ser madrugada fechada, muito depois da meia-noite. Quem ele esperaria encontrar pelos corredores nesta hora? Filch, para fazer par com sua gata? Algum professor fazendo ronda, talvez um monitor? Eu duvidava que mesmo Dumbledore tivesse alguma defesa para a criatura, se esta aparecesse na sua frente sem mais nem menos.
No corredor frio das masmorras, apenas as tochas crepitavam com o fogo mágico. Lá fora, a chuva continuava açoitando a terra e me lembrei de outra noite como esta. Gelada e torrencial, neste mesmo corredor, com Marcus Flint me esperando no final dele. Mas Flint era apenas um garoto patético e doente que iria passar o resto da vida em dor e sofrimento pelo que tentou fazer comigo, pelo que fez a outras. Ele havia perdido no momento em que decidiu se levantar contra mim e fui em sua direção sabendo qual seria o final. Desta vez, o oponente no fim do corredor não era um adolescente perverso.
Era uma criatura assassina e milenar que, apesar de compreender, não me parecia disposta a me escutar. Durante toda vida atrai e fui guiada por cobras, mas duvidava que este réptil estivesse interessado em fazer qualquer uma de minhas vontades. Ainda mais se isso fosse atrapalhar seu jantar.
Meus pés não hesitaram ao deixar a lembrança de Marcus para trás e me jogar em direção a fonte do tremor no castelo que ninguém mais podia sentir. O frio da pedra do chão não era nada comparado ao gelo da lama da floresta e o ignorei enquanto subia as escadas para o primeiro andar, parando em frente ao Salão Principal. Parei e escutei, escondida nas sombras tanto quanto ele. Eu também havia aprendido a caçar, afinal, e aprendi bem o suficiente para deslizar pelos corredores e escadas, subindo os degraus em silêncio. Os quadros nas paredes não perceberem minha presença e considerei isso um bom sinal – os mais maiores bisbilhoteiros de Hogwarts.
Quando cheguei no quarto andar, todo o castelo pareceu mergulhar em um silêncio profundo. Súbito e pesado demais para ser natural, esse tipo de ausência absoluta de som só era escutado quando um predador estava caçando. Reconheci o corredor em que estava, a ala hospitalar, um arrepio quente subiu até minha nuca desde a base de minha coluna. Potter era o único ali, até onde sabia. Ele não era nascido-trouxa, mas era mestiço e com certeza um inimigo para o maníaco que estava fazendo tudo isso. Estava já na porta, prestes colocar a cabeça para dentro e checar se não havia nada ali, quando, quando o tremor veio de uma vez só.
Forte o bastante para que eu tivesse que agarrar as portas para elas não se baterem, corri pelo corredor assim que consegui estabiliza-las. O de passos nas escadas fez meu tornozelo recém curado reclamar pelo esforço. Quem estava ali? Só conseguia pensar em Percy Weasley com seu distintivo brilhante e óculos de tartaruga, e a possibilidade de algo lhe acontecer... o que Fred sentiria, Jorge, Gina e até mesmo Ronald... por mais obsessivo com suas conquistas escolares que fosse, o garoto ainda era irmão deles.
Mas quando cheguei na base das escadas, com todo o chão do castelo tremendo aos meus pés, não era Percy Weasley que estava ali. Nem mesmo a criatura. Fugiu, mas conseguiu alguma coisa, o barulho havia sido como de um saco de areia tombando. Os tremores se afastavam outra vez, recuando para as profundezas, enquanto minha pele queimava e meu coração disparava. Eu estava sozinha no corredor com uma nova vítima, tão dura quanto Madame Nor-r-ra tinha estado a algum tempo atrás. Me abaixei devagar ao lado do corpo congelado, pegando pelas pontas dos dedos o cacho de uva que carregava. Devia tê-lo deixado cair quando se agarrou a câmera que agora estava presa em frente ao seu rosto.
Era Colyn Creevey, agora reduzido a uma estatua em tamanho real dele mesmo. Eu conseguia ouvir o sangue correndo pelo meu corpo, até mesmo o coração ainda batendo dentro do primeiranista. Ele estava vivo. Vivo, mas petrificado. Persegui a criatura e mesmo assim não foi o bastante. Não fui o bastante. Não fazia ideia, também, da razão de ter recuado quando cheguei ao corredor, deixando sua presa para trás. Não que importasse agora.
Reconheci o segundo par de passos, mas não me mexi para me afastar do crime. Permaneci parada, a sensação de fracasso mordendo minha alma, o cacho de uvas segurado entre meus dedos enquanto observava a câmera de Creevey. Qual teria sido seu rosto? Que expressão fez ao perceber que estava sendo caçado? Sentiu medo? Talvez tenha se sentido sozinho, andando desprotegido pelo castelo. Talvez tenha desejado que alguém estivesse com ele, qualquer pessoa, qualquer um que ajudasse a afastar aquela sensação. Já estava com a câmera em posição ou tirar uma foto de seu caçador havia sido seu primeiro instinto? Ele não poderia responder. Não podia e era minha culpa.
Então quando Alvo Dumbledore parou alguns degraus acima e pousou seus olhos azuis claros em mim, vestido com uma longa camisola de lã dourada e uma touca para dormir combinando, não me mexi. Olhei para ele também, para o brilho ali, e deixei que enxergasse o que quisesse, que buscasse suas próprias respostas em meu rosto, em meus olhos. Não os protegi, mesmo que o tenha feito com minha mente – isso já era demais. Mas ele não chegou a isso, ou talvez tenha avaliado algo muito mais profundo do que minha consciência.
— Faça a gentileza de chamar a professora McGonagall, Mal. — Disse finalmente, a voz tão branda como sempre havia sido, mas os olhos faiscando de sua mente geniosa trabalhando por trás, enquanto seu rosto se abaixava Creevey. — Diga que um de seus alunos foi atacado.
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